The Unforgiving

2 Shot in the Dark


Capítulo 2 – Shot in the Dark

Ele ainda continuava na mesma posição de antes: sentado na cadeira, com um olhar alarmado para um pedaço de papel em sua mão. Parecia estranho olhar para aquele nome. Contudo, fora isso que pediu a ela, não foi? Uma chance de vingança.

Agora havia chegado o seu momento. Porém, não reagira como esperava. Pensou que se sentiria... Animado, ao menos. Longe disso. Parecia que seu estômago tinha embrulhado.

Não adiantaria ficar ali pensando. A velha queria que ele fosse rápido.

Levantou-se da cadeira e se dirigiu ao armário. Já era noite, e não queria chamar muita atenção. Não de seu alvo.

Após estar pronto, o rapaz pegou tudo o que precisaria, colocando em uma mochila, e se voltou para a janela. Alguns poderiam até achar suicídio, mas ele não.

Sentiu duas fendas se abrirem em suas costas, e de lá surgirem asas, com as penas negras, que abriram e bateram. Ele tomou impulso no parapeito da janela e alçou voo.

Já havia quase dois meses em que Gustav Hasting estava naquela vida de caçar as almas que maculavam aquele mundo. Porém, as formas com que ele e os outros faziam o serviço para a velha Olga podiam ser descritas como as de um assassino. E era isso no que ele havia se tornado, afinal.

Começara quando matara o seu pai a facadas, após ele ter chegado bêbado, como de costume, e invadir o seu quarto, obrigando-o a retirar as roupas, para satisfazer seus desejos. Aquilo já acontecera antes, mas estava cansado. Queria um fim a tudo aquilo. E o desejo de libertação o levara ao primeiro assassinato.

Sua madrasta não se importava com ele. Ela o considerava um bastardo no meio de sua casa, dando atenção unicamente a sua filha, da qual não sabia o atual paradeiro. Tampouco ligava para o marido, apenas usufruindo impensadamente a fortuna da qual o homem possuía.

Quando encontrara o corpo do marido, já sem nenhum resquício da vida, ela não se deu ao trabalho de abrir uma investigação, culpando o próprio enteado e alegando que ele era perturbado, e o rapaz acabou sendo preso em uma clínica de reabilitação. A madrasta, então, acabou herdando tudo da família, deixando Gustav no esquecimento de sua vida.

Contudo, não tardou para que a depressão o abatesse, e com ela, a loucura. O que, talvez, tivesse mantido um resquício de sanidade era o desejo de vingança, que crescia cada vez mais. Mas o destino parecia não gostar dele, e em um acidente, ele acabara sendo morto.

Porém, para um morto, ele estava bastante vivo. E tudo graças a Olga. No dia de seu velório, onde ninguém comparecera, já que não possuía mais família e não tinha amigos, a velha aparecera e bastou apenas um toque em sua pele pálida e gélida para que seus pulmões voltassem a funcionar em busca de ar desesperadamente, como se tivesse sido ligado depois de tanto tempo sem uso.

Quando recobrou cem por cento todos os sentidos e se deu conta de que realmente estava vivo, ela lhe fizera a proposta. A resposta não viera imediatamente, trazendo-lhe a dúvida. Contudo, a velha prometera vingança. E mesmo tendo sido abençoado com mais uma chance no mundo dos vivos, o seu desejo ainda permanecia.

Em algum momento de sua busca, ele ouvira os sinos de uma igreja tocar. Uma missa devia estar sendo celebrada. Mas aquilo não importava no momento. Continuou a sobrevoar mais um pouco, até sentir algo diferente, familiar talvez, em um prédio alto e luminoso.

Pelo visto, sua madrasta não havia poupado o dinheiro da herança herdada para viver em meio ao luxo. Porém, ainda podia considerar suspeito o que uma viúva fazia em um hotel àquela hora. Podia ter suas suspeitas, mas preferia confirmar antes, para que ninguém interferisse no trabalho.

Pousou em um beco próximo ao edifício, e suas asas se contorceram até sumir para dentro de suas costelas, como se nunca tivessem existido. Trocou suas roupas ali mesmo, deixando a mochila que trouxera em um canto e levando consigo tudo o que precisaria, para que não atraísse nenhum olhar desconfiado, e guardou nos bolsos das roupas que usava. Sem ligar para se alguém via ou não o que acontecera ali, ele saiu para a rua movimentada.

Ninguém desconfiaria de um jovem rapaz como Gustav Hasting. Alto, corpo esbelto, cabelos negros, que chegam a ter o efeito azulado quando iluminado, impecavelmente penteado, dando-lhe um ar imponente, e pele clara. Naquela ocasião em especial vestia o melhor terno, de cor preta, que poderia ter em sua antiga vida. Os modos tão educados poderiam acabá-lo confundindo com um filho de algum homem rico e importante.

Caminhou calmamente em direção ao hotel de luxo que ficava do outro lado da rua, e ele percebeu que o saguão era bem iluminado e decorado com poltronas, lustres, quadros, entre outras coisas, dando um ar mais sofisticado àquele local.

O rapaz nem se importou com o que via, mantendo o olhar impassível e andando em direção à recepção.

- Boa noite senhor. – a recepcionista, uma mulher no auge de seus trinta anos com os cabelos castanhos claros presos num coque, saudou com um sorriso que provavelmente fora ensaiado diversas vezes para soar o mais natural possível. – Em que posso ajudá-lo?

- Só gostaria de me informar sobre um hóspede que está a minha espera. – ele respondeu com um sorriso cordial.

- E quem seria?

- Sra. Amélia Hasting.

- Oh senhor, eu sinto lhe informar, mas ela não avisou que ninguém a veria hoje. – a mulher comentou, sem realmente parecer lamentar.

- Mas esta é uma visita que marcamos há pouco menos de uma hora. Eu creio que ela não tenha avisado da minha visita. – o rapaz falou, encostando-se ao balcão, e aproximando-se da recepcionista, cujo crachá dizia que ela se chamava Verônica, e abriu o seu melhor sorriso. – Espero que isso não seja um problema, minha cara.

- Ah não, senhor... Qual seria o seu nome?

- Richard Gale. – mentiu.

- A sra. Hasting se encontra no quarto quatrocentos e dezesseis. – ela respondeu, ainda mantendo seu sorriso automático. – Siga pelo elevador, senhor Gale.

- Obrigada, minha querida Verônica. – Gustav sorriu vitorioso. – Acredito que possamos nos encontrar alguma outra hora. – e exibiu seu sorriso galante mais uma vez.

- Sim, talvez. – a recepcionista deu uma risadinha nervosa, acenando para ele discretamente.

Dirigiu-se ao elevador, na qual ele tivera a sorte de estar vazio. Não havia sido difícil chegar ali. Enganara facilmente a recepcionista, e agora estava mais próximo de seu alvo. Deixou que um sorriso irônico brotasse nos lábios ao pensar que a velha madrasta optara por manter o sobrenome do marido falecido.

Conhecendo a mente daquela mulher, ele podia suspeitar de que ela pensava que isso traria alguma vantagem em meio à sociedade. Isso devia incluir, também, seus diversos amantes, que mantinha desde antes de se tornar viúva.

De dentro do bolso interno do paletó, Gustav retirou um par de luvas negras e as colocou. Não era uma pretensão deixar rastros seu.

Quando as portas do elevador abriram, mostrando um corredor vazio, o rapaz saiu, e olhou para os lados. Vazio. Sua madrasta realmente não poupava esforço para viver no luxo. Aquele corredor, em um dos últimos andares do hotel, possuía um carpete vermelho, com desenhos pintados em amarelo ouro. O papel de parede era claro, e vários lustres pendiam do teto, iluminando o local. Alguns quadros ou mesas com arranjos terminavam a decoração daquele andar.

O rapaz deu alguns passos, e olhou com calma o lugar ao redor. Um sorriso enviesado surgiu, e ele caminhou até a penúltima porta do corredor. Tocou a maçaneta e a girou. Trancada. Certificou-se de que não havia ninguém ali, o jovem retirou dois grampos, do bolso da calça social preta. Um método antiquado, ele achava, mas totalmente útil quando se quer algo o mais sutil possível.

Em poucos minutos, a porta fez um baixo som metálico, indicado que havia aberto. Guardou os grampos, e pegou no bolso interno do paletó uma pistola Berreta 92FS, assim como o silenciador, encaixando-o no cano da arma. Olhou para o corredor mais uma vez. Estava vazio, o que só facilitava as coisas.

Respirou fundo, e abriu a porta. A suíte estava escura, e alguns sons, que ele pôde qualificar sendo gemidos, vinham mais adiante, de uma cama banhada apenas pela luz do luar.

O casal ali nem parecera notar a presença de um estranho, até que este pigarreasse para chamar a atenção. Os gemidos cessaram e a luz do quarto se acendeu.

- Me pergunto o que meu pai diria se a visse aqui e agora. – Gustav perguntou desdenhoso.

- Quem é você, moleque? – o homem, com cabelos claros, que estavam desalinhados, com certeza mais novo que a mulher, perguntou, tentando soar superior.

O moreno não respondeu. Tampouco parecia ter ouvido o que ele dissera. Seus olhos estavam pousados na madrasta, que fitava estupefato a figura na porta.

- Impossível. – ela conseguiu dizer, por fim. – Me disseram que você estava morto.

- Ah não, Amélia. Eu com certeza estou mais vivo do que possa imaginar. – o rapaz falou, divertindo-se cada vez mais com a expressão que ela fazia. – Espero que tenha curtido a sua vida de viúva, pois ela acaba agora. – e mirou a arma para o peito da madrasta.

Contudo, ele não atirara, pois o acompanhante da mulher havia se levantado e tentado avançar contra o jovem. Gustav mirou para cima, e acertou a lâmpada, deixando a suíte a mercê do luar que se estendia lá fora.

O homem havia parado, enquanto Amélia apenas ficava sentada na cama, ainda atônita com a visão que tivera. Contudo, algo frio atrás de si tocou em sua nuca, fazendo-a se sobressaltar.

- Espero que tenha rezado bastante, pois com certeza você vai precisar no lugar para onde vai. – o rapaz disse friamente.

E puxou o gatilho. Não houve tempo para reações. O som abafado do projétil, por causa do silenciador, que era impulsionada pelo tambor, percorreu o cano até a nuca do alvo, e depois tudo ficou quieto, pintando o branco dos lençóis de seda de vermelho.

O silêncio predominou em seguida. A luz da lua ainda invadia o quarto, indiferente ao que acontecia ali. Gustav guardou a arma dentro do paletó, concluindo que a mulher realmente estava morta. Aproximou-se do corpo frio, e levou sua mão até a cintura dela, na altura do umbigo. Sem esforço, ele pressionou contra a pele, até ver uma pequena luz azulada emanar.

Com mais força, o rapaz viu seu pulso e braço adentrar. A luz aumentava, até ela se concentrar em apenas um ponto, que vinha da esfera que ele retirava do corpo de sua madrasta.

O moreno colocou o objeto numa mala pequena que encontrara perto da cama, e se dirigiu à porta da suíte. Contudo, um olhar o chamou a atenção. Virou-se para o lado e viu que o acompanhante de Amélia ainda estava ali, provavelmente enxergando à penumbra, o que acontecera.

Era uma testemunha, e precisava se livrar dele. Aproximou-se, e percebeu que ele tentara se afastar, mas não fora rápido o suficiente, pois Gustav lhe tocara a testa, fazendo-o cair desacordado.

- Esquecer-se-á de tudo o que presenciou essa noite. – ele falou. – Contudo, alguém terá que ser o réu.

Ajoelhou-se ao seu lado e colocou a 92FS em sua mão, certificando-se de que teriam digitais dele o suficiente para incriminá-lo. As alegações do crime poderia ser simplesmente o dinheiro, vingança ou até mesmo a pendência de uma dívida, que o rapaz podia ter certeza que ela tinha.

Ninguém jamais desconfiaria de seu enteado, que aparentemente estava morto.

Pegou a mala e deixou a suíte. Olhou para os lados, certificando-se de que não havia ninguém ali. Trancou a porta usando o grampo que o ajudara a abrir, para depois se dirigir ao elevador.

Ao chegar ao andar térreo, lançou um olhar discreto para a recepção. A recepcionista que lhe atendera não estava lá. Provavelmente havia terminado o seu turno, dando lugar a um rapaz que parecia estar no auge de seus trinta anos.

Dirigiu-se a saída, ainda calmo, desabotoando a camisa e afrouxando a gravata. Caminhou pela rua, dirigindo-se até o beco de onde viera. Trocara de roupa rapidamente, colocando tudo na mochila que trouxera, incrivelmente impressionado que ninguém tenha estado ali e levado.

Suas asas brotaram das fendas que abrira em suas costas, e o rapaz alçou voo.

A vingança havia sido cumprida, mas Gustav não sentia o que muitos chamavam de satisfação pelo ato de se vingar. Sentia-se normal, ou talvez um pouco diferente, mas não o suficiente para que fosse notado pelo próprio.

Contudo, seus devaneios cessaram ao fitar a janela, ainda aberta, de seu quarto, num casarão em meio a um subúrbio, que naquela hora estava com as ruas vazias e com alguns postes iluminando o lugar. Quem via aquele lugar podia dizer que era uma pensão, talvez uma casa de reabilitação ou até mesmo um asilo, que era zelado por uma velha senhora. Ninguém desconfiaria.

Entrou rapidamente no quarto, e sentiu suas asas voltando para suas costas. Jogou sua mochila na sua cama, e com a mala que continha a alma de sua madrasta em mão, o rapaz caminhou até o corredor, descendo as escadas e se dirigindo a sala de Olga, ou como todos se referiam a ela: Mãe.

Bateu na madeira, esperando alguma indicação de que poderia adentrar ao cômodo. A porta se abriu, revelando a mulher na cadeira de rodas, com um sorriso cínico.

- Vejo que voltou rápido. – ela disse, abrindo passagem para que ele entrasse. – Foi uma tarefa fácil, não foi Gustav?

Ele não respondeu, apenas se limitando a encarar a pessoa à sua frente. Colocou a mala sobre a mesa de madeira e disse sem humor:

- Está ai o que você queria. Rápido e sem deixar vestígios.

- Sabia que não me decepcionaria. – Olga comentou, levando a cadeira de rodas até a mesa. – Não me arrependeria de tê-lo aqui, e ainda teve o que tanto desejou.

O rapaz apenas fez um muxoxo.

- Agora se retire. Descanse muito, pois não deve demorar até que eu tenha outro serviço. – ela disse, fazendo um gesto displicente com a mão para que ele se retirasse.

Sem questionar, ele o fez.

Ao passar pela porta, sentiu seu corpo paralisado. Algo diferente havia naquele momento. Um buraco parecia abrir em seu peito. Sentiu-se vazio por uma fração de segundos. Segundos depois tudo pareceu voltar ao normal, mas ele arfava.

Virou-se para a velha, olhando-a espantado.

- Gustav Hasting. Você me pertence. – Olga falou, com algo brilhando em sua mão. – “Eu sou seu, faço o que desejar, mas, por favor, conceda-me a vingança.”, foi o que disseste para mim ao te trazer de volta. – e por um instante, o rapaz pôde jurar, os olhos dela ficaram negros. – Agora me jure lealdade.

Gustav continuou paralisado, encarando de maneira incrédula para ela. As palavras que ela dissera. Aquele momento parecia tão distante agora. Mas não havia mais volta. Fez o contrato e pagou pelo que queria. Agora só restava viver naquela vida vil.

- Jure! – ela ordenou calmamente, tomando uma postura mais séria.

De maneira inexplicável, ele desabou sobre os joelhos em frente a ela.

- Não adianta resistir, pois este é um caminho que você próprio escolheu. Nunca se esqueça disso. – disse mais uma vez quando se aproximou dele e encarou o par de orbes de um azul profundo que pertencia a ele. – Jure!

- Eu juro! Serei leal a ti e somente a ti. – ele disse, sem escolha. – Mãe.

Olga sorriu satisfeita.

- Agora saia daqui, rapaz.

Sem demorar um minuto sequer, o garoto se colocou de pé e caminhou às pressas em direção ao seu quarto, no andar de cima. Trancou-se lá e fitou a janela.

Ela tinha razão, por mais que ele odiasse esse fato. Não havia mais volta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.