The Wizards War
24 Nova Alma, novas Lágrimas
Notas iniciais
Os olhos de Lydia se tornaram mais reluzentes ao avistar o homem misterioso que se parecia extremamente com ela. Ele possuía o mesmo olhar, o mesmo jeito de observar o mundo e os outros. Um olhar instigante e misterioso, às vezes até um pouco vazio, quando sua mente criava asas imaginárias para explorar seus pensamentos. Assim como ela, aquele homem parecia ser muito curioso e preocupado, como se algo o incomodasse ao extremo. Sem hesitar, Lydia pergunta à Merlin :
__ Merlin, este homem é um arcanjo ? Ele é o Daniel ?
__ Se você conseguir abrir o cristal, você irá descobrir. __ Como sempre, Merlin preferiu usar suas palavras enigmáticas do que responder as perguntas de Lydia.
A jovem nem discute. Sabe que seria inútil insistir que ele respondesse suas perguntas. Lydia volta seu olhar para o cristal, ela o pega e concentra todos os pensamentos no pequeno homem preso na pedra transparente, que agora exibia suas belas asas brancas e erguia a mão direita para ela.
__ Estranho... Ele olha para mim como se estivesse esperando que eu dissesse algo... Um código, uma senha talvez.
__ Então tente decifrá-la Lydia. __ diz Merlin.
Várias palavras passam pela cabeça de Lydia, mas nenhuma parecia ser a “senha” que ele queria ouvir. A jovem chegou a conclusão que o código seria um nome, um nome que ele almejava ouvir. Lydia respira fundo e põe sua ideia em prática:
__ Genebra.... __ sem resposta do homem, ela tenta novamente. __ Genebra ?
O arcanjo sorri, mas nada acontece com o cristal. Agora, ela estava sem pistas para decifrar o código de Daniel, não fazia ideia do que ele queria ouvir.
__ Arcanjo... Arquennidis ?
Nada acontecia, Lydia já estava sem esperança em achar a resposta para decifrar sua primeira lição. Mas Merlin decide ajudá-la um pouco mais. O senhor se abaixa ao lado dela e calmamente decodifica uma pista preciosa para a lição de Lydia:
__ Sabe Lydia, em situações complicadas como a de vocês dois, às vezes o melhor gesto para disfarçar a dor e o sofrimento é muito simples mas, muito comovente.
__ Você quer que eu abrace a pedra ?
__ Não Lydia. Pense em um gesto que você nunca pôde fazer, uma fala que nunca pôde ser dita, até agora.
A ruiva reflete em palavras que nunca pronunciara, em palavras proibidas ou simplesmente esquecidas no seu vocabulário. E ela chega à uma conclusão. “Talvez o que ele queira ouvir seja algo que eu devia sempre falar se ele estivesse vivo e ao meu lado... Assim como ele, eu também sempre quis conhecê-lo e ver se eu teria o direito de considerá-lo como a minha verdadeira família.” Com um sorriso torto, Lydia balbucia fracamente o que ela sempre quis ter o direito de dizer:
__ Pa... Pai ?
Dessa vez, o cristal reagiu. Ele brilhou intensamente assim como o sorriso exposto de Daniel. Em questão de segundos, tudo o que Lydia conseguia ver era uma imensidão branca. Sem perceber, ela estava dentro do cristal, ao lado do seu pai. Paralisada com a imagem do pai, Lydia não consegue achar palavras para descrever o que estava acontecendo, ela apenas observava. Analisou cada detalhe da estrutura de Daniel, desde a raiz de seus cabelos avermelhados até a ponta das unhas de seus pés descalços. Ele era alto, parecia ter uns dois metros, era forte e tinha uma pele pálida estonteante. E o mais importante, seus olhos eram completamente iguais aos de Lydia. Era como se ela fosse uma versão feminina do pai. Tão parecidos por fora... Mas será que eles também eram parecidos por dentro? Daniel decide dar o primeiro passo para resolver esse mistério:
__ Ah, então você veio... Se você está aqui, significa que eu morri e não pude lhe contar a verdade... Eu sei que você deve estar confusa mas... Você tem que entender que eu sou o seu pai, e não o Rei Arthur.
Ainda sem palavras, Lydia continua paralisada, apenas observando aquele arcanjo se aproximando cada vez mais dela.
__ Lydia... Eu sempre quis uma menina... __ o arcanjo não consegue disfarçar o sorriso, enquanto a abraçava intensamente.
