The Wolf Of Charming
1 Prólogo
Mesmo que ele quisesse se desvencilhar daquilo, não conseguiria. Apertava com força o artefato na mão esquerda, que gotejava sangue misturado à água da densa chuva que caía aquela noite. Já estava completamente esgotado de suas forças, tanto físicas quanto mentais, e seus olhos que ainda se mantinham abertos, mesmo que tendo que fazer um certo esforço para se manter consciente; observavam a movimentação dos oficiais parados a sua frente, vociferando palavras autoritárias de rendição. As luzes das sirenes nas viaturas, e o som agudo que provocavam, outrora, vertigens; agora já não podiam lhe perturbar. Mesmo ainda de certo, ciente, da situação em que se encontrava, a única coisa perpetua e uniforme em seus pensamentos era a imagem de sua amada. Cabelos loiros compridos, pele alva como a neve, em um vestido vermelho; sorria tão delicadamente. As imagens ficavam cada vez mais fortes em sua mente, alimentando quem sabe, o mais vigoroso dos sentimentos, o amor.
A água da chuva que escorria por seu rosto, confundia-se com lágrimas de dor a perda. Ouviu-se então um disparo, que despertou sua mente imbuída em pensamentos de lamentação, um som agudo e rápido que parecia penetrar sua alma, como fio da lamina mais tênue. Seu olhar pesado, se voltou para o oficial, que mais a frente se encontrava com a arma levantada; um tiro de aviso. Não houvera em momento algum da vida daquele oficial, hora mais inoportuna para se fazer um disparo como aquele. Despertado de ira incontrolável, avançou contra o oficial em uma velocidade absurda, a qual jamais, homem algum poderia alcançar. Um grito aterrador substituía agora, o que antes era voz de autoridade, enquanto sentia a dor de um coração que era separado, brutalmente arrancado de seu peito, deixando estampado a expressão de terror no rosto daqueles que ali presenciavam a cena.
O que houve no beco escuro da cidade, naquela noite fatídica, jamais foi esclarecido. O único sobrevivente, trocou sua farda azul, por uma confortável camisa de forças, em um quarto acolchoado, com uma cama de injeções duas vezes ao dia. E tudo que pode se ouvir toda a lamentável noite que se passa naquele lugar, é o som dos gritos, que ecoam pelos corredores; palavras de um louco, que contam histórias de uma criatura, com olhos prateados na penumbra.
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