The Void

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Eu chorei três dias por causa do final de Stranger Things. Uma pequena parte foi porque a série acabou e teve uma cena final linda e emocionante (apesar de tudo, eu amei o final), mas em grande parte foi porque o meu casal favorito de toda a ficção não terminou junto. Todos tiveram um final perfeitinho, menos Mike e Eleven. Não achei isso justo e logo tive a ideia de reescrever o final de dois modos. Esta é uma reescrita um pouco mais "sombria", digamos assim, mas não menos romântica e, para mim, verdadeira à essência dos personagens. Espero que gostem.

A alegria e o alívio dentro daquele caminhão eram palpáveis.

Depois de mais de quatro anos de luta, sofrimento e sacrifício, finalmente chegara ao fim. Todos estavam bem, tudo estava bem, El, minha El, estava bem. Nós iríamos voltar para casa e colocar um ponto final nessa história de uma vez por todas, finalizar a campanha. Ainda havia alguns pontos para acertar, tenho certeza que a família de Derek devia estar pirando atrás de uma explicação lógica e plausível, mas o pior já passou. Vecna estava morto, logo o Mundo Invertido deixaria de existir e as nossas cachoeiras deixariam de ser um sonho.

Respirei fundo e senti o toque de El no meu braço, o que me fez suspirar e sorrir involuntariamente. Virei para o lado e encarei-a, um pequeno sorriso escapando do canto de seus lábios. Ela era linda e continuava linda mesmo após todo o esforço físico, aquele brilho no olhar desde quando a levamos para casa naquela primeira noite e tudo para ela era desconhecido. Coloquei minha mão sobre a sua e nossos dedos se entrelaçaram, seu toque ainda era a minha coisa favorita no mundo. Meus olhos desceram para sua boca e logo meus pensamentos se preencheram com tudo o que faríamos quando estivéssemos a sós.

Pelo menos, era isso que eu pensava.

Primeiro, estouraram os pneus do carro à nossa frente. Não ouvimos o estouro, mas a derrapada, e só era possível imaginar o que poderia ter sido. Depois, quando atravessamos o portal e o mesmo aconteceu com os pneus do caminhão, o tempo passou de maneira acelerada. O tranco súbito nos derrubou, as portas do reboque foram abertas, armas foram apontadas para nós e fomos tirados à força lá de dentro. Uma confusão generalizada que me fez perder o raciocínio, mas não tirou Eleven do meu pensamento. Prensado contra o caminhão, eu me movimentava com dificuldade, não encontrando-a dentro do meu campo de visão limitado.

— Eu não estou vendo a El! — gritei para Dustin, ao meu lado.

— Talvez ela tenha escapado.

Mas não foi o que aconteceu.

A cena seguinte foi tão chocante que foi capaz de desestabilizar os próprios militares. Eleven, de algum modo, estava de volta no grande portal para o Mundo Invertido, alguns passos para dentro, sendo que o disco pararia de rodar a qualquer momento e a bomba explodiria. Minha reação foi correr em sua direção, mas um soldado me agarrou. Lutei para me libertar de seu jugo, tropeçando ao conseguir. E, então, eu caí no Vazio.

Os respingos da enorme poça d'água em que minhas mãos afundaram para amortecer a queda foram o primeiro som que eu escutei. Levantei a cabeça e a vi, caminhando em minha direção, e o tempo correu em câmera lenta por alguns segundos. Recompus-me e corri em sua direção, com o único objetivo de fazê-la sair do lugar onde estava. Mas nada podia me preparar para o que ela me diria.

Não, não, não, não, isso não era justo! Não era justo com ela, não era justo com a gente, não era justo comigo, simplesmente não era justo! Ela queria que eu entendesse, mas eu não entendia! Fui transportado para alguns anos atrás, na frente da casa do Will e ela me prometera que eu não a perderia de novo. Então, por que ela estava fazendo isso? Assim como ela dizia que apenas eu a entendia, apenas ela me via por inteiro, apenas com ela eu conseguia ser totalmente eu mesmo.

Aquela lembrança não foi a única a passar pela minha cabeça. Todos os nossos bons momentos me visitaram naquele instante, enquanto eu permanecia um misto de incredulidade, negação e pavor. Encarava-a, meu rosto já úmido com as lágrimas, assim como o seu. Ela me abraçou e eu tentei uma última súplica, mas dava para perceber que era em vão. Atordoado, não consegui nem corresponder o seu "eu te amo". Então, nós nos beijamos, e eu tentei transmitir o que não estava conseguindo. O beijo foi voraz e tinha um gosto salgado e urgente. Ouvi o seu "adeus, Mike" e imediatamente fui transportado para o laboratório de ciências, quando achei que nunca mais a veria. Antes que eu pudesse responder, dois pares de braços me puxaram e eu estava de volta à realidade.

