O sinal tocou. A aula de matemática havia acabado. Quinn sorriu; a próxima aula seria de espanhol. Ela poderia chegar atrasada, Mr. Schue sempre a deixava entrar na sala.

Ela caminhou até o seu armário, nos corredores, e o abriu. Admirou, por dois longos segundos, a foto de Sam que estava colada em seu armário. Na foto, ele estava sorrindo. Quinn sorriu, também.

Então, ela foi surpreendida por alguém que a abraçou por trás. Num ímpeto, Quinn fechou a porta do armário. Havia ficado surpresa num primeiro segundo, mas logo reconheceu o toque quente, gentil, acolhedor e firme daqueles braços.

– Ei, Barbie. – Sam murmurou em seu ouvido, a voz rouca. Quinn estremeceu.

– Meu Ken. – e, dizendo isso, ela virou-se e o beijou ternamente.

Toda vez que o beijava, Quinn não podia evitar pensar em como os lábios de Sam eram macios. Convidativos. A faziam ansiar por mais. E os beijos dele eram tão ternos que, às vezes, ela sentia vontade de chorar. Porque ninguém nunca a tinha beijado com tanto carinho e cuidado.

Relutante, separou-se dele. Olhou dentro dos olhos profundos de Sam, e obrigou a própria mente a se distrair para não se perder na imensidão daqueles olhos.

– E então, como foi na prova de álgebra? – ela perguntou.

Sam deu de ombros e, em seguida, ergueu sua prova para que Quinn a visse. Ela arregalou os olhos.

– A+? Você estudou? – Quinn havia ficado realmente surpresa.

– Não – ele deu de ombros novamente. – Mas álgebra é fácil.

– FÁCIL? Eu praticamente comi os livros, Sam. E tirei B-. Como isso é possível?

– Eu consegui – ele respondeu, indiferente.

– Você nunca me disse que era bom em álgebra.

– Você nunca perguntou.

Quinn estreitou os olhos. Sam nunca esperava que ela perguntasse para explicar qualquer coisa. Cavalheiro demais.

– Eu vou ter que ir para o treino, agora – Sam disse, de repente. – Já falei com Mr. Schue, e ele me liberou. Parece que a treinadora Beiste está querendo trabalhar "novas técnicas". – ele fez um muxoxo.

– Tudo bem – Quinn falou. – Mas, não demore. Volte antes que eu fique com saudades de você.

– Impossível – respondeu Sam com um meio-sorriso. – Senão, eu teria que voltar em menos de dois segundos. – ele piscou para ela.

– Que convencido! – ela deu um tapa no ombro dele. Sam alargou o sorriso.

– Até logo, Quinn. – e, após beijá-la suavemente, ele a abraçou e partiu.

Ao velo sumir no corredor, uma súbita idéia ocorreu à Quinn. Algo a estava incomodando. Algo sobre Sam. Ela sentia que tinha algo que ela precisava saber, mas não era algo que ele iria contar.

Ela era boa em arrombar armários, não era?

Pois bem. Sam não perceberia se ela fizesse uma pequena "vistoria" no armário dele. E, desta vez, ela não iria em busca de anel nenhum.

***

Era tudo muito estranho. O Sam naquelas fotos era quase irreconhecível. Quinn só o tinha identificado por causa do sorriso.

Ele tinha avisado que iria demorar mais no treino. Era a oportunidade perfeita para que ela pudesse "pegar umas coisinhas emprestadas" do armário dele.

Quinn havia encontrado, muitíssimo escondida debaixo de vários livros e outras quinquilharias, uma pasta azul muito velha e surrada que continha "material suspeito". Ela estava se sentindo uma idiota, mas, agora, estava num cantinho isolado da biblioteca do colégio, imersa em pensamentos.

Logo quando se abria a pasta, viam-se muitas fotos de clubes de ciências, matemática e tudo mais que se podia imaginar. Sam estava em todas: os cabelos lisos e castanhos iam até os ombros, e ele usava óculos piores que os de Artie.

Até aí, ela já havia estranhado demais. Ele parecia isolado e deslocado em todas as fotos. Quase como se estivesse com medo de algo. E, além do mais, Sam nunca havia mencionado nada sobre suas notas ou sobre os clubes dos quais participava em seus relatos sobre o internato de onde viera.

Quinn procurou mais fundo, na pasta. Até que se deparou com um recorte de jornal, que trazia a seguinte matéria:

Aluno é espancado por delinquentes e encontrado à beira da morte

Ohio, Lima, 22 de Novembro de 2009 – Samuel Johnson Evans, 16 anos, estudante cursando o segundo ano na Gentleman's Academy, foi encontrado à beira da morte por um professor da instituição, em um terreno abandonado próximo ao internato. O garoto tinha manchas por todo o corpo, ossos fraturados, ferimentos seríssimos e seu rosto estava desfigurado. Fontes dizem que o garoto foi levado para lá à força em um jipe azul-marinho, e um carro com estas descrições foi achado abandonado próximo ao local onde Samuel fora encontrado.

