The Time
4 III
— Temos só três camas. Não esperávamos mais ninguém. – Erik dizia enquanto arrumava uma das camas. – Você pode dormir na minha. Vou dormir no sofá.
— Não! Eu sou a visita, não quero que você saia do seu conforto.
— Você precisa descansar. E não é no sofá que isso vai acontecer.
Sam ia protestar, mas Erik não deu chance.
— Deita aí e descansa bem. – ele pegou algumas cobertas e desceu as escadas.
Eu me revirei na cama sei lá quantas vezes. O sono não vinha, apenas preocupações. Será que meu pai estava vivo? Amanda estaria bem? Será que o tempo havia passado lá?
— Não tá conseguindo dormir né? – disse Ashley.
Me virei e vi ela sentada em sua cama.
— Também não consigo dormir direito. – ela coçou a cabeça.
— Eu penso demais e acabo criando problema que não existe. – respondi.
— Acontece comigo também. Tem vezes que eu nem durmo.
— É complicado.
— Vou tentar dormir. Amanhã é um dia cheio. – ela se jogou na cama e virou para o outro lado.
Eu não a entendia. Ela puxava papo comigo, me elogiava e depois me ignorava completamente.
Peguei meu diário. Ele havia vindo comigo. Estava tudo do jeito que eu deixei. Cada desenho, cada rabisco.
Caiu de lá de dentro, os vinte dólares que minha mãe havia me dado. Eu o prendi com clips em uma folha nova.
Querido diário, essa nota de vinte dólares é meu tesouro eterno. Eu nunca a gastarei ou a perderei.
Minha mãe me deu na realidade em que eu tentei salvá-la da morte, mas acabei a condenando a algo muito pior.
Mesmo naquele estado, ela ainda se preocupava se eu iria comer.
Eu a amo tanto. Sinto muita falta dela.
Eu estou agora na casa do Erik. Ele tem dois irmãos gêmeos.
Ashley é o oposto de Jay. Ela fala alto, fala o pensa e é decidida. Não sei se ela gosta muito de mim.
Jay é o oposto de Ashley. Ele é quietinho, não fala muito. Mas é um menino muito bom.
Eles parecem ter um grupo radical que luta contra esse tal de John Carter. Preciso perguntar ao Erik quem ele é.
Yano parece ser o segundo líder. Ele não gosta de mim e acha que sou uma pessoa ruim. Eu não o julgo por desconfiar, mas ele não precisava me tratar mal daquele jeito. Bem, fazer o quê...
Acho que Erik quer que eu fique aqui. Parece que eu criei uma bolha de anormalidades e ele vai ter que resolver. Como sempre, estou trazendo problemas as pessoas. Nada de novo sob o sol.
Fechei o diário e adormeci quase que instantaneamente.
Acordei com um cheiro maravilhoso de café da manhã. Levantei da cama e prendi uma mecha de cabelo com a presilha. Desci as escadas e vi Erik cozinhando.
— Bom dia. – eu disse.
— Bom dia. Acordei você? – ele perguntou.
— Sim, com esse cheiro maravilhoso.
Ele riu e voltou para o que estava fazendo.
Jay mexia com alguma peça tecnológica na mesa perto da porta de vidro. Ashley lia um livro sentada no sofá verde.
Fui até o banheiro jogar uma água no rosto. Quando voltei, Erik havia arrastado uma mesa até o sofá verde com duas cadeiras. Ele colocava as coisas na mesa.
— Não é muita coisa, mas deve estar gostoso. – ele disse para mim.
— Pra mim tá ótimo. – respondi e fui me sentando no sofá verde.
Erik havia preparado café, panquecas e uns pães assados. Enchi uma xícara de café e comi um pedaço de cada coisa.
— Obrigada pelo café. – agradeci. – Quer ajuda pra tirar a mesa?
— Não, essa é a tarefa da Ash e do Jay.
Os gêmeos começaram a tirar a mesa e lavar a louça.
Erik vestia uma regata branca que realçava seus músculos e uma calça preta com botas.
— Terminei seu rastreador. – ele pegou meu braço com o "relógio" e adicionou um chip. – Pronto.
Girei o braço a procura de alguma mudança.
— Obrigada. – agradeci.
— Disponha.
Ele voltou para sua mesa e continuou o projeto que Jay mexua antes. Sentei no sofá e peguei uma revista, mas ela parecia um tablet.
— Você nunca viu uma revista? – provocou Ashley.
— Na minha Terra elas são feitas de papel. Isso aqui parece um tablet.
— O quê é um tablet? – perguntou Jay.
— Igual um celular, só que maior. – respondi.
