The Walking Dead - Rio de Janeiro/ Temporada II
5 Capítulo V - Hugo
Notas iniciais
Hugo nunca correu tanto em sua vida. Mesmo durante as fugas e escapadas que a nova vida no apocalipse lhe proporcionara, nunca correra daquele jeito. Junior ia ao seu lado, ajudando a carregar o corpo inconsciente de Gabriel. O melhor amigo de Hugo havia desmaiado com um grande baque no chão de concreto do pátio logo após a luta contra mordedores invasores. Hugo tentava ao mesmo tempo carregá-lo pelos ombros e estancar o sangramento na testa. Não podia deixar que o amigo perdesse mais sangue. Bernardo ia ao seu lado, se esforçando para acompanhar o socorro do irmão. Clara ia à frente, empurrando qualquer pessoa pelo caminho.
Os corredores não eram estranhos para Hugo. Já perdera a conta de quantas vezes pedia para sair de sala e matava o resto da aula caminhando a sós com os pensamentos. O grupo subiu alguns lances de escadas e atravessou uma das pontes sem nem olhar para baixo. Gabriel era mais importante. Já no segundo prédio, os quatro cruzaram uma série de corredores repletos de salas de aula, bebedouros e armários amassados. Enquanto tudo ia passando num borrão de luzes e cores, Hugo tentou se concentrar em uma reza. Nunca fora muito religioso. Ia à igreja apenas em ocasiões especiais. Mesmo assim, valia a pena tentar pelo amigo. Hugo tentou falar consigo mesmo na mente. Algo como eaí cara, como vai a vida?, mas logo depois parou. Não ia conseguir nenhuma ajuda divina com aquele tipo de chamamento.
Junior empurrou a porta da enfermaria com as costas e ajudou Hugo a carregar Gabriel até uma das macas. O lugar era exatamente igual ao que Hugo lembrava. A luz branca estonteante, as macas alinhadas em perfeição, até os armários brancos repletos de remédios estavam ali. A única coisa diferente era o médico. Havia um homem parado na enfermaria, usando o jaleco que antes pertencia à dona Maria, a chefe das enfermeiras. Mas Maria havia sido devorada durante a queda das cercas da escola. Hugo se lembrava de ver seu corpo carcomido em uma das escadas.
– Por favor, doutor! – disse Hugo, implorando para o homem de jaleco – Precisa ajudá-lo! É meu amigo!
O homem tomou um gole de café e correu para junto da maca.
– Isso não é nada bom – murmurou ele, retirando as ataduras que seguravam o ferimento na perna – As veias estão quase sem cor. Você – e apontou para Junior – Pegue naquele armário toalhas limpas e água filtrada. Menina, veja se consegue achar um pacote com instrumentos cirúrgicos. Vou fazer o possível para salvar seu amigo, ok? Mas vocês precisam me dar espaço agora!
Hugo concordou com um aceno e levou Bernardo até um das macas. O pequeno tinha as bochechas arranhadas, marcadas por uma trilha de lágrimas silenciosas. Junior e Clara entregaram as coisas pedidas para o médico e se sentaram — um de cada lado de Hugo — para esperar um milagre.
...
O Sol já estava baixo quando enfim o médico deu notícias. Hugo, Junior e Clara estavam sentados do lado de fora da enfermaria, conversando em voz baixa. Bernardo havia adormecido no colo de Clara enquanto a menina lhe fazia um cafuné. Estavam aflitos e nervosos, esperando qualquer atualização do estado de Gabriel. Foram obrigados a se sentarem no corredor, pois alguns dos guardas feridos na luta de tarde ocuparam as últimas macas restantes da enfermaria. Quando enfim o médico saiu, Hugo saltou do banco para ouvir as novidades.
– Fiz o que pude – disse ele, tenso – Ele está num estado menos crítico, mas ainda sim corre risco de vida. Perdeu muito sangue.
Bernardo acordou piscando os olhos, focalizando o médico na sua frente.
– Acha que ele irá precisar de uma transfusão? – perguntou Junior
O médico olhou para as janelas douradas com o pôr do Sol.
– Preciso de um tempo para ver se ele reage. Se houver alguma mudança, acho que pode ser uma solução – disse ele, formalmente – Acho que vão precisar passar a noite aqui.
Um dos guardas de azul estava cruzando o corredor no mesmo instante em que o médico completou a frase. O homem de jaleco assobiou, chamando a atenção do segurança para si.
– Danilo, providencie uns quartos no bloco E para os nossos convidados – disse o médico – Estarei aqui durante toda a noite se quiserem mais notícias, ok? Até o café!
