Notas iniciais
No capítulo anterior: Junior e Clara escaparam com vida do shopping Iguatemi. Mas Junior não reconhece mais a irmã, pois suas ações tem se mostrando, frias demais!

A avenida que cortava o centro do Rio de Janeiro estava parcialmente queimada.

Um enorme engarrafamento de carros esquecidos se espalhava em todas as direções, cruzando e ziguezagueando pelo mapa da cidade. Ao redor deles, imensos prédios jaziam queimados e enegrecidos. Desde a notícia da quarentena, toda a cidade do Rio de Janeiro sofrera terríveis incêndios, a maioria por culpa de donas de casas que morreram antes de terminarem o jantar.

O grupo seguia pelo labirinto de veículos em passos lentos e descontraídos. Bernardo ia à frente com seu novo melhor amigo, enquanto Hugo e Gabriel fechavam a retaguarda. O pequeno havia encontrado um cachorro perdido em uma das casas em que passaram a noite. Desde então, Brigadeiro — como ficou chamado o cachorro — passou a segui-los aonde fossem. Era a nova paixão da vida de Bernardo, uma espécie de válvula de escape para o mundo aonde o menino vive.

Hugo sentia sede. O estoque de água que tinham havia secado há dois dias. Sua garganta ardia e a brisa quente que penetrava pelo nariz secava a pouca saliva que ele tentava engolir. Necessitava de um gole d’água, nem que fosse um gole só. Rezava silenciosamente para algum motorista falecido ter esquecido uma garrafa no porta-luvas.

Gabriel parou de repente e assobiou para que Bernardo se juntasse a ele.

– Ok então, sabem do que precisamos, não é? – disse ele – Medicamentos, munição, comida e água. Vasculhem todos os carros que puderem, mas perto o suficiente para podermos ouvir o grito.

Bernardo concordou com um aceno e Hugo murmurou um “Ok”.

Enquanto se separava do grupo e seguia por uma das pistas, Hugo se lembrou dos primeiros dias após a fuga do shopping Iguatemi. Não comia e nem bebia. A dor havia se instalado nele como uma praga, impedindo-o de viver. Recordava-se de gradualmente perder o posto de líder para Gabriel. Mas não fazia mal. Liderara um grupo por dez meses, e quase todos os seus integrantes estavam mortos. Não havia sido um dos bons.

O primeiro carro não carbonizado que encontrou foi uma viatura da polícia capotada. Com dificuldades, Hugo abriu a porta presa entre as ferragens e vasculhou em seu interior. Nada. Apenas um pente vazio no porta-luvas e algumas cápsulas vazias espalhadas. Não desistiu. Precisava de água mais do que conseguia compreender. O táxi batido foi o segundo. Nele Hugo conseguiu um boné surrado dos Lakers, uma lanterna com pilhas e frutas enlatadas. Enquanto seguia para o próximo carro – um sedã com capô queimado – Hugo abriu a lata de frutas com o canivete que tinha no bolso e bebeu todo seu líquido. Não era saboroso, mas aliviava.

A sorte lhe favorecera naquele sedã. O antigo motorista havia deixado uma pistola escondia sob o banco do carona com pente cheio. Além disso, conseguira juntar alguns antibióticos que estavam espalhados por uma mala. A sede voltou a aperta-lhe a garganta. Hugo apressou o passo e se aproximou de uma ambulância parcialmente enfiada no poste. Podia ainda haver medicamentos não saqueados. Ele segurou as portas traseiras e abriu-as com força.

O mordedor vestido de médico colidiu com Hugo no mesmo instante e os dois rolaram pelo asfalto. O canivete do menino escorregou de suas mãos e caiu debaixo da ambulância. Hugo, ainda em choque com o ataque repentino, se arrastou no chão imundo atrás da arma. O mordedor seguia-o de perto. Hugo conseguia ouvir suas mandíbulas estalando e sentir as tentativas inúteis do cadáver agarrar sua perna. Ele tentou esticar as mãos para o canivete, mas o mordedor agarrou sua perna segundos antes e o puxou para perto de sua boca.

A luta se desenrolou debaixo da ambulância. Hugo chutou e esperneou, mas nada conseguia soltá-lo. As unhas do cadáver estavam fincadas em seu tornozelo e cada puxão do mordedor o aproximava cada vez mais do tênis de Hugo. O desespero começou a sufocá-lo, nem a sede incomodava-o mais. Ele tentou gritar por ajuda, mas engoliu o grito. Estavam longe demais para ajudar, ele morreria antes de chegarem. Estou sozinho de novo pensou ele enquanto as mandíbulas mortais de seu inimigo estalavam como nunca.

Num jato de adrenalina, Hugo utilizou toda a força que tinha para aplicar um belo chute na cara do cadáver. Seu tênis se encheu de sangue e sua perna se libertou das garras. Na fração de segundo posterior, Hugo já estava do lado de fora, bufando e suando.

– Desgraçado! – gritou ele – Vai assustar sua avó, filha da mãe!

