The Story Of The Witch
4 Capítulo 4 - A Caminho Da Morte
Notas iniciais
Cap IV – A Caminho Da Morte
Igor
Quando abro meus olhos, percebo estar em um lugar bem escuro, tendo como único ponto de referência uma casa. Esta tinha uma luz bem fraca na varanda. A única escolha que tenho é ir em sua direção. Logo chego nela.
Eu reconheço o lugar, óbvio que sim. Minha casa, porém estava diferente. Parecia mais antiga do que me lembro. Subo os poucos degraus até a varanda e vejo algo nostálgico. Era a rede onde eu costumava me deitar durante a tarde para pensar um pouco. Isso antes do meu pai jogá-la no lixo com seu argumento de que só ocupava espaço da varanda que já era pequena.
A casa realmente não era grande, mas ele não precisava fazer aquilo. Tinha dois andares, a área na frente e um pequeno quintal atrás. A varanda era toda feita de madeira. Mas não aquelas lenhas bonitinhas e pintadas. Era madeira bruta, bem, não bruta mesmo, mas era natural. Meu pai, sendo carpinteiro, fez um ótimo trabalho com elas. Tudo tinha as medidas certas.
Vou até a porta e aperto a campainha. O barulho não é muito alto. Aperto mais duas vezes. Ninguém atende. Vou até a janela e ponho meu rosto. Engulo a seco com o que vejo. Eu e meus pais estávamos sentados no sofá vendo TV. Sarah ainda era um bebê e estava no colo de minha mãe. O que acontece a seguir é bem mais estranho. Apareço dentro da sala, ao lado do sofá. Ninguém se importa com minha presença, era como se não me enxergassem.
– Ei! Olha aqui! – Balanço meus braços na frente de todos.
Sem sucesso. Todos ainda fitavam a televisão, então resolvo fazer o mesmo. O que passava na TV era um filme de terror. Eu me lembro bem disso. Foi o filme mais assustador que vi. Infelizmente também me lembro do que viria a seguir. Uma cena horrível se passa no filme: a mulher foi aberta ao meio pelo espírito assassino. O que me faz ficar com muito medo, realmente assustado. O pequeno eu, que devia ter sete anos na época, coloca as mãos no rosto e solta um grito.
A televisão, neste exato momento, voa e se choca com a parede, ficando em pedaços. Meus pais horrorizados e com raiva olham para o inocente menino. Sarah começa a chorar alto, o que deixa meu pequeno eu mais nervoso. Ele abraça os joelhos com medo e é então que as luzes começam a piscar. Vejo o olhar de raiva do meu pai.
Tudo se apaga, porém ainda me sinto ali, consigo sentir firmeza nos pés. Aos pouco começo ver as coisas clareando. Não estou mais em minha casa. Estou em minha escola, ao lado da mesa da professora. Rapidamente procuro por mim. Eu sabia que estaria por ali. Provavelmente estou morto e revendo momentos que vivi. Consigo me encontrar, só que dessa vez mais velho... por volta dos doze anos.
A sala estava quieta, o que não era de costume. Ao olhar para o lado, vejo Madalena. Uma professora de matemática que tive. Ela nunca conseguiu controlar a turma. Em suas aulas a bagunça era imensa, mas ela não demostrava nenhum sentimento, com exceção no dia de sua prova. A mulher chegava estampando um sorriso imenso no rosto. Acabava com todos os alunos utilizando uma simples folha de papel.
O meu eu mais novo se concentrava na prova, porém ele estava totalmente desesperado. As mãos forçavam a cabeça como se possuíssem o propósito de espremê-la até sair alguma ideia. Dou risada porque faço isso até hoje. Os alunos que sentavam mais no fundo da sala, os mais bagunceiros, se levantam e entregam as provas. Muitas em branco. O meu eu de doze anos nervoso, fecha os olhos.
Eu me lembro bem disso, também. Quando aconteceu, eu tinha mesmo fechado os olhos e por algum tempo parecia que eu estava voando. Eu via tudo de cima, inclusive eu mesmo com os olhos fechados. Foi então que colei dos nerds da turma e me dei bem na prova. Madalena não ficou satisfeita com isso. De repente tudo se apaga novamente. Me deixando sozinho na escuridão novamente.
– E lá vamos nós. – Digo para mim mesmo, revirando os olhos. – Se eu realmente estou morto, há muita coisa a ser vista.
A minha visão volta a clarear e o que vejo faz com que meus olhos se encham com um pouco de lágrimas. Agora eu estava em uma rua, e do outro lado dela estava eu, com possivelmente treze anos conversando com o Prof. Alfredo. Imediatamente corro até os dois, que por nenhuma novidade, não me enxergam.
– Então você quer que eu acredite que pode me ajudar, com essas coisas que acontecem comigo? – O eu mais novo disse.
– Sim, você é especial, Igor. – A voz do professor me fez dar um sorriso. Ele estava sorridente como sempre, mas meu eu pirralho não.
– Eu quero ser normal. – Diz com arrogância. – Estou cansado de ser estranho. Não quero ser um monstro.
– Você não é nenhuma aberração, criança. – Põe a mão no ombro do menino. – É um bruxo, com poderes incríveis. É muito especial.
– Bruxo não me parece uma coisa boa. – O antigo eu força as sobrancelhas. – Aliás, o senhor está viajando com essa história de bruxo. Isso não existe.
– O que define se o bruxo é uma coisa boa ou ruim é seu coração, e o seu é muito bondoso. – O sorriso dele era tranquilizador. – Isso é o que faz seu poder ser mais especial ainda.
– Você pode mesmo me ajudar com isso? – A imagem de sério do eu mais novo se foi. Seus olhos estavam molhados. – Meus pais me odeiam.
– Eles não te odeiam. – O professor abraça o menino. – Eles só estão assustados, assim como você. Eu irei te ajudar.
Levanto a mão para tentar encostar no Prof. Alfredo, mas quando estou perto, tudo escurece novamente. Que raiva. Sinto sua falta, professor. Mesmo não gostando do modo que me trouxe até Tworn, eu sei que foi tudo para me ajudar.
Rafael
Eu, Lydia e Guilherme corremos em direção à nefasta sombra. Ela voava rápido e prendia sua garra forte em Igor, que sangrava. Aponto minha mão para a maldita e lanço uma bola de luz, porém só acerto de raspão em uma das asas. Me amaldiçoo pela mira terrível.
– Volte aqui, sua praga! – Lydia grita com muita raiva. Sua preocupação era visível.
Guilherme estava sério. Entre nós três, era o que corria mais rápido. Algo perturbava sua mente além da situação. Dava para ver em seus olhos. Ele pega a sua varinha e lança um raio de luz que acerta nas costas da sombra, fazendo-a perder um pouco de altitude e velocidade.
– Temos que impedi-la de chegar no rio! – Guilherme grita bem alto. Correndo ainda mais.
– Como assim? – Lydia diz confusa.
Enquanto corríamos tentamos acertar mais feitiços, porém todos em vão. A besta parecia estar mais preocupada em esquivar agora. Estávamos cada vez mais perto da sombra, mas infelizmente mais perto do rio também. Corro mais rápido ainda, mas sinto minhas pernas falharem um pouco. Estou muito cansado. Logo chegamos no grande lago.
Guilherme fica ainda mais desesperado e aponta sua varinha. Seu olhar era de ódio puro. Uma claridade gigantesca sai de sua varinha, me obrigando a fechar os olhos. Quando os abro, não vejo mais a sombra. Mas engoli a seco com o que vi. Igor está caindo, sangrando. Rapidamente, ele cai no rio.
– Não! – Guilherme grita com agonia.
Igor
Minha visão volta a ficar clara. Dessa vez estou de volta para minha casa. Entretanto, do jeito que eu lembrava. A varanda pintada de branca. Móveis mais modernos, mesmo não sendo tantos. Todos estávamos na cozinha tomando café. Eu me lembro desse dia. Foi o dia em que eu fui para Tworn, o dia que deixei minha casa.
– Fez sua lição de casa, Igor? – Pergunta minha mãe enquanto põe a jarra de suco sobre a mesa. — Não quero você com notas baixas, filho.
– Não queremos mesmo. – Meu pai resmunga.
– Fiz sim. – Meu eu responde, dessa vez com quinze anos.
– Não briguem com o irmão. – Sarah se irrita.
– Não estamos brigando, filha. – Minha mãe lhe dá um beijo na testa. – Estamos apenas preocupados.
Meu eu mais novo abaixa a cabeça. Eles nunca mais me deram carinho depois que meus poderes apareceram, exceto Sarah, que sempre se importava comigo. Talvez estivessem com medo, mas não é por isso que tinham de fazer isso. Eu estava com medo tanto quanto eles. E eu ainda estou.
Após terminar de comer, meu eu de quinze anos se retira da cozinha. Eu lembro do que pensei naquele momento. Queria dizer que os amava, por mais que fizessem tudo o que fizeram, mas resisti. Acompanhei eu mesmo até o quarto.
Lá ele pegou a mochila já feita no dia anterior e pulou pela janela, vendo o Prof. Alfredo do outro lado da rua. Ele havia me prometido que íamos ficas uns dias fora, mas na verdade, me levou para Tworn, onde estou até hoje. Eu o perdoo. Sei que foi para meu bem. Minha visão escurece novamente.
Quando tudo volta a clarear, sinto uma coisa diferente. Eu ainda estava tendo as visões, porém, algo havia mudado. O ambiente era pesado, como se eu não tivesse mais presenciando uma situação vivida. E eu realmente não estava. Agora eu estava em um quarto bem escuro, a única luz que havia no local era causada por pequenos raios de sol que passavam pelas rachaduras das paredes.
Um sentimento ruim estava em mim. Por que eu estava vendo isso se eu nunca vivenciei este momento? Foi então que um homem entrou no quarto. Não consigo ver seu rosto por causa da escuridão.
– Como está se sentindo? – Dá uma olhada maligna olhando para frente.
Acompanhei sua visão e só então percebi que na parede para onde ele olhava havia um homem preso. Meu coração dispara. Eu conhecia o homem preso. Havia visto em uma foto. Guilherme me mostrou a foto. O homem amarrado era o seu pai.
Rafael
Guilherme e Lydia correm para a beira do rio, mas nesse momento Igor volta à superfície, boiando. A expressão de Lydia fica um pouco mais aliviada, mas a de Guilherme não.
– Temos que tirá-lo de lá agora! – Guilherme nos olha nervoso antes de entrar na água.
Algo aterrorizante acontece no momento em que Guilherme entra na água. Sombras sem formas começam a rodear Igor. Começam a puxá-lo para baixo d’água pouco a pouco. Igor estava apenas os ombros pra cima quando os olhos de Guilherme começam a brilhar. Ele estava com sua varinha apontada para o céu e seu rosto não tinha nenhuma expressão. Os olhos brilhavam cada vez mais fortes até seu cabelo começar a crescer.
– Guilherme! – Lydia o chama tremendo.
Nunca vi algo igual. O cabelo de Guilherme cresce muito rápido e logo se parece com uma juba. É então que acontece algo que me faz tremer todo.
Sua pele começa a ficar com escamas.
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