The Walking Dead: Lifeline
10 Order in the house
Chegamos à fazenda sob olhares curiosos e preocupados, Vanessa rumou para dentro da casa evitando contato visual com quem quer que fosse.
– O que aconteceu? Por que demoraram tanto? – perguntou Rick quando eu passava por ele.
– Estávamos numa missão suicida. – respondi de má vontade.
Rick olhou de mim para Shane, como se esperasse uma resposta válida.
– Encontramos um grupo no caminho, estavam com a Vanessa. – nesse momento as pessoas se aglomeravam em volta de Shane – Tivemos que matar um deles, era o único jeito.
– Mataram uma pessoa? – Rick perguntou atônito.
Shane apenas confirmou com a cabeça. Rick pareceu tomar nossa dor, como se o sangue tivesse em suas mãos, estava perplexo, ameaçou de sair e deixar aquilo como estava, mas desistiu e defrontou-se com Shane.
– Não matamos pessoas. – disse.
– Mas foi preciso! – respondeu Shane.
– Você fala com tanta naturalidade, como se não desse a mínima para o que fez.
– É fácil para você falar, mas não viu o que a gente passou.
Eu estava irritado, era eu que estava com sangue nas mãos, eu matei aquele cara e ainda tinha Vanessa com aquele jeitinho de se não existe dor, não existe compaixão, achava que tudo poderia resolver passivamente mesmo com uma arma apontada para sua cabeça, e Rick, com seu fardo de bom policial que agora não serviria para porra nenhuma.
– Eu não sei vocês, mas eu não ligo para o que aconteceu, aquele cara nos ameaçou o tempo todo, roubou nossas armas e nos jogaram para morrer feitos ratos de bueiro dentro de uma maldita loja. – disse atropelando as palavras, sem dar espaço para o ar entrar. “Essas pessoas ainda iram fazer eu me arrepender por ter ficado.” Pensei.
Todos olharam para mim estupefatos, como se me condenassem com os olhos.
– Alguma chance de virem até nós? – Rick perguntou.
– Não sei. – respondi.
– Quantos eram? – T-dog perguntou.
– Não muitos, com certeza agora estão em numero menor!
– Há alguma chance de virem procurar por vingança?
– Não sei, o cara era um idiota, matou um do grupo deles, talvez fizemos um favor para aquelas pessoas, mas se isso acontecer, de virem procurar por vingança, não estamos em desvantagem, não sabem nem como matar zumbis! – disse.
Rick pareceu desnorteado, andava de um lado para outro.
– Mataram uma pessoa para se protegerem, mas não pensaram que isso poderia afetar o grupo inteiro, colocando em perigo pessoas inocentes! – disse Rick.
– E acha que não pensei nisso antes de fazer a merda toda? Você não viu, mas acho que é capaz de saber o que aqueles idiotas fizeram com Vanessa, acha que se não fizesse o que tive que fazer eles não viriam aqui e fariam o mesmo com as nossas mulheres... ou até pior! – disse.
Rick pareceu refletir.
– Sabem se seguiram vocês? – perguntou.
– Não, os deixamos bem ocupados! – respondi.
Rick apenas concordou com a cabeça.
– Se caso acontecer de virem até aqui, eu faço o trabalho sujo, não precisem se preocupar com isso! – disse enquanto todos olhavam para mim como se eu fosse um perfeito idiota.
– Temos que impor regras e ordem para manter esse lugar seguro! – contrapôs Rick – Alguém chama a Vanessa, precisamos discutir sobre isso!
– Eu vou! – Dale se ofereceu.
Alguns instantes depois, Dale e Vanessa surgiram de dentro da casa e seguiram a nosso encontro.
– O que é? – perguntou Vanessa.
– Você esta bem? – perguntou Rick.
– Estou! – respondeu.
– Que bom! – Rick pareceu notar a ausência de convicção na resposta de Vanessa, mas apenas assentiu — Precisamos manter esse lugar seguro, colocar ordem na casa e queremos você aqui para decidir isso junto, todos nós.
– Certo! – disse sem muita vontade.
– Vamos montar equipes de vigia.
– Como vai ser? – perguntei a fim de não prolongar essa roda de debate pelo resto do dia.
– Vamos nos dividir em dois turnos, 6 horas cada um. Cada noite uma dupla se reveza. Vamos fazer uma rota de vigia em volta da casa, aproveitar para fazer uma varredura caso precise.
– Podemos ficar no celeiro, é alto e temos uma ótima visão de lá e da para toda a extensão frontal da fazenda, o que acham? – perguntou Glenn.
– Ótima idéia! – concordou Rick.
– E em caso de zumbis? – perguntou T-dog.
– Precisamos ser precavidos! Se estiverem distantes não precisam fazer nada, se passarem por aquelas cercas, os derrube e façam o possível para não fazerem barulho, dispensem armas, e em caso de números maiores, chamar por reforço. – Rick respondeu.
