CAPÍTULO PILOTO

Waging Wars

Somente percebeu seu atraso quando o sol acariciou seu rosto. Saiu da cama o mais suave que pode. Como de costume, ou rotina, podia vestir-se silenciosamente em poucos minutos, e se despir mais rápido ainda. Com tantas roupas espalhadas se perguntava quais delas eram suas.

“Seria bom lembrar mais detalhes, mas não se pode recusar um bom rum.” Pensou perdoando a si mesmo pela falta de memória “Ainda mais quando não se paga por ele” riu sozinho.

Pegou seus sapatos e andou nas pontas dos pés até a porta do quarto daquela pensão barata e lá parou para avaliar o seu trabalho. Escorou na batente e sorriu quando sua bela adormecida se moveu sem dar sinal de lucidez. “Pelo menos vou me lembrar de como era sua popa”. Riu mais uma vez e correu para o porto.

— Lue! — O Capitão gritou irritado para o seu Imediato. Ele odiava imprevistos.

O barulho que suas botas faziam a cada passo pesado que dava assustavam os marujos que negligenciavam suas tarefas. Ninguém esperava partir antes do previsto. O Imediato era mais um dos que, sem sombra de dúvidas, não sabia da mudança de planos. Ele mantinha os fios de cabelo surrados presos em um frouxo rabo de cavalo preso e uma faixa enrolada na cabeça para evitar que suas mechas loiras caíssem nos olhos cinzentos. A pele que nem sempre fora bronzeada parecia descascar. Seu chapéu estava em cima de uma das caixas que já deveriam estar guardadas no navio. Ele conversava com outros três marujos sem notar a presença raivosa.

—Lue! — O capitão gritou no ouvido de seu Imediato o fazendo saltar e gritar de uma forma nem um pouco máscula.

— O que foi Joey? — Ele perguntou fazendo falsa continência. —Q-Quero di-dizer! Capitão Threat!

—Qual foi a última vez que você viu Xavier?

A pergunta foi direcionada a Lue, mas o capitão encarava os outros preguiçosos até que todos desconfiassem e começassem a colocar os suprimentos no seu devido lugar.

—Quer saber antes ou depois do rabo de saia? — Lue falou sério, mas os marujos que escutaram começaram a rir.

O capitão continuou com a sua expressão habitual, o que parecia uma carranca permanente, e todos voltaram a suas atividades. O Imediato estava acostumado com os olhares afiados e ainda ria quando Threat o encarou de braços cruzados e sem muita paciência.

—Antes do rabo de saia. — Joey falou rolando os olhos, ele firmou os pés e não sairia dali até obter sua resposta. Disse subindo no navio. – Zarpar¹ – gritou dando a ordem de partida.

—Bem...é um pouco complicado, sabe o que é... — Ele enrolava os cachos soltos deixando claro que escondia algo.

—Para de bilge²! — Ele gritou raivoso, querendo saber qual foi a loucura cometida por Xavier desta vez.

—Por que a pressa? —Uma voz cortou a conversa, o capitão, mesmo sem olhar reconheceu o timbre como sendo o do próprio. O motivo da discórdia.

Xavier se segurava na rede com um sorriso no rosto e um vestido na mão. Seus cabelos ruivos na altura dos ombros estavam amassados deixando claro que acordara há pouco tempo. O casaco novo ficava em contraste com o chapéu com uma exótica pena de avestruz gasto pelos anos de uso, a sua blusa estava amassada e as calças mais largas do que o normal, a bandoleira com suas cinco pistolas segurava sua roupa para que não ficasse apenas com peças intimas. Ele dava nome a cada uma de suas armas, mas Joey não se dava ao trabalho de recordar.

— Você me deve uma! — Gritou para o primeiro Imediato. Lue aproveitou a distração causada pela a entrada nada discreta do amigo e correu para a cabine antes que fosse punido.

— Te devo duas se me poupar do sofrimento de ser castigado. — Ele gritou para o segundo Imediato recebendo uma veemente negação, desta vez estava sozinho.

— O que você tem contra deixar as roupas com seus donos? — O capitão enfatizou sua pergunta apontando para o vestido azul claro em suas mãos.

— Tirando a cor? — Xavier respondeu rindo para si mesmo. — Nada.

— Então por que toda a vez que você se deita com alguém rouba suas s? — O capitão falou alto o suficiente para que alguns rostos se virassem curiosos.

— Sid! — Xavier gritou para um dos mestres de navio, ele desceu da rede e entregou o vestido para o homem. — Coloque isto no meu baú.

O homem olhou para o capitão sem ter certeza se deveria acatar a ordem, mas o capitão acenou rapidamente.

— O que foi? — Ele perguntou fingindo estar ofendido. —Se o rum não me deixa lembrar dos rostos então que pelo menos permita lembrar suas roupas. — Ele deu uma pausa dramática. — Ou a falta delas.

O Imediato ainda sorria quando o Capitão grunhiu e tampou o rosto com as mãos.

—Por que meu Deus! — Ele falou para os céus. — O que eu fiz de errado para merecer isso? — E ao falar a última palavra apontou para o ruivo.

—Quer que eu diga em ordem cronológica ou alfabética? — Ele perguntou segurando o riso. O Threat encarou seu Imediato considerando sinceramente se deveria jogá-lo para fora do navio, mas ele ainda era um estorvo necessário e por isso conseguiu escapar com um olhar de “conversamos mais tarde”.

—Vamos embora. — Joey falou entre os dentes e caminhou para o leme.

—Muito bem seus maricas chegou quem faltava! — O primeiro Imediato gritou para a tripulação, e esta gritou vivas em resposta. — Qual é o destino capitão?

O Capitão do Alonso Jewel Crown conteve seus olhos azuis como o céu brilhando de excitação. Podiam tentar atrapalhar os seus planos, mas ele sempre tinha um outro ainda melhor guardado. Era por isso que ficou conhecido como Threat Master, ele enganava a qualquer um e nunca estava enganado. E o contra-ataque perfeito estava sendo formado em sua mente naquele exato momento.

—Levantem as âncoras e abram as velas! — Ele gritou para seus homens. — Vamos para Tortuga!

¹ Erguer a âncora, levantar ferros.

²Lábia; conversa de treta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.