The lost
5 Capítulo 04 — BatKisser
Notas iniciais
— Medicina! — Janelle exclamou indignada. — Como você quer cuidar das pessoas se tem vontade de beber o sangue delas?
— Ainda não bebi o seu sangue, Loira de Chuck. Ah, é, esqueci que você está morta — ironizei.
Eu era oficialmente caloura do curso de medicina na Universidade de Washington, no campus de Seattle. Num rompante, embarquei no plano maluco de Janellle de procurar por Jacob Black, e a ideia inicial era bater na porta dele. Durante o voo entre Denver e Seatle tive tempo suficiente para pensar que, tendo em conta minha desconhecida vida passada e seus perigos, isso poderia ser suicídio. Acabei seguindo meu plano inicial de entrar na faculdade com todos os protestos de Janelle sobre estarmos perdendo tempo. E ela não parava de fazer piada sobre minha condição e a escolha do curso.
— Mudando de assunto, você já pensou quando vamos procurar o cara lá?
Olhei pelo vidro embaçado da janela, um grupo de rapazes bebia na escadaria do prédio da frente, alguns deles também fumavam maconha. Fechei a velha cortina, o cheiro de mofo fazendo meu nariz arder. O apartamento era velho e mal ventilado, e o clima úmido e escuro não ajudava.
— Dentro de uma ou duas semanas, antes disso quero ir até Forks e fazer um reconhecimento. Até lá temos ao menos tempo de procurar um emprego, minhas economias não vão durar para sempre e eu quero sair desse lugar.
Ela caiu de costas na cama, suspirando de tédio. — Ah, tanta preocupação. Acho que deveriamos nos focar no objetivo, e eu já arrumei emprego para nós duas. Tenho bons contatos por aqui.
Rolei os olhos. — É, se esses contatos forem os mesmos que nos alugaram esse apartamento, não quero o emprego. Você já reparou na nossa vizinhança? Eu tenho a sensação que levarei um tiro a qualquer momento.
— Ah, tão dramática... as vezes me pergunto quem é a neta adotada. Você é igualzinha a Laura!
Abri a boca para responder, mas me contive. Não era o melhor momento para discutir com Janelle, tinha que tentar manter a paz a todo o custo. Além do mais, do jeito dela, estava me ajudando. Eu tinha que ser grata por isso.
— Vou tomar um banho.
— Não use toda a água quente, eu também preciso tomar o meu — ela gritou antes que eu fechasse a porta do banheiro, ou o que restava dela.
Sem dúvida, aquilo era uma espelunca. A banheira velha era descascada nas beiradas, a água quente vinha de uma caldeira antiga que aquecia uma quantidade limitada de água por vez, sem contar com as paredes mofadas e com tantas camadas de tinta que parecia massa folhada.
Pensei no que Laura diria se nos visse ali, sozinhas, duas mulheres em um prédio onde funcionava todo o tipo de negócios obscuros e que segundo o conhecido de Janelle era o mais seguro do bairro — as razões ele não disse, e eu sinceramente preferia não conhecer. Havia um lado bom em não estar conversando com Laura, não precisaria mentir dizendo que nossos vizinhos eram famílias de classe média com empregos dignos e formais.
Se saíssemos ilesas daquele lugar, eu sem passagem pela polícia e Janelle sem nenhum osso quebrado, acho que era capaz e encarar Jacob Black e exigir respostas para as minhas perguntas.
— Ness, sai daí caramba! Quero tomar o meu — Janelle esbravejou carinhosamente esmurrando a porta.
— Já estou indo.
***
— Uma casa de shows no subúrbio, porque eu não esperava melhor? — ironizei.
— Não é o tipo de lugar onde costumo tocar mas... é o que temos para hoje, e você não pode fazer mais nada a não ser me seguir. Vamos! — ela chamou, me puxando para passarmos pelos seguranças mal encarados que pareciam previamente avisados da nossa visita.
