The Tales of Republic City
3 Isso Não É Um Encontro (Mako)
Notas iniciais
Do alto dos seus vinte e poucos anos, havia pouca coisa que Mako ainda temia. Ser o melhor amigo da Avatar, compor parte de seu time e ter se envolvido – direta ou indiretamente – com todas as tramas políticas mundanas e/ou espirituais que esse tipo de vínculo trazia, tinha esse benefício ao fim e ao cabo.
Infelizmente nada em suas aventuras ou vida prévia o tinha preparado e blindado para os olhos determinados de sua avó Yin, nem para a sua persistência teimosa. O rapaz havia tentado e conseguido com alguma margem de sucesso fugir das primeiras investidas da matriarca de sua família paterna quando ela começara a desenvolver aquela obsessão com a ideia de lhe arranjar um par.
Para Yin era um absurdo o modo como seu neto havia conseguido estragar as coisas com as duas jovens mais promissoras em toda aquela metrópole barulhenta, luminosa e cheia de gente, então antes de voltar para a sua cidade natal (agora que as coisas finalmente estavam estabilizadas na Nação da Terra), ela tinha fincado como uma espécie de novo objetivo de vida encontrar uma boa moça para Mako, não importasse o quanto ele protestasse.
Mako, por sua vez, resistiu bravamente pelo máximo de tempo que foi possível, mas algumas batalhas simplesmente não podiam ser vencidas. Era por isso que ele carregava aquele olhar derrotado e com pés muito pesados se dirigia até a sala de estar do pequeno apartamento que dividia com Bolin, onde os seus três consultores de estilo não oficiais já o aguardavam.
— Então...? – ele murmurou, olhando para o irmão mais novo, sentado no tapete da sala com Pabu, enquanto Asami dividia assento no divã com Korra, que tinha um braço sob o ombro da namorada. Aquela, felizmente, já era uma cena que não lhe gerava nenhum tipo de torpor mental.
— Você está... – Korra começou, analisando-o por um instante.
— Parecendo o meu personagem, Nuktuk, no episódio 6 de suas novas aventuras! – Bolin exclamou, interrompendo a amiga com os olhos verdes brilhando de empolgação.
— Isso significa que eu deveria me trocar, certo? – Mako preferiu dirigir a pergunta para Asami, que era a pessoa que ele mais confiava quando o assunto era “formas de parecer apresentável”.
— Não. Você está ótimo. – sua ex namorada afirmou.
— Asami tem razão. – sua segunda ex namorada confirmou. Se ela estava sendo sincera ou apenas aproveitando a deixa para agradar Sato era difícil prever, mas o fato é que as duas se olharam daquele jeito romântico que elas vinham fazendo há tempos.
— Por Kyoshi, arrumem um quarto. – Mako pediu, fazendo uma careta involuntária.
— Você sabe, vovó provavelmente tem razão. – Bolin disse, coçando a orelha de Pabu. – Você anda meio ranzinza com qualquer casal que passa na sua frente, vai ser bom se alguma alma corajosa quiser namorar com você.
— Eu não tenho culpa se todos os meus amigos são tão fãs de demonstrações públicas de afeto. – Mako rebateu, cruzando os braços enquanto se lembrava das incontáveis vezes que ele havia presenciado Bolin e Opal se beijando na sala só naquela semana.
— Você está passando muito tempo com a Chefe Beifong, Mako. – Korra sorriu torto, prevenindo-o.
— É mesmo. Sabe o que eu acho que ele precisa, meninas? – Bolin se virou para encarar as garotas. – De uma grande e melosa demonstração de afeto.
— Time Avatar, no meu comando...! – Korra pulou após concordar com o amigo, puxando Asami pelo braço. – AGORA! – ordenou e os três correram em direção a Mako ao mesmo tempo, derrubando-o no chão no abraço grupal mais doloroso e estrondoso possível.
