The beginner teenager
8 Capítulo 8 - Eva Michaels Brown.
Notas iniciais
Aquela havia sido uma noite sem sono para mim. Eu apenas conseguia rolar na cama e balbuciar algumas palavras sobre meu descontentamento comigo mesmo. Eu apenas queria chorar, mas meu estoque de lágrimas já havia acabado. Sentia um peso enorme nas minhas costas e uma vontade imensa de continuar ali, nas minhas cobertas fofas e macias, sem contato com ninguém.
Até que uma ideia me surgiu lá pelas quatro e meia da manhã. Levantei-me rápido, mas em silêncio, indo direto me vestir. Não demorei muito para apanhar O leão, a feiticeira e o guarda-roupa –uma edição meio velha que meu pai ganhou quando tinha a minha idade- da minha bela e impecável estante de livros e correr para fora do meu quarto. Aquele dia seria, com certeza, muito bom e eu faria de tudo para que fosse.
Com toda a cautela, desci até a cozinha e concentrei-me “certo Dominic Oliver você tem que por em pratica agora todas as suas habilidades cozinheiristicas”. Peguei ovos, leite, farinha e fermento. Minha primeira experiência seriam panquecas e eu tinha que ter maestria o suficiente para ordenas meus movimentos para fazê-las. Eu era magro e minhas mãos eram tremulas demais, eu realmente precisava ter o dobro de calma.
Bati todos os ingredientes e liguei uma das bocas do fogão. Não ligue o fogão Dominic, não brinque com fogo, não chegue perto do fogão Dominic, é perigoso, você pode se queimar. É claro que meus pais falavam esse tipo de coisa quando eu era menor, mas realmente não tinha conhecimento se isso ainda valia para mim nos dias de hoje. O fogo era azul e lindo, como pequenas chamas inofensivas, eu olhava aquilo como um brinquedo, mas tinha que me concentrar.
Misturei tudo, pus em uma frigideira e fiz. Não foi tão difícil, afinal, já tinha visto mamãe fazer esse tipo de coisa várias e várias vezes.
Peguei morangos e chantilly na geladeira, organizei as panquecas perfeitamente com os outros dois ingredientes e de certa forma ficou algo lindo. Seria um milagre? Eu teria feito algo certo pela primeira vez na vida?! Incomum, mas ok. Aproveitei e servi dois copos de leite, limpei a pia e o chão da cozinha sem hesitar, queria que o começo de dia fosse bom para papai e mamãe também.
Com meu querido livro em baixo do braço deixei minha casa, indo direto para a rua. Com muito medo, mas não parei de andar um segundo. Queria visitar um parque que papai costumava me levar quando menor, queria seguir a trilha e achar um lugar perfeito para sentar e ler. Talvez um lugar calmo e apenas com o som do vendo fosse melhor para eu retomar minhas leituras e estudos, quando eu chegasse em casa, talvez fizesse um relatório de leitura, ou uma ficha e mostraria ao senhor Frankie Oliver. Ultrapassei contadas quatro esquinas da cidade de Hartford, chegando enfim ao parque.
Aquele lugar parecia com uma pintura em tons de verde perfeitos. Estava silencioso e vazio – talvez porque fosse quase cinco horas da manhã- e os pássaros já começavam a piar solenes ao fundo, era com certeza uma cena bela. Eu estava muito mal agasalhado e a brisa fria passava direto para meus braços pelos furinhos do meu suéter. Não que eu não fizesse isso sempre, mas abraçar o livro com meus dois braços e curvar-me para frente foi a melhor escolha contra o frio.
—Dominic Oliver como você é idiota – Falei baixo para mim mesmo, tentando puxar a gola do suéter para cobrir minha boca. Mesmo assim continuei. Entrei na trilha e apenas o barulho dos meus passos sobre os cascalhos era perceptível, distanciava-me cada vez mais de minha origem.
Lembrava-me de um lugar exato, entre duas arvores cruzadas como uma casinha onde eu e o senhor Frankie Oliver costumávamos ficar e ler quando eu tinha mais ou menos uns cinco ou seis anos. Queria achar aquele lugar e eu sabia que ficava mais ou menos ao fim da trilha, que ainda tinha muito para percorrer então comecei a correr. Imagine um homem idoso com problemas de mobilidade correndo, eu era a mesma coisa. Persistente.