Logo depois, Hugo conteve um acesso de risos e voltou para os fundos da ambulância.

Os restos carcomidos do paciente estavam espalhados por todas as paredes. Provavelmente, o coitado havia sido aquilo que mantivera aquele mordedor alimentado por doze meses de apocalipse. Hugo tampou o nariz e começou a esvaziar as gavetas. Encontrou uma cesta de antibióticos, xaropes, pastas de dente, uma garrafa de uísque, seringas e um rolo de papel higiênico. E finalmente, ao lado do banco do motorista, uma garrafa térmica cheia de água.

Hugo sentou no chão da ambulância e engoliu toda a água de uma única vez. Era como se a vida estivesse entrando por sua goela e encharcando seu intestino arenoso. Aquele momento foi tão especial, que até se esqueceu dos momentos de pânico que sofrera minutos antes. Quando terminou com o último gole, parou para sentir o vento que acariciava seus cabelos.

Foi aí que ouviu o grito.

Levou alguns segundos para perceber que era Bernardo. Ele e Brigadeiro estavam em algum ponto ao norte de Hugo. A gritaria continuou, se espalhando pelos prédios em ruínas como um bando de pássaros. Qualquer mordedor a quilômetros de distância ouviria aquilo. Demorou apenas uma fração de segundos para Hugo perceber o perigo iminente e correr atrás do menino.

Dobrou a esquerda, direita, novamente a esquerda, e de novo, de novo e de novo. Bernardo estava cada vez mais próximo. Não havia sinal de Gabriel. Provavelmente estava logo atrás de Hugo, correndo atrás do irmão aos prantos. Os carros espalhados formavam corredores e mais corredores que embaralhavam a mente sob adrenalina de Hugo.

Ia dobrar a esquerda mais uma vez quando avistou Bernardo e o cachorro. Os dois notaram também a presença de Hugo e disparam para ele. Bernardo estava vermelho e suado, com a respiração ofegante.

Gabriel surgiu atrás de um Fiesta prata.

– Ah Bernardo, o que diabos está fazendo? – gritou Gabriel, aliviado.

Bernardo tentou falar, ainda ofegante.

– Mordedores... e...

Gabriel puxou o irmão para um abraço.

– Mordedores! Eles te arranharam? Morderam ou algo assim? – perguntou o irmão mais velho.

Bernardo sacudiu a cabeça, em negação.

– Não ouvi tiros – disse Hugo – Você os matou com a faca?

Bernardo tentou falar, mas sua voz foi impedida por um coro de outras vozes.

Uma multidão maior do que aquela que invadiu o Iguatemi marchava sobre o engarrafamento. Milhares de mortos-vivos apodrecidos se espalham pelas quatro pistas, guiados pelo som dos gritos. Alguns deles estão tão decompostos que a carne despenca pelo chão e é pisoteada pelos seguintes. Um deles, para Hugo o pior, está com as tripas balançando para fora da jaqueta de aviador. Ele tropeça em uma delas, caí no chão e é esmagado pela procissão em câmera lenta atrás dele. Alguns dos mais próximos sentem o cheiro do três humanos que ainda respiram e lideram o comboio atrás da carne fresca, parada a meros dez metros de distância.

– Santa Mãe! – gritou Gabriel – Estamos realmente fod...

– Corram! – gritou Hugo, em resposta.

O trio, seguidos de Brigadeiro, disparou em pânico pelo engarrafamento. Gabriel, o mais rápido dos três, disparou na frente. Hugo fechava o grupo, protegendo Bernardo. Eles cruzaram as pistas e invadiram a calçada, depois voltaram para o meio da rua, depois novamente a calçada.

– O que está fazendo?! – gritou Hugo para Gabriel – Estou ficando tonto!

– Despistando-os! – gritou ele, ofegante.

Os prédios da direita deram espaço para a colossal estrutura da Estação Central do Brasil. O prédio erguia-se acima de todos os outros com sua poderosa torre do relógio enegrecida pelo apocalipse.

– Vamos nos esconder ali! – gritou a voz esganiçada de Bernardo.

Gabriel concordou com um aceno e acelerou o passo. Hugo tentou lhe acompanhar, mas o Sol estava deixando-o tonto. Ele tentou parar, mas quando olhou para trás, viu que a manada estava mais próxima do que esperava. Hugo ultrapassou Gabriel e foi o primeiro a entrar na estação de trem.

O teto abobado encobriu-os do Sol no instante em que chegaram. A enorme estação de trem estava livre de mordedores, mas metade das pilastras cedera e as bilheterias estavam soterradas por entulho.

– E agora?! – disse Bernardo, aos sussurros – Onde nos escondemos?

Antes que Hugo ou Gabriel pudessem lhe responder, três pessoas entraram no átrio da estação.

Seis pessoas levantaram as armas. Nenhum tiro se ouviu. Durante os segundos que tinham para se esconder da manada que invadiria o prédio, Hugo se manteve paralisado. Sua pistola estava destravada e apontada para o peito dos três desconhecidos que acabara de ver. Se o apocalipse lhe ensinara uma coisa, era de quê pessoas são piores que os mortos.