A curiosidade desperta o corpo paralisado de Lydia, ela recua do abraço vagarosamente e pergunta:
__ Você sabe o meu nome ? Como ?
__ Quem você acha que escolheu esse nome ? Ah... Eu me lembro perfeitamente no dia em que Genebra me disse sobre a gravidez... Ela ficou apavorada, com medo do que aconteceria com vocês duas, mas eu fiquei muito contente ! O seu nome é o mesmo de sua avó, a minha mãe... Como ela está Lydia ?
__ Quem ? Genebra ?
__ Sim, a sua mãe. Como ela está ?
__ Ela está morta... Um demônio a matou logo depois que eu nasci... Me desculpe.
Mesmo surpreso com a resposta da filha, Daniel se controla e apoia delicadamente suas mãos no rosto de Lydia:
__ Não se desculpe por algo que você não teve culpa, querida... Tenho certeza que aquele Goddrick foi covarde o suficiente para mandar um servo para matar vocês duas... Agora, me diga tudo sobre você. Me conte sobre tudo o que você já viu e viveu, tudo aquilo que eu não pude participar.
__ Agora eu já sei de quem eu puxei toda a minha curiosidade. __ isso o fez gargalhar de felicidade.
__ E pelo o que parece, você puxou o humor incrível de sua mãe.
__ Obrigada.
__ Agora me diga tudo sobre você, estou curioso.
__ Pelo o que me disseram, um servo de Goddrick me sequestrou mas Astrides, a Líder dos Selvagens, me salvou e me criou como uma filha, e... __ eles eram tão iguais que até o hábito de interromper as pessoas era o mesmo.
__ Astrides... Ela foi como uma mãe para mim quando fui gravemente ferido em uma briga boba contra um gigante. Eu sempre tive um ego enorme, achei que podia fazê-lo se arrepender por ter me chamado de “baixinho”... E ele estava certo, eu tinha uns dezesseis anos, era um garoto imaturo mesmo. __ aquilo a fez rir, imaginando como o seu pai era quando criança, como ele devia ser curioso e intrometido às vezes. __ Obviamente, eu levei uma surra. O gigante quebrou minha perna esquerda e uma parte das minhas asas, e ela me acolheu como a minha mãe faria. Mas ela não conseguiu curar as minhas asas e também achava que eu precisava aprender a me defender melhor. Então, ela me levou para Cammelot para que o Rei e os cavaleiros cuidassem de mim, e foi naquela época que eu conheci os seus “mestres”.
__ Eles me disseram que vocês eram grandes amigos.
__ Bem, vamos voltar para a sua vida. Me diga Lydia, pelo o que mais você tem passado?
__ Eu cresci ao lado da família de Astrides. Lohan é um lobisomem, uns anos mais velho do que eu, ele também foi acolhido por ela, e também tem a Emilly, ela é a única filha de Astrides... Ah, quando estava com doze anos, Lohan me deixou aos cuidados de Mordred, Kay, Safir e Leonel. Eles são incríveis, são como verdadeiros irmãos para mim... O tempo passou, e um dia fomos atacados por um exército de demônios. E... Foi naquele dia, que eu conheci Oreon, meu Protetor. Ele tentou me matar mas, sinto que ele jamais fará isso novamente, acho que ele está do nosso lado... Bem, a situação ficou pior e nós tivemos que nos esconder na Campina Paradisíaca, mas não deu certo. Então eu descobri que nós precisamos estar em Cammelot e agora... Eu estou parada ao lado do meu... Pai. __ os dois sorriram, Daniel fixou as mãos nas bochechas da filha e observava cada detalhe do rosto de Lydia. __ Por que você está dentro deste cristal ? Se eu quebrá-lo, você morrerá ou sairá dele comigo ?
__ Eu já morri Lydia. O que você está vendo é só um pequeno pedaço da minha alma, eu o guardei aqui se eu não conseguisse viver o suficiente para contar algumas verdades sobre seu... Sobre o nosso passado. Quando você quebrar esse cristal, esta parte da minha alma irá desaparecer, mas não se preocupe com isso, você terá que se focar em outras coisas... Você sabe disso.
__ Eu pensei que nós podíamos ficar juntos como uma família, já que você está aqui...
__ Entendo, mas não se preocupe. Nós temos muito tempo para nos conhecermos, ou você achou que conseguiria quebrar este cristal na primeira tentativa ?
