Notas iniciais
Once Upon a Time não me pertence.

Escócia, 1952.

Os oito anos que se seguiram àquela época tão triste foram os mais felizes. As maiores preocupações durante este tempo foram as doenças sem importância da sua menina, como acontece, aliás, com todas as crianças, ricas ou pobres.

De resto, e passados que foram os primeiros seis meses, ela cresceu a olhos vistos e aprendeu a andar e a falar, à sua maneira.

Era o raio de sol mais resplandecente que jamais brilhara numa casa entristecida: um rostinho lindo, com os belos olhos de Gold, mas a pele clara, as feições delicadas e os cabelos castanhos e encaracolados de Isabelle. Um espírito vivo, mas sem aspereza, coroado por um coração sensível e caloroso até demais em suas feições. Nessa sua propensão para afetos profundos, fazia lembrar a mãe. Do mesmo modo, se parecia com sua mãe pois era capaz de ser terna e meiga, e a voz era doce, exceto a expressão que era melancólica; ao contrário do pai, sua ira nunca era exacerbada, e ao contrário da mãe, o seu amor não era devastador. Era terno e profundo.

Há que reconhecer, no entanto, alguns defeitos a par dessas qualidades: um deles era certo atrevimento; outro era a teimosia perversa de que crianças mimadas invariavelmente dão mostra, tenham elas bom ou mau gênio.

E, se o pai a censurava, nem que fosse só com o olhar, ficava sentida; até parecia que lhe tinham feito mal.

Foi ele quem tomou sozinho a seu cargo a educação da filha, fazendo disso o seu entretenimento: afortunadamente, a sua curiosidade e inteligência perspicaz faziam dela uma excelente aluna; aprendia depressa e com vontade, fazendo justiça ao mentor.

Rosa chegou aos oito anos e foi com esta idade que ela demonstrava ter uma mente sonhadora e ansiava por aventuras. Às vezes, porém, quando da janela do seu quarto, espreitava os olhos pelos campos, perguntava a ele:

“Papai, quando poderei subir ao topo daqueles montes? Gostaria tanto de saber o que se estende para além deles. É o mar?”

“Não, minha querida” respondeu ele. “São outros montes iguais àqueles.”.

Sua pequena menina procurava por aventuras e aguardava pelas horas da noite em que pai e filha deitavam no sofá defronte a lareira com cobertores e livros que ela mesma escolhia para que ele os lesse. Durante esses oito anos, ela sempre perguntava sobre sua mãe, mas ela nunca chorara.

Exceto naquele dia, em que os campos estavam encobertos por uma neblina densa, e apenas alguns raios de sol conseguiam se infiltrar pela névoa. Naquele dia, sua Rosa chorou.

Adrian Gold estava sentado em sua poltrona habitual, na biblioteca, fazendo anotações em alguns papéis e documentos, quando a porta se abriu bruscamente, e uma pequena garotinha com cabelos castanhos revoltos entrou pela sala.

Ela não parou em frente à sua mesa, mas correu diretamente para o pai e se jogou nos braços dele, escondendo o rosto contra o peito dele e chorou.

“Hey... Pequeno raio de sol” Ele largou os papéis sobre a mesa e abraçou sua filha, assustado. “O que foi querida? O que aconteceu?”.

Rosa permaneceu com o rosto escondido, e Adrian não a pressionou, esperando pacientemente até que ela se acalmasse. Ele não gostava de ver sua filha chorar, pois aquilo o amedrontava.

Depois de alguns instantes, ela levantou o olhar para o pai. “O que aconteceu querida?” Gold perguntou novamente, limpando as lágrimas das bochechas dela com as pontas dos dedos.

“É que... Ah papai...” Ela respirou fundo, tentando ser corajosa. “Eu sinto muito, mas eu fui até o sótão...” Rosa falou receosa, como se houvesse cometido um crime. Gold suspirou; era no sótão que ele guardava alguns de seus pertences que ele usara durante a guerra. “E... Eu achei uma foto...”. Ela falou num sussurro.

Adrian não precisava perguntar qual foto era, pois ele sabia exatamente de qual ela estava falando. Era uma foto pequena e borrada, amarelada por causa do tempo, que fora tirada na casa dos Bougton na primeira noite em que Isabelle chegara a Paris e que eles haviam se conhecido. E embora a foto fosse preta e branca, ele lembrava-se perfeitamente da cor do vestido e dor olhos de Isabelle: ambos de um azul penetrante.

“Como ela era?” Naquele momento, Gold entendera porque Rosa chorava; ela tinha saudades de sua mãe.

Rosa já havia feito àquela pergunta várias vezes, mas ele sabia que sua filha queria saber realmente quem fora a sua mãe. Gold refletiu por alguns instantes, lembrando-se da amada. “Isabelle era uma mulher corajosa. Extremamente corajosa e bondosa”. Ele sorriu. “Ela era uma mulher linda, que não teve medo em ajudar o seu povo. Uma linda mulher que amou um homem que acreditava ser um monstro. Sua mãe conseguia ver bondade nos outros, e quando não estava lá... Ela criava” Rosa o olhava intensamente, e as lágrimas em seus olhos já havia cessado. “Sua mãe foi a pessoa mais incrível que eu conheci...”.

Rosa suspirou tristemente, abraçando novamente o pai, e murmurou:

“Eu sinto falta dela...”.

Ele a abraçou fortemente, tentando confortá-la. “Eu também, minha querida... Eu também”.

Adrian Gold sempre temeu ter que conviver o resto de sua vida tendo de ouvir em seus pensamentos as memórias das batalhas que enfrentara em campo, das bombas que caiam sobre suas cabeças e sobre as cidades, e os gritos agoniados das pessoas que morriam ao seu redor. Mas, não eram essas lembranças que o perseguiam. O que o perseguia era o olhar sorridente, o sorriso tímido, o calor dos abraços, a melodia suave da voz daquela que conviveu com ele e que jamais iria voltar. Afinal, era este o som da guerra.

Notas finais
E aqui está o último capítulo. Eu gostaria de agradecer a todos que acompanharam esta fanfic; aos que deixaram os seus comentários e também aqueles que não quiseram comentar. Eu amei escrever esta história e espero que este epílogo feche com chave de ouro. Obrigada de coração e até a próxima aventura!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!