The Storytellers
1 Astriel
Notas iniciais
Esse capítulo foi criado para introduzir um pouco do mundinho de Astriel. Eu estava pensando em fazer uma HQ inicialmente, mas pra isso preciso escrever um pouco, retratar o que penso em forma de palavras... Mas ok. Espero que gostem!
Lothriel* era um vilarejo bastante calmo. Uma bela mistura de cheiros, pessoas, paisagens... Sentar todos os dias ao vislumbre de um belo pôr-do-sol e escrever era como eu gostava de passar o tempo.
Apenas as pessoas do vilarejo conheciam minhas histórias, e algumas até se identificavam com as narrações. Eu gostava de escrever sobre o que via, e o que sentia ao ver tais coisas. Creio que seja por isso que as pessoas se identificavam com algumas palavras. Eu adorava aquele local, e não era à toa que não me dirigia a outros cantos por me sentir bem ali e Meredith... Ela tornava tudo mais especial. A forma como seus cabelos pareciam emanar luz própria, seu cheiro nos lençóis e em locais específicos de nossa moradia... Era tudo perfeito demais para ser verdadeiro. Até hoje, quando olho para trás e percebo que realmente vivi meu passado, fico boquiaberto. Eu perdi tudo. Mas vivi muito.
Naquela noite eu estava nostalgico. Estávamos há algumas horas na estrada, e creio que a paisagem noturna tenha mexido muito comigo. O galopar dos cavalos, o barulho que a charrete fazia quando topava com algumas pedras, o suspiro do vento entre as árvores, o vento frio batendo nas mãos... Em Lothriel era quase assim. Doeu lembrar de tais coisas. Faziam dois anos desde que Meredith tinha morrido, mas eu não sentia sua falta. Eu a carregava por todos os cantos e doía não portar algum objeto que pertenceu a ela, mas... Era como Chapéu disse um dia, eu possuo memórias de Meredith que me aconchegam bastante. Minha imaginação nem sempre é fiel, mas eu adorava imaginá-la sorrindo. E naquele momento, eu estava ali, ao lado de mais cinco pessoas, mas sem ela.
– Barba Branca? – Chapéu sussurrou – Não vai dormir?
– Não. Guiarei os cavalos até o amanhecer, estou sem sono. E você? – Respondi.
– Estou sem sono também. Percebi você bastante distante, velhote.
– É... – Sorri para ela – só lembrando de algumas coisas.
– Lothriel? Eu também. – ela sorriu de volta. – senti saudades do cheiro do Campo Verde*. Nunca mais senti o cheiro de flores tão cheirosas.
Chapéu possuia o sorriso mais belo que já vi. Era sincero, e poderia expressar milhares de coisas ao mesmo tempo. Tristeza, alegria, desespero. Suas covinhas eram tímidas e os olhos negros cerravam um pouco. O brilho do luar iluminava sua pele morena, e ela segurava nos braços o chapéu que ela tanto gostava. Acariciava a pena vermelha que ornamentava o chapéu com as pontas dos dedos, parecendo gostar da textura e macieza do objeto.
– Lothriel é passado, querida Chapéu. É de fato importante, nos trouxe até aqui, mas não deixa de ser passado.
– É passado mas o que nos trouxe até aqui foi nada além de nós mesmos. É importante por nossas raízes estarem conectadas lá, mas Lothriel não tomou decisão alguma por nós – disse ela, bocejando – hoje em dia deve ser um ninho de dragões.
– Não culpo os dragões.
– Nem eu.
– Fulgur está sendo aos poucos dominada pelo gelo. Dizem que é o bater das asas dos dragões que faz isso. – Dentes de Aço nos interrompeu.
– O bater de asas dos dragões? – Perguntou Chapéu.
– É verdade. Nossa posição geográfica nos leva à isso. Gelo não é algo inédito, o inédito é que o clima está um tanto...
– Desequilibrado? –Chapéu me interrompeu – estamos acima do meio, isso quer dizer que os dragões estão subindo de Morgoroth e vindo para cá.
– Não somos mestres de guerra, então pouco me importa de onde estão vindo. Morgoroth* pode ser a terra das maravilhas naturais exóticas, mas nenhum Navegante voltou de lá. – Dentes de Aço disse.
E era verdade. Morgoroth foi pouco explorada. E é bem difícil sair de lá vivo. Navegantes são estudiosos que saem de temporada em temporada para investigar os horizontes. Pelo que eu saiba, apenas o velho Pious I saiu de lá com vida e posteriormente, graças ao sucesso, tornou-se imperador e desbravou Crystallis, hoje conhecida como a Província dos Brancos, com paisagens recheadas de castelos, e outras obras arquitetônicas bastante superiores às de Fulgur. Compartilhou vários estudos sobre a natureza, principalmente sobre o comportamento dela. Facilitou bastante nossa convivência por aqui. Logicamente Pious não foi o único a revolucionar as teorias, mas foi um dos mais ilustres simplesmente por ter descoberto que dragões e outras criaturas habitam Morgoroth.
– Então é o fim? – Peguntou Chapéu.
– Não somos profetas, garota estúpida. – Disse Dentes de Aço, em tom elevado.
Dentes de Aço um dia já tinha sido cavaleiro. Rude de todas as formas possíveis. Era um homem alto e másculo, mal humorado, mas sábio. Usava tecidos rasgados como vestimenta, tudo o que havia restado desde que foi expulso do Comando Reluzente. Os cabelos estavam aparados, e alguns fios brancos emaranhavam-se com o negro de seus cabelos. Seu desleixo quanto à aparência era evidente graças à barba mal feita. Os olhos verdes negros fitavam os de Chapéu, que logo ficou intimidada e desviou o olhar.
– Não somos profetas, mas as pessoas pensam que somos. – Chapéu disse, olhando para o céu.
– Sim, e é errado fazê-las pensar assim. Elas querem algo para acreditar. – Eu disse, ainda conduzindo a charrete. Pude ouvir os roncos de Cigano. Olhei para trás e vi que ele estava praticamente sufocando Pudim, e ela pareceu não notar por estar em sono profundo. Carroceiro dormia de olhos abertos, o que era curioso.
– E o que acha que está fazendo quando conta suas histórias para elas? – Perguntou Dentes de Aço, empurrando o corpo de Cigano para o lado oposto ao que Pudim estava.
– É o mesmo que pergunto para você.
Ficamos em silêncio. Eu não estava encarando Dentes de Aço, mas só por ouvir sua respiração pesada eu diria que ele estava com bastante raiva.
– Então... Myrcella e o Rei, não? Parece uma boa história pra ser contada em Lazuli*. – Disse Chapéu, rompendo o silêncio.
– Sim, contaremos essa. Espero que não chova durante o dia, ficaremos lá só por algumas horas e não haverá descanço.
O sol raiava no horizonte. Sobrevivemos a mais uma madrugada na estrada.
Notas finais
Lothriel: Vilarejo que foi atacado por filhote de dragões. É o antigo lar de Barba Branca e Chapéu, mas poucos sabem que os dois sobreviveram ao incidente. Em Dialeto Antigo, a língua perdida, significa "Santuário das Flores".
Campo Verde: Localizado aos arredores de Lothriel, era um vasto campo repleto de variados tipos de flores. Foi destruído e queimado quando os dragões invadiram Lothriel.
Morgoroth: Uma das províncias. Crê-se que é mais larga que as outras três juntas, e também que algo sobrenatural está acontecendo por lá. Sabe-se que outros seres habitam o local, mas eles andam invadindo as demais províncias, coisa que jamais aconteceu antes.
Fale com o autor