— O quê é um celular? – perguntou Ashley.
— Como vocês se comunicam? – perguntei exasperada.
— Com isso aqui. – Ashley retirou da orelha um triângulo e deu na minha mão.
— Que porcaria é essa? – eu segurava na ponta dos dedos e girava.
— Nosso telecomunicador. – Jay respondeu.
— Como isso funciona?
— Você coloca ele na orelha e fala os comandos. Como por exemplo, ligar para meu namorado Erik. – disse Ashley.
Erik virou na mesma hora com os olhos semicerrados. Ashley deu de ombros.
— Ele também mostra vários pontos escondidos. Como passagens secretas. – ela continuou. – Agora me explica, o que é um celular e um tablet?
Coloquei o telecomunicador na mesa e subi as escadas. Dentro da minha bolsa, estava meu celular.
— Isso é um celular. – coloquei na mesa enquanto sentava de novo no sofá.
— É tecnologia dos antigos... – Jay estava chocado.
— Que? Isso é tecnologia de ponta na minha Terra.
— Então sua Terra é bem atrasada. Isso aqui existiu a mais de quinhentos anos. – ela pegou o celular e analisou. – Mas eu não sabia que tinha um nome.
— Como assim tecnologia dos Antigos? – eu estava perdida.
— Antes de nós existiu um povo igual ao seu. Mas isso faz muito tempo. – ela explicou.
— Então, resumindo, se nossas linhas do tempo, fossem uma só, eu teria vivido a mais de quinhentos anos.
— Isso mesmo. – Jay concordou.
— Jesus Cristo, que bagunça. – coloquei a mão na testa.
— Sam. – chamou Erik. – Você quer um telecomunicador?
— Sim! – falei sem hesitar.
— Certo, vou montar um pra você.
— Quem é John Carter? – perguntei.
Jay arregalou os olhos e saiu da sala.
— Desculpa, eu...Não sabia...Desculpa.
— Jay não gosta de ouvir o nome dele. – Ashley explicou. – John Carter é um mosntro. Roubou tudo que tínhamos e nos largou na lama. Ele é dono da empresa que comanda essa cidade. Tudo que existe vem da Carter Enterprise. — ela fez cara de nojo ao citar o nome da empresa.
— Ele é realmente um homem ruim, ein? – falei sem ter muito o que dizer.
— Você nem tem noção. – ele levantou e foi atrás de Jay.
— Hoje nós teremos uma missão. – disse Erik. – Você vai ficar aqui com Jay. Certo?
— Por que não posso ir?
— É perigoso.
— Eu quero ser útil. Mas se você acha que sou útil aqui com Jay. Não vou protestar.
— Obrigado por entender. Jay não gosta muito de ir até a empresa daquele homem.
— O quê vocês vão aprontar?
— Precisamos de peças. Estamos quase sem núcleos.
— O quê é um núcleo?
Ele pegou uma bolinha azul que brilhava em sua mão.
— Isso é um núcleo. Essa pecinha que faz cada objeto funcionar.
— Entendi.
Passos foram ouvidos. Era o grupo radical de Erik.
— Tudo certo para hoje à noite? – disse Yano entrando na sala.
— Yano. Sim, está tudo certo.
Yano tinha os olhos cravados em mim. Peguei meu celular para tentar disfarçar meu desconforto.
— Que porcaria ela tá usando? – Yano perguntou.
— Isso é...TECNOLOGIA DOS ANTIGOS? – aquele menino de cabelos castanhos de antes perguntou.
— Creio que sim. – respondi.
— Posso ver? Por favor?
— Claro. – entreguei o celular para ele.
Seus olhos brilhavam.
— Quem é essa na foto?
Yano se esgueirou para ver.
— Amanda, minha amiga.
— Legal. – ele continuava mexendo.
— Bom, ontem não tivemos apresentações. – disse Erik. – Pessoal, essa é Samantha. Samantha, esse é o grupo rebelde Optimus. Tem o Yano, que você já conhece. Esse com seu celular é o Jake. – ele estendeu a mão. – Aquele ruivo do fundo é o T.EC., ele prefere ser chamado assim. Os outros ruivos são irmãos dele. Dylan e Kalel.
— É um prazer conhecê-los. – respondi.
— Sam vai ficar com Jay hoje. – Erik disse.
— Não vai não. Ela vai conosco. – disse Yano. – Se ela é quem diz, terá que provar.
— Yano, não começa. Ela não tem nossas habilidades. Só vai atrapalhar.
Obrigada, Erik.
— Não, Erik. Ela vai conosco e ponto final.
Erik colocou as mãos na cintura, respirou fundo e disse:
— Se algo acontecer, a responsabilidade é toda sua.