Novamente, avistei Eleven portal adentro, distante de mim. Sua expressão chorosa de dentro do Vazio se mantinha em seu rosto. Nossos olhares cruzaram e eu gritei. Foi o grito mais alto que eu já dei em toda minha vida, carregado de todo o desespero que estava aqui dentro. Eleven fechou os olhos, aceitando o que iria acontecer, o que só me revoltou mais ainda. Mas eu não iria perdê-la, isso não era uma possibilidade, eu estava disposto a tudo para ficar com ela para sempre. Assim, uma descarga de adrenalina me atingiu, fazendo com que eu conseguisse me desvencilhar dos dois brutamontes de traje camuflado que me agarravam. Instintivamente, corri o mais rápido que pude na direção do portal, ignorando gritos atrás de mim que ecoavam meu nome. Nada importava. El não passaria por isso sozinha, não podia, não depois de tudo que fez por todos nós e que ninguém fez por ela. Também o estava fazendo por mim, pois um mundo sem ela não era mundo.

A toda velocidade, cruzei os limites do portal, estava a uma braçada de distância dela, seus olhos ainda fechados. Em algum lugar dentro do Mundo Invertido, Purple Rain, a música que escolhera pensando em El, na sua cor favorita e nas circunstâncias do nosso primeiro encontro e em nosso futuro, parou de tocar, e a minha parte do plano aconteceu. E, então, eu caí no Vazio de novo, mas dessa vez foi diferente.

Desculpa, mãe. Desculpa, Nancy. Desculpa, Holly. Desculpa, Will. Desculpa, Lucas. Desculpa, Dustin. Desculpa, Max.

Abri os olhos e o nada ao meu redor era o mesmo, mas não havia mais água. Ergui-me devagar, levemente desorientado. A queda fora mais suave, não tão brusca. Olhei à minha volta, dando alguns passos. Então, avistei-a de costas, não muito perto, mas também não muito longe, o que clareou meus pensamentos. Ela caminhava lentamente em linha reta, como se conhecesse o lugar. Corri mais uma vez em sua direção.

— El! — gritei.

Ela parou de súbito ao me ouvir, como se não estivesse esperando, uma reação que também me fez frear os movimentos, alguns metros nos separando. Eleven girou o corpo, virando para mim sobressaltada, a expressão um misto entre choque e confusão.

— M-Mike? — gaguejou.

Por mais que eu não tivesse certeza de onde estivéssemos, mas tinha um palpite, vê-la foi acalentador, e eu não pude conter um sorriso.

— Eu não podia te deixar sozinha, não depois de tudo.

— Mike, o que você fez?! — perguntou, um tom de raiva transparecendo em sua voz. Comecei a caminhar em sua direção, diminuindo a distância entre nós pouco a pouco.

— Eu... eu corri atrás de você. — confessei, engolindo em seco. — Atravessei o portal.

Sua expressão se transformou em incredulidade. El deu passos rápidos em minha direção, eliminando o espaço entre nós.

— Não, não, não, Mike! — disse, enquanto tateava meus braços, ombros, até chegar no meu rosto, como se não acreditasse que eu estivesse na sua frente, como se precisasse de confirmação. Permaneci estático, apenas olhando para ela. — Você não podia ter feito isso!

— E você podia, El? — respondi, meu tom talvez um pouco mais áspero do que eu desejava. — Você podia se sacrificar pela gente?

— Não era a mesma coisa, Mike! — rebateu, gesticulando ao fazê-lo, as mãos não mais no meu rosto. — Eles iriam me perseguir, eles iriam machucar vocês se não conseguissem chegar em mim!

— A gente daria um jeito. Eu, Hopper, todo mundo. Já enfrentamos gente bem pior, coisas bem piores. Eu nunca ia deixar nada acontecer com você.

Ela começou a chorar.

— Eu não queria que nada acontecesse com vocês... com você, Mike.

Aninhei-a em meus braços, seu rosto no meu peito enquanto as lágrimas corriam. Tentei me conter para não chorar também, mas ela me abraçou forte de volta e eu não resisti, meus olhos começaram a escorrer.

— Por que você fez isso, Mike?

— Porque eu não podia viver sem você. — soltei, imediatamente. Não era uma resposta difícil. — El, eu já te falei que a minha vida só começou de verdade quando eu te encontrei naquela noite na floresta. Se você... partisse, partisse sem mim, a minha vida acabaria também. Eu já te perdi muitas vezes, mas eu sempre consegui te encontrar de volta — pausei, meu lábio superior tremendo. — Dessa vez, não parecia que seria assim, parecia definitivo, e eu não queria que fosse. Eu não queria me separar de você, eu não queria me despedir, eu não queria te deixar sozinha. Eu não podia. Nem que eu tivesse que partir também, e foi o que eu fiz.

Eleven afrouxou seu aperto para me olhar nos olhos, chorosa.

— Mas e como vão ficar os outros, Mike? Como vai ficar a sua mãe? As suas irmãs?

