The curse among us
3 Allies
Notas iniciais
— Cassandra — digo, instantes depois de eliminarmos todos os infectados da área e nos assegurarmos disso. Minha voz soa fraca e totalmente ofegante. Ela se vira para mim e leva uma mecha suada de cabelo para trás com uma mão. — Vocês têm alimentos sobrando? Estou faminta há dias...
— Como você é direta — rebate Cassandra, rindo amargamente. — Enfim, sobrando eu não tenho. Ninguém tem, afinal. Porém, como nos acudiu em combate, posso te dar uma dessas sopas enlatadas que furtei na quarentena de Boston.
Quarentena de Boston!
— Obrigada. Hum... vocês vieram da quarentena? — falo, praticamente refletindo em voz alta. Ela me entrega a latinha de sopa e franze a testa. — Por que diabos vocês saíram de lá?
— Nós não saímos da quarentena — Blaine diz algo pela primeira vez. Sua voz é fundamentada, veemente. Um pouco rouca, possivelmente pela exposição ao frio. Estamos enfrentando um outono gelado há um mês. Mal tenho coragem de pensar no inverno — Não se sai de uma quarentena, garota, se foge. Não faz ideia do que passamos para chegar até aqui.
— Minha pergunta ainda não foi respondida, Blaine — retruco. — Além disso, acho que faço uma ideia do que passaram sim.
Achei muito egoísmo da parte de Blaine se vitimizar desta maneira. É claro que faço ideia do que passaram. Procuraram por alguma brecha na vigilância, atravessaram a cidade furtivamente e chegaram aqui. Devem ter entrado em confronto com militares ou infectados. Eu passei por tudo isso e muito mais. Eles não sabem pelo que passei naquela estação, me separando de meu pai e desde então sozinha e faminta em uma floresta. Sozinha. Isso já não basta?
Na minha opinião, a desordem vence de lavada a ordem nos Estados Unidos pós-infecção, ainda mais com a corrupção militar que estamos afrontando. O governo vem nos forçando a passar nossas vidas miseráveis em um lote de quarentena. Proporciona o maravilhoso toque de recolher — rebatido com brutalidade —, a adorável checagem com uma pequena máquina que lê sinais de infecção — rebatido com brutalidade — e por aí vai.
— Espero que possamos confiar mesmo em você, Lily — Cassandra diz baixinho. Eu concordo com a cabeça, um pouco confusa com a frase. — Nós saímos de lá porque estamos indo encontrar os Vaga-Lumes. Eles proporcionam todo o conforto e liberdade que o governo se sente indisposto de nos adequar.
— Eu sei bem quem eles são, está bem? — respondo, ríspida. — Meu pai fez parte dos Vaga-lumes por um tempo, mas os seus princípios não são tão adoráveis quanto espalham pela "mídia".
Estão procurando uma cura? Sim. O governo não se presta para fazer isso? Sim. Mas, em controvérsia, imagens de liderança nunca passam como confiáveis diante dos meus olhos. Tanto o governo — abominado por mim, é claro, principalmente com seus princípios deploráveis de perseguição e omissão — quanto os Vaga-lumes — pessoas que também detestam os princípios do governo, mas devolvem com brutalidade, como o terrorismo — estão errados.
E como meu pai diz, brutalidade apenas acende a chama de uma mais forte brutalidade.
— É o claustrofóbico cubículo que nos é proporcionado na quarentena ou a liberdade dos Vaga-lumes — fala Cassandra. — Acho que prefiro liberdade com princípios chulos a ficar mais um dia nesta selvageria.
Mas o que tem de tão ruim na quarentena de Boston? Ouvi dizer que era a mais civilizada do país.
— É... tá bom — concluo, sorrindo tão falsa e cansadamente que até o pequeno Will percebe. — Obrigada pela sopa. Boa sorte na jornada.