O fato de poder ficar ao lado de seu pai por mais tempo causou uma onda de felicidade na alma de Lydia. Já se sentia até mais segura, afinal, ela finalmente iria entender o que é ter uma família de verdade. Era tanta alegria que a jovem só conseguiu expressá-la através de seu mais humilde costume, as perguntas:
__ Então você me ensinará a controlar os meus poderes de arcanjo ? Nós vamos nos encontrar várias vezes ? Então você vai ter tempo suficiente para você me ensinar tudo o que você aprendeu com um Cavaleiro da Távola Redonda ? Você vai me explicar tudo sobre os Arcanjos, não vai ? Depois você vai poder me contar tudo sobre você ? E sobre a minha mãe também, não é ?
__ Sim,sim,sim,sim... Sim e sim. Puxa, eu finalmente encontrei alguém pior do que eu. Nem eu consigo fazer tantas perguntas em tão pouco tempo, Lydia... Bom, agora é a minha vez de perguntar. Lydia, você sabe manejar a arma que eu guardei para você ?
__ Sim... Eu acho.
__ Não dá para “achar”, você tem que ter certeza. Depois de tudo o que fiz para guardá-la para você... Espero que Safir tenha lhe ensinado a lutar muito bem. Vamos, empunhe a Arquennidis, Lydia. Vamos iniciar a sua primeira lição. __ enquanto falava, Daniel arranca uma pena de sua asa esquerda, e ao erguê-la, a plumagem branca se transformou em uma espada desfigurada, com uma leve curva na ponta.
O arcanjo estava dando seus primeiros passos para iniciar o ataque, e Lydia se recusa a se movimentar, muito menos se defender. Achava que iria apenas conversar e conhecer o seu passado, sabia que seria incapaz de tentar machucar o próprio pai.
__ Espere um pouco! Eu tenho mesmo que lutar contra você ? Pensei que eu fosse aprender magia, ou aprender a me controlar.
__ E quem disse que você não vai aprender ? Minha filha, há várias maneiras para aprender o que você precisa. Porém, no seu caso, o seu controle depende do equilíbrio entre sua alma e a Arquennidis. Merlin já deve ter te explicado isso... Vamos Lydia, me mostre o poder que você carrega, o poder de um arcanjo. Não se preocupe, eu sei como neutralizá-la quando for preciso.
A ruiva desabotoa a capa e a deixa no chão, ela ergue o bastão e observa todos os movimentos de Daniel. O arcanjo gira a espada e corre até a filha. Ele faz o primeiro ataque, mas ela não reage, Daniel rasga a manga direita da blusa de Lydia. Surpreso com a falta de movimento da jovem, o arcanjo ergue as sobrancelhas e volta a atacá-la.
__ Acorde Lydia ! Acorde essa parte insaciável por luta, que você esconde por tanto tempo ! Não tenha medo, eu estou aqui para controlar essa parte que você desconhece.
Daniel impõe sua espada na frente de Lydia e ameaça cortá-la, a ruiva se estremece e posiciona a Arquennidis horizontalmente para se defender. Ela fecha os olhos e espera o pior acontecer, felizmente, não sentiu dor, apenas ouviu o ruído das duas armas se debatendo. Lydia abre vagarosamente os olhos, e se surpreende ao ver seu pai sendo jogando pelos raios da Arquennidis. Sim, o bastão tinha se transformado, e não parava de soltar raios por todos os lados. Sem contar com a dor infernal que sucumbia suas costas, quanto mais ela segura o bastão, mais dor ela sentia, como se a parte arcanjo que vivia perdida estivesse prestes a se libertar através dos poderes da Arquennidis.
__ Isso mesmo Lydia ! Você está sentindo ? Uma dor nas suas escápulas não é ? Uma dor intensa, como se algo estivesse querendo sair delas, certo ? __ disse Daniel enquanto se levantava.
__ Como... Como você sabe disso ?
__ Eu sou como você esqueceu ? Não se incomode com isso, eu sei que está doendo mas se você se acostumar com essa dor, vai conseguir se controlar e descobrirá uma parte de você que nunca foi vista. Vamos, Lydia ! Sinta e deixe que o arcanjo que existe dentro de você se una a sua alma. Essa parte de seu sangue faz parte de você ! Você só precisa saber controlá-la. __ ele ergue a espada mais uma vez, salta, e liberta suas asas.