O ambiente artificialmente aquecido cheirava a bebida e cigarro, poluídos pelo odor fétido dos perfumes baratos misturados ao suor das dançarinas. No palco, mulheres quase nuas se exibiam para um bando de pervertidos que gritavam todo o tipo de nojeiras de suas mesas, alguns já entorpecidos pelo álcool. O palco era o único lugar iluminado, me perguntei como as garçonetes conseguiam andar entre as mesas sem tropeçar.
Janelle me guiou pela mão até ao bar. Nos sentamos nos tamboretes, um velho estranho me olhou de cima a baixo quando passou por mim. Um olhar nojento.
— Que tipo de trabalho você quer fazer aqui?
— Ela ergueu o senho, zombando. — Eu estava pensando em ser garçonete, mas como você vê... o contingente de funcionários é bem variado por aqui. Se quiser tentar lá — apontou para o palco — esteja à vontade.
Olhei-a enfurecida e ela gargalhou. Estava começando a me arrepender de ter saído de Timnath.
O barman notou nossa presença invulgar e veio até nós. Era jovem, não aparentava mais de 25 anos, alto e todo tatuado... era o mais simpático daquele lugar.
— Posso ajudar as senhoritas? — perguntou sorrindo.
— Roman Baker está?
Ele franziu a testa e nos olhou atento.
— Vocês são as novas garçonetes? Não parecem o tipo de garota que trabalha num lugar desses.
— E não somos — falei.
Janelle me deu uma cotovelada (que doeu mais nela que em mim, na verdade).
— Sim. Acho que basta fazermos bem nosso trabalho, não?
O barman ergueu o senho, um pouco desconcertado com a resposta crespa. —Eer... sim, vou chamar o patrão.
Cinco minutos depois, ele voltou para trás do balcão. — Ele está à vossa espera no escritório, por favor, me acompanhem.
Demos a volta no balcão e passamos uma porta escura, o isolamento acústico abafou o som assim que ele a fechou — para meu alívio. O corredor era longo, estreito e as paredes pretas davam uma sensação claustrofóbica. Meu corpo ficou totalmente em alerta, como sempre acontecia quando não me sentia segura, mesmo que tivesse a certeza de ser capaz de matar todas aquelas pessoas se quisesse.
O barman bateu na última porta e a abriu.
— Obrigada — Janelle disse, mais educada que o costume.
— Obrigada — repeti.
O rapaz apenas assentiu e fechou a porta quando passamos.
Atrás de uma mesa de madeira coberta de papéis, estava um homem de meia idade, cabelos negros e pele oliva. Ele sorriu e fez sinal para que nos sentássemos nas cadeiras. O jeito dele me olhar me perturbou.
— Boa noite. Então, vocês são as meninas que o Paul diz querer trabalhar aqui...
Janelle assentiu. — Ele nos disse que estavam precisando de garçonetes... para servirem as mesas...
De algum modo, a especificação dela não me pareceu redundante. Roman riu.
— É, sim. Só preciso que saibam carregar algumas bandejas e copos, e que tratem bem os clientes. Podem fazer isso ? — objetivou.
— Claro que sim. Inclusive, eu trabalho na noite a algum tempo, mas como cantora. Estou acostumada ao ambiente.
Ele maneou a cabeça e me analisou. — E ela?
Janelle sorriu. — Ela já serviu numa lanchonete da nossa cidade — mentiu —, acredito que sabe o que fazer. Não é, Wanessa? — me acotovelou.
— Sim, sim...
— Começam amanhã. Uma semana de experiência, o piso é um salário mínimo mas as gorjetas são vossas.
***
— Um salário mínimo! Você quer que eu seja babá de velhos beberrões por um salário mínimo. Viu o tipo de gente que frequenta aquele lugar?
Ela tirou o travesseiro de cima da cabeça e me olhou. — Tá! Eu já ouvi tudo isso, está repetindo desde que saímos de lá. Não é o melhor emprego do mundo, ok? Mas é o que achamos por enquanto. É perto de casa, não bate com o horário da sua faculdade e as gorjetas são nossas.
