The last game

5 O poder dos anciões


Bahia

O sol estava prestes a se por acima do amontoado de casas que formavam aquela favela um tanto perigosa e com moradores pra lá de curiosos.

Beny estava muito feliz por ter concluído o ensino médio e para ele agora o que mais importa é entrar para uma faculdade e começar a trabalhar.

Em casa deitado na sua cama de cima da beliche, ficou pensando no que significou aquela voz que gritava em sua cabeça a palavra ESPERANÇA repetidas vezes, não entendeu muito disso, mas tem certeza que tinha haver com o estranho sonho que teve na madrugada de dois dias atrás.

Cansado de pensar nessas coisas foi ao mercado a pedido da avó para comprar pães.

Beny morava na entrada de uma favela onde constantemente pessoas morriam, vitimas de balas perdidas, por dividas com traficantes ou pelo simples motivo de estarem no lugar errado na hora errada. Nos finais de semana eram mais comuns acontecer coisas do tipo, já que são quando acontecem festas, serestas ou bailes fanks, banhados a muitas drogas e bebidas.

No caminho do mercado Beny pôde sentir o desprezo que tinha por morar em lugar como aquele, a vergonha que sentia por ter que presenciar a vida dos seus vizinhos que preferem se habituar ao cotidiano nojento e perigoso do que mudar de vida, para Beny eles até gostavam dessa vida.

Desde que passou a morar naquele buraco, como preferia chamar aquela rua, não firmou amizade com ninguém, não queria ter vínculos com pessoas daquele tipo, talvez por isso o achem estranho.

Chegando ao mercado, viu que a fila para pegar o pão estava enorme, mas não tinha escolha, tinha que esperar já que o pão vendido no outro mercado é horrível, parece até pedra. Enquanto esperava na fila, ficou admirando a tatuagem que estava em sua mão, um símbolo estranho parecendo ser uma letra grega ou élfica, não sabia distinguir o que era aquilo, mas sabia que gostava de tê-la consigo.

Sua pele pálida começou a esfriar bruscamente, não sabia o que era, mas com certeza não podia ser ar-condicionado já que no mercado não tinha. Começou a ficar desconfortável e nervoso, e foi nesse momento que sentiu um estranho formigamento se apossar de sua mão que estava com o símbolo tatuado, massageando-a para tentar diminuir a câimbra que sentia notou a intensidade aumentar. “Mas que droga é isso?”

De repente o formigamento parou e antes que se sentisse aliviado sua mão entrou em chamas de uma cor pálida, as pessoas que estavam ali se assustaram e se afastaram dele abismados.

Apesar de sua mão direita estar em chamas, não sentia dor, nem desconforto aparente, apenas o constrangimento das pessoas os encararem.

Antes que ficasse com a pele parda rosada saiu correndo do mercado se esbarrando nas pessoas que se afastavam dele temerosos. Quando se encontrou na rua notou que as pessoas o seguiam curiosas e a cada instante mais gente se aglomerava em sua volta.

Neste momento inesperado, alguém começou a gritar na multidão, era uma voz feminina, tentando ver de onde vinha o grito sentiu as chamas na sua mão se cessar e do aglomerado de pessoas que o observavam viu um homem caminhar em sua direção, sua mão direita também tinha acabado de se apagar, mas antes disso Beny pôde sentir e ouvir na mente que precisava mata-lo. “Dois anciões se encontram, combate formado, que vença o melhor.”

—Você, não se aproxime de mim. —disse Beny alto e claro.

—Como se isso fosse me impedir. —falou o homem com sua voz grave e cheia de rancor.

Antes de qualquer coisa, o céu cheio da noite que se anunciava derramou lágrimas sobre a terra.

—O que acha que foi aquela chuva de fogo e sangue há dois dias? —Falou o homem alto e com aparência de ter seus 40 anos.

—O fim do mundo é claro. —disse Beny se afastando a cada passo que o homem dava em sua direção.

—Mas antes você deve ter sentido, não é?

—Sim, senti a sensação de que alguém morrerá. —falou Beny se lembrando daquela manhã de dois dias atrás.

Enquanto conversavam debaixo dos fracos pingos de chuva que desabava sobre eles, ambos pensavam em como matariam seu oponente de poder misterioso.

—Porque não acabamos logo com isso. —disse o homem.

—É porque não... Mas não sei com quem lutarei. —disse Beny.

