‘Você sabe que este é o seu maior erro. Que desperdício, que desperdício, que desperdício .E de todas as coisas que você nunca explicou, você sabe que este é o seu maior erro.’

Ellie Goulding – Your Biggest Mistake

O carro negro reluzente parou de forma abrupta em frente ao imenso casarão, fazendo um barulho ensurdecedor ecoar pelos arredores. Um sorriso sádico se abriu nos lábios da motorista antes da expressão tornar a fechar e endurecer.

Papai vai adorar ouvir isso a essa hora da manhã.

Uma pequena multidão de pessoas loiras e altas logo se aproximou da entrada e Quinn sentiu-se enrijecer ao reconhecer a postura prepotente de seu pai. Russel Fabray. Sentia seu sangue ferver só com o pequeno vislumbre que teve do desgraçado. Respirou fundo uma vez e fez seu caminho para fora do veículo.

Sua mãe foi a primeira a alcançá-la. Tinha um sorriso gigante e doce nos lábios e Quinn o retribuiu verdadeiramente. Judy Fabray sempre fora sua fortaleza e não conseguia entender como estava a tanto tempo casada com o bastardo. Sua mãe era uma das almas mais doces que tivera o prazer de conviver e sabia que ela ficaria realmente feliz ao contar as novidades.

“Quinn, minha filha!” Sua voz era cantada e tinha um timbre muito agradável, o mesmo que a embalou em muitas noites de pesadelos. “Como eu senti sua falta. Está absolutamente maravilhosa. Vejo que os ares de Nova York estão te fazendo muitíssimo bem.”

“Muitas coisas de lá estão me fazendo bem, dona Judy.” Quinn deu seu melhor sorriso e um abraço caloroso na mãe. “A senhora deveria me visitar algum dia desses. De preferencia sem aquele estorvo lá atrás.”

“Quinnie!” A loira mais velha ralhou com a filha. “Se comporte. Depois que o aniversário da vovó passar eu deixo você e seu pai se matarem.”

“Quantas horas faltam para isso?”

Judy revirou os olhos claros. Sempre que pai e filha se encontravam as faíscas rolavam para todos os lados. Eles tentavam ter o mínimo possível de contato e diálogo desde que Quinn havia contato sobre ser homossexual. Russel não aceitava e tentara expulsar a filha de casa, mas Judy havia impedido.

As duas caminharam lentamente até a entrada do casarão. Era uma construção antiga, uma das primeiras feitas em Lima-Ohio, e ficava nos limites da cidade. Uma verdadeira fortaleza construída com o melhor que o dinheiro poderia oferecer. Era uma verdadeira pena que Russel tivesse conseguido tirar tudo de bom que havia lá e substituído pela sua aspereza característica.

“Quinn.” Frannie se aproximou e puxou a irmã mais nova para um abraço apertado. “Pensei que você não iria vir.”

“É aniversário da vovó, claro que eu viria.” Quinn revirou os olhos avelã. “Além disso quero que você conheça uma pessoa.”

“Quem?”

“Almoça comigo, daí eu te aprensento.” Ela respondeu e viu Frannie concordar com um aceno de cabeça.

Mais alguns passos e estava nos braços magros e já frágeis de sua avô Charlotte. A doce senhora faria seus oitenta e cinco anos no dia seguinte e ficara imensamente feliz em ver sua pequena princesa, ainda mais depois de tanto tempo sem vê-la.

“Minha netinha, que bom que você veio.”

“E perder sua festa de aniversário? Nunca.”

“E quando você vai se casar?” A senhora a olhou de forma inquisitora e Frannie abafou uma risada, fazendo Quinn bufar. “Sabe que quero ajudar a organizar seu casamento, e daqui uns anos não posso mais andar sem essa maldita muleta.”

“Você pode organizar o da Frannie, vovó.” A loira resmungou e sua irmã fechou a cara em uma carranca. “Melhor ainda, você pode arrumar um namorado pra ela. Eu faço questão de ajudar nessa difícil missão.”