— Eu não vou fazer nada para ganhar gorjetas, não sei você — cruzei os braços. — Amanhã mesmo vou procurar algo melhor.
— Tá, agora apague a luz e me deixe dormir.
Passei a noite em claro, pensando no futuro. O que era o futuro para mim? Minha vida era um barco sem rumo, naquele momento guiado pela louca da minha irmã. Chegaria a algum lugar? E se Jacob Black não tivesse nada para me dizer? Ou talvez, se era tão ruim como Laura dizia eu não devesse saber. Uma parte de mim queria voltar para Timnach, me sentir segura no meio do gado, olhar as nuvens deitada no meio do pasto como fazia quando era criança. A outra queria descobrir tudo, prensar o velho Jacob — que provavelmente tinha a idade para ser meu pai ou avô — na parede e arrancar-lhe todos os segredos. Eu me imaginava fazendo isso, se ele fosse humano. Mas e depois? O que eu iria fazer com “a verdade”? Não sabia. Só ansiava conhece-la, acho que esse é o instinto de todo ser humano.
— Como foi? Achou “alguma coisa melhor”? — Janelle perguntou quando abri a porta.
Era duro ter que admitir que iria ter que trabalhar naquele lugar.
— Não. Ainda não.
Ela pousou o prato de miojo sobre a mesa e rio.
— Qual é a graça?
— Você precisava ver sua cara, tendo que admitir que estava errada.
Rolei os olhos, era criancice demais para uma pessoa só. — Vou tomar meu banho.
Encontrar emprego não era uma tarefa assim tão fácil numa cidade como Seattle. O país ainda estava passando por um momento de crise, havia mais demissões que contratações e teoricamente outras pessoas tinham muito mais chances de conseguir emprego que alguém como eu — meu currículo estava limpo, embora eu conseguisse fazer qualquer coisa melhor que um humano.
Ás nove estávamos entrando na Batkisser. Ainda não havia nenhum cliente, as dançarinas só começavam as apresentações à meia noite e era só a partir daí que um número significativo de clientes apareciam.
Uma mulher de vestido justo e saltos muito altos veio até nós. Como todos naquele lugar, ela também cheirava a cigarro e bebida.
— Vocês são as meninas novas? — perguntou, nos olhando de cima a baixo.
Nossas roupas e o nosso jeito contrastavam com aquele lugar, ninguém acreditava que agora éramos funcionárias. Eu gostava disso, nunca na vida ira querer ser identificada como garçonete dali.
— Somos — respondi.
— Sigam-se — disse, já virando as costas e andando com uma destreza impressionante sobre aqueles saltos.
— Você é...? — Janelle perguntou.
A mulher virou para trás e sorriu, o batom vermelho vivo contrastando com os dentes branquíssimos. — Gerente. A senhora gerente — ela corrigiu. — Meu nome é Carolyne, sou a chefe de vocês quando o Roman não está.
Ela nos levou pelo mesmo corredor escuro que tínhamos percorrido na noite anterior, dessa vez entramos na primeira porta. O cheiro deixou meu corpo alerta novamente, bebida, cigarro, perfumes baratos e um outro odor que eu não conseguia distinguir.
Era o cômodo mais iluminado do lugar, onde todas as meninas se vestiam e maquiavam. Algumas mulheres mexiam em seus armários, elas também estavam chegando para trabalhar naquele momento.
Carolyne tirou duas chaves numeradas de dentro do sutiã e abriu dois dos armários, tirou deles duas sacolas brancas e jogou uma para mim e outra para Janelle.
— Os vossos uniformes, talvez precisem de alguns ajustes, temos agulha e linha naquela mesinha — apontou —, dá para quebrar o galho hoje. Peçam um batom a uma das meninas. Camile, vem aqui.
Uma das meninas apontou o rosto de trás da porta aberta de seu armário. Os cabelos platinados e o batom vermelho gritavam. Ela fechou o seu armário e veio até nós.
— Esta é Camile, perguntem tudo a ela. Boa noite — disse, e virou as costas, fechando a porta antes que pudéssemos ter algum tipo de reação.
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