—Carlos e acredito que o ÓDIO me persegue. —disse o homem.

—Beny a ESPERANÇA.

As pessoas ali presentes não imaginavam o que estava acontecendo.

O homem que se apresentou como Carlos arrumou os punhos e convidou o jovem rapaz para uma luta, que de inicio estava temeroso, mas não podia recusar a oferta.

O ódio e a Esperança estavam prestes a lutar.

Uma coisa que Carlos não sabia é que Beny estava mais preparado do que ele podia esperar, desde que o Amor Morrerá, ele veio tentado decifrar os últimos acontecimentos e descobriu que cada ancião possui uma espécie de poder, e ele já descobrirá como usar o seu.

Indo em direção de seu oponente Carlos tentou acerta-lo com socos, mas não acertava nenhum, era como se seus treinos de boxe não fossem úteis. Indo além tentou golpeá-lo com alguns golpes de capoeira, mas certamente percebeu que o jovem Beny era muito bom com seus reflexos rápidos e hábeis.

O ódio do representante do ÓDIO só crescia cada vez mais.

—Chega, você não para quieto. —gritou Carlos.

—Não sei você, mas não estou nem um pouco a fim de morrer. —falou o representante da ESPERANÇA.

—Mesmo. —disse Carlos retirando de trás da causa uma faca de cozinha.

—Isso não é justo, não estou armado. —disse Beny com deboche.

Avançando para perfurar seu oponente irritante, Carlos demonstrou ótima habilidade com a arma branca, com golpes diretos e certeiros tentava acertar seu oponente, mas como sempre ele se esquivava lindamente.

Carlos já estava repleto de ÓDIO.

Com um misto de impaciência e intolerância Carlos estava prestes a jogar a faca em Beny, mas para seu azar a lamina desprendeu-se do cabo que a segurava e caiu em seu pé cortando-o profundamente. Seu grito foi inevitável.

—Ops. —sussurrou Beny.

—Foi você?

—May be. —falou Beny em inglês.

—Como você...

—Eu explico... Tenho a sorte de ter a esperança de que as coisas aconteçam para me salvar de enrascadas, como acha que sobrevive até hoje nesse maldito buraco. —Esbravejou Beny.

—Então esse é seu poder?!

—Acho que sim. —disse Beny olhando para os fios dos postes que tinha ali.

Foi quando os fios de energia que iam de poste para poste se partiram e começaram a flutuar no ar ameaçando eletrocutar Carlos, mas uma consequência disso era que não só ele morreria, mas também todas aquelas pessoas que estavam ali.

Sem esperar que o jovem o matasse Carlos se encheu de todo o ódio que tinha e foi quando descobriu qual era seu poder, suas veias começaram a inchar, sua pele morena começou a ficar elástica, seus olhos se encheram de vermelhidão, e foi quando notou e sentiu seus membros crescerem.

Começou por seus pés, que aumentaram o quíntuplo do tamanho original, suas pernas incharam e foi seguindo pelo tronco, seus braços engrossaram tanto que pareciam com dois postes, seu pescoço ficou repleto de veias amostras e por fim sua cabeça parecia com a de um louco raivoso. Ele agora tinha quase quatro metros de altura.

Beny sentiu medo nesse momento.

—E agora rapaz, acha que pode me vencer. —sua voz estava estrondosa e cheia de ódio.

—Claro que não. —falou Beny engolindo em seco.

O mostro que havia se tornado Carlos começou a correr atrás de Beny que por sua vez imaginou os fios de energia o amarrar por inteiro e assim aconteceu. Esse era o poder do Beny criar situações esperançosas.

Sendo eletrocutado pelos fios cheio de cargas, o mostro parecia não sentir dor alguma.

—Bastardo filho da puta. —berrou o mostro.

—Realmente minha mãe não é uma moça. —disse Beny imaginado os postes caindo na cabeça da criatura, e assim foi feito.

O primeiro poste atingiu a cabeça de Carlos que mostrou desconforto com a dor, mas prevendo que aconteceria de novo agarrou o segundo poste que estava próximo e o ergueu de onde estava enraizado jogando-o na direção de seu oponente que com uma cambalhota rápida se livrou do golpe que o mataria.

—Beny. —chamou uma voz masculina não muito distante.

Olhando em volta Beny viu seu amigo Rick o chamar escondido atrás de um carro, aproveitando enquanto o mostro do Carlos estava ocupado tentando se soltar dos fios foi até o amigo.