Charlotte riu suavemente. Sentia falta de ver as discussões sem sentido das netas sobre namoros e casamento. Elas se tornaram bem menos frequentes desde que Quinn havia ido embora de Lima por causa do cabeça dura de seu filho. Russel era a cópia do pai quando se tratava de assuntos do coração e não aceitava que sua princesinha pudesse ser feliz com outra mulher.

Fora difícil para todos quando descobriram, mas com o tempo, a maior parte da família foi aceitando. Menos Russel. Quinn era a vergonha da família, até mais do que Frannie que era mãe solteira.

“Lucy.” Foi o cumprimento seco do homem quando a filha parou na sua frente.

“Russel.” Ela devolveu na mesma moeda, sem nenhuma paciência para lidar com seu pai tão cedo. Só queria um minuto de paz. Coisa que sabia que não teria na presença dele.

A tensão foi quebrada quando alguns dos primos e tios da loira a cumprimentaram. A maioria dos parentes ainda estava para chegar, então não teve muitas pessoas para abraçar e trocar palavras.

Foi levada pela pequena multidão para dentro do casarão e logo se viu sentada em um dos sofá da cor creme espalhados na sala de estar. A lareira estava acesa e emitia um calor gostoso no ambiente. As conversas enchiam o cômodo e todos queriam saber sobre a vida de Quinn em Nova York.

Estava respondendo uma pergunta de sua irmã quando sentiu seu celular vibrar no bolso. Já podia imaginar de quem era a mensagem e um sorriso doce e involuntário se abriu em seu rosto, coisa que não foi perdida por Judy e Frannie.

Baby, como as coisas então por ai? – Rach

Depois que o clima estranho passou, ficou bom. – Q

E nós vamos almoçar juntas ou o que? – Rach

Vamos sim. Tenho umas pessoas para apresentar a você. Espero que não se importe com isso Rach. – Q

Claro que não me importo ;) Vejo você depois baby. Amo você. – Rach

Amo você também, amor. Já sinto sua falta. – Q

♥ — Rach

Quinn se assuntou ao levantar os olhos do celular e perceber que era encarrada por sua mãe e irmã. “O que foi?”

“Nada.” As duas responderam em unissono e desviaram os olhos rapidamente.

Quinn deu de ombros confusa. Judy e Frannie eram realmente duas pessoas muito estranhas. Voltou a conversar com a avó e aproveitou para perguntar se poderia trazer algumas pessoas para a festa no dia seguinte. Charlotte concordou alegremente e a loira mais jovem sorriu. Era por isso que gostava tanto da avó.

Quando percebeu, o horário de almoço já se aproximava, e teria que se despedir deles.

“Bom, eu tenho que ir.” Falou para sua mãe e todos viraram em sua direção. “Combinei de almoçar com algumas pessoas, e já estou no horário. Se vocês não se importam, nos vemos a noite.”

“Você não quer almoçar aqui?” Judy perguntou levantando do sofá. “Pode trazer esses amigos.”

“Melhor não.” Quinn sacudiu a cabeça e levantou também. Então virou para a irmã. “Posso te encontrar no Lima Bean? Preciso passar no meu hotel.”

Frannie assentiu uma vez. Sabia que a pessoa que Quinn queria que conhecesse a esperava lá, e queria ter a oportunidade de observar de longe como elas interagiam. “Te encontro lá em meia hora, tudo bem?”

“Ok.” Concordou com a irmã e depois virou novamente para a família. “Até mais tarde, pessoal. Foi um prazer revê-los.”

Se despediu da sua avó e da sua mãe com um longo abraço e deu um olhar duro para Russel, que a encarava com os olhos verdes cerrados. Sentiu um alívio imediato assim que saiu da presença sufocante do homem que costumava chamar de pai.

O vento frio do inverno de Lima passou cortante pela loira, que se encolheu de forma protetora dentro do sobretudo negro que vestia. Apertou o passo e logo entrava no calor reconfortante do carro que começara a ser emitido pelo ar quente que soprava. Pegou seu celular novamente, e antes de dar partida no veículo mandou uma mensagem.

Meia hora, no Lima Bean. Não se atreva a atrasar! – Q.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse primeiro capítulo. Não deixem de comentar.