The Snow Queen
7 P.S. I Miss You
Notas iniciais
The Snow Queen
–LightB
P.S. I Miss You
Olhei para o céu estrelado, não havia uma única nuvem no céu, eu sei que deveria estar nevando, quer dizer, estamos no meio do inverno e tudo mais, mas eu sempre adorei observar as estrelas, tão brilhantes e belas, iluminando a noite tão negra, fazendo companhia para a lua.
Respirei fundo antes de me levantar, estava sentada no parapeito de um prédio, devia estar ao o que? Uns 30 andares do chão? Quantos metros daria uma queda dessas? Com certeza seria mortal para um humano.
Fiquei em pé no parapeito e voltei a respirar fundo o ar gélido da noite, o céu pode estar limpo, mas o frio da última nevasca continuava intacto, com um leve suspiro deixo que as nuvens retornem, afinal, eu tinha que manter as estações corretas, ou eles podiam resolver me trancar em uma masmorra.
Voltei a suspirar balançando levemente a cabeça, tenho de deixar de ser tão dramática, os guardiões nunca fariam algo assim comigo, quer dizer, eles são excelentes, eu os adoro muito e sempre que posso vou ao Norte visita-los, o que infelizmente é quase nunca.
Ser guardiã do amor não é tão fácil quanto parece.
Mas eles passaram dos limites, quer dizer, não precisavam ter me mandado de volta ao hemisfério norte, ou melhor dizendo, me expulsado para o hemisfério norte, tudo por que o Jack esqueceu que são poucos os países do sul onde neva no inverno e, sem querer, lançou uma pequena nevasca no norte da América do Sul.
Quem poderia saber que nunca havia nevado no Brasil? Ou que na linha do Equador o clima é mais quente e nunca neva?
Okay tudo bem, todos sabemos disso, mas foi um único deslize, e não foi graças a mim, não totalmente pelo menos, quer dizer, Jack estava a um mês atrasado por conta dos assuntos dos guardiões, eles deveriam ter entendido, não é?
Pelo contrário, decidiram que minha presença desviava a atenção dele de seu trabalho e que enquanto o inverno do hemisfério sul não acabasse ele não sairia dali e eu teria de ficar no hemisfério norte, por que a população mundial é maior aqui e meus poderes seriam mais bem utilizados levando o amor e a neve a lugares onde neva o ano inteiro.
Eles só podiam querer que eu fosse para a Groelândia, quem sabe Alasca? Já sei, passar umas férias no Norte fazendo casais de Gnomos e Iets, quem sabe até de Renas?
O pior de tudo ainda não é isso, mas quando o inverno acabou e o Jack estava para me encontrar ele recebeu mais um chamado, eles sempre aproveitavam a breve pausa entre as estações, quando não há inverno em lugar algum, para essas reuniões que tinham de ser feitas, mas parece que a reunião desse ano tinha sido convocada apenas para nos afastar ainda mais.
Respirei fundo, irritada comigo mesma pelas besteiras que pensei, logico que isso não era por nossa causa, aposto que eles devem estar querendo matar o Jack e se pudessem o mandariam logo para mim, para que ele parasse de reclamar.
Como eu sei que ele está reclamando? Por favor, estou falando do Jack Frost, ele sempre está reclamando de alguma coisa, por mais estupida que possa ser, ainda mais se ele quisesse estar em algum outro lugar.
Dei as costas para a queda atrás de mim, podia sentir o cheiro da neve se aproximando, logo mais uma nevasca iria começar, talvez seja a natureza, ou quem sabe minha repentina irritação, algumas vezes não sei dizer exatamente o que causa as nevascas, principalmente durante os invernos.
Soltei o peso do corpo para trás e me deixei cair naquele precipício, podia ouvir os carros lá embaixo, passos apressados de quem já pressentia a nova nevasca e queria chegar em casa antes que ela começasse.
Fechei meus olhos e abri os braços sentindo o ar passando velozmente por mim, passando por todo meu corpo, desde os pés até cabeça, bagunçando meu cabelo, desfazendo a trança.
–Vento, me leva para casa.
Não precisei e mais nada, apenas isso bastava, logo fui envolvida pelo vento e me senti ser levada para o alto, abri os olhos após algum tempo e fitei as nuvens ao meu redor, espessas e escuras, prontas para uma longa e gelada tempestade de neve.
Espero que todos já tenham se abrigado em suas casas.
Passeis meus dedos por algumas nuvens, diferente das nuvens de verão elas não se desmanchavam ao toque, simplesmente se espalhavam um pouco, mas logo voltavam a posição anterior, unidas a uma gigantesca nuvem que cobria todo o céu.
Após um longo tempo eu consegui avistar Arendell no horizonte, as luzes brilhando intensamente e o movimento que nunca cessava em suas ruas, por mais que fique em uma ilha na costa da Dinamarca, aqui não estava tão frio, quer dizer, estava frio sim, mas no Canada, onde estava antes, fazia ainda mais frio, a temperatura beirava os -20°C.