"Johnson é um menino tão bom, sempre gostou de ajudar os outros" disse Steven Adams, professor que encontrou o garoto pouco antes de ele encontrar a morte. "Mas a verdade é que existem pessoas que sentem prazer em humilhar os outros, e a Gentleman's Academy não está conseguindo lidar com este tipo de problema" declarou o professor, dando a entender que as causas do espancamento do garoto teriam haver com bullying e/ou preconceito.

Samuel encontra-se internado em estado grave. Ele está em coma, com 67% dos ossos de todo o corpo fraturados.

A polícia está averiguando o caso, em busca dos agressores.

Ao lado, acompanhando a notícia, havia uma foto. Uma foto de um Sam desacordado, maltrapilho e brutalmente ferido sendo colocado em uma ambulância. Ele estava completamente irreconhecível, mas Quinn, de alguma forma, sabia que era ele.

Ela abafou um grito. Nós se formavam em sua garganta. As milhares de dúvidas que rondavam em sua cabeça extravazavam em forma de lágrimas.

Quinn e Sam precisavam ter uma conversa. Uma conversa muito, muito séria.

***

Sam tinha insistido para que a treinadora Beiste o liberasse mais cedo do treino. Depois de, infernizando-a, finalmente conseguir ser liberado, ele tomou um banho em um dos chuveiros do vestiário e se apressou em sair do colégio.

O motivo? Quinn havia mandado uma mensagem pra seu celular, pedindo para que ele a fosse encontrar no parque que ficava próximo ao McKinley High School, no "cantinho deles". Pois é. Debaixo de um frondoso pessegueiro, que ficava no lugar mais afastado do parque e onde praticamente ninguém ia. Eles já haviam feito até alguns pique-niques ali.

Sam não sabia o que ela queria ou o porquê de ela ter ido embora tão cedo. Mas, um pedido de sua Queen era uma ordem.

Ele estava completamente apaixonado por ela, não havia como negar.Quinn era a primeira garota com quem ele se envolvia em muito, muito tempo. Pelo menos, depois de ser espancado por meia dúzia de garotos, que o achavam "um nerd fraco", que diziam que ele era gay e que envergonhava o nome da Gentleman's Academy.

Sam estremeceu com a lembrança e afastou o pensamento. Ele era o garoto mais popular do colégio, agora. Não tinha que ouvir ninguém dizendo para ele, todos os dias, as mesmas coisas. As mesmas baboseiras. Nada.

Ele estava muito bem, obrigado.

Sam passou o resto do caminho até o parque cantarolando algumas músicas de John Lennon, cantor que ele adorava. Ao chegar à alguns metros do pessegueiro, avistou Quinn, linda como sempre, sentada em um pequeno banco de madeira encostado à árvore.

Ele se aproximou, todo sorrisos. Sentou-se ao lado dela e, após murmurar um 'oi', a puxou para um beijo.

Para a sua surpresa, Quinn virou o rosto. Ele a encarou e ergueu uma das sobrancelhas.

– Precisamos conversar, Sam.

– Sou todo ouvidos. – ele ainda estava muito confuso.

– Ok – Quinn respirou fundo, provavelmente tentando encontrar um jeito de começar. – Por que você... Você nunca me contou sobre quem você realmente é?

Sam gelou no lugar. Ele não estava entendendo. Quer dizer, não havia como entender, havia?

– Quinn, do que você está falando?

Ela revirou os olhos, impaciente.

– Do que eu estou falando? Sobre você ser Samuel Johnson. Sobre Steven Adams, o homem para quem você me apresentou na sexta-feira passada, NÃO ser seu pai. Sobre... Sobre tudo o que você passou.

Ele não podia acreditar.

Como ela havia descoberto? Ele havia sido tão cuidadoso! Sam sempre temeu que, quando descobrisse quem ele realmente era – um zé ninguém, que havia praticamente mudado de identidade quando mudou de colégio – pudesse abandoná-lo. E ele não poderia suportar isso.

– Quinn, ouça...

– Não estou cobrando nada! Você não tinha obrigação nenhuma de me contar, Sam. Mas achei que confiasse em mim. Como eu confio... Confiei... Em você. Te contei meus segredos mais íntimos. Eu... Eu realmente não consigo entender o motivo de você não confiar em mim.

– Mas eu confio em você!

– Sério, Sam? Nem o seu nome completo você foi capaz de me dizer. Quem é você, afinal?

A voz dela tremia, e foi abaixando até se tornar somente um sussurro. Sam não sabia o que dizer. Primeiro, ele havia ficado com muito medo. Medo de perdê-la. Em seguida, confusão. Afinal, como ela havia descoberto tudo isso? E, por último, revolta, após entender o que havia acontecido.

– Quem te deu o direito de mexer nas minhas coisas? – ele esbravejou, realmente zangado.

– Não mude de assunto, Sam! – Quinn se levantou.

– Não estou mudando de assunto! Admito, eu errei, ok? CONFIO em você. Mas estava... Estava com medo de que você me abandonasse depois que descobrisse quem eu era. Ou melhor, quem eu não era.

Ele também se levantou.

– Mas você não tinha o direito de fazer isso. Jamais!

