The Soul
4 Quatro - Luna
Com cuidado, levamos os dois para a casa de Terra Branca, deixamos Tedy na cabana, para evitar que ele chamasse a atenção novamente. Eu não tinha problemas em carregar Milena, ela era leve como uma pluma, mas já Terra Branca estava tendo problemas em carregar Sol Poente, apesar de eu achar que ele não era tão pesado assim.
— Pelo jeito você não anda exercitando o corpo de Jack. – digo enquanto caminhávamos, meu namorado era fascinado por academia, para ele não seria problema nenhum carregar Sol Poente pela mata, alias ele carregaria os dois.
— Esse corpo exige exercícios físicos, acho que seu namorado gostava de praticá-los, — respondeu ele — eu até tentei jogar alguma coisa, fui muito bem, mas... Não gostei. É algo novo para nós.
— Já tentou academia?
— Ainda não.
— Deveria tentar, Jack gostava muito. – seria triste ver o corpo de Jack murchar por falta de exercícios.
— Você quer que eu carregue a garota para você? – perguntou ele com uma voz doce, que passou despercebida pela ironia que aquilo era, dei uma enorme gargalhada.
— Terra Branca, você não consegue nem levar esse tal de Sol Poente, quem dirá levar os dois. – respondi rindo, mas logo me arrependi um pouco, pois ele havia ficado chateado.
O caminho não era muito longo, mas se tornava mais cumprido pelo peso extra que carregávamos, e eu não estava a fim de puxar papo, por isso me calei, e percebi que Terra Branca havia ficado chateado com isso, pois se calou também.
Ao se aproximar da casa paralisamos, havia movimento lá dentro.
— Espere aqui. – disse Terra Branca levando o corpo adormecido para trás de um arbusto.
Fiz o mesmo que ele, e me abaixei para ficar escondida. Observei Terra Branca dar a volta na casa e entrar pelos fundos, logo a vós dele ecoou pela casa.
— Ah, olá Luna! – disse ele com uma voz alegre, não pude conter a curiosidade e me aproximei sorrateiramente da casa, ficando em baixo da janela da cozinha, para que eu pudesse ouvir a conversa.
— Terra Branca, que bom te ver! – exclamou uma voz feminina, dei uma espiadela pela janela e pude ver uma adolescente mais ou menos da minha idade, ela era loira e tinha olhos castanhos e usava um vestido floral longo – Espero que não se importe, mas preparei um chá para nós.
— Claro que não Luna. – respondeu ele se sentando na bancada da cozinha pegando uma xícara de chá e cheirando – Camomila, meu preferido.
— Eu pensei que seria. – a garota sorriu – Passei para te fazer um convite, percebi que você não estava, então decidi esperar. Não resisti ao seu estoque de chás maravilhosos.
— Nada é apenas meu Luna, é de todos nós. – ele sorriu e ela sorriu também.
— Claro, não é?
— Mas então, que convite você veio me fazer?
— Ah sim, o convite. Eu lembrei que você estava morando aqui sozinho, ai pensei que talvez você fosse querer uma companhia para a festa de ano novo. – percebi pelo tom de voz dela, que ela estava tímida.
— Oh, que gentileza sua! – exclamou Terra Branca – Seria um prazer.
— Que bom que você aceitou! Posso passar te buscar?
— De jeito nenhum, eu passo buscar você, pode ser?
— Claro, melhor assim. – a garota sorriu de orelha a orelha.
— Talvez me atrase um pouco, estava dando um passeio na floresta, talvez eu demore para me arrumar.
— Não terá problema, eu te esperarei. – a garota bebeu um longo gole do chá, tinha medo de que ela não fosse embora.
— Bem, se você me permite preciso arrumar umas coisas em meu quarto e....
— Ah, sem problemas, vim aqui incomodar você, pode ir, eu já estava de saída mesmo.
— Então, te pego lá pelas nove horas?
— Certo. – a garota sorriu novamente, e eu já estava farta de ver aquele sorriso.
Os dois se abraçaram e a garota se retirou da casa, entrou em um sedã preto e partiu. Terra Branca esperou um momento antes de sair para fora. Juntos levamos os dois corpos para dentro e os colocamos sobre a cama de Terra Branca.
— Você acha que eles vão acordar logo? – perguntei.
— Acredito que não, — respondeu ele depois de inspecionar os dois – você bate muito forte.
— Obrigada, aprendi fugindo de vocês. – eu estava cansada e com fome, por isso me joguei no sofá que havia no canto do quarto – Esses dois estragaram minha janta.
— Verdade! – respondeu ele – Venha, sobrou um pouco de sopa, você deve estar morrendo de fome. – ele estendeu a mão para mim, querendo me ajudar a levantar, mas eu a ignorei, levantei sozinha e me dirigi a cozinha, peguei um prato fundo e enchi com sopa.
Infelizmente era sopa de legumes, nada contra, mas eu estava com vontade de comer algo que não fosse verde. Me sentei na bancada da cozinha e comecei a ralar o queijo em cima da sopa, enquanto isso Terra Branca se sentava em minha frente.
— Você não gostaria de um pouco de sopa em cima de seu queijo? – brincou ele, afinal eu estava colocando uma quantidade absurda de queijo em minha sopa.
— Não obrigada, prefiro queijo mesmo. – respondi rindo.
Ele ficou em silêncio por um tempo, e depois me fez uma pergunta, que me fez congelar por um segundo. Preferia que ele tivesse ficado quieto.
— É difícil para você ver... O corpo de Jack? – essa foi a pergunta, eu estava levando a colher de sopa a boca, mas parei no meio do caminho.
— Você não faz idéia. – respondi.
— Você gostaria que eu partisse? – essa pergunta me pegou desprevenida.
— Claro que não. Essa é a sua casa, se alguém terá que partir, serei eu.
— Eu posso fazer alguma coisa para aplacar essa dor?
— Terra Branca, — suspirei – o que eu preciso é ter meu namorado de volta, mas isso não é possível. Então não há nada que você possa fazer.
— Sinto muito. – respondeu ele, abaixando a cabeça, evitando olhar nos meus olhos. Eu podia sentir sua tristeza.
— Você não tem culpa por ter nascido assim. – disse, tentando amenizar sua tristeza.
— Em todos os outros planetas em que vivi, nunca tive emoções tão fortes como estou tendo aqui. – disse ele levantando a cabeça e olhando para a janela – Gostaria de nunca partir daqui. Mas por um lado, essas emoções me fizeram ver uma coisa. – pensei que ele responderia, mas ele nada disse.
— Que coisa?
— Somos parasitas. – respondeu ele, seu olhar pousou em mim e pude ver o quanto ele odiava ser quem ele era – Precisamos viver no corpo de outras... Coisas para poder viver. Isso é horrível, tiramos a vida de tantas pessoas neste planeta, separamos famílias... As outras almas falaram que estávamos salvando esse planeta, não apenas da poluição e destruição, mas da morte. Eu pensava, “como vocês podem matar membros da mesma espécie, sem dó nem piedade?”. No inicio eu pensava que estávamos fazendo a coisa certa, como sempre. Mas ai as emoções começaram a chegar, as memórias da família de Jack, e da sua também. Vocês eram puros, conservavam esse mundo, não matavam, não roubavam, eram justos. E havia amor entre vocês, muito amor. Foi quando eu percebi que separamos algo lindo e maravilhoso.
— Eu... Nem sei o que dizer. – ele ignorou minhas palavras e continuou.
— Nós almas nos julgamos puras e boas, não mentimos, não matamos, amamos uns aos outros, decidimos que vocês não deveriam viver, e sim nós. Mas na verdade estávamos errados, nós que não deveríamos viver, porque nós matamos algo que era tão lindo. Matamos o amor. – ele começou a chorar, e por algum motivo suas lágrimas me deixaram triste, coloquei minha mão sobre a sua.
— Se você não fizesse isso, morreria. – não sei porque, eu parecia estar defendo as almas, mas na verdade, eu apenas não queria vê-lo chorar, odiava tudo que as almas representavam.
— Você é tão pura. – respondeu ele sorrindo – Mesmo odiando tudo o que nós fizemos com sua espécie, você me consola, dizendo algo que causou a morte de sua família.
— Eu estou dizendo a verdade, apenas acho que as coisas não deveriam ter sido do jeito que foram, mas sua espécie precisa estar em outro corpo para viver.
— Obrigado Zoey. – ele respondeu com um sorriso, enxugando as lágrimas com a mão livre.
— Vou te contar um segredo. – disse – Ter você por perto me deixa um pouco melhor, mesmo sabendo que Jack morreu, olhar para o corpo dele me deixa... de um certo modo não dói tanto. É como se ele ainda estivesse aqui. – ele sorriu e olhou para mim de um jeito tão doce... Não, eu não podia deixar uma alma me amolecer – Minha sopa vai esfriar.
Tirei sua mão de cima da minha e voltei a comer a sopa.
Terra Branca observava as casas ao redor, depois que terminei lavei e enxuguei a louça, ele insistiu para ajudar, mas eu não deixei. Depois de longos minutos, ele disse:
— Podemos ir, todos já foram para a festa.
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