The Story Of a Fighter Girl: With love, Sophie
1 Com amor, Sophie
Notas iniciais
Boa leitura!
Sophie abre os olhos. Está arfando, quase sem ar. Ela se levanta com um sobressalto, e senta em sua cama. Ela olha em volta, está no seu quarto. Sua cabeça está girando, ela está completamente desorientada. O que aconteceu? O que está acontecendo? Ela sente seus olhos inchados. Ela estava chorando enquanto dormia?
Sophie se levanta, se espreguiça, e vai até o banheiro. Ela acende a luz e pisca repetidas vezes até os olhos se acostumarem com a claridade. Ela se olha no espelho. "Meu cabelo está um caos..." ela murmura passando a mão nos fios castanhos embaraçados. Ela se apoia na pia e abre a torneira. Suas mãos tocam a água fria e levam um pouco ao seu rosto. O choque que a água tem com sua face quente recém-acordada a faz acordar totalmente.
—AH!—eu gritei apavorada, com todas as forças do meu pulmão. Olhei-me no espelho outra vez. -AH!—cambaleei para trás com horror nos olhos. A figura do espelho... Eu.. Eu...
—Sophie? Você está bem?
—AH!—eu grito novamente com a voz que veio atrás de mim. Eu me viro e me deparo com minha amiga de muitos anos, Livvie. Ela se assusta com minha reação.
—O que foi Sophie? Meu Deus, parece que você viu um fantasma.
—O que está acontecendo? Onde estamos?
—Como assim, sua louca? Estamos no nosso quarto.
—Nosso... quarto...
—É, onde mais estaríamos? -ela colocou as mãos na cintura, estava com uma expressão confusa no rosto. -Quer me dizer o que diabos está acontecendo?
—Eu... Eu tive um sonho... -eu começava a tomar consciência da minha real situação. Estávamos no internato, onde eu vivi praticamente minha infância e adolescência inteira. Estávamos com 15... 16? 16 anos, eu acho.
—Quer falar sobre isso?
—Eu sonhei com minha vida inteira, Livvie.
—Como assim?
—Eu sonhei com minha vida inteira. Eu sonhei com todos os anos, tudo que está a nossa frente. Tudo que irá nos acontecer. Eu sonhei com tudo...
Livvie parecia bem assustada. O rosto dela estava com uma mistura de interrogação e espanto.
—Hm... Foi um pesadelo?
—Não exatamente. Eu sonhei com absolutamente todos os dias de nossas vidas até termos 32 anos.
—Uau, isso é bem estranho. Não me admira que você está toda confusa agora. Mas pode ficar tranquila, foi só um sonho. Está tudo bem agora. -ela passou as mãos no meu cabelo, tentando me consolar.
—Não, Livvie, você não está entendendo. -eu levantei da cama e comecei a andar nervosamente de um lado para outro do quarto. -Não foi só um sonho, eu sinto que eu vivi tudo aquilo. Todos os dias eu acordava e ia pra aula. Eu ia nas classes, eu assistia à aula, eu ouvia o professor, eu voltava para o quarto, eu estudava e eu ia para as lutas. Eu comia, eu ria, eu conversava com você, eu conversava com as pessoas. Até a gente se formar. Eu sonhei com a formatura, você foi continuar os estudos, foi para uma universidade de direito em Brighton. Eu fui te visitar lá, eu vivi isso. Eu fui lutar, eu virei boxeadora profissional, eu ganhei uma tonelada de torneios. Eu até adotei uma filha! O nome dela é Elizabeth, ela tinha 6 anos quando a tirei do orfanato. Eu vivi tudo isso. Eu ganhei dinheiro, fama... Você se formou em direito, foi ser a melhor advogada de Brighton. Continuamos amigas.. você se casou com Miguel! Vocês tiveram duas filhinhas... Alice e Kemlyn. Elas são lindas!
Eu fui atropelando as palavras, falando rápido, eu andava de um lado para o outro, agitada e gesticulando. Livvie ficou parada me ouvindo, seu rosto franzia cada vez mais e ela parecia se perder na história.
—Sophie... Sophie... Calma aí. Isso é muito estranho. Provavelmente foi só seu cérebro te dando um susto, além do mais você anda lidando com muita coisa ultimamente.