– Quem vai se oferecer para ficar hoje? – Shane pergunta.
– Eu fico! – respondi de imediato.
– Tem certeza? Ficou a manha toda na estrada, deve ter passado por maus bocados lá fora, devia descansar. – Dale sugeriu.
– Tudo bem, eu vou ficar! – afirmo.
– Ótimo! E quem mais se oferece para cobrir essa noite? – perguntou Rick.
– Eu! – Vanessa responde.
– Quer mesmo fazer isso?
– Quando era só eu, costumava a virar a noite aqui fora, não é nenhum problema para mim. – Vanessa responde decidida.
– Tudo bem! Daryl cobre das 18:00 horas até meia-noite, e Vanessa da meia-noite até as 6:00 da manha.
– E nos próximos dias? – perguntou Glenn.
– Vamos montar guarda, alguém vai ter que cobrir Daryl e Vanessa nos outros dias.
– Eu fico amanha! – Glenn se ofereceu.
– Eu também! – decidiu T-dog.
– Ótimo! – disse Rick.
... ...
... ...
Já era noite e eu fazia minha vigia, faltavam algumas horas para meu turno acabar, a cada meia hora eu descia do celeiro e fazia uma ronda em volta da casa, não havia zumbis, o que era ótimo porque eu não precisava fazer uma varredura.
Ouvi alguém subir pelo celeiro, era Vanessa, trazia duas xícaras na mão.
– Faltam algumas horas para seu turno começar. – disse.
Vanessa ignorou aquela observação.
– Eu ainda não agradeci o que fez por mim hoje.
– Sabe, eu estava me questionando se deveria salvar você ou não. – disse evitando olhar para ela.
– E o que você decidiu? – perguntou.
– Você esta aqui, não esta? – perguntei desviando o olhar para ela.
Vanessa soltou um riso, reprimi um.
– E por que me salvou?
– Por que achei injusto não salvar e deixar que o sacrifício do seu pai não tenha valido nada.
– E é por isso que eu quero te agradecer. – disse se ajoelhando ao meu lado – Daryl obrigada.
– Já agradeceu. – disse.
Vanessa sorriu triste.
– Não seja rude! – pediu – Aqui, pega, acabei de fazer. – Vanessa me entregou uma xícara de café.
– Valeu! – respondi agradecido.
– Posso ficar aqui com você, logo começa o meu turno.
– A fazenda é sua, não é. – respondi.
– É. – Vanessa responde se sentando ao meu lado.
Um longo silencio seguiu.
– Disse que passava a noite aqui fora, não tinha medo? – perguntei quebrando o gelo.
– Não! O que me dava mais medo era ficar dentro de casa.
– E ficar lembrando do seu pai. – arrisquei.
– É! A maior parte da minha infância eu passei aqui, então pode imaginar o quanto esse lugar me faz lembrar ele.
– Imagino. – disse eu – Nunca ouvi você falar da sua mãe.
– Minha mãe morreu quando eu tinha 6 anos. Câncer. – Vanessa respondeu.
– Minha mãe também morreu quando eu era moleque.
– Sinto muito!
– Tudo bem!
– E o seu pai? – perguntou interessada.
– Meu pai era um bêbado, estava sempre lá, mofando, sentado naquele sofá, sempre com uma maldita cerveja na mão, assistindo beisebol na TV, mas nunca estava presente, nunca quando eu precisei, me obrigava a vender balas na rua, mas eu sempre fugia para a floresta e quando eu voltava sem dinheiro ele me espancava.
– Sinto muito mesmo! – Vanessa disse, pareceu chocada.
– Tudo bem, não sinto a menor falta de nada.
– Nem do seu irmão? Merle não é?
– É! Merle é um caso a parte, também nunca esteve presente, quando não estava preso, estava na rua. É de família.
– Você é diferente! – Vanessa me disse.
– É como sabe? – perguntei.
– Esta aqui, não foi embora, está sempre presente, se preocupa com o grupo, mesmo que às vezes parece meio rancoroso.
– Rancoroso? – perguntei e não consegui evitar um riso.
Vanessa riu.
– O seu irmão, o que aconteceu com ele?
– Rick o prendeu no telhado de um prédio em Atlanta. Ele teve que cortar a própria mão para sair de lá. Desde então nunca mais o vi, nem se quer sei está vivo.
– Conhecendo você, acho que ele está vivo.
– Como assim? – perguntei.
– Se o seu irmão se parecer com você, digo no modo de coragem, de valentia, ele deve estar bem.
– Então me acha corajoso e valente? – perguntei irônico.
– Acho, tomo como exemplo o que aconteceu hoje de manha.
– Somos um Dixon, e um Dixon nunca baixa a guarda. – sorri discretamente para ela, que retribuiu.
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