— Posso? — Scorpius olhou para a porta da cabine, assentindo, constrangido, para o garoto que segurava a porta, com uma garota atrás. Olhou para seus pais do lado de fora, visivelmente animados pela possibilidade do filho estar próximo de fazer amigos. Astoria teve uma crise de tosse, acenando, animada. O pequeno Malfoy tocou a janela, preocupado, mas o trem entrara em movimento bem na hora em que o garoto e a garota discutiam na porta.

— Albus! — sibilou ela, desconfortável. Scorpius sentiu seu rosto queimar, ela era diferente de tudo que ele já tinha visto. A garota o olhou como se fosse algo indigno e deu um olhar pesado para o suposto Albus, fechando a cabine em seguida. O menino rolou os olhos e jogou de vez sua bolsa no chão, jogando-se no banco.

Eles se fitaram até Scorpius desviar o olhar, tímido.

— Albus Potter. — O pequeno Malfoy sentiu um alívio, estava tendo uma batalha mental para lembrar-se do nome do garoto que ele já vira em jornais e revistas. Apertou a mão dele, retribuindo o sorriso. — E você é Scorpius.

— Aham... — quis perguntar como ele sabia, mas provavelmente ele sabia do mesmo jeito que todos os outros. Congelou com a possibilidade dele enchê-lo de perguntas ou depreciá-lo de alguma forma. Segurou-se no banco, inseguro. Albus, entretanto, abriu sua bolsa e pegou uma grande barra de chocolate.

— Você quer? — Scorpius assentiu rapidamente, pegando um pedaço. — Espero que a comida de lá seja boa, meu tio Ron só sabe falar quanta falta ele sente da comida.

Scorpius riu, ainda tímido, mas Albus parecia à vontade.

— Na verdade, quero conhecer os fantasmas, nunca vi um de perto. Na vez em que meu pai ia me levar para conhecer, meu irmão teve uma diarreia terrível, foi engraçado rir da cara dele, mas perdi uma oportunidade única. Você já viu algum?

O pequeno Malfoy coçou a nuca, ainda inseguro, ele nunca teve amigos da sua idade e as crianças que conheciam tinham receio em aproximar-se dele. Assentiu lentamente, respirando fundo, torcendo para não fazer papel de burro.

— Eu vi... Uma vez... Quando minha avó... — ele demorou um pouco para engatar a conversa, mas Albus era paciente. Aos poucos, ambos se tornaram tão eufóricos em compartilhar histórias e vontades que Scorpius perdeu todo o medo e a tensão que parecia pesar em seus ombros. Esqueceu-se até mesmo dos olhares tortos que estava recebendo. A garota bonita era prima de Albus, e Scorpius torceu para que ela se aproximasse novamente, mas ela visivelmente tinha algo contra ele.

Foi selecionado para a Sonserina, mas não teve esperanças de ver Albus em sua Casa, já que, como ele mesmo contara, toda a sua família é da Grifinória. Ainda assim, seu coração tinha uma pontinha de esperança... Tentava se consolar, pensando que ainda assim teria um amigo nas aulas conjuntas de suas Casas, por mais que tivesse que dividi-lo com outros... Albus parecia mortalmente sério, aguardando sua sentença.

Scorpius torceu seus dedos.

...

Albus parecia irritado com algo, mas, ainda assim, Scorpius sentou-se ao lado do garoto rabugento em seu uniforme verde. Ele tinha as mãos comprimindo os lados da cabeça, fitando a mesa. A sala de Poções ainda estava se enchendo na primeiríssima aula do dia e Scorpius saiu duas horas antes do dormitório para ter certeza de que conseguiria achar sua sala.

O Potter olhou lentamente para quem se sentara ao seu lado, com o nariz e os olhos vermelhos, provavelmente de tanto chorar. Scorpius o olhou, de relance, constrangido, mas decidido. Esperou que ele se negasse a sentar perto dele como a garota castanha negou-se. Espero que ele se afastasse no banco assim como fizeram com ele durante do café da manhã. Esperou a decepção, porque assim seria mais fácil.

Olhou de canto de olho Albus arrumar-se na carteira, fungando, abrindo seu material e explodiu internamente, mais tranquilo ao saber que não seria rejeitado.

— Qual livro é o dele? — indagou o garoto, visivelmente perdido. Scorpius segurou o sorriso e pegou seu livro debaixo da carteira, mostrando para Albus. — Obrigada.