– Ah, vai virar o jogo contra mim, agora? – ela sorriu sarcasticamente.

– Não, porque isso não é um jogo. Só não consigo entender o que eu fiz para que você desconfiasse tanto de mim a ponto de arrombar o meu armário, fuçar as minhas coisas. Me investigar como se eu fosse um criminoso!

– Francamente, você sabe que não é nada disso – ela bradou. – Eu só estava confusa. Foi instinto.

Sam meneou a cabeça.

– Se tem uma coisa que eu sei fazer, é admitir meus erros – ele murmurou. – Me desculpe por omitir tanto de você. Mas você não tinha o direito de fazer isso, Quinn. Não mesmo.

E, após dizer isso, Sam deu as costas à ela. Caminhou firmemente para fora do parque. Precisava encontrar um jeito de extravasar. De esquecer o corrido. Precisava ocupar a mente e botar para fora toda a revolta que estava sentindo.

Concentrado para não esmurrar a primeira pessoa que visse pela frente, Sam caminhou rapidamente até o McKinley. Ele já sabia o que iria fazer.

***

Egoísta. Era como Quinn estava se sentindo neste exato momento.

Em nenhum momento, ela havia se colocado no lugar de Sam. Imaginado como seria difícil contar a verdade à ela. Ou como se sentiria se ele o estivesse vigiando como se ela fosse uma criminosa. Enfim, egoísta.

E, há muito tempo, Quinn estava tentando deixar de ser egoísta. Desde que havia quebrado – e BEM feio – sua cara com uma das pessoas mais egoístas que ela conhecia. Noah Puckerman.

Quinn gostava de Puck, de verdade. E ele dizia que era recíproco. Mas, como isso poderia ser verdade, se ele sempre fazia sexo com a primeira cachorra que passasse em sua frente, alegando que era um tubarão do sexo e precisava daquilo para sobreviver? Só havia um nome para a atitude dele. Egoísmo.

E então, ela tinha encontrado uma pessoa que gostava realmente dela, dela e só dela. Que segurava sua mão nos momentos mais difíceis e sempre tentava fazer com que ela se sentisse melhor. E ela o estava amando de verdade. Mas, claro, TINHA que estragar tudo.

Quinn estava tentando ligar para o celular de Sam há cerca de vinte minutos. Quando ele saíra sem dizer uma única palavra, ela ficara sem reação. Porém, agora estava arrependida. Queria falar com ele. Conversar. Mas ele não atendia a porcaria do celular.

Numa última tentativa desesperada, ela resolveu ligar para Finn. Afinal, ele e Sam haviam se tornado unha e carne, de uns tempos para cá. E, além do mais, ela e Finn estavam voltando a se falar. Na verdade, já eram até uma espécie de amiguinhos felizes.

– Alô? – a voz soou baixa e monótona do outro lado. Por um segundo, Quinn se perguntou o motivo, até se recordar de que ele e Rachel ainda estavam separados. Ah, o amor.

– Finn? – ela perguntou debilmente. – Ahn, é a Quinn – falou ela, debilmente de novo, afinal ele sabia que era ela.

– Oi, Quinn. A que devo a honra? – ele perguntou sarcasticamente.

– Ahn, você viu o Sam por aí? Sabe, estou procurando ele, mas não o encontro. – mentiu ela. Bom, não era exatamente uma mentira. Mas, ok.

Finn riu secamente.

– Pois saiba que estou com um olho roxo agora mesmo. E por causa dele.

– O quê? – Quinn abafou um grito de surpresa. – Como? O que aconteceu?

– Digamos que ele se revoltou por alguns comentários que eu fiz. Sobre você. – Finn fez uma pausa. – Na verdade, nem eu mesmo entendi, Quinn. Ele parecia muito nervoso. Eu nem descontei. Teria acabado com ele, você sabe.

Quinn revirou os olhos.

– Ok, Finn. Eu sei que você é invencível. Mas você sabe onde ele pode estar agora?

– Não faço idéia. Saiu do colégio agora há pouco.

– Tudo bem, obrigada. Ahn... Melhoras. Digo, para o seu olho.

– Obrigado – ele respondeu com indiferença, e desligou.

Bom, ela teria que esperar. Esperar que Sam esfriasse a cabeça e resolvesse conversar com ela. Mas Quinn estava nervosa demais. Precisava desabafar, precisava chorar. Ele estava com medo.

Quinn não sabia o que era sentir medo desde que tivera Beth. E, agora, estava com medo de perder Sam. Ela não conseguiria ser a mesma sem ele. Não se sentir segura o suficiente, capaz o suficiente.

E precisava dizer isso para alguém. Chorar no ombro de alguém.

Num ímpeto, pegou o celular. O horário das aulas já tinha acabado, provavelmente não teria problema ligar. Quinn discou o número que nunca havia esquecido desde a primeira vez em que o havia discado. Ela sabia que esta era sua única amiga de verdade, nem sua mãe a compreenderia tanto como ela.

– Mercedes? – Quinn murmurou ao telefone, a voz trêmula. – Será que podemos conversar?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.