—É... Tem razão. -eu comecei a me acalmar e sentei na cama ao lado da minha amiga. -Só foi tudo tão real. E parece que eu fiquei dentro daquele sonho por anos!
—Talvez seu subconsciente esteja tentando fugir da situação. -virei para ela com uma sobrancelha levantada.
—Como assim?
—Bom, desde que Lucy e Kathy se juntaram para ficar espalhando aquele rumor idiota de que sua tia-avó é uma assassina e, logicamente, você seria também... Sei lá, acho que é um jeito da sua mente escapar de tudo isso. Não ter que lidar, sabe?
—Nossa, eu tinha até esquecido dessa história.
—Viu? Seu cérebro estava certo. -ela riu e me abraçou. Eu sorri e a abracei de volta.
Eu ainda me sentia estranha e que o sonho era esse momento agora, e não os últimos 16 anos da minha vida. Eu dei uma suspirada profunda e resolvi empurrar todo esse negócio para o fundo da minha mente e me concentrar no que estava acontecendo agora. Até que...
—Ah... -um suspiro pesado saiu de minha boca. Livvie percebeu.
—Sophie? -eu tinha largado meu abraço com ela e estava com os olhos arregalados fitando o nada. -Sophie? Você está bem?
—Livvie... -eu não aguentei me segurar e desabei. Coloquei minhas mãos no meu rosto enquanto as lágrimas caíam em uma cachoeira abundante.
—Sophie! Meu Deus, o que que houve? -ela se ajoelhou no chão a minha frente e colocou as mãos no meu ombro.
—O Rupert... -eu soluçava tanto que eu não conseguia falar direito.
—O Rupert? -ela repetiu com um tom de dúvida muito forte.
—Ele... Ele... -Livvie esperou pacientemente eu controlar um pouco meus soluços e as lágrimas. Eu tirei as mãos do meu rosto e encarei ela com as bochechas encharcadas. -Ele morreu...
A Livvie olhou para mim por alguns segundos extremamente confusa. Depois tirou as mãos do meu ombro, se inclinou para trás, e, por mais que tenha tentado resistir, deixou um sorriso escapar. Esse sorriso rapidamente se transformou numa risada. Ela começou a rir descontrolavelmente, balançava para frente e para trás, segurando sua barriga.
—Ele não está morto. -ela conseguiu dizer entre as gargalhadas. Eu estava em choque, não sabia o que fazer. -Ele está indo embora para a Austrália amanhã, mas está longe de estar morto.
—Austrália... -eu estava, no mínimo, confusa.
—É, bobinha. Eu não sei o que raios aconteceu no seu sonho maluco, ou pesadelo, mas aqui na vida real está tudo bem com o babaca do Rupert. -ela revirou os olhos e se levantou do chão. -Na verdade, você que não quer ver ele faz 3 dias. Desde aquele dia que você desapareceu no bosque e voltou catatônica.
—O bosque... -tudo vinha a minha mente de novo, como se tivesse realmente passado vários anos desde aquele encontro.
—É. Vai até ter uma festa de despedida no dormitório dos meninos hoje, e você não quis ir de jeito nenhum porque aparentemente você odeia adeus. -foi então que me deu um sobressalto. Sophie idiota! Só um sonho maluco no qual o Rupert morre dezesseis anos depois que você percebe o que realmente tem que fazer.
—Não. Não vai ser uma festa de despedida. -Livvie me olhou confusa. -Eu vou fazer ele ficar.
—Mas que papo é esse, sua louca? Você passa sua vida inteira odiando o moleque ai você tem umas piras, sonha que ele morre, e decide impedir que ele se mude? -eu me levantei da cama e sorri para minha amiga.
—Exatamente. -falei com determinação. Livvie revirou os olhos.
—Boa sorte. Vai ter que convencer ele não seguir o pai, coisa que ele fez desde sempre.
Foi então, que no meio dessa onda de confusão, lembranças, sonhos... Eu tive outro sobressalto.
—As luvas!
Livvie já estava indo em direção ao banheiro para tomar seu banho matinal. Ela parou e se virou para mim. Não precisou nem perguntar "O que?" para eu saber que ela estava totalmente perdida.
—Sabe as luvas que o Rupert me deu de presente no meu aniversário?
