The Unbible

5 O poder das palavras


Inquieto, avisei Amanda que eu precisava sair dali e resolver um assunto, ela ficou confusa, mas não argumentou muito, visto que já estava cansada de lamentar. Pude a ver voltando para o caixão e segurando a mão de seu irmão, mas logo saí dali.

Na minha cabeça passava inúmeros pensamentos tentando achar uma resposta conclusiva sobre as mortes do meu irmão e do irmão de Amanda. Não acreditava que meu irmão estivesse se drogando, ele odiava isso. Não havia motivos para eles fazerem coisas erradas que resultariam em morte, não era possível.

Dobrei a esquina e corri para a casa de Bruno, então pulei o portão e caminhei até a entrada. Não havia sinais de pessoas na casa, mas mesmo assim bati incessantemente na porta. Ao parar de bater por um segundo, escutei alguns barulhos na parte de trás da casa e fui conferir o que era. Para minha surpresa, Bruno estava pulando a janela e fugindo, mas o peso de sua mochila o deixou lerdo e pude alcançá-lo a tempo.

Não tive paciência de tratá-lo como amigo e logo o prensei na parede, se ele estava fugindo, sabia de alguma coisa.

– O que ta acontecendo cara? O que são essas mortes?

– Você não entende.

– Eu não ligo! Você vai me dizer agora o que ta acontecendo!

– Eu estou louco, você não vai acreditar.

– Então reze para que não esteja, por que nós vamos entrar agora e você vai me contar tudo.

Eu sabia que se ele usasse a força eu não seria capaz de pará-lo, mas então olhei fixamente nos olhos dele com raiva e ele cedeu. Ele abriu a porta da frente e entramos na cozinha, percebi que seu corpo estava tremendo, seus olhos anunciavam medo, então servi um copo de água para acalmá-lo.

– Tome isso primeiro.

Ele virou o copo inteiro, depois me olhava com medo. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que ele nunca teria medo de mim.

– Está mais calmo? – perguntei a ele, aliviando um pouco o clima de tensão.

– Um pouco.

– Ótimo, comece a falar.

– E-eu não sei o que dizer.

– Comece com: por que meu irmão e o Fábio morreram?

– Como vou saber?

– De alguma coisa você sabe.

– Não tenho idéia do que aconteceu.

O sangue todo ferveu e subiu, minha irritação ficou mais clara, e então extravasei dando um soco na mesa.

– Olha só Bruno, estou começando a me irritar mais do que antes, não importa o que, mas você vai me dizer o que está acontecendo. Agora!

Ele voltou a tremer e me encarou com um olhar de culpa.

– Está bem.

– Obrigado.

– Há duas semanas, eu e teu irmão nos reunimos na casa do Fábio. Nós fizemos uma pequena festa, bebemos um pouco, e em certa hora então começamos a procurar desafios pela internet.

– Desafios?

– Sim, nós estávamos bêbados cara, sem nada para fazer.

– E então?

– Essa é a parte em que você me achará louco.

– Não enrola.

– Então achamos na internet um desafio para fazermos.

– Qual?

– Você não vai acreditar, nem a gente acreditou.

Levantei-me e aproximei dele.

– QUAL?

Ele baixou a cabeça.

– Estava escrito que se lêssemos a Bíblia inversamente, nós estaríamos lendo as palavras escondidas de Cristo, as verdadeiras palavras.

– Ler inversamente?

– Sim, literalmente. Ler da última página à primeira, da última letra à primeira.

– Toda a Bíblia?

– Não, só era preciso um salmo.

– E vocês obviamente fizeram isso.

– Nós achamos engraçado. O Fábio tinha uma Bíblia em casa, da mãe dele. O primeiro a ler foi o seu irmão, depois o Fábio, e por último eu.

– E o que aconteceu?

– Nada. – então ele parou e ficou olhando para baixo. Percebi que sua resposta foi vaga, então forcei um pouco mais.

– Nada mesmo?

– Nada no dia. Mas na manhã seguinte, as loucuras começaram.

– Que tipo de loucuras?

– Estava escrito que se lêssemos a Bíblia inversamente, nós estaríamos invocando o lado negativo de Cristo.

– Como assim lado negativo?

– O lado mal dele.

– E então?

– E ele traria o terror para as pessoas, mas primeiro teria que matar seus invocadores, para ganhar força de novo.

– Você está me dizendo que foi isso que aconteceu com o meu irmão?

– Pense bem onde ele foi encontrado morto.

– Mas e o Fábio?

– O Cristo só poderia aparecer para nós a noite, quando Deus não pode vê-lo, e ainda teria que haver algum objeto ligado a sua imagem para que ele possa aparecer. Fábio tinha uma Bíblia na casa.

– E você?

–Já tirei tudo de casa que possa estar ligado a Ele. Mas estou com muito medo.

– E as alucinações de Fábio?

– Por só conseguir aparecer de noite, Ele aterroriza através de alucinações durante o dia.

– Você também teve?

– Todo o tempo.

Então paramos de conversar e ficamos pensando silenciosamente. O corpo de Bruno exalava medo, ele percebia que já estava escurecendo. A cada barulho sua atenção se desviava.

– E qual a solução para isso?

– Eu li que a única maneira para resolver isso – ele pausou e seu olhar focou no meu – é criando um novo Cristo.

– O QUE?

– Exatamente isso. Precisamos de alguém que morra por todos nós. Assim o substituiremos.

– Morrer como?

– Crucificado.

Bruno ficou olhando para mim enquanto eu engolia em seco. O que significava tudo aquilo? Por que isso estaria acontecendo? Fiquei observando o céu pela janela, seria isso mesmo? Morrer por todos? Quando me virei me assustei ao ver Bruno com uma faca na mão.

– Eu não posso morrer. Eu não posso! – seus olhos enlouquecidos me intimidavam.

– Calma Bruno! Vamos pensar nisso juntos, ninguém vai morrer.

– Errado, você vai morrer! – foi à última coisa que ouvi antes de tudo apagar.

Notas finais
Próximo capítulo encerrará a história, quais suas expectativas? :)) Obrigado a todos!