O salto alto batia contra o chão frio da empresa enquanto ela passava várias cabeças desviavam e se concentravam apenas no seu trabalho ninguém queria que ela pensasse que eles estavam atoa. Assim que chegou a sua sala seu assistente a esperava com o seu café como toda amanhã.

– Seu café, senhorita Berry. – O assistente disse entregando o copo fumegante. – E a propósito conseguiu mais uma vez, J. Smith vai vender o direito dos livros dele para editora e antes que pergunte, sim, eu já enviei o contrato para ele.

– Muito competente Hudson. – Rachel era editora chefa de uma grande Editora de livros em Nova Iorque onde tinha renome pelo seu excelente desempenho em achar autores fantásticos, mas isso era devido a sua seriedade e desempenho no trabalho, buscava sempre o melhor e a vontade dela é a que prevalecia, sempre. Talvez o que conquistasse tanto fosse sua beleza exótica e única que provocava inveja nas mulheres e desejo nos homens e a sua forma de se vestir sempre elegante. No momento vestia uma saia preta de cintura alta, uma blusa social branca e um scarpin preto, seus cabelos eram longos, lisos e castanhos escuros presos em um rabo de cavalo alto.

Hudson ficou surpreso com o elogio, afinal, era uma raridade Rachel fazê-lo. Ainda lembra-se da última vez que recebera um elogio dela. Como não era uma atitude muito comum, podia contar nos dedos, exatamente, a quantidade de vezes que ela o fez. E vale ressaltar que quando isto acontecia, Rachel sempre pedia algum favor extra.

Finn Hudson era o seu nome. Ele era muito competente, acompanhava Rachel em todas as reuniões da empresa, era pontual e se dedicava ao máximo para receber uma tão esperada promoção. Rachel ouviu o seu celular tocar e então apressou em dizer:

– Pode se retirar, Hudson.

– Ok, senhorita Berry. Com licença. – rapidamente caminhou em direção a porta.

Rachel atendeu o celular. Era um telefonema de um de seus pais. Sim, ela tinha dois pais, gays. Rachel fora adotada ainda com três meses de vida. E tinha uma irmã, Quinn. Já ela, fora barriga de aluguel, porém nunca procurou ter um contato mais direto com a mãe, pois tinha a leve impressão de que seus pais ficavam chateados, então, por isso, preferia não tocar no assunto. O telefonema que Rachel estava recebendo provavelmente era para comentar sobre o casamento de sua irmã. Ela estava feliz por Quinn, claro, Puck era maravilhoso para ela. Mas estava incomodada com a situação. Sentia-se pressionada, pois iria, com certeza, encontrar seu ex-namorado na festa, e além de não ter arrumado um acompanhante, iria ouvir piadinhas por ser irmã mais velha e ainda não estar em um relacionamento estável.

Rachel atendeu o celular e tentou parecer o mais simpática possível.

– Alô?

– Olá, filha. Aqui é seu pai, Leroy. Mas seu pai Hiram está aqui do meu lado perturbando para falar com você. E então, como está?

– Estou bem, pai. E os preparativos do casamento como estão? – Rachel perguntou não muito empolgada.

– Está tudo correndo bem, tirando o fato de sua irmã estar em uma pilha de nervos. – Leroy respirou fundo e continuou — Então, foi exatamente para isso que eu lhe telefonei. Você terá de vir uma semana antes do casamento, queremos que você acompanhe cada detalhe e também porque faremos um jantar em família.

– O QUE? – Rachel deixou o desespero transparecer na sua voz. Aquilo não podia ser verdade. Ela tinha exatamente três dias para arrumar todas as suas coisas, arrumar um vestido, conseguir alguém disponível para ficar responsável pela empresa, enquanto passava alguns dias em Nova Jersey. Sem contar com o fato de estar solteira e precisar de alguém que aceite ser seu acompanhante no casamento. Ou seja, estava ferrada.

– Rachel, por favor. Não dificulte as coisas. Sua irmã está uma pilha de nervos. Se você também se irritar, eu terei trabalho dobrado. Ou triplicado. – disse rindo olhando para Hiram que revirou os olhos.

– Mas pai, eu tenho meu trabalho, vai ser complicado arrumar alguém para ficar responsável pela empresa e também... – parou no meio da frase quando ouvir Leroy respirar fundo. – Ok. Darei um jeito. Estarei em Nova Jersey em três dias. Fiquem despreocupados em relação a mim. Agora tenho que desligar, estou muito atarefada no momento, ok?

– Ok. Rachel, obrigada. Seu pai está mandando um beijo. – Leroy disse.

– Obrigada. Beijo em todos. Amo vocês. – Rachel finalizou desligando o telefone. Como iria dar conta de tanta coisa, sendo que teria apenas três dias para colocar tudo em ordem? Hudson tirou Rachel de seus pensamentos ao bater na porta. Já era a terceira vez. Porém ela estava distante tentando arrumar alguma solução que não ouvira as duas primeiras vezes.

– Pode entrar. – disse um pouco irritada.

– Com licença, senhorita Berry. – Entrou na sala e colocou uns papeis na mesa de Rachel. — Aqui está a cópia do contrato que enviei para J. Smith. O mesmo telefonou hoje mais cedo para acertar os últimos detalhes. –olhou diretamente nos olhos de Rachel e então percebeu os olhares dela sobre si. “Por que essa mulher está me olhando assim?” pensou consigo. – Desculpe senhora. Algum problema? – arqueou as sobrancelhas.

– Até que você não é de se jogar fora, Hudson. – disse e percebeu que ele estava com um leve tom rosado nas bochechas. – Sim, até que não. – continuou olhando para ele de cima a baixo.

– Desculpa senhora, mas eu não estou entenden... – ela o interrompeu.

– Ah, faça-me o favor né, Hudson. Todos sabem que você já se “relacionou” com mais da metade das mulheres desta empresa. – Rachel disse fazendo aspas com os dedos. Finn preferiu manter-se calado. Sim, realmente era verdade, mas a última coisa que queria era problemas com sua chefa, o que levaria sua tão sonhada promoção para mais distante. O clima estava tenso e silencioso. Rachel fazia uma cara pensativa até que continuou:

– Eu tenho uma proposta para lhe fazer. – Finn se animou. Será que seria sua tão sonhada promoção? Mas simplesmente não conseguia ligar os fatos. Como um assunto se relacionava ao outro? Então, parou de viajar em seus próprios pensamentos e a olhou diretamente nos olhos.

– Sim, senhora. Qual seria a proposta? – perguntou temeroso.

– Então... – ela sinceramente, não sabia como explicar. Como diria a ele que gostaria de um acompanhante para não ouvir piadinhas dos familiares? Que gostaria de fazer ciúmes em seu ex-namorado? E que também queria mostrar a todos o quão feliz e sortuda era por ter ele ao seu lado. É claro que tudo não passaria de uma farsa, mas mesmo assim era arriscado de receber um “não”, afinal ele não era obrigado a fazer isto. – Minha irmã vai se casar daqui a alguns dias. E eu preciso de alguém que me acompanhe até o casamento... Namorado... tipo... namorado... sabe... – disse percebendo a cara confusa que Finn apresentava.

Ele não sabia o que dizer. Sempre respeitou seu chefe, por isso achou aquele pedido um tanto inadequado.

– Sim, eu sei o que significa namorado, mas... – ele hesitou, porém continuou — Desculpa, mas você está maluca? Bateu a cabeça no pouco tempo em que eu estive fora de sua sala? Não me leve a mal, mas porque eu faria isto? – indagou.

Se arrependera na hora de ter falado nesse tom com sua chefa, mas ele não soube o que dizer e acabou explodindo tudo o que pensou sobre isso. Agora ele se preparava para o pior. Mas ela não poderia fazer nada com ele em relação a isso. Afinal seria uma punição sem justa causa. Ele sempre fora totalmente competente e esse pedido não tinha nada a ver com seu trabalho. Então, tratou de se despreocupar.

– Eu poderia demitir você. – disse firme.

Finn deu uma risada considerada irônica por ela e continuou – E com que justificativa?

Rachel ficou sem palavras. Realmente, ele estava certo. Hudson sempre fora muito competente e ela não tinha do que reclamar. Respirou fundo, tomando as rédeas da situação e propôs:

– Tá bom. Vamos fazer um real acordo, você faz isso por mim e eu faço qualquer coisa por você, então o que você me diz?

Finn pensou bem. Essa poderia ser sua grande chance de pedir sua promoção. Sempre batalhou tanto por isso. Então estava resolvido. Toparia se passar como namorado de sua chefa, se ela aceitasse este acordo dele.

– Ok. Já que eu posso pedir qualquer coisa... Eu gostaria de pedir uma promoção. É o que eu sempre quis, e venho batalhando por isso há anos. Então... Estamos de acordo?

– Sim. – falou e para simbolizar o acordo feito, ela colocou uma de suas mãos na frente dele para um leve aperto de mãos. – Eu não gostaria de ter esse tipo de conversa aqui na empresa. Mas realmente foi urgente, pois nós temos de estar em Nova Jersey dentro de três dias. — disse. – Eu preciso organizar tudo dentro de três dias. Ótimo. – falou mais para si, do que para ele.

– Oh, droga. – falou baixo levando as mãos à cabeça. – Temos de estar em Nova Jersey em três dias? Eu tinha um encontro depois de amanhã...

– Nossa! Quanta preocupação. Esse desespero todo por quê? Só vai ser mais uma das coitadinhas que você engana Hudson... Temos um acordo. Então, se você me der licença, eu tenho muitos detalhes para resolver. Além de ter de arrumar alguém para ficar responsável pela empresa enquanto estamos fora. Enviarei um e-mail hoje. Fique atento. E por favor, quando sair feche a porta.