O médico girou os calcanhares e retornou para a enfermaria. Hugo não teve outra solução senão seguir o guarda Danilo pelos corredores. Milhares de perguntas giravam em sua mente naquele instante. Como estava Gabriel? Quem comandava aquele lugar e principalmente, o que era aquele lugar e como ele ficou desse jeito? Hugo se lembrava de ter abandonado sua escola com as grades caídas, na primeira noite do colapso. Danilo desceu mais um lance de escadas e guiou um grupo até o corredor que antes servia para os laboratórios de química, ciências e física.
– Temos um quarto reservado para quatro pessoas no fim do corredor – disse ele – Amanhã teremos café da manhã coletivo no pátio principal. Se estiverem perdidos, é só procurarem qualquer um dos guardas de azul.
– Não ficaremos perdidos, querido – disse Clara em tom azedo – Estudávamos aqui.
Danilo parou no meio do corredor para encará-los.
– Sério?! Então porque saíram daqui?! – perguntou.
– Fugimos daqui no primeiro dia deste inferno – respondeu Hugo – As cercas haviam caído e a escola havia sucumbido aos mortos.
– Que idiotice! – disse Danilo, recomeçando a andar – Eu também era aluno aqui antes do colapso. Os alunos que continuaram a lutar reconquistaram a escola e expulsaram os inimigos. Nós nunca caímos.
Uma onda de vergonha invadiu Hugo por dentro. Poderiam muito bem ter ficado na escola, em vez de saírem andando pelo Rio de Janeiro. Mas Hugo não havia fugido por vontade própria. Gabriel o arrastara para dentro do ônibus de Silas durante a invasão. Hugo, na verdade, estava catatônico demais para realizar alguma ação naquela noite. A lembrança dos fatos provocou uma ardência em seus olhos. Não, ele não ia voltar a chorar por aquilo.
– E os corpos? – perguntou Hugo, sem pensar – O que fizeram com aqueles que faleceram?
Danilo parou suavemente junto a uma porta de madeira e começou a remexer no enorme molho de chaves que carregava nas mãos.
– Enterramos a maioria no jardim – disse ele, despreocupado – Mas queimamos os mortos. Pronto achei!
A porta de madeira se abriu com um leve rangido, revelando um pequeno quarto com paredes de estantes e sacos de dormir empilhados em um canto. Havias também uma mesa de plástico com cadeiras diferentes, um sofá puído e um quadro trincado com um mapa das ruas do Rio de Janeiro. Hugo se lembrava daquela sala. Era ali que ficava o escritório da psiquiatra. Cansara de dizer para aquelas paredes que não era louco e nem tinha problemas.
– Não é possível! – dizia a psiquiatra, surpresa – Você mata aulas o tempo todo para ficar pensando!
Hugo odiava aquela mulher com todas as forças. Dra. Martins manipulava os alunos, jogando-os uns contra os outros. Dormir nas ruínas de seu império seria um prazer para Hugo.
– Ficarão confortáveis aqui! – disse Danilo, animado – Tem garrafas de água naquela sacola e alguns pães frescos na outra se tiverem fome. Até amanhã, boa noite!
A porta se fechou com um clique surdo.
Bernardo se enroscou em um saco de dormir e adormeceu rapidamente. Hugo, Clara e Junior continuaram a conversar até tarde da noite, cada um contando as aventuras sofridas durante o mês em que se separaram. Segundo Clara, ela e o irmão haviam liquidado Zeus em pessoa e fugido do shopping alguns segundos antes que os mortos reinassem sobre o local. Depois, retornaram ao Copacabana Palace para verificar se alguém do grupo havia retornado. Como não encontraram nenhuma alma viva, os dois seguiram em frente em direção ao centro da cidade. Hugo contou sobre a avenida do centro, a massa enorme de mortos que o perseguiu, o grupo na estação, até o tiro de raspão sofrido por Gabriel. Os três trocavam risadas e olhares de palhaçada, tentando descontrair a situação em que estavam. Mas Hugo estava consciente de tudo. Sabia que seu amigo corria risco de vida, sabia da formação de grupos imensos de mortos-vivos que se espalham pela cidade e principalmente, sabia que estava em um lugar desconhecido cercado de pessoas desconhecidas.
Depois de um longo tempo sentado na mesa de plástico, Hugo desejou boa-noite e se enrolou em seu próprio saco de dormir para uma noite sem sonhos.
A claridade que irradiava da janela despertou Hugo logo após o amanhecer. O garoto se levantou do saco de dormir e foi até a mesa onde Junior cochilava inconsciente. Devia ter adormecido durante sua vigia, ali mesmo na mesa. Hugo deu uma leve sacudida e Junior acordou de imediato.
– O quê?! Mordedores?! – disse ele, zonzo e sonolento – Ah, Hugo, e só você.
– Shhhhh! Fale baixo – murmurou Hugo.