Já era quase 2 horas da manhã quando avistei meu lindo castelo de gelo, pousei na varanda do meu quarto, aproveitando a sempre baixa temperatura ali, assim que abri as portas de vidro eu senti um cheiro extremamente conhecido. Fechei as portas atrás de mim e andei em direção a porta do quarto, assim que passei por ela o cheiro se intensificou.
Não pude deixar de sorrir.
Passei rapidamente pelo longo corredor e logo desci as escadas, meio correndo, a TV estava ligada iluminando a sala escura, havia um moletom azul no avesso jogado de qualquer jeito no sofá, ri levemente antes de me encaminhar para a cozinha, de onde o cheiro vinha.
Assim que pude olhar para dentro da cozinha avistei Jack, ele estava de costas para mim, completamente distraído preparando chocolate quente, como eu amava chocolate quente, e amava ainda mais ele.
Fiquei parada encostada no arco da porta, sorrindo enquanto o olhava andar de um lado a outro sem notar minha presença, concentrado de mais no que fazia, Jack abriu um dos armários e tirou de lá uma xicara branca, colocou-a em cima do balcão a sua frente.
–Acho melhor pegar outra xícara – falei antes que ele pudesse fechar o armário.
Jack se virou imediatamente em minha direção, um lindo sorriso se abriu em seu rosto e eu perdi o folego por um momento, como ele podia ser tão lindo assim? Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele se aproximou e me beijou, um longo e apaixonado beijo.
A como eu senti falta desses lábios.
Quando o ar resolveu desaparecer nós nos afastamos, ainda próximos, Jack passou seus braços ao meu redor e beijou o topo da minha cabeça, respirando fundo, passei meus braços em volta de sua cintura e também respirei fundo aquele cheiro de neve e vento que só ele tinha.
–Senti falta de você irritante.
Quase comecei a rir, a primeira coisa que ele me diz em meses é ao mesmo tempo fofa e idiota, me chamar de irritante? A quem ele quer enganar? Eu não sou a irritante da relação, mas ainda sim, é bom ouvir que fiz falta.
–Nem percebi que você não estava por perto – falei enquanto ficava nas pontas dos pés e espiando o chocolate por cima de seu ombro – até perceber que não tinha ninguém para me fazer chocolate.
Jack riu, uma risada tão espontânea que eu comecei a rir junto com ele, me afastei levemente para encarar aqueles olhos tão azuis quanto o gelo na luz, não resisti a aquela boca e voltei a beija-lo, senti tanto a sua falta que não conseguia sair de perto dele, ou mesmo parar de beija-lo.
Jack me puxou para mais perto, aprofundando o beijo com certa urgência, me puxou para cima e me colocou sentada no balcão mais próximo, seus lábios deixaram os meus e passaram para o meu pescoço, fechei os olhos aproveitando a sensação.
E então eu senti o cheiro.
–Jack.
–O que? – ele falou no meu pescoço, me fazendo arrepiar e depois voltando a beijar minha boca, me impedindo de falar.
–O chocolate – me afastei dele, rindo ao ver seus olhos se arregalarem minimamente antes de correr desligar o fogo e encarar o chocolate quente queimado, rindo – acho que vai ter que fazer outro.
Seus olhos azuis se fixaram nos meus, um arrepio passou por todo meu corpo, Jack me lançou um sorriso de canto, um daqueles sorrisos que derretem até mesmo o mais congelado coração, e então voltou a se aproximar de mim, sem deixar de me olhar nem mesmo por um segundo.
–Amanhã.
E então ele voltou a me beijar.
Acordei horas depois, incomodada, havia um feixe de luz exatamente nos meus olhos, malditas paredes transparentes, me virei para o outro lado, irritada, do que adianta um castelo de gelo, no inverno, se o sol resolve aparecer para me acordar?
Assim que me virei trombei com o Jack, que como sempre estava ocupando uma parte da cama maior do que ele, dormindo tão profundamente que quase parecia estar em coma, mas ainda assim era quase tranquilizante vê-lo dormir, o problema é que, com ele ocupando toda a cama eu basicamente não podia me mexer sem cair dela.
Depois de alguns minutos tentando, inutilmente, me acomodar para voltar a dormir acabei desistindo e resolvi levantar e fazer alguma coisa, até por que, havia um pouco de bagunça para arrumar.
Procurei por minhas roupas, mas elas não estavam ali, deviam estar espalhadas em algum lugar entre a cozinha e o quarto. Suspirei levemente, olhei de volta para a cama vendo o dono dos cabelos brancos ainda dormindo como se nada mais importasse.
Queria conseguir dormir assim também.
Soltei um breve riso enquanto me dirigia ao banheiro, tomei um longo banho quente e peguei uma muda de roupas no armário, depois de me vestir sai pegando as roupas espalhadas pela escada e pela sala.
Desliguei a TV e levei as roupas de volta para cima, joguei-as no cesto de roupas do banheiro e voltei a sair do quarto silenciosamente, aprendi da pior maneira possível que se Jack Frost for acordado muito cedo, ninguém consegