The System
1 Um Dia em ShotTown
É ainda manhã, percebo enquanto ergo as cobertas com a mente e levito até o chão me colocando de pé. O Sol aparece coberto por uma nuvem cinza atrás de minha janela rachada. Ando rápido até a cozinha, alongando as pernas e deixando meu quarto, fazendo um relatório mental deste ao sair. Devo guardar meia hora de meu dia para arrumar meu closet, o qual, percebi ao olhar de relance ao redor enquanto me erguia, está totalmente fora de ordem. Me sirvo de café rapidamente logo após prepará-lo de forma preguiçosa enquanto assistia T.V. Hoje as notícias não foram muito boas para ShotTown. O jornal local apresentou um novo ataque de bombas na região central e foi passada, rapidamente ao final do programa, a lista de nomes de agentes escalados para investigar o caso. “Não, meu nome não apareceu” percebo com um prazer estranho. Eu havia muito o que fazer hoje e não podia me dar ao luxo de atrapalhar meus planos. Afinal, não estou contra quem disparou as bombas momentaneamente, mas sim contra as pessoas que estavam onde as bombas foram atiradas. Elas foram atiradas no prédio do Sistema. Eu muito provavelmente até conhecia o grupo que havia atirado as bombas, devia lembrar de os dar meus cumprimentos depois. Vesti rapidamente um modelo de sobretudo marrom, levitando as roupas à minha frente e me enfiando nelas. Abusava muito de minha mente, não que esta não estivesse acostumada com meus exercícios regulares. Deixara a T.V ligada e agora esta exibia um garoto franzino de uma filmagem antiga imobilizando uma pessoa sem tocá-la. O menino da imagem era magro, usava roupas consideradas por mim muito metidas e estava com cabelo partido para o lado. Ele tremia de nervosismo ao imobilizar o homem velho e gorducho que lhe fora colocado à frente. A filmagem acabou e um homem de cabelos escuros repicados vestindo smoking apareceu na tela sentado no ar de frente ao entrevistador mais famoso de nosso pequeno país, quem estava, e sempre esteve, sentado em uma cadeira. Não por opção, mas porque praticamente ninguém agüentava sentar no ar por tempo constante sem que seus músculos começassem a arder em demasiado.
Ouvi mais um pouco até perceber que o homem era o garoto que vira anteriormente na filmagem mais antiga, embora houvesse envelhecido muito. Agora tinha provavelmente minha idade. O entrevistador, o Francesco, o estava perguntando o que achara do atentado que havia acontecido mais cedo quando eu desliguei a T.V e esta ficou preta. Peguei as chaves do carro em uma caixinha em cima da mesa da sala e me arrastei para fora do corredor, andando em meio à vinte corpos levitando no corredor do edifício onde morava. Não havia constantemente mais de vinte pessoas ali, mas esta era a hora oficial e estadual de início de jornada de trabalho. Esta tinha início certo às 8:07 AM e faltavam três minutos neste instante. Não preocupei-me em apressar o passo uma vez que só tenho de virar a esquina para entrar no meu “prédio de trabalho”. Eu subiria uma escada invisível e estaria dentro do prédio dos “Revoltantes” e “Marginais”. Era engraçado como nenhum dos corpos voadores percebiam cento e vinte e três pessoas subindo escadas invisíveis. Se não estivessem tão preocupados com os próprios narizes... Subo as escadas para o prédio e sou recepcionada com o letreiro em néon que anuncia: “Tire suas Nádegas Daqui, Sistema!”. Algumas pessoas, vestidas também de sobretudo, me recepcionam com “oi” e “bom trabalho pela semana passada”, ou até mesmo com um sarcástico “Bom dia, chefe”. Não que eu seja chefe de alguém, isso é praticamente impossível em uma sociedade tão orgulhosa como a nossa. Mas sou inacreditavelmente autoritária em um grupo de rebeldes. Enquanto entro em um tubo no prédio excessivamente limpo e pintado de um cinza brilhante, percebo que hoje o movimento está maior. Talvez devido ao atentado algumas pessoas tenham vindo falar com os Revoltantes. Subo no tubo sem me preocupar em esbarrar em alguém enquanto levito e entro diretamente no cômodo de minha sala. Esta está imaculada, impecável. Metade de uma parede está coberta de um quadro branco cheio de anotações e esquemas elaboradíssimos e a outra metade com um quadro simples de post-its que eu havia ajustado para que fosse mais fácil me organizar e receber recados uma vez que telefone não era uma opção considerável quando se trabalhava contra o Sistema.
Percebi um post-it colado bem no alto do quadro, na região vermelha que implicava em grande urgência e importância de os recados serem lidos. Levitei até lá e peguei o pequeno bilhete amarelo néon entre os dedos o estendendo contra a luz para poder ler a mensagem escrita com um tipo de tinta que refletia como água na luz.
“Reunião às 8:30 AM com um novo recruta. Esteja lá.”
Amassei o post-it e o joguei em uma pequena lixeira que fica ao lado da mesa antes de me por a continuar o esquema que começara para atingir diretamente o chefe do Sistema. Eu havia traçado quatro dúzias de hipóteses sem sucesso quando percebi que já eram 8:29. Levitei rapidamente pelo tubo até dez andares superiores antes de entrar na sala com arquibancadas aos lados e uma grande mesa ao centro. Nosso tribunal particular. Me sentei no mesmo local de sempre, no ponto mais alto da arquibancada e esperei até que o novo recruta chegasse, vinte segundos depois de mim. Ele se sentou à mesa e o que estava mais próximo de ser nosso chefe geral sentou na outra ponta desta. Ele estava de chapéu e smoking preto enquanto respondia às perguntas, já tediosas para mim, do chefe. Eu apenas levantaria a placa do “Não Aprovo” ao final sem ao menos o escutar, não desejava um novo recruta, mas então o chefe pediu que ele retirasse o chapéu. Uma exclamação quase muda invadiu a sala inteira e o novato ergueu a cabeça exatamente para mim, quem também estava de boca aberta.
Aquele era o mesmo homem quem estivera na entrevista mais cedo.
O chefe o apresentou como Diego Rodrigues e disse que era um prodígio. Nós o observamos indiferentes, mas por dentro eu sabia que estávamos todos chocados na realidade. Nunca havíamos tido uma celebridade sequer entre nós e o chefe propondo aquilo nos espantava. Eu ainda não sabia porque me queriam nesta reunião até que esta chegou ao fim e o recruta fora aprovado. Me pediram que esperasse na saída mentalmente durante a reunião e reconheci a voz de nosso chefe. O obedeci esperando que os outros membros dos Revoltantes fossem embora e só ficássemos eu, o chefe e Diego na sala.
-Quero que ensine tudo o que sabe ao garoto. –O chefe apontou para Diego, suas feições magras mais rígidas.
Houveram duas coisas que me chocaram nesta frase. Diego não era um garoto, era um homem alto e forte, não merecia o adjetivo empregado pelo chefe, quem o fizera aparentar infantil. Não parecia sensato e isso não era característico do chefe. Mas o que mais me chocara fora ter de passar tudo o que aprendi em onze anos trabalhando como Revoltante para um novato. Iria argumentar contra, mas fechei a boca e me virei após pedir licença ao chefe e falar um “sim, senhor” forçado.
Me siga, novato. –Disse para Diego mentalmente enquanto entrava no tubo.
Ele andou até mim, aparentemente animado por fazer parte dos Revoltantes. Ele parecia encarar tudo admirado ao entrar em minha sala, desde o enorme quadro de post-its vazio e a lixeira cheia destes ao lado de minha mesa até o meu cabelo e aquilo me fazia corar regularmente.
-Posso saber seu nome? –Ele pergunta enquanto se sentava no ar fazendo com que eu sentisse uma pontada de inveja por fazer parecer tão fácil.
-Não é necessário. –Digo me virando para continuar meu esquema.
Ele flutua rapidamente até ficar à minha frente rindo.
-Olive Gold. Esse é o seu nome. –Seus olhos azuis faíscam em direção a mim.
-Grande coisa, está escrito na porta. –Forço indiferença enquanto volto a escrever no quadro.
-Não deveria me ensinar algo?
Sinto meu corpo ser imobilizado do pescoço para baixo e meu rosto arder de ultraje. Como aquele novato desprezível se atrevia?
-Me solta, seu idiota filho da mãe! –Grito mexendo a cabeça.
Ele me solta e eu levito até ele sentindo meu rosto ardendo cada vez mais. Seu rosto demonstra diversão, mas, em segundos, dor. Eu o torturo mentalmente o fazendo ir parando aos poucos de levitar e cair por fim no chão.
Solto um sorriso triunfante e espero até ouvir algo. Não era bem o que eu queria.
-Você tem que me ensinar a fazer isso! –Sua voz animada faz eco na sala.
Suspiro e volto a escrever no quadro.
-Ah, você é muito chata. Por isso não é reconhecida, como eu. –Ele não se importa em me atrapalhar.
Aperto o pincel para descontar a raiva até sentir a tinta deste molhar minha palma.
-Cala a boca. –Digo enquanto continuo a escrever minhas teorias no quadro branco com a ponta do dedo.
-Isso tudo é preguiça de pegar outro pincel na gaveta? -Um pincel preto flutua à minha frente logo após o som de uma gaveta rangendo após ser aberta ser propagar.
-Se for, você não tem nada a ver com isso, metidinho. –Sussurro ignorando o pincel e continuando a escrever com o dedo.
-Se você não fosse tão desagradável te chamaria para ir a um jantar beneficente amanhã.
Aquele foi um pequeno choque, mas me recomponho antes que ele possa perceber.
-Devo sentir que perdi alguma coisa?
Ele ri alto e se põe a escrever algo do outro lado de meu quadro.
-Responda você própria. –Ele diz, por fim, ao colocar o pincel de volta na gaveta e sair da sala pelo tubo.
Depois de passados trinta segundos em média espio por cima do ombro para ter certeza de estar sozinha antes de andar até a outra parte do quadro. Ele havia continuado meu esquema com uma fórmula que logo interpretei se encaixar perfeitamente nos padrões do enigma que havia feito no passo anterior do esquema. Ele havia feito isso em apenas cinco minutos.
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