The War
6 Luna
Luna podia ver desde os cavalos altos de seus irmãos até o seu pônei branco. Entrando em um buraco no meio da parede e andando alguns passos e saindo pela porta que vivia destrancada pela falta de uso, tinha visão do campo de treinamento e, se inclinasse um pouco mais o rosto à direita, poderia ver o nascer do sol no mar. Aquele era um dos lugares preferidos que a pequena ratinha dourada gosta de ficar, mas nunca podia passar muito tempo. Descendo pelas escadas em espiral da torre, ela tinha que ir além do térreo, para chegar ao subsolo e se enfiar pelas pilhas de tecidos que as criadas estocavam até que encontrasse a fresta que seu corpo magricela não agüentaria passar mais daqui a alguns anos.
Depois disso, ela andava um pouco pelo conjunto de arbustos e flores que batiam em sua cintura até chegar aos estábulos que antes via lá em cima, e as coisas ficavam mais fáceis. Mentia para os que a viam chegar que estava querendo ir passear com seu pônei, e para os que a via sair, que estava voltando do passeio. Então fazia seu caminho normal até o castelo, e seguia sua vida.
Os corredores eram longos e entediantes quando se não podia pegar os atalhos que tão bem conhecia, mas Luna se concentrava no pensamento de quanto mais demorasse a chegar ao salão onde encontraria sua professora, menos tempo teria que gastar lá aprendendo canto. Saerya já treinava sua voz ao momento que a mais nova dos Lannisters adentrou pela porta. As notas agudas da prima eram bonitas e puras e Luna sentiu-se intimidada a ficar e ter que treinar também. A sua voz era rouca e falhava muitas vezes, por isso preferia manter-se em silêncio, mas parecia que a Professora gostava de fazê-la falar até que suas cordas vocais não funcionassem mais.
- Onde estava, jovem Lannister? O ensaio começou faz um bom tempo, se é que se importa. – A treinadora disse, com seu tom de voz prepotente e irritantemente nasal.
- Passeava com meu pônei, senhora – A voz rouca da menina a respondeu docilmente – Ele precisa de meu carinho, vez em quando.
A professora torceu o nariz como se farejasse a mentira, mas manteve-se quieta. Deu as devidas instruções para que as meninas continuassem suas canções e, quando deu seu tempo, deixou o cômodo para que a próxima aula começasse. Luna pediu licença e se dirigiu ao banheiro, mas quando voltou, não era a professora de bordado dando instruções para Saerya. Lorah rodeava a cadeira em que a filha estava sentada e parecia gesticular bastante com os braços, o que geralmente fazia como estava com raiva. Luna abriu a porta do cômodo em silêncio e engatinhou por trás do sofá que ficava próximo à parede até se esconder atrás da enorme cortina dourada em uma das janelas.
- Eu juro, Saerya, às vezes você me remete mais ao seu pai do que a mim mesma. Onde está o meu sangue em você? Quer viver a vida com essa personalidade simplória e não correndo atrás dos seus desejos? – Saerya se estremeceu. Mesmo Luna sabia que a última coisa que Lorah realmente se importava era com os desejos dos outros. Vivia a vida da filha por ela, e o pior era que a prima não se opunha – Eu disse que você vai com os seus primos ao norte, então você vai com seus primos ao norte. Foi o inferno para convencer meu irmão de deixá-los ir, então o mínimo que pode me mostrar como gratidão, é juntar-se à eles. Vá encontrar um marido. Seduza homens! – Lorah puxou um pouco o vestido da filha mais para baixo, deixando o decote desta a mostra – Quer passar o resto de sua juventude sendo a segunda em tudo? Segunda mais bonita. Segunda com melhor voz. E na dança? Deve ser lá a quinta ou sexta. Cadê sua ambição Lannister, filha?
Os olhos de Lorah brilhavam como esmeraldas e eram tão ameaçadores que Luna voltou o rosto para escondê-lo nas cortinas. Lorah continuou a falar coisas cruéis e depois se despediu da filha, dizendo que não ia atrapalhar os bordados que ela ia fazer. E que era para fazê-los bonitos, porque presentearia Rhagar, o único Targaryen não prometido ainda.
- Ela é meu oposto, não é? – Saerya disse, sabendo que Luna estava escondida. Ela sempre sabia tudo. Luna tinha medo que às vezes, ela soubesse o que a pequena pensava. – Eu não quero nada, ela quer tudo. Príncipe Rhagar, os Starks, ser superior as cantoras e as dançarinas...
