The Unbible
1 11 - Não me esquecerás.
Notas iniciais
Não enxergo isso como um modo de desrespeitar, apenas criei uma visão diferente do que todos estão acostumados.
Isso ae.
A chuva anunciada pelas nuvens negras agora desaba em direção aos nossos corpos, umedecendo nossas almas pobres. Parei na frente da porta descascada e rachada da igreja, sua maçaneta não tocada há muito tempo rangeu ao virar, e a única coisa que a iluminava por dentro era as luzes dos relâmpagos incessáveis. No fundo a gigantesca cruz de um marfim já apodrecido, estava pendurada por um de seus lados, porém a figura condenada sempre presente de Cristo já não se encontrava mais. Não sabia dizer se era culpa da noite chuvosa, mas senti um intenso frio na espinha e meus pelos se ouriçarem. Eu estava ali contra minha vontade, meu corpo presente, mas minha mente tentando se retirar, porém eu queria acabar com tudo. Sozinho e assustado, a cada trovão meus músculos se comprimiam e meus olhos se arregalavam tentando enxergar uma solução naquele cenário agonizante.
Agora as portas que protegiam a santa casa se quebravam pela força irreverente do vento uivante. A chuva castigadora invadia o chão que já acomodara fiéis pecadores. E uma melodia assombrosa surgiu das teclas do órgão já abandonado pelos músicos devotos, a música anunciava a Sua entrada. Ainda que não fosse visível, sua presença angustiada brincava com minhas emoções.
O véu branco rasgado pela injúria dos descrentes, vestido por aquele que morreu por todos nós, se apresentou em frente a sua antiga estadia de madeira, de costas para mim. Temendo encará-lo virei meus olhos para longe, mas minha mente insistia em saber o que acontecia. Voltando o olhar nervoso para sua imagem me deparo com seu corpo já virado. Sua cabeça ensangüentada se contorcia ao som dos trovões, seus olhos fundos denunciavam um buraco em sua alma, um buraco que ele queria reparar. Ao fechar os olhos de terror permaneço intacto entre os bancos da igreja. O som dos trovões e da chuva que não cedia não foram o suficiente para abafar os passos que ouvia. Passos arrastados e lentos. Não era possível abrir meus olhos em tamanho tremor que estava. Os passos descoordenados entregavam sua posição ao baterem nos bancos que um dia serviram para se ajoelhar. Nem mais esse movimento eu era capaz de fazer.
Os sons dos passos cada vez mais próximos me faziam implorar para sair, mas não era possível dizer nada. Sentindo sua presença degradada pelos tempos de hoje, percebi um ódio se aproximando. Ele poderia proteger você, mas ele queria outra coisa de mim. Não agüentando mais a pressão no meu peito, fui obrigado a abrir minhas pálpebras já fracas de tanto esforço para me proteger da visão perturbadora. Mas quando olhei para frente não pude ver nada além do já visto antes, ele teria me abandonado? Forcei meus olhos ao máximo para enxergar os pontos mais escuros daquele lugar. Estranhei ao perceber que a brisa da chuva já não gelava mais meu corpo, pelo contrário eu sentia em minha nuca um ar quente.
Entendendo do que me cercava, aquela brisa já se tornara um bafo, alguém estava atrás de mim. Ao me virar pude ver seu rosto a dois palmos do meu. A saliva descia rasgando o túnel até meu estomago amedrontado. Ele mexia sua boca seca, mas nada dizia. Eu não conseguia entender o que ele queria. Então a melodia parou bruscamente, e pude ouvir seu sussurro: “Reze por mim”. E uma combinação de trovões e notas graves estremeceu meu corpo, enquanto o relâmpago iluminava seu rosto deformado. De imediato comecei a rezar e ele a rir, sua risada atingia meu coração como pontadas. Sua voz já distorcida pelo seu estado o deixava mais aterrorizante. Ele gritava para que eu rezasse mais alto e mais forte, e me empurrava a cada passo em direção ao altar abandonado.
“Vocês costumavam a rezar por mim, vocês juravam por meu nome, agora eu fui deixado de lado”, repetia. Cada frase repetida sua entonação se agravava. Meus olhos se encheram de lágrimas, minha mente já não agüentava tanta pressão. “Eu morri por vocês, vocês deviam morrer por mim”, continuava a pregar. “Vocês não acreditam mais”. O caminho terminou, o altar já firmava meus braços descontrolados. Meu coração de repente batia diferente, batia como martelos pregando um homem na cruz.
“Vocês nunca deveriam duvidar de mim!”
TUM TUM TUM TUM.
“Eu salvei vocês e mereço suas vidas!”
TUM TUM TUM.
“Vocês só precisavam seguir o que estava escrito no livro.”
TUM TUM.
– Se não acreditamos mais em alguém é por que ele falhou em alguma coisa, nós seguimos o livro e acabamos destruindo nosso mundo. Esperamos anos por sua volta, o que nunca aconteceu, nos sentimos enganados e como resposta o deixamos de lado. Você que não deveria duvidar de nós, conseguimos viver sem sua presença e nos saímos muito bem. Você deveria saber que quem muito quer, pouco consegue. Você deveria estar lá por nós de verdade...
TUM.
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