The memories of Jade Hawkins
2 Capítulo 1: Sonhos não são para realizar, são para comer
Notas iniciais
Ouvi meu celular tocando Break do Three Days Grace, me despertando do sono de poucas horas. Levantei rapidamente meio grogue e corri até onde ele se encontrava, me desafiando mentalmente a desligá-lo antes do grito fino que prosseguiria depois do som da bateria. 10 segundos e... Desligado.
—Jade, você quer carona hoje?–perguntou meu irmão aparecendo na porta do meu quarto, arrumando a gravata cinza. Johnny com 22 anos já trabalha em uma advocacia.
—Sim–resmunguei indo em direção ao banheiro com a toalha nos ombros.
—Então incorpora o Flash. Vou sair em 20 minutos–Droga.
Tomei um banho rápido –talvez seja um recorde mundial– e vesti a primeira calça jeans que achei no varal, coloquei meu uniforme e calcei os All Star mais surrados que alguém possa ter visto. Me arrumei e corri para o Jeep Cherokee azul de Johnny.
—Fechou tudo?–ele pergunta ligando o rádio.
—Sim. Não precisa me buscar, vou sair mais tarde hoje–falo enquanto tento dar uma organizada nessa juba que chamo de cabelo.
—Okay. E as costas?–Johnny saiu da garagem de nossa casa e acelerou. Parou no sinal vermelho e olhou em minha direção, seu olhar era de preocupação. Meu irmão adotivo tinha o dom de perguntar coisas erradas nas horas mais inapropriadas.
—Ér...–tento fugir do assunto, mas seus olhos verdes ainda estavam cravados em mim. Uma buzina é soada atrás de nós e ele vira para frente percebendo que o sinal havia ficado verde, salva pelo semáfaro. O silêncio se instala entre nós, sendo preenchido pela voz do Kurt Cobain cantando Come As You Are, começo a bater meus dedos nos joelhos no ritmo da música e sussurro baixinho o refrão como distração.
Quando eu fui encontrada na porta dos Hawkins, eles não pensaram duas vezes em me adotar. Me acharam enrolada em uma manta e um colar com pingente de chave no pescoço –que uso até hoje como recordação dos meus pais biológicos–, mas o mais estranho foi quando perguntei porque eu tinha duas asas desenhadas nas costas e eles disseram que não havia nada, que eu era uma criança de imaginação fértil, um passarinho querendo voar. Nunca mais perguntei sobre isso, mas conforme fui crescendo, os desenhos foram aumentando e criando vida internamente, como se asas tentassem sair de minhas costas e eu sentia isso, com dores frequentemente.
Sandra e John Hawkins são ótimos pais, quando entrei para as suas vidas, eles já tinham Johnny com 5 anos. De uns anos pra cá eles começaram a viajar diariamente por conta do trabalho de jornalistas, deixando-nos em casa. Em uma dessas viagens, acabei contando sobre as asas para Johnny, para a minha surpresa ele não me chamou de louca, na verdade não disse nada, de vez em quando ele pergunta se as dores continuam como se entendesse. Mas esse é um assunto que não gosto tocar, como se fosse lembranças que quero esquecer, mesmo não conseguindo.
Kurt já estava cantando o final de Lithium, quando Johnny estacionou na frente da lanchonete onde trabalho. Dom Becker estava lotada, só com algumas mesas vazias, o dia vai ser cansativo pra caramba.
—Tchau, obrigada–digo saindo do carro ás pressas, nem ouvi Johnny se despedindo.
—Ei–chamou George, meu chefe que estava com uma cara nada amigável–Anda logo Jade, tem muito cliente para ser atendido.
—Bom dia, como você tá?–ironizei pra ele enquanto colocava o avental.
—Nada bem–ele disse e foi infernizar a vida de outra garçonete.
Peguei um bloco de notas e uma caneta, quando eu vi duas esferas douradas me analisando. Cabelo negro, olhos chamativos e uma expressão indecifrável, era como se eu já tivesse visto aquele olhar. Ele estava olhando para o cardápio a sua frente e quando eu desviava o olhar, sentia como se tivesse sendo observada.
—Posso ajudar?–disse criando coragem para olhá-lo diretamente.
—Um café e dois sonhos para viagem–sua voz era rouca e macia, mas havia algo sombrio no fundo.
—Já volto–dei uma olhada em volta e todas as mesas já tinham sido atendidas ou estavam sendo, nenhum cliente querendo algo.
Fui para a cozinha e levei o pedido, mas ninguém estava ali, deve ser por isso que estava tudo de pernas para o ar. Preparei o café e fui buscar os sonhos na estufa de vidro, assim que ultrapassei a porta que separava a cozinha da bancada, o café caiu em câmera lenta no chão... O líquido preto se misturou com o vermelho, o carpete estava ensopado. Estavam todos mortos, com poças de sangue em volta de seus corpos, exceto o cara de olhos dourados que agora estava com a camisa ensanguentada. Ele olhou para mim e apontou uma 9mm em minha direção.
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