Lydia fica perplexa com tanta beleza que seu pai exibia durante seu voo, porém, se lembrou que aquele voo era apenas um pretexto para desconcentrá-la. Ela cerra os punhos envolta do bastão e se posiciona para contra-atacar. Sem perceber que seus olhos já estavam domados por uma imensidão roxa e duas coisas pontiagudas, que ressaltavam sobre suas escápulas, rasgavam sua blusa, Lydia salta ao encontro da espada de Daniel. O arcanjo sorri e a ataca, mas a ruiva já não estava na sua frente, com um piscar de olhos, Lydia desviou da espada do pai e o atacou pelas costas. Ele é repelido novamente pela Arquennidis e cai no limite da imensidão branca do cristal, a jovem percebe o que fez e para de atacar. Lydia corre até Daniel, para ajudá-lo a se levantar mas, isso não era o que tinha que fazer.
__ Não se aproxime ou fique com pena de seu oponente Lydia ! Senão, você será nocauteada. Nem sempre você enfrentará alguém tão justo como você, lembre-se disso. __ disse o pai enquanto se apoiava na espada encravada no chão para se reerguer. __ Vamos continuar.
__ Certo ! __ Lydia se prepara para continuar mas percebe que quem estava realmente ferido era ela mesma.
A dor era tanta que era impossível se locomover, Lydia solta a Arquennidis e cai no chão. Daniel a carrega nos braços e com um sorriso encantador e caloroso, o arcanjo decide animá-la:
__ Muito bom, Lydia ! Você quase conseguiu ! Estou tão orgulhoso de você !
__ Essa... Essa dor... Está muito mais forte... Eu não consigo suportar. __ disse a ruiva enquanto tremia de dor nos braços do pai. __ Minhas costas... Estão sangrando...
__ Isso é só o início minha filha. Se você continuar forte, você conseguirá superar a dor e logo controlará sua parte arcanjo... Acho melhor encerrarmos o treino de hoje, me encontre amanhã. Merlin saberá como cuidar das suas costas.
__ Vai parar de doer... Pai ?
__ Por enquanto não, mas quando você completar a primeira lição, a dor terminará.
__ E... Como eu saio do cristal ?
__ Apenas diga o que qualquer filha diria para o pai quando saísse de casa.
Lydia sorriu, fechou os olhos, e antes de dizer as palavras, rezou para que tudo o que tinha acontecido não passasse de um sonho maravilhoso e que pudesse encontrá-lo novamente. Mesmo com medo de perder o pai, Lydia respira fundo e diz:
__ Até mais, pai.
Uma luz branca contorna o corpo de Lydia e rapidamente a tira do cristal. Ainda com os olhos fechados, a ruiva espera deitada na grama que alguém a socorresse. Segundos depois, Lydia sente que alguém estava se aproximando, mas nada conseguiu fazer, apenas se virou para as coisas pontudas pararem de se debaterem contra a grama. Algo a forçou a abrir os olhos, uma voz a chamava com toda a força, e braços duros e quentes a envolviam.
__ Lydia ! Lydia ! Me responda Lydia ! Fale comigo ! __ a voz era de Lohan, que assim como a voz, demonstrava temor pelos olhos.
Sem forças, Lydia abre seus olhos e avista o irmão, e atrás dele, Merlin os observava. A jovem se lembra do que tinha presenciado, que tinha conhecido seu pai, e procura pelo cristal. E felizmente, Lydia se depara com a pedra presa na sua mão direita, ela sorri e volta a fechar os olhos.
Agora, além de uma batalha, Lydia precisava se preocupar com algo que parecia poder destruí-la por dentro, sua parte arcanjo parecia estar insaciável, à procura de algo para devastar. E ela sentia que o que essa parte queria era devastar a outra parte de sua alma.
Mesmo com todas as preocupações, Lydia não conseguiu, e nem quis conter o rastro de felicidade que transbordava em seu coração. Enquanto Lohan a levava de volta para o castelo de Arthur, Lydia deixou que todos vissem essa felicidade. Não foi através de um simples sorriso como sempre fazia. Foi através de lágrimas que seus sentimentos mais puros se comunicaram com o mundo, lágrimas puras e felizes. As primeiras lágrimas de uma pessoa que começou a sentir o quanto ela ainda pode ser feliz, apesar de tudo que foi forçada a viver. Lágrimas capazes de transformar o mundo de uma pessoa, lágrimas purificadoras... Lágrimas da mais modesta e genuína felicidade.
Notas finais
Ahhhhh ! Estou tão feliz que eu consegui fazer esse capítulo!!!
Deixem mtos reviews e recomendem, ok ? Bjos !!! ;*
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