— Não vá até a quarentena, Lily — Will abandona as costas de Blaine e segura o meu braço no momento em que giro os calcanhares para caminhar até Boston. Sinto um aperto no coração assim que os pequeninos e gelados dedos daquele garotinho sereno entram em contato com a minha pele, mais fria ainda. — Fique conosco, por favor.
Olho para Will de repente e não consigo discernir mais nada além de doçura e sinceridade. Ele está pedindo para que eu fique e, quando uma criança pede alguma coisa estranha, é bom confiar em cada uma das puras palavras. Altero olhares entre Cassandra e Blaine. Cassandra parece concordar, já Blaine tem alguma coisa ruim para proferir, sinto o pesar em sua expressão.
— Não sei, Will — digo o mais alto que posso, para que Blaine escute. Ele me fuzila com os seus intensos olhos verdes. — Nem todos parecem concordar com isso.
— E o que importa? Temos comida e podemos te proteger — Will ri. Sua risada é calma e soturna, mas sincera. Momentos depois, ele abaixa o tom de voz para que apenas eu escute — Além disso, logo Blaine se acostuma com você, ele é bem chato de vez em quando.
— Você tem quantos anos? — pergunto, paralisada.
— Oito.
— Tem certeza?
Ele assente com a cabeça, ri outra vez e me abraça. Esta é a primeira vez que sou abraçada desde que a infecção estourou. Uma sensação que mistura alívio e tristeza toma conta do meu ser enquanto aqueles bracinhos magricelas envolvem a minha cintura. Cassandra fica um pouco estupefata e Blaine mais ainda. Quando o garotinho me solta, volta para as costas do irmão e um silêncio dura cinco segundos. Depois, começamos a caminhar.
Encontramos civilização depois de mais ou menos oito horas. Cassandra parece ter tanto senso de direção quanto meu pai — talvez até mais. A cidade semelha ser abandonada, embora Blaine tenha encontrado uma armadilha de bombas ativa. Blaine tem grande habilidade com explosivos, até porque com poucos materiais conseguiu fazer um coquetel Molotov* mais do que eficiente. Eliminou três infectados com um só deles. Will é muito esperto para a sua idade, o que foi comprovado no momento em que tivemos a nossa primeira conversa.
Encontrei pilhas em várias gavetas, mas foram poucas as que tinham carga ou que serviam para o meu relógio. No fim da empreitada, deparei com pilhas que convinham perfeitamente. Além de tudo, agora tenho esparadrapos em bom estado — na medida do possível, pois a casa mais limpa que chegamos a entrar tinha mofo por todos os lados. Por fim, mais quatro flechas. Encontrar armamento, ainda mais em uma boa quantidade, é uma prosperidade.
Assim que notamos que está escurecendo, decidimos enquadrar um acampamento em um prédio que antigamente fora um cartório. É um lugar grande e aberto, cheio de mesas tombadas e cacos de vidro originados de janelas e vasos de flores já murchas. Suas paredes são infestadas de vinhas e mofo. Já me habituei com o cheiro de mofo, o que não é um motivo a se ostentar... todos já se acostumaram.
Acendemos uma fogueira no piso para nos esquentar e, enquanto Blaine e Will dormem com suas mochilas como travesseiros, Cassandra e eu esquentamos uma das sopas enlatadas. Depois disso, ela se aproxima de mim para conversar. Automaticamente eu sorrio, mas não sei se é sincero.
— Will não costuma abraçar as pessoas, sabe — fala, quase tão baixo quanto um sussurro. — Ele gostou muito de você.
Não sei como responder.
— É... — respondo, no mesmo volume, saboreando a sopa de legumes. O gosto não é aquelas coisas, mas quando se está com fome extrema não dá para reclamar de nada. No sentido literal da palavra. — Acho que sim.
— Quem de nós fica de vigília primeiro? — pergunta Cassandra. Seus olhos a entregam cansaço, portanto não é difícil para eu tomar essa decisão. Em um suspiro, sussurro baixinho para que eu ocupe o cargo.
Vamos, Lily, só não durma.
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