– Quem são vocês?! – gritou o que parecia ser o líder do outro trio – Andem, respondam!

Bernardo deu um passo à frente.

– Por favor, senhor, tem que nos ajudar – guinchou o menino – Tem uma multidão de mordedores lá fora!

– Jovem príncipe, verifique a rua – gritou o homem para seus dois parceiros — Sargento Nogueira, vasculhe as crianças. Vamos levá-las conosco.

A explosão de caos se espalhou pelo prédio. Em um único instante, Hugo derrubou Gabriel e Bernardo e disparou dezenas de vezes contra os três estranhos. Atordoados, os desconhecidos se esconderam da linha de fogo.

– Anda logo! – gritou Hugo – Pega o Bernardo! Para dentro de um vagão, agora!

Os segundos de surpresa que tinham contra os três estranhos chegaram ao fim. O líder do grupo salpicou as paredes da estação com tiros, errando por pouco a cabeça de Gabriel. Bernardo se arrastou até a quina da bilheteria destruída e seguiu Hugo com os tiros. Gabriel e os outros dois estranhos foram os últimos a atirarem.

O ar se encheu de pólvora. Hugo avançou de uma ponta a outra do átrio recheando a parede oposta de furos. Gabriel lhe deu cobertura, bloqueando a visão do líder enquanto Bernardo atirava contra o tal “Sargento Nogueira”. Hugo não fazia a menor ideia de quem eram, mas não seria sequestrado novamente. As consequências do último sequestro ainda ardiam em sua memória.

– Crianças Malditas! – gritou o líder – Vão pagar por isso!

A multidão de mortos arrombou as grades da estação e invadiu a zona de conflito. Os estranhos, distraídos pela confusão repentina, proporcionaram tempo o suficiente para que Hugo, Gabriel e Bernardo fugissem.

O trio desatou a correr para as linhas de embarque, driblando tantos os mordedores quanto os tiros dos estranhos. Hugo ouviu o líder gritar um palavrão antes de atirar. Gabriel e Bernardo estavam mais à frente, abrindo caminho entre a multidão de mortos. Uma bala perdida passou tão perto da orelha de Gabriel que lhe arrepiou os cabelos. Os três passaram disparados pela estação de embarque e se enfiaram em um dos vagões vazios.

O tiroteio era abafado pela confusão de gritos e gemidos dos mortos. Mesmo assim, Hugo se prestava atenção nos três corações acelerados daquele vagão.

– Estão todos bem?! – perguntou ele.

Bernardo fez que sim com o polegar.

– Não – disse Gabriel, a voz dolorida – Tiro de raspão.

A perna de Gabriel estava encharcada de sangue e o rasgão na calça jeans revelava um grande pedaço da carne. Bernardo olhou para o ferimento do irmão de modo catatônico, enquanto Hugo sujava as mãos para ajudar seu amigo.

– Bernardo, na minha mochila – disse Hugo apressadamente, estancando o sangue com as próprias mãos – Pano limpo, fita isolante e aquela caixa de costura. Preciso fechar isso, cara. Vai ser doloroso.

O tiroteio ficava mais devagar a cada segundo.

– Espero que não tenha preferências – disse Hugo, enquanto Bernardo lhe entregava o que pedira – Pois só tenho linha preta.

Gabriel deu um grito de dor. Hugo, se sentindo pior a cada instante, continuava a costurar de forma débil a perna do amigo. Ele precisaria de um tratamento melhor urgentemente. Mas, por hora, Hugo havia conseguido para o sangue. Juntos, Ele e Bernardo amarraram o pano ao redor do ferimento e o prenderam com a fita isolante.

– Precisamos sair daqui – murmurou Gabriel com a voz fraca.

Hugo colocou o braço de Gabriel ao redor do pescoço e levou o amigo de volta ao átrio. Dezenas de corpos estavam espalhadas pelo chão. Sangue e fluidos manchavam tanto o piso quanto as paredes. Apenas três mordedores haviam sido deixados para trás. Mas não repararam no trio que caminhava entre os mortos. Estavam ocupados se deliciando com uma nova porção de carne fresca.

Bernardo se adiantou e disparou três vezes, derrubando os últimos integrantes da manda.

O tal “Jovem Príncipe” havia morrido. Uma bala perdida atravessara seu crânio e os amigos o haviam abandonado lá. Bernardo se aproximou do corpo e fechou-lhe os olhos.

– Que descanse em paz – murmurou o menino.

Hugo não respondeu. Estava prestando atenção nas vestes do falecido. Usa calça jeans rasgada, um boné manchado do próprio sangue e a blusa tinha o aspecto de uniforme escolar.

Foi Gabriel quem percebeu primeiro.

– Ei! Essa camisa não era da nossa escola?! – perguntou ele, apontando.

Hugo concordou com um aceno, e Gabriel desmaiou.

Notas finais
No próximo capítulo: Junior e Clara continuam a seguir a vida, mas o encontro inesperado com estranhos muda um pouco a situação!