De repente, mais a frente, um ser curioso andava pacifico em minha direção. Era irreconhecível, era alta e magra, usava um charmoso chapéu Fedora preto a qual a aba ficava na frente de seu rosto esbranquiçado, com as mãos em seu casaco longo – também preto-, jeans rasgados e botas de couro. Segurava um caderno de napa azul em baixo do braço e parecia usa-lo com frequência já que a capa se encontrava bem gasta. Chegava cada vez mais perto e isso me fez perceber que ele carregava uma câmera fotográfica, até que se aproximou de mim e parou em minha frente. Eu conseguia ouvir o barulho do vendo de tão silencioso que era aquele momento breve antes da pessoa se pronunciar, tinha um cheiro forte e incrível de chocolate amargo, senti-me arrepiar mesmo que fosse um mero desconhecido que talvez só tivesse parado para me dar um oi.
—Dia, pequeno senhor – A pessoa tinha uma voz um pouco grave e, ao levantar a cabeça para cumprimentar-me, vi que sua face era delicada e feminina. Eu tinha que tornar minha cabeça para cima para falar com aquela pessoa, porque eu simplesmente batia em seu ombro. Era um tanto intimidador.
—Dia... – Encolhi-me. Seria um fotografo? Um assassino? Um ladrão? Um violador de adolescentes indefesos e com frio às cinco da manhã em um parque silencioso e vazio? Qual seria o risco, não é mesmo.
—Vejo que gosta das Crônicas de Nárnia – Sorriu gentilmente, apontando para o meu livro. Ele estava perto demais – O que um principezinho como você faz aqui sozinho há essa hora?
Hesitei. Eu realmente comecei a ter medo porque eu não estava pronto para uma interação social tão direta assim e naquela situação eu já estava perto demais daquela pessoa e tremendo como um cachorro molhado, ainda mais depois da minha ultima interação social com pessoas desconhecidas. Dei um passo para trás e a tal pessoa notou meu medo. Então, o questionário começou.
—Qual o seu nome? Você tem quantos anos? Já leu os outros livros da saga? Que outros livros você gosta? – Chegava cada vez mais perto. Sua boca era gigantesca e cheia de palavras, eu tremia cada vez mais e ficava cada vez mais nervoso. Seus olhos verdes pareciam sorrir para mim também, até que intervi.
—Calma – Murmurei. Ele notou que eu estava assustado e fechou a matraca – Você... Você fala muita coisa.
—Tudo bem – Ele riu – Ninguém nunca consegue prestar muita atenção no que eu digo, porque sempre ficam se distraindo ou dizendo que eu falo demais ou porque eu falo muito rápido e é quase incompreensível e...
—Qual... Qual é seu nome? – Interrompi novamente, sentia que se deixasse o falar por mais tempo iriamos ficar uma eternidade parados no meio da trilha.
—Eva Michael Brown – Estendeu a mão, energético – E o seu?
—D-Dominic Oliver Campbell – Levantei minha mão com calma até ele e apertou.
Por mais incrível que pareça, eu e Eva seguimos a trilha falando sobre os livros dessa série e o tempo passou muito depressa, mal podia acreditar que finalmente eu havia achado alguém para conversar sobre assuntos que eu conhecesse! Sobre meus livros favoritos e os personagens. Eu poderia abrir qualquer trecho que ele sabia, aquela era a primeira pessoa que eu conhecia que já tinha decorado livros e mais livros inteiros e que poderia me contar qualquer parte que eu não lembrasse, era, de fato, uma pessoa incrível! Podia jurar que aquilo era um sonho. Por fim, chegamos ao famoso lugar, o arco de arvores onde eu e papai costumávamos ler. As arvores estavam bem maiores e quase nem se juntavam tanto quanto eu me lembrava, mas eu e Eva sentamos ali. Acho que ele notou que eu o olhava demais e virou-se para mim. Eu com certeza estava muito intrigado em saber como eu havia achado aquela pessoa naquele lugar tão de repente.
—O que?
—Por que... Você está em um parque deserto às cinco da manhã?
—Porque eu gosto de ler aqui ué! Saio da faculdade de artes e venho direto pra cá. Esse arco é belíssimo, a grama em baixo dele chega a ser mais macia. –Aproveitou o momento para sentar-se na relva ainda meio úmida. Sentei-me junto a ele – Costumo ler J.K Rowling, Dan Brown, Agatha Christie... E você?
—Para ler e descansar um pouco a cabeça, na verdade, é a primeira vez em anos que venho... Sobre esses autores que disse... Acho que não conheço nenhum desses.
E novamente ele ficou quieto, apenas os pássaros piavam felizes anunciando a manha e o vento frio batendo nas árvores e gelando nossas mãos e pescoços. Eva me olhava com seus olhos arregalados e apavorados, sua boca semiaberta, mostrando seus dentes separados.
—Você nunca leu Harry Potter, Dominic Oliver?
—Harry quem...
Quieto. Tão falante mas tão quieto. Virou-se e abraçou os joelhos, olhando para o restante do parque em silencio, como se estivesse assimilando o que eu havia dito.