—O que está fazendo aqui? —perguntou Beny.

—Olha, também sou um ancião. —disse seu amigo levantando a mão revelando um símbolo.

“Três anciões reunidos, combate triplo formado, que vença o melhor.”

Escutou os três anciões ali presentes.

—Não, não pode ser, não posso te matar. —disse Beny.

—Não precisamos nos matar, mas podemos nos unir para matar aquele mostro ali. —disse Rick apontando para Carlos que já se livrara dos fios e estava erguendo um carro para jogar nos dois oponentes.

—Corre. —gritou Beny para Rick.

Os dois por segundos de diferença quase foram esmagados pelo carro, mas por sorte se livraram da morte.

Prestes a usar mais uma vez seu poder Beny se viu impedido por Rick que disse que iria usar o seu. Se prostrando na frente da criatura horrenda Rick sorriu maliciosamente e fez cair do céu uma grande lança prateada de quase dois metros de comprimento, sua ponta estava molhada com algo esverdeado e gosmento.

—Matarei dois anciões com uma tacada só. —berrou Carlos.

—Acho que não, seu mostro—falava Rick com coragem—Beny, faça algo que o impeça de se mexer por pelo menos um minuto.

Atendendo ao pedido do amigo, Beny imaginou uma cratera se abrindo exatamente onde Carlos se encontrava o que infelizmente levou algumas dezenas de pessoas para a morte. Caindo no buraco, Carlos se viu encurralado e aprisionado. Beny dessa vez imaginou a cratera se afunilando um pouco para prender o mostro e o impedir de usar os enormes braços, e assim foi feito.

—Me soltem desgraçados. —gritava Carlos agoniado.

—Está é a lança da TRAIÇÃO e na sua ponta está o veneno da morte que com apenas três golpes o levara a escuridão instantaneamente. —disse Rick firmemente.

Sem nem mais um segundo esperar Rick desferiu o primeiro golpe no rosto da criatura, o segundo na nuca e o terceiro e derradeiro no peito perfurando o coração do ÓDIO lhe ceifando a vida.

O ÓDIO morrerá.

Beny se sentiu feliz pela ajuda do amigo e abraçando-o por terem trabalhado juntos viu no amigo a verdadeira lealdade. Infelizmente estava enganado.

Ainda abraçados Beny sentiu algo lhe perfurar as costas e se afastando do amigo com a dor que sentiu, observou o sorriso de malícia na cara de Rick e em sua mão direita estava uma pequena faca.

—O que você fez?

—Ué, te matando lógico. —disse Rick com certa loucura.

—Eu sou a TRAIÇÃO, e por ser isto um jogo valioso, não posso me dar o luxo de perder.

—Pensei que éramos amigos. —disse Beny com a dor lhe fazendo ficar fraco.

—Bom, ainda somos, mas como estamos concorrendo devemos levar isso mais a serio, não acha?

—Estou me sentindo fraco, o que fez comigo?

—Essa é a adaga que gosto de chamar de BOA NOITE BABACA, seu veneno é um sonífero que te deixa tão exausto que você fica imóvel por 24 horas.

Antes que Beny perdesse a consciência imaginou traficantes trocando tiros na rua e que uma bala atingisse a cabeça de Rick e outra seu coração, e assim foi feito.

Nesse momento ouviram-se tiros pela rua, assustado Rick correu sem pensar por onde ia, para seu azar deu de cara no fogo cruzado onde traficantes e policiais trocavam tiros, se escondendo atrás de um muro que tinha li ficou abaixado e temeroso. Ouvindo os tiros que não se cessavam nunca, sentiu mãos raivosas o agarrar por trás, era um traficante que o pegou para fazer de escudo humano. Saindo de trás do muro como proteção para o traficante sentiu a morte quando um policial atirou em sua cabeça e em seguida em seu peito que matou ele e em seguida o traficante.

A TRAIÇÃO morrerá.

Beny representante da esperança estava já adormecendo quando por fim imaginou uma ambulância que foi chamada pelos policiais o atender e o levarem rapidamente para o hospital, assim o salvando da morte. E assim foi feito.

Com a morte de dois anciões uma grande desgraça atingiu os mares que cercam a terra, tornou-se em sangue uma terça parte do oceano pacifico extinguindo as criaturas marinhas e as naus.

Três a menos agora restam 21.