A tentativa de produzir silêncio falhou instante depois. Três forte pancadas na porta retiraram Clara e Bernardo dos sonhos. Hugo se enfiou no casaco de moletom velho e abriu a porta, piscando com a claridade do corredor. Comandante Moreira estava parado à porta junto com a menina de cabelos cor de chocolate que participara do ataque à muralha sul.
– Bom dia a todos, lamentamos muito se nos os acordamos! – disse Moreira, com a voz triste e rouca – Só passamos aqui para desejar boa estadia e informa que, se quiserem ir, faremos um funeral para o soldado Lima daqui a quinze minutos.
Hugo olhou para o rosto sonolento dos amigos. Todos os três concordaram com um aceno.
– Vamos sim – respondeu Hugo, dando um sorrisinho – Dê-nos apenas alguns minutos para nos arrumarmos.
Moreira cumprimentou Hugo formalmente e saiu marchando pelo corredor. A menina de cabelos cor de chocolates entrou no quarto e entregou um conjunto de roupas para Clara.
– Trouxe dois conjuntos pretos, se quiser ir ao funeral – disse ela, pouco animada – Acho que vão cair bem em você.
Clara aceitou o pacote com um sorriso.
– Obrigada Alice! – disse ela – Vou trocar de roupa. Não demoro.
Demoraram apenas cinco minutos para todos se arrumarem. Os quatro — acompanhados de Alice – desceram as escadas e pontes da escola/abrigo em direção ao jardim da frente. Um grupo de pessoas já havia se reunido junto ao caixão de madeira malfeito do soldado. Moreira e os outros dois guardas estavam presentes, junto com alguns desconhecidos, um gordo que Hugo reconheceu como o antigo professor de química e uma senhorinha que parecia ser a mãe do soldado Lima. Cada um dos presentes se acomodou numa cadeira de plástico para ouvir as breves palavras e citações de despedida. Pelo que Hugo compreendeu, Lima era um bom garoto, dedicado nos estudos que sonhava em ser astronauta. Quando colocaram a cidade em quarentena, Lima protegeu a mãe por cinco meses até os dois serem acolhidos pelos moradores da antiga escola. Hugo não o conheceu por muito tempo, Junior e Clara menos ainda. Mas todos permaneceram em silêncio em respeito a morte de um jovem leal e bondoso, que deu a vida para protegê-los.
Moreira terminou o funeral com algumas palavras da bíblia e ajudou os outros dois guardas a descerem o caixão até a cova toscamente cavada. A senhorinha desmaiou logo depois do enterro, sendo levada às pressas para a enfermaria. Junior e Clara seguiram por uma trilha que serpenteava pelo cemitério construído naquele jardim. Hugo e Bernardo seguiram atrás em silêncio. Os dois tentavam reparar nos nomes esculpidos nas lápides de madeira, talvez até reconhecer algum amigo. Hugo relembrou de algumas pessoas no trajeto. Encontrou o túmulo da psiquiatra e segurou sua vontade de sapatear naquele terreno fofo. Cada passo que dava ia pesando em seu coração. Sabia o que ia encontrar. Tinha certeza daquilo desde a noite passada.
Lá estava, debaixo de uma poderosa árvore refrescante. Sophia. Hugo desviou da trilha com passos quase arrastados. Seus joelhos bambearam e se chocaram com o terreno fofo onde sua melhor amiga estava enterrada. Não conseguiu vencer a guerra contra os sentimentos. Lágrimas salgadas trilharam um caminho por entre a sujeira das bochechas de Hugo. Pobre Sophia, enterrada numa escola. Devia estar no mais majestoso templo, debaixo de camadas de ouro e prata. Não ali, largada toscamente sob uma laranjeira sem frutos.
Mãos calorosas tocaram os ombros de Hugo. Clara havia reunido algumas flores do jardim e as entregara para o menino depositar sob a lápide de Sophia. Hugo nem questionou. Sabia que Sophia nutria uma amizade muito grande por Clara e que a menina também sofrera com a morte dela. Os dois permaneceram em silêncio durante uma eternidade. Hugo ficaria ali até mofar. Até se tornar cinzas e falecer junto aos amigos.
Um pigarro interrompeu o sofrimento de Hugo.
Havia uma figura um pouco cômica parada ao lado de Hugo. Um homem alto, imensamente gordo e com queixo triplo estava parado, suspirando para o túmulo de Sophia. Uma coroa estava posicionada no topo da cabeça calva do gordo.
– Lamento muito sua perda – começou ele, triste – Era sua amiga?
Hugo concordou com a cabeça e se levantou.
– Desculpe-me senhor, mas quem é você? – perguntou Clara, tomando cuidado com as palavras.
– Meu nome é rei Guilherme I – disse ele, todo pomposo – Vocês estão morando no meu reino agora.
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