Yano concordou com a cabeça.
— Na hora estaremos aqui. – o grupo todo saiu.
— Erik! Que ideia maluca é essa? – levantei do sofá.
— Talvez ele tenha razão. Será bom você ir, aprender como lutamos e tal.
— Você mesmo disso, há tipo, cinco minutos que era perigoso que eu fosse.
— Eu não queria te meter nessa situação, mas não vai ter jeito. Ashley ficará com Jay e você vem comigo. – ele se aproximou e colocou uma mecha de cabelo meu para trás. – Eu vou te proteger.
— Então tá. – falei firme, mesmo querendo beijar aquela boca.
— Vou terminar seu telecomunicador e fazer uma arma de plasma.
— Arma de plasma?!
— Sim, uma arma de plasma. Ela atira com calor. Não tem armas na 610?
— Tem, mas elas usam balas não calor.
— A nossas realidades são muito diferentes. – ele riu enquanto ia até um armário.
— Tem razão.
Ashley e Jay voltaram. Quando ela soube que ficaria em casa, não ficou muito feliz.
Erik fez janta para todos nós. Eu oferecia ajuda a cada cinco minutos, mas ele negava todas educadamente.
— Você cozinha muito bem. – elogiei.
— Obrigado.
Ele fez uma sopa muito saborosa acompanhada de pãezinhos.
Mesmo não morando na elite futurística, eles tinham o que precisavam.
— Vocês trabalham? – perguntei.
— Não. Roubamos tudo. – Ashley disse sem rodeios. – Somos procurados, Sam. Como trabalharíamos?
— Procurados? Por quê?
— História para outra ocasião. – Erik cortou o assunto.
Eu entendi o recado e parei de perguntar coisas que não eram do meu interesse.
Batidas foram ouvidas, Ashley correu até a porta e o grupo entrou.
— Vamos? – Yano parecia apressado.
— Espera eu organizar umas coisas. – respondeu Erik.
Jake veio até mim e devolveu o celular.
— Fiquei muito entusiasmado e acabei esquecendo de devolver.
— Nem dei por falta. – sorri para ele.
Eles eram crianças. Crianças lutando contra um tirano milionário. Qual o sentido?
Erik me entregou uma capa preta, igual a dele, um telecomunicador e uma pistola branca.
— Quando quiser ativar o telecomunicador, toque nele. – ele estava me orientando.
O encaixei na orelha e coloquei a arma na cintura. Me senti uma Exterminadora do Futuro.
— Escute, Samantha. Você fica comigo e com Erik. Não saia de perto e não toque em nada.
Balancei a cabeça em sinal de que havia entendido.
O grupo saiu. Erik dava conselhos a Ashley.
— Você não saia de casa e cuide de Jay.
— Tá, Eri. Eu sei. Vai logo.
Erik deu um beijo em sua bochecha, ela limpou.
— Vamos.
Eu o segui porta a fora. Descemos uma longa escadaria de dentro do prédio, até sairmos em uma porta em um beco qualquer.
— Nós vamos andando. Deixei no seu telecomunicador informações sobre o que estamos fazendo. – disse Erik.
— Certo, vou dar uma olhada.
Toquei no comunicador. Abreviei por que era desnecessário falar o nome todo. Enfim, quando o toquei, abriu uma grade de luz roxa.
— Bem-Vinda, Samantha. – disse a voz tão humana, que poderia acreditar que estava no telefone.
— Olá. – respondi.
— Sam, fala mais baixo.
— Desculpa. – sorri envergonhada.
— Sou sua assistente pessoal. O que deseja ver primeiro?
— Você tem um nome?
— Você deseja me dar um nome?
— Sim. Que tal...hmmm...Diana?
— Um belo nome. Significa deusa da lua.
— Que bom que gostou. Bom, Diana. Eu quero saber informações sobre a Carter Enterprises.
— Buscando informações...
Apareceu bem na minha frente a foto de John.
— Carter Enterprise é uma empresa multimilionária liderada pelo CEO John Carter. Em sua fábrica principal, é fabricado tecnologia de ponta.
— Me fala sobre os núcleos.
— Núcleos. São orbes de energia tecnológica que são a vida de cada peça.
— Eu gostaria de pedir algo...
— Estou ao seu seu dispor, Samantha.
— Caso eu precise atirar, você poderia me dar uma mira?
— Com toda certeza. Toque no telecomunicador que te ajudarei.
— Obrigada, Diana. Vou desligar. – toquei no comunicador.
O grupo se agachou atrás de uns caixotes. Uma fábrica era vista. Agachei junto deles.
— É essa a fábrica? – perguntei.
— Sim. – T.E.C respondeu e abriu um computador.
— Eles são da área tecnológica. Vão ficar aqui e abrir as portas. – Erik explicou. – Tem um carregamento chegando. Pega essa mochila e quando entrarmos, enche com o máximo de núcleos que você conseguir.
Concordei com a cabeça.
Após alguns minutos, um caminhão,que parecia flutuar, apareceu e em sua lateral havia a logo da empresa.
— É aquele. – Erik apontou.
Do caminhão, desceu um homem, que não parecia um funcionário. Yano pegou os binóculos e esbravejou.
— Aquele maldito está lá.
— Quem está lá? – perguntei.
— John Carter.
Erik parecia a ponto de desistir. Suas mãos começaram a tremer.
— Não viemos até aqui atoa. Vamos logo.
Ele e Yano foi agachados. Eu os segui.
Havia um buraco na grade. Yano foi primeiro e Erik fez sinal para que eu fosse também, logo depois ele entrou.
— T.EC. estamos dentro. – ele tocou no comunicar e disse.
— Certo. Na sua frente tem essa cabine de controle. Lá dentro, está na chave do caminhão. Vou dar um apagão de cinco minutos, antes que a inteligência deles nos hackeie.
— Certo. Obrigado.
Fomos até a cabine de controle. Havia dois seguranças lá dentro. Erik puxou a janela, mas ela não abria mais que uma fresta, eles não passavam por ali.
— Você entra, Sam. – ele disse.
— Eu o quê? Tá maluco?
— Você é a única que passa ali, mulher. – disse Yano.
Respirei fundo.
— Certo.
Erik concordou com a cabeça.
— T.E.C, agora!
Tudo ficou escuro, mas graças ao comunicador, eu enxergava perfeitamente.
Passei pela fresta. Os guardas ligaram lanternas e falavam no rádio com alguém. Se não fosse aquela parede, eles teriam me visto.
Vi a chave, ela estava em uma parede perto deles.
Como eu chego ali?
Havia um pé de cabra do meu lado. O peguei e arremessei do lado oposto do lugar.
— Quem está aí? – as lanternas viraram imediatamente ao lugar do barulho.
Corri até a parede e peguei a chave. Mas o segundo guarda me viu e me segurou na parede. Fechei os olhos e voltei no tempo.
Eu tinha que ser invisível. Se eles percebessem que estávamos ali, era o fim.
Corri até o lugar que eu havia estado antes e voltei no tempo mais uma vez. Os guardas estavam falando no rádio com alguém, exatamente como estava antes.
Fui andando agachada até a janela e saí.
— Pegou? – perguntou Yano.
Mostrei à chave.
— Você voltou no tempo, Sam? O quê eu disse? – Erik me repreendeu.
— Depois que pegarmos tudo, vocês podem ter uma D.R, agora não é hora. – Yano pegou a chave da minha mão e foi correndo agachado até o caminhão carregado.
Nós o seguimos.
— Isso é o paraíso dos softwares! – riu Erik e bateu as mãos com Yano. – Vai, Sam. Enche a bolsa. Temos dois minutos. – ele disse conferindo o relógio.
Enchi a bolsa de núcleos, assim como ele havia me pedido.
Quando estávamos para sair, vimos guardas armados nos cercar. Atrás deles estava John Carter.
— Ladrões sujos. Nem perceberam que era uma armadilha? – ele debochou.
Erik me colocou para trás dele.
— Senhor, acharam mais três deles escondidos nas mediações. – disse um guarda.
Outros guardas vieram trazendo T.E.C e seus irmãos, Dylan e Kalel.
— Erik Parker, como vai seus irmãos?
Erik fechou a cara.
— Vejo que adicionaram uma mulher ao grupo. Já não era sem tempo. – ele se aproximou, Erik e Yano colocaram a mão nas armas. – Eu disse que não sairiam com vida se viessem que outra vez. Acho que fui bem claro nessa parte.
Guardas apontaram armas para Dylan, Kalel e T.E.C. Yano, Erik e eu apontamos para John. Toquei no comunicador.
— Mira. – sussurrei.
Diana ajustou uma mira em todas as cabeças inimigas.
— Bom, eu avisei. – ele fez sinal e o guarda atirou na cabeça de Dylan, depois na cabeça de Kalel.
T.E.C gritou. Yano e Erik atiraram nos guardas, eu tentei, pelo menos.
Quando estávamos fugindo, John Carter me olhou com um olhar de espanto.
— Eu vou achar você, menina!
Fui a única coisa que ouvi antes de receber um baque nas costas.
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