Inspirei fundo, fechando os olhos e olhando para cima a fim de conter a torrente que viria se eu pensasse no ponto em que ela tocou. Fora uma atitude impulsiva a que eu tomei, no calor do momento, sobre isso não havia dúvidas. Porém, não havia quaisquer outras ações que não fossem essa. Não existia cenário em que eu não lutasse até o último momento pela minha super-heroína, pelo amor da minha vida. E se eles não entendessem isso, então não me conheciam de verdade. Mas eles me conheciam. Expirei.

— Elas vão entender. — respondi, finalmente. — Talvez demore, mas elas vão entender. Nancy vai entender. Todos vão perceber que o meu lugar sempre foi ao seu lado.

Eleven continuou a me encarar. Suas lágrimas diminuíram a velocidade com que corriam e eu pude perceber que os cantos de sua boca se movimentavam para cima, um esboço do que eu acreditava que fosse um sorriso surgindo. Ganhei forças para conseguir liberar algo que estava entalado em minha garganta e que podia sair livremente, já que não havia mais como o meu maior medo se tornar realidade. Não existiam mais chances de eu perdê-la.

— Eu te amo, El. — suspirei, aliviado. O rascunho de sorriso nos lábios de Eleven se tornou um pouco mais nítido.

— Eu te amo, Mike.

Nós nos beijamos.

Diferente do anterior, esse beijo não era apressado. Nossas bocas se tocaram e se reconheceram, enlaçando-se uma à outra como sempre faziam. Eu ainda tinha os mesmos arrepios que tive quando a beijara pela primeira vez. Desci as mãos de suas costas para segurar em sua cintura, enquanto Eleven mantinha uma mão na parte inferior do meu ombro e a outra agarrava a porção do meu cabelo que escapava por baixo do meu gorro, empurrando-me delicadamente para baixo para compensar nossa diferença de altura. Eu nunca me enjoarei da doçura de seus lábios.

Fui o primeiro a abrir os olhos quando nos separamos e pude admirá-la naquela fração de segundo em que ainda mantinha os olhos fechados. Quando os abriu, sua beleza se intensificou. Nossas testas se encostaram e nós nos encaramos em silêncio, não chorávamos mais. Definitivamente, eu fizera a escolha certa.

Eleven se desprendeu de mim, deu um passo para trás e estendeu a mão em minha direção, como um convite para que eu a tomasse.

— Vamos? — propôs. Entrelacei meus dedos nos seus e analisei os entornos mais uma vez, com mais calma, no entanto. Não podia descrever o Vazio como escuro pois enxergava nitidamente a mim e a ela, mas não havia nada. Era como estar em um cômodo com todas as paredes, além do chão e do teto, pintadas de preto, sem portas ou janelas, e ainda assim iluminado. Não havia qualquer direção que pudesse ser seguida, o que me fez titubear defronte a pergunta de El.

— Aonde? Você sabe como saímos daqui, para onde temos que ir?

— Eu não sei como, mas eu acho que sim. Antes de você aparecer, uma sensação me disse que eu tinha de caminhar, então eu caminhei. Quer caminhar comigo?

— Quero — respondi, apertando gentilmente sua mão em confirmação.

Partimos a caminhar lado a lado, meu polegar acariciando as costas de sua mão enquanto El guiava o caminho. Entretanto, nada havia, como se estivéssemos sobre uma esteira: andávamos, mas não progredíamos. Fizemos isso por mais alguns minutos até que ao longe, verdadeiramente distante, um ponto luminoso minúsculo surgiu.

— El, você está vendo? — alertei.

— Sim, deve ser para lá que devemos ir. — disse, empolgada.

Apesar da distância, aumentamos a velocidade do nosso passo. O pontinho, pouco a pouco e lentamente, aumentava.

— Mike, você está ouvindo? — perguntou Eleven, parando com uma expressão de surpresa.

— O que? Não estou ouvindo nada.

Ela me interrompeu, colocando um dedo sobre meus lábios como quem pede silêncio. Como me calei, ela moveu o dedo da minha boca para meu ouvido, um pedido para que eu prestasse mais atenção.

Água, era água. Bem baixinho, mas era som de água. Não podia ser daqui, pois esse lugar era mais seco que um deserto. Então só podia ter a ver com o ponto luminoso! Quando percebeu que eu compreendera, Eleven me deu um sorriso e eu retribuí. Parecia que tínhamos um objetivo concreto: chegar naquela luz e ver do que se tratava o som. Ela apertou minha mão e inclinou a cabeça em direção ao nosso alvo. Eu assenti e ela saiu correndo, puxando minha mão e me fazendo acompanhar seu ritmo. Parecia que tudo fazia sentido agora. Estávamos do jeito que deveríamos estar enquanto seguíamos apressadamente em direção ao desconhecido da luz e dos sons de água corrente.

Juntos.


Notas finais
Pois é, esse foi o primeiro final alternativo que me veio à cabeça depois de a série ter acabado. Eu acredito que o Mike não deixaria nada impedi-lo de ficar com a Eleven, nada mesmo, nem que ele fizesse o que ele fez aqui. Já estou rascunhando meu segundo final alternativo e prometo que vai ter um tom mais positivo e esperançoso. Um beijo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!