- É porque você não a impede, Sae. Quando você disse um não para a Senhora Lorah Lannister? – A frágil voz rouca ironizou a posição de poder da tia.
- Quando alguém disse um não para a Senhora Lorah Lannister?
Luna encolheu os lábios. Saiu de perto das cortinas e sentou-se ao lado da prima, pondo as suas mãos por cima das dela.
- Saiba que o Norte é muito legal, pelo que ouço falar. E meus irmãos estarão lá com você! Eu queria tanto estar no seu lugar!
- E eu queria estar no seu.
A frase de Saerya não era sobre a não ida de Luna ao Norte, e a pequena sabia disso. Tentou confortar a prima mudando de assunto, mas Saerya nunca parecia realmente confortável com algo. Era sempre a mesma expressão branca que tivera desde que a viu pela primeira vez. Enquanto Vladimir era um guerreiro, Luwin um estudioso e Thomas um arteiro, Saerya era um mistério que ninguém conseguia, ou tinha interesse, em desvendar.
As loiras endireitaram as colunas na cadeira quando viram a porta se abrir e Luna alargou o sorriso ao reconhecer o irmão. Vladimir se aproximou de Saerya e deixou um papel em suas mãos, depois dirigiu-se ao lado da irmã a quem pousou as mãos nos cachos dourados.
- Esse é o horário e localização em que partiremos amanhã. – Luna foi rápida memorizou os dados anotados. – Nós já estamos com nossas malas prontas. Lorah disse que teme que você não tenha arrumado suas coisas, então pediu para eu vir avisá-la...
- É claro que Lorah pediu isso. – Searya sorriu.
O silêncio deixou os irmãos desconfortáveis.
-... De qualquer forma – Vladimir continuou, gentil – Espero que você venha mesmo conosco. Não teríamos conseguido autorização sem você, e esteja certa de que se não se sentir a vontade para fazer qualquer coisa que seja, não terá de fazer.
A professora de bordado os interrompeu e Vladimir se despediu com um beijo na testa de Luna e uma reverência para as duas outras senhoritas. A aula foi quieta e longa, mas assim que livre, a ratinha dourada voltou a vasculhar os cantos do castelo. Ela viu o pôr-do-sol sentada na telha do quarto de Saerya, que era perto o suficiente para ouvir a mesma remexendo no armário e guardando seus vestidos, e depois voltou para seu próprio quarto onde dormiu ansiosa.
Acordou o mais cedo que conseguiu. Pelos bilhetes no cômodo ao lado, os três guerreiros dourados já haviam partido. Luna nem trocou as vestes, esfregou os olhos enquanto se levantava e saiu correndo pelo corredor longo e pegando todos os atalhos que conhecia. Correu pelas escadas em espiral e caiu duas vezes, mas só desacelerou quando chegou no topo da torre. Foi direto para a janela que dava vista para o mar, olhou para o lado e tentou procurar silhuetas familiares ao chão. Conseguiu avistar Thomas Lannister pouco antes de ele sumir à direita.
Correu para o próximo cômodo da mesma torre abandonada e pôs o rosto róseo para fora, conseguindo finalmente ter uma boa visão dos irmãos que partiam. Ficou a encará-los até não ser possível mais distingui-los entre as árvores.
Voltou a coçar os olhos e finalmente se permitiu espreguiçar-se. Depois de um longo bocejo, notou uma agitação em uma janela no mesmo andar que o dela, porém na torre à frente. Escondeu o corpo e deixou apenas o rosto para fora, temendo que fosse alguém que seu pai pôs para vigiá-la e dedurá-la quando estiver em lugares indivíduos do castelo, mas seus grandes olhos verdes ficaram ainda maiores ao perceberem que era Lorah lá.
E estava acompanhada.
Notas finais
Peço perdão pela minha demora e ausência, e temo que ainda não posso afirmar que voltei 100%, até porque ainda estou impossibilitada de avaliar as fichas, mas estou tentando me ajeitar de forma que não deixe The War ficar inativa.
Gostaria também de falar que The War foi, originalmente, uma ideia completamente sem conexão com Guerra dos Tronos. Porém como eu ainda não tinha definido os nomes das famílias, resolvi adaptar como fanfic, apenas para ter o prazer de postar meus capítulos. Quem sabe quando The War (a fanfic) terminar, eu não vá postar The War (a real história)? Gostariam disso?
Ótimo dia para vocês!
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