—Sei... O que que tem?
—No sonho elas tinham uma mensagem escondida para mim que ele escreveu, mas eu nunca tinha achado. Ele me contava isso na carta que ele escreveu antes de morrer.
—Uau, que dramático. Esse sonho parece ter sido intenso.
—Tiveram parte boas.
Eu corri do outro lado da cama e me agachei. Enfiei minhas mãos debaixo dela e tirei de lá uma caixa. Meu coração batia com força no meu peito. Livvie tinha desistido de seu banho e veio se juntar ao meu lado, em pé. Eu abri a caixa, parecia que meu coração ia sair pela minha boca, e peguei a luva esquerda.
—O que é? -Livvie perguntou para mim.
Eu estava estática, com a boca entreaberta. Passei a luva para ela e ela deu um grito agudo.
—Eu não acredito nisso! -ela gritou. -Rupert... todo esse tempo...
—Todo esse tempo, ele sendo um babaca, maltratando todo mundo...
—E ele amava você. -ela riu timidamente.
—Pois é.
Eu estava sem ar. Meu sonho estava certo. As palavras "eu te amo" estavam escritas na parte interna da luva. Aí, eu comecei a pensar. Se meu sonho estava certo sobre isso... Podia também estar certo sobre...
—Espero que seu sonho não esteja certo sobre ele morrendo tão cedo.
—É, eu estava pensando exatamente sobre isso.
—Bom, mas agora você sabe. E você não demorou 16 anos para descobrir sobre o que o Rupert sente por você. Acho que agora você pode mudar o destino.
—E é exatamente o que eu vou fazer.
Eu peguei a luva da mão de Livvie, ela protestou com um "ei", e abri a porta do quarto com um estrondo. Sai correndo pelo corredor, ignorando o fato de que eram 6 e meia da manhã, estava absurdamente frio e eu estava de pijama no meio da escola.
Sai do dormitório das meninas, tremendo um pouco com o contato do ar gelado de fora, mas não parei de correr. Não parei de correr até chegar no dormitório masculino. Entrei, ignorando o espanto de vários meninos que eu encontrei no caminho, subi as escadas tropeçando e quase caindo de frente no chão e continuei correndo até o quarto 22. Parei na porta. Travei. Teoricamente, na minha cabeça, eu não o via faziam 16 anos. Eu nem sabia como ia explicar toda essa situação para alguém que eu achei que estava... Bom, morto.
Antes que eu perdesse a coragem, rodei a maçaneta e forcei a porta. Sophie, sua burra. Obviamente, estava trancada. Revirei os olhos e bati na madeira. Esperei alguns segundos, bati de novo, umas 5 vezes. Eu comecei a ficar impaciente, soquei várias vezes a porta até ser atendida por uma voz.
—Calma aí. Acabei de acordar. -era Miguel, o companheiro de quarto de Rupert nesse ano.
—Deve ser a Livvie, que não aguentou esperar para te ver durante a aula. -eu ouvi a voz familiar dizendo, seguida de uma risada debochada. Meu estômago revirou e eu tive que me segurar para não vomitar de nervoso.
—Cala a boca, Rupert, dá para ouvir lá fora. -o outro menino riu de novo. Ouvi passos se aproximando. -Bom dia! -disse Miguel depois de destrancar a fechadura.
Foi então, que meu olhar se cruzou com o de Rupert, que estava deitado em sua cama só com a calça do pijama. Ele me viu e na mesma hora ficou com uma expressão séria. Parecia que não estava decidido se ficava feliz ou com raiva de me ver. Eu não consegui analisar nada disso na hora. Um nó na minha gargante se formou e meus olhos encheram de água.
Ele estava ali. Vivo. Vivo e jovem. Rupert estava vivo, jovem, e ali, ao meu alcance.
Mal dava para acreditar que isso estava acontecendo. Eu corri para dentro do quarto antes que eu pudesse acordar, se é que isso tudo era um sonho e na verdade eu estava dormindo na minha casa aos 32 anos e preenchendo minha cabeça com memórias desse menino depois que ele morreu. Ignorei Miguel e entrei correndo em direção à cama de Rupert. Ele se mexeu mas eu o abracei antes que tivesse tempo de se levantar. Eu tinha praticamente me jogado em cima dele, e o agarrei com tanta força que ele soltou todo o ar do pulmão em um suspiro alto.
—Sophie? -ele sussurrou enquanto tentava entender o que estava acontecendo. Eu desabei em lágrimas. -Sophie? Você está bem?
—Você não pode ir! -eu consegui gritar no meio dos inúmeros soluços.
—Do que você está fa...
—Você não pode ir embora! Seu lugar é aqui comigo. -eu gritei antes que ele pudesse terminar a frase.
Miguel tinha assistido parado ao lado da porta aberta até aquele momento. Ele deu uma risada sem graça murmurou algo do tipo "acho que vou dar privacidade a vocês" e saiu do quarto, fechando a porta atrás dele. Rupert tentou se ajeitar na cama o máximo que meu abraçado apertado permitia. Ele sentou direito e colocou sem braços em volta de mim.
—Ei... Calma... Eu estou aqui com você agora. -ele estava sério, normalmente ele já teria aproveitado para falar algo para me irritar.
Nós dois continuamos abraçados por uns minutos até meu choro diminuir. Meu soluços foram ficando menos frequentes e eu finalmente me acalmei. Eu me afastei do abraço dele e sentei na cama à sua frente. Ele estava sorrindo de um jeito reconfortante para mim, e afastou meus cabelos desgrenhados da frente do meu rosto. Eu suspirei mais algumas vezes antes dele olhar para o que eu estava segurando e quebrar o silêncio.
—Então, você finalmente achou. -ele apontou para as luvas, rindo com seu jeito debochado. -Achei que você nunca ia ver isso aí, e eu teria que te mostrar no leito da minha morte. -eu dei um soco no seu braço. -Ai!
—Não brinca com isso! -eu falei brava olhando para ele. Rupert parecia confuso, enquanto esfregava seu braço.
—Olha, eu sonhei com nossas vidas, e foi um sonho extremamente realista. Eu posso te contar depois, agora não vem ao caso. O que eu quero dizer é que eu vi o futuro, e nós nunca mais nos encontramos nesse futuro. E você morre, aos 32 anos, num acidente de helicóptero. E você escreveu para mim uma carta dizendo como se arrependia desse nosso adeus. E como seria tudo mais fácil se eu tivesse visto o que você escreveu para mim na luva que me deu de presente.
Ele escutou tudo isso com uma expressão que misturava confusão com espanto. Eu limpei as lágrimas do meu rosto e suspirei fundo. Peguei a luva e mostrei as palavras escritas nela.
—É por isso que eu achei. Eu sonhei com isso e era real. E eu não quero que aquela vida que eu sonhei seja real. Eu não quero porque, por mais que eu fosse uma boxeadora de sucesso, eu perdi a única pessoa que me fazia sentir especial mesmo antes da minha fama. Que não ligava para meu dinheiro. Que não ligava se eu era pouco feminina ou não cuidava muito da minha aparência. Que conhecia quem eu realmente era e gostava dos meus defeitos. Que, por mais irritante que fosse, sempre estava lá para me apoiar. -eu levantei o olhar da luva e encontrei os olhos de Rupert. Ele estava sorrindo. -É por isso que eu quero que você fique e não vá para a Austrália com seu pai. Depois de nos formamos aqui, nós podemos ir para Londres e eu vou treinar boxe e você treinará para seus campeonatos de tiros. Estaremos sempre juntos. E você nunca vai comprar um helicóptero.
—Sophie... -ele riu, mas de um jeito sincero. Ele levantou a mão e acariciou minha bochecha. -Eu não posso cancelar minha viagem para a Austrália...
Tudo desmoronou à minha volta.
—Eu abro meu coração para você e você ainda acredita naquela besteira de "nunca daríamos certo, somos jovens demais para dizer para sempre". -fiz as aspas no ar, extremamente irritada. Ele deu aquele sorriso torto ridículo que era tão encantador ao mesmo tempo que enfuriante.
—Eu não posso cancelar minha viagem para a Austrália... porque ela já está cancelada. Eu desisti ontem. Isso aqui é um internato, raios! Eu literalmente moro aqui dentro, para que que eu ia seguir meu pai para o outro canto do mundo? -ele estava rindo e eu revirei os olhos.
—Por que você tem que ser sempre tão irritante?
Ele riu e colocou a mão em minha nuca.
—Porque eu sei que você prefere assim. Uma menina que ama violência não ia querer um rapaz entediante, não é mesmo?
Eu sorri. Ele sorriu. Sua mão me puxou para mais perto e nossas bocas se encontraram em um beijo. E, finalmente, foi um beijo decente. Eu conseguia sentir ele sorrindo enquanto nossos lábios se moviam um contra o outro. Não foi como o primeiro beijo, que eu fui pega de surpresa e não queria aceitar que aquilo tinha acontecido; ou como o segundo beijo, que foi triste e apressado, um beijo de adeus. Esse foi um beijo que os dois queriam há muito e muito tempo, um beijo calmo, quente, reconfortante e, acima de tudo, feliz, que só a pessoa que você mais ama pode te dar. Além disso, foi o primeiro beijo de uma série de outros que nunca mais acabariam.
Não faço ideia quanto tempo aquilo durou. Para mim, tinha durado o mesmo tanto de tempo que os 16 anos dentro do sonho. Tudo que eu tinha imaginado, ou criado, ou visto do futuro (vai saber, as vezes eu viajei no tempo) foram esquecidos durante aquele momento.
Quando nós finalmente separamos nossos corpos, que já estavam grudados se movendo em sintonia, nós ficamos alguns segundos recobrando o folego, se encarando. Os dois começaram a rir.
—Quem diria... A pequena Sofia se apaixonando pelo cafajeste.
—Quem diria... O pequeno Junior se apaixonando pela lutadora mais sanguinária da escola.
Rupert levantou uma sobrancelha.
—Olha, eu tenho bastante certeza que foi você quem começou a gostar de mim primeiro. Eu sou irresistível, minha querida. -ele passou a mão no cabelo num gesto exagerado. Eu abafei um riso.
—Eu não sei não, hein. Quem escreveu "eu te amo" na luva não foi eu não. Eu te odiava naquela época e você já estava perdidinho por mim. -se Rupert fosse um ser humano normal ele provavelmente teria corado.
—Vou te contar a verdade, Sophie... -ele sorriu maliciosamente. -Não fui eu quem escreveu isso. Meu primo ganhou essa luva da namorada dele quando eles fizeram 1 ano de namoro, ou algo desse tipo. Eu só... Fiquei com preguiça de lavar e resolvi te dar mesmo assim.
—Aham, preguiça de lavar... -levantei uma sobrancelha em tom de deboche (apesar de que eu sabia que ele fazia isso bem melhor que eu) e senti minhas orelhas esquentando. Rupert riu e levantou da cama, me puxando pela mão.
—É, sua trouxa, você acha que eu ia acabar com uma luva em perfeito estado só para fazer uma surpresa romântica? Não se parece comigo. -ele me abraçou pela cintura.
—Verdade, não se parece com você. -eu disse, fazendo uma careta.
Ele riu e me beijou novamente. Até que um barulho o fez parar.
—O que... -ele sussurrou para mim.
—O que o que? -eu nem tinha ouvido nada, eu estava atordoada demais com toda a situação.
Ele me largou e foi até a porta do quarto, encostando seu ouvido nela. Eu franzi a testa, esse menino estava louco. Até que eu ouvi também o que pareciam risadinhas. Rupert se abaixou e colocou o olho na fresta da fechadura. Ouvimos algo que pareceu com "ah não, eles pegaram a gente" e outros murmúrios baixos. Rupert se levantou e abriu a porta. Lá, agachados, em posição de que estavam tentando espiar pela fechadura, estavam Livvie, Miguel e Luke. Eu olhei aquela cena e comecei a rir descontrolavelmente.
—Oi Sophie. Oi Rupert. -disse Luke, se levantando e dando um sorriso encabulado.
Livvie estava vermelha. Rupert estava se divertindo com a vergonha dos amigos.
—Estamos felizes que os dois finalmente se resolveram! -disse Miguel, animado.
—Não só nos resolvemos, demos uns amassos também. -o Rupert disse com seu sorriso torto de deboche. Eu revirei os olhos enquanto corava um pouco.