— Au! Vocês são doentes! – Mako reclamou, mas acabou rindo com eles e a verdade é que a única coisa que o consolava é que se sua noite de folga (já previamente arruinada por sua vó) fosse um completo desastre como ele temia, sabia que teria aos três para consolá-lo na volta para casa.
*
Era um encontro às cegas, já que a descrição fornecida por Yin (“é a sobrinha-neta de uma antiga amiga minha que encontrei no mercado dia desses! Ela também migrou para cá durante a crise”) não significava nada para o jovem detetive de polícia. Ele havia combinado de encontrar a garota num novo restaurante de culinária típica da Nação da Terra que havia aberto em um bairro bonito e perto do Departamento de Polícia.
No seu caminho até lá, Mako pensou em desistir exatas duzentas e oito vezes. Embora o seu histórico parecesse dizer o contrário, a verdade é que ele não era muito bom com garotas. Era uma sorte que as duas que ele mais tinha se dedicado fossem tão mais capazes socialmente do que ele, porque se não fosse a proatividade de ambas, ele jamais teria namorado qualquer uma delas.
E o que sua avó Yin não sabia, é que ele não poderia concordar mais com ela na parte de achar que suas ex-namoradas se tratavam mesmo das duas garotas mais promissoras do mundo. Não é como se ele tivesse algum resquício de sentimento romântico por Korra ou por Asami: o tempo apenas deixava mais claro o quanto eles funcionavam bem como amigos, e, talvez justamente por isso era difícil para ele conceber garotas que equivalessem ao nível de incredibilidade que ele atribuía as amigas.
— Mako? – uma moça inquiriu, parecendo tão desconfortável quanto ele, na entrada do restaurante. Ela usava um cardigã verde escuro e tinha as mãos enfiadas nos bolsos como ele.
— Maya, certo? – ele não sabia se era porque ela tinha olhos castanhos esverdeados realmente bonitos ou porque teve um vislumbre mental de Bolin dizendo que os nomes deles combinavam, mas ele se sentiu relaxar.
— Isso. – ela sorriu, endireitando os óculos na ponte do nariz.
— Vamos entrar? – ele chamou, sentindo-se estúpido novamente e perdido no meio de protocolos sociais.
— Vamos. – Maya sorriu de novo, mas então acrescentou, um pouco envergonhada: — Antes, eu preciso dizer uma coisa. – e porque havia sinceridade em sua voz, Mako se encheu de coragem e disse:
— Eu também.
E então, sem ensaio, mas em perfeita sincronicidade, os dois disseram ao mesmo tempo:
— Isso não é um encontro. – e suspiraram aliviados, rindo da coincidência.
— Você também foi ameaçado por uma parente muito idosa e assustadora para estar aqui, não é? – Mako quis saber, interessado.
— Sim. E eu acho que ela já estava considerando utilizar objetos pontiagudos da cozinha para dar ênfase aos seus argumentos. – Maya disse em tom de confidência, fazendo Mako rir de verdade.
— Eu entendo o sentimento. Estou certo de que minha avó estava pensando em coisas parecidas.
Com isso posto, os dois decidiram entrar e checar o restaurante.
O ambiente era agradável.
Não era um encontro, mas ambos concordavam que comer nunca havia feito mal a ninguém. Não era um encontro, mas Mako estava sorrindo de verdade para a moça de voz suave e cabelos ondulados que faziam ele se perguntar como seria passar os dedos pelas mechas. Não era um encontro, mas o detetive percebeu que era perfeitamente possível ser uma heroína dando aulas para crianças agitadas da Cidade da República e que isso era tão incrível quanto ser a encarnação do avatar ou a mente brilhante por trás das Indústrias do Futuro. Não era um encontro, mas em algum momento ele começou a se sentir internamente grato pela obsessão irritante e inédita de sua avó de se meter em sua vida pessoal. Não era um encontro, mas era possível que vovó Yin fosse embora com um sorriso de vitória nos lábios dali há alguns meses.
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