A aula ainda ia demorar para começar e a sala estava barulhenta, com todos os alunos se conhecendo, animados. Scorpius torturou-se internamente, tentando arranjar frases prontas ou pelo menos algo interessante para falar com o garoto, mas nada parecia bom o suficiente. Assitius Rose Weasley entrar na sala, parecendo um pouco perdida, sentando-se na primeira carteira. Só notou que estava encarando a menina quando ela lhe deu um olhar feio, ofendida. Desviou o olhar e ouviu Albus, rindo.

— Ei, chata! — chamou o Potter, fazendo Rose virar-se, lentamente. — Já anunciou no jornal?

— Me deixa em paz. — retrucou ela, grossa. Mas Albus riu, com tristeza, mas riu, brincando com suas penas.

Scorpius respirou fundo, ainda fitando a mesa.

— Bem... Pelo menos você tem novidades para contar. Meu pai sequer deve ter ligado. — Albus o olhou. — Digo, ele já esperava.

O Potter riu levemente para o amigo e retomou sua pose, alinhando-se em sua cadeira. Scorpius não tinha notado que além das pessoas não quererem sentar com ele, elas pareciam receosas com a presença de Albus na Sonserina. Seus parentes pareciam não ligar por ele estar em uma Casa diferente do usual, mas também não pareciam preocupados em enturmá-lo. E, diferente de Scorpius, ele parecia gostar de ficar sozinho, mas sentia raiva por não ter atenção.

O Malfoy não entendeu muito bem, mas não estava em uma posição muito favorecida para escolher amigos.

...

— Merlin, você é horrível! — gargalhou Scorpius, flutuando em sua vassoura. Albus também riu, mas parecia um pouco frustrado em não conseguir nem mesmo ordenar a vassoura. Acabou abaixando e pegando a vassoura, mas a professora o repreendeu, falando para fazer o correto. Scorpius deitou-se em sua vassoura, dando dicas para o amigo, mas ele parecia ficar mais nervoso a cada segundo.

— Como isso é possível? — gargalhou uma garota de madeixas alaranjadas, Scorpius a reconheceu, era a garota que ficava na Sala Comunal até tarde, sempre fazendo trabalhos as pressas. — Sua mãe é Ginevra Potter!

Albus parou de tentar subir a vassoura e olhou a garota, irritado.

— Eu não sou uma extensão dela para ter as mesmas habilidades. — retrucou, seco.

— Percebe-se. — respondeu a garota, subindo na vassoura, fazendo questão de olhar para Albus do alto. O Potter semicerrou os olhos por conta do sol, e voltou a ordenar a vassoura, ignorando a menina. Mas ela não parecia satisfeita. — Que vergonha!

— Será que dá para me deixar em paz?! — esganiçou Albus.

— Ahhh, minhas habilidades te incomodam? — debochou ela, rodeando Albus, parando ao lado de Scorpius no ar. Albus parecia estar pronto para berrar com a garota, mas ela, de repente, mudou seu cabelo para um roxo escuro, sorrindo. — Vai morrer de frustração, porque não são poucas!

Ela deu partida, subindo cada vez mais alto, dando voltas rápidas, mesmo com a vassoura limitada. A professora, que estava ajudando os alunos com dificuldade, demorou para notar que a menina estava fazendo o que não devia.

— SENHORITA CAMPBELL! SENHORITA, DESÇA JÁ!

Scorpius desceu de sua vassoura e pegou a de Albus, colocando em sua mão, aproveitando que a professora não estava prestando atenção.. O amigo estava emburrado, mas ainda assim não conseguia parar de olhar a garota amostrada que fugia da professora pelo campo.

Ajudou o amigo a montar na vassoura e tentar dar partida, mas Albus parecia as bruxas dos filmes trouxas, tentando dar impulso em uma vassoura de cozinha. Scorpius sentiria vergonha de ter uma mãe jogadora de Quadribol e ver tantas taças com o nome do pai e do avô por Hogwarts, ganhos por jogos, mas Albus não parecia incomodado, só frustrado pela aula não acabar logo.

O Estranho Potter, como estava sendo chamado, era diferente do Apanhador da Grifinória, James Potter, e parecia satisfeito em não ser nada do que as pessoas esperavam que ele fosse. Scorpius não tinha muitas expectativas para cumprir, mas queria que seus pais explodissem de felicidade com suas notas e feitos.

Mas Albus parecia não se importar com nada daquilo.

...

— Por que sua prima nunca... Quando eu estou aqui... — Scorpius largou a colher. — Ela tem algo contra mim? Ela também acredita que... Enfim... Você sabe...

Albus mordeu a torta, de boca cheia, olhando de forma estranha para Scorpius.

— Tanto faz, é só Rose. Você se importa com isso? — Scorpius quis gritar que sim, mas preferiu ficar em silêncio. Entretanto, saber que ela tinha medo dele e não o achava confiável, o incomodava sim. Ele achava Rose muito bonita, não podia mentir, e inteligência sempre o atraiu, de fato. E ela era uma gênia, pelo que via nas aulas.

Os dois tinham decidido ficar em Hogwarts naquele Natal, e foi a melhor decisão de ambos. A ceia foi algo de outro universo, Scorpius nunca tinha visto tantas coisas mágicas em toda a sua vida e ainda tinha Albus para fazê-lo rir de algumas coisas. O Potter sempre tinha algumas ideias mirabolantes, o que fazia Scorpius gemer de medo e pesar, mas acabava acompanhando o amigo. Naquele ponto, ele e seu irmão mais velho eram idênticos.

Então Scorpius mais uma vez terminou a semana esfregando corredores, com seu nome pela terceira vez na lista de detenção, enquanto a do Potter mais velho, tinha uma lista só para ele. Na noite em que cumpriam detenção, James apareceu comendo uma maçã.

— Ahhh, meus jovens iniciantes... — debochou ele, sujando o chão em que esfregavam. — Ainda tem muito o que aprender sobre a arte de... AI!

James jogou de volta a escova que Albus jogara na sua cabeça e continuou seu caminho, mostrando o dedo médio para o irmão mais novo. Scorpius gargalhou, ele gostava quando os dois se juntavam, via outra parte de seu amigo, a que lidava com sua família no seu jeito rabugento, e todos pareciam acostumados.

Tinha vontade de conhecer sua família inteira, e apesar da Albus falar muito sobre ela, nunca convidou Scorpius para conhece-la, talvez nas férias. Entretanto, o Malfoy já tinha mandado mil cartas para os pais, para que planejassem tudo, pois levaria Albus para conhece-los. Sabia que seu pai não gostava muito dos Potter, mas ficou muito feliz ao saber que Scorpius tinha um amigo, mesmo que ele fosse filho de alguém que não gostava.

Scorpius não sabe se teria sobrevivido sem Albus.

...

As pernas do garoto louro vacilaram quando ele viu Harry Potter de perto.

Também apavorou-se com a semelhança entre Albus e o pai, eram quase assustadoras. Não conseguia nem desviar os olhos para tentar achar seus pais na estação. O pequeno Malfoy tomou ar, reunindo coragem enquanto assistia Albus abraçar seus familiares. Harry Potter olhou para o garoto, não muito convidativo, mas apertou o ombro de Scorpius, lhe dando um sorriso rápido.

— Então esse é o tão famoso Scorpius. — disse ele, não muito amigável, mas educado. O garoto sentiu seu corpo pegar fogo e seu rosto ficar vermelho. Albus riu, abraçando o amigo pelos ombros.

— Sim! Ele me convidou para passar umas semanas em sua casa! — disse Albus. — Disse que ele também podia ficar na nossa, não? Vovó com certeza gostaria de fazer um suéter para ele.

Harry Potter olhou para o filho, parecendo segurar a língua.

— Vamos ver. — ele forçou um sorriso, desconfortável. — Despeça-se do seu amigo, Albus.

Scorpius conhecia aquele olhar e aquela sensação: Até Harry Potter tinha medo dele? Temeu que ele impedisse Albus de falar com ele no próximo ano e sentiu sua garganta trancar, mas Albus não percebeu, abraçando o amigo. Scorpius retribuiu o abraço e deu-lhe um beijo na bochecha, certo de que aquela era a última vez que se falariam.

— Meu amor! — Astoria agarrou o filho por trás, o enchendo de beijos. — Ahhhh, você! Você, você é Albus! Merlin, como eu queria te conhecer!

— Scorpius só falava de você nas cartas! — Astoria abraçou Albus e Draco apertou a mão do garotinho em seguida, sorridentes, parecendo querer segurar o único amigo do filho com todas as forças possíveis. Albus sorriu para os Malfoy, mas despediu-se, envergonhado, dando um aceno tímido para Scorpius e indo em direção da família, que se afastava cada vez mais.

O pequeno Malfoy sentiu seu peito fechar-se, desesperado. Abraçou seus pais, ainda querendo chorar, mas foi forte. Ele sabe tudo sobre Albus, ele nunca o abandonaria. Ele também não tem ninguém. Nenhum dos dois tem. Ouviu seus pais lhe contarem as novidades, ainda pensativo.

Olhou para trás mais uma vez.

Notas finais
Eu não os vejo de forma romântica (mas aposto que na peça deve ter aquela tensão né nom), prefiro melhores amigos.

E EU AMO O SCORPIUS E VOU PROTEGÊ-LO!

Espero que gostem ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!