Depois disso tivemos que ir para as aulas, mas eu não consegui prestar atenção em nenhuma. Eu estava feliz demais. Uma felicidade que fazia tempo que eu não sentia. Uma sensação de que tudo ia dar certo. Que todas as dificuldades da minha vida já tinham passado e as que viriam a seguir seriam facilmente derrotadas.
Encontrei-me com Rupert depois da aula. Toda vez que eu o via meu estômago embrulhava e eu não conseguia esconder o sorriso bobo do meu rosto. Era óbvio que isso tudo acontecia com ele também. E isso durou mais tempo do que eu achava. Todos sempre diziam que depois de poucos meses você não sente mais as borboletas, mas comigo durou uns bons anos... Acho que posso dizer que dura até hoje, em algumas ocasiões.
Enfim, encontrei-me com Rupert depois da aula, no dormitório dele. Livvie, Miguel e Luke nos encontraram lá depois. Fizemos aquela festa de despedida, mas a transformamos numa festa de comemoração. Não sabemos do que exatamente... Acho que comemoramos nossa vida e nossa amizade.
Nós 5 continuamos inseparáveis, não importava quantos anos passassem. Livvie e Miguel só foram namorar de forma séria no segundo ano de faculdade dos dois. Luke entendeu porque ele nunca deu certo com as meninas, ele acabou se apaixonando por um colega de sala na sua faculdade de cinema. Os dois se casaram alguns anos mais tarde e Luke se mudou para Nova York para investir na sua carreira promissora de diretor. Ele já dirigiu um grande sucesso e está na pré-produção de um segundo, e diz que já consegue sentir o gosto de um Oscar. Ele nos visita toda vez que vem para a Inglaterra, mais ou menos 4 ou 5 vezes por ano. A saudade é grande, mas eu estou muito feliz por ele.
Livvie se formou e abriu um escritório em Londres com seu marido Miguel. Os dois estão crescendo mais a cada ano. Eu me orgulho de falar que sou amiga dos dois melhores advogados da Inglaterra.
Rupert virou atleta. Ele já ganhou vários campeonatos de tiro ao alvo. Apesar de viajarmos muito, sempre juntos, temos uma casa aconchegante em Liverpool, onde passamos a maioria dos meses do ano. É bem perto da casa da minha tutora, Pippa. Elizabeth adora ir lá. Elizabeth é nossa filha, a adotamos há alguns meses. Ela tem 6 aninhos e viviam dizendo que ela era encrenca no orfanato. Posso dizer que ela é a melhor criança desse mundo e eu a amo muito. Visitamos Livvie e Miguel em Londres com frequência, e as vezes eles que nos visitam. Quando estamos em Londres aproveitamos para visitar a família de Rupert. O pai dele finalmente parou de se mudar frequentemente e sossegou em casa.
E eu? Eu posso dizer que já ganhei uma medalha de ouro nas Olimpíadas e estou a caminho de ganhar minha segunda, diz meu treinador. Sou a boxeadora mais famosa da Grã-Bretanha e viajo muito ganhando campeonatos pelo mundo. Também sou conhecida pelos meus trabalhos de caridade em orfanatos. Bom, nós somos. Eu e Rupert. Eu diria meu marido, mas não estamos exatamente casados, nenhum de nós queria uma cerimônia. Nos referimos ao outro como companheiro, já que estamos juntos desde que conseguimos nos lembrar e nunca nos decepcionamos. Não me imagino sem ele e ele com certeza não se viraria sem mim.
Então é isso. Quis escrever essa auto bibliografia para todas as meninas e meninos por aí que se sintam diferentes, estranhos, que não podem confiar em ninguém ou não são amados por ninguém. Saiba que todos nós temos pessoas que se importem conosco. E as vezes essas pessoas podem parecer as menos prováveis. Não tenha medo de confiar em si mesmo e no seu talento, por mais que seja estranho, diferente ou você ainda não o tenha descoberto de fato. Também não tenha medo de ir atrás de quem você ama. Vá atrás e seja honesto com seus sentimentos, antes que seja tarde demais.
—Com amor, Sophie.
Notas finais
Ai, to nostálgica demais.... Enfim, obrigada a todos por essa jornada, eu levarei Sophie e Rupert no meu coração para sempre! Beijinhos ♥
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