—Você – Olhou para mim com um beiço forçado – Você é uma criança triste.
—M-mas... – Não tive tempo de falar e ele me abraçou. Era muita demonstração de afeto em uma volta só e pude ver que o cheiro de chocolate amargo vinha do bolso peitoral de seu casaco. “Muito bem Dominic Oliver, você esqueceu-se de tomar seu café da manhã, tolo”.
—Eu vou te emprestar todos os meus livros, você vai lê-los e vai amar! E nos vamos falar sobre isso!
—Eu a-adoraria – Ainda em seu peito, sentia-me com vergonha. Ele puxava-me cada vez mais e seu queixo fino estava em cima do topo da minha cabeça, meu nariz roçava em seu pescoço. Depois de tudo que aconteceu naquela noite eu havia ficado hipersensível a qualquer toque de qualquer pessoa. Encolhi-me novamente.
—Hm? – Largou-me – Está tudo bem?
—E-eu acho que preciso ir...
—Já?! – Assustou-se – Mas temos tanto a falar sobre os livros e sobre...
—Eu... Preciso ir.
—Espera! – Eva abriu seu caderno em uma folha vazia, pegou sua caneta e começou a anotar vários números e no final fez sua assinatura, dizia E.V Brown, uma voltinha e um coraçãozinho no final- Esse é meu número. Quando precisar conversar, falar sobre qualquer coisa é só ligar!
—Obrigado – Tentei sorrir gentilmente enquanto pegava o papel e não demorei muito para sair dali. Não que eu estivesse com medo, mas me arrepiei demais e não gostava da sensação de ter alguém tão perto assim. Mamãe dizia que isso era falta de proximidade com as pessoas à minha volta, tanto que foi apenas naquele ano que consegui me aproximar do senhor Frankie Oliver. Meu desejo era conseguir fazer uma amizade a qual eu pudesse ficar perto da pessoa sem que eu tivesse que ir embora depois de um tempo... Assim como a pessoa do armário da festa. Eu podia estar totalmente envergonhado, mas queria mais e a outra pessoa também, sentia uma sensação boa demais, mas ao ver que outras pessoas nos observavam eu corri. De certa forma, aquilo tinha sido traumatizante, mas ao mesmo tempo incrível.
Fui correndo pela trilha, ansiando pela minha casa. Queria chegar e pedir o celular do senhor meu pai para ligar para Eva. Conversar, convida-lo para sair e pode me preparar para interagir de novo. Lembrei-me que ainda precisava ir para a escola e decidi que não iria naquele dia. Ficaria ensaiando, falando sozinho, pensando e pesquisando como perder a timidez. Queria muito a amizade dele já que tínhamos nos encontrado tão de acaso, ele havia se interessado tanto por mim e gostava dos livros que eu gostava, sentia que eu precisava conhecer os que ele lia também! Era uma pessoa que eu não podia perder como aconteceu com Thália Anderson.
Cheguei em casa e o senhor Frankie Oliver já tomava o café da manhã que eu preparara para ele, parecia estar gostando bastante, mamãe ainda não havia chegado.
—Dominic Oliver – Ele me chamou, pedindo para que eu sentasse – Onde você estava?
—Eu... – Hesitei totalmente. Sabia que ele iria brigar comigo. Aproximei-me e sentei pacificamente, tentando manter o mínimo de contato visual – Desculpe senhor...
—Hm? – Partiu a panqueca mais uma vez e abocanhou.
—Fui... Ao parque que costumávamos ir. Queria ler sem barulho, mas... – Minhas mãos estavam entre minhas pernas e minha cabeça baixa.
—Você encontrou alguém? Algo aconteceu?
—Eu... Encontrei um amigo – Suspirei – Eva Michael Brown.
—Da onde você conhece?
—Dali mesmo... E-encontrei ele na trilha e conversamos.
— Sobre o que?
—Pai... É só uma pessoa, apenas conversamos sobre os livros que gostamos – Olhei em seus olhos. Ele me olhava em duvida – Nada aconteceu.
—Jura? – Sorriu de leve. Arrepiei-me. Seu jeito intimidador e psicopata me dava medo.
—S-sim... – Cobri meu rosto – O senhor... Poderia me dar um celular?
Fitou-me rapidamente, desviando o olhar em seguida. Recolheu seus talheres e levantou-se, pegando o prato e colocando na pia.
—Lave- Apontou para a louça – Faça por merecer.
Sorri. Finalmente teria um aparelho de comunicação, mas teria que fazer as tarefas de casa para isso. Precisava de uma amizade, alguém que me ajudasse a esquecer da vergonha e de tudo que aconteceu. Eu ligaria para Eva, alguns conselhos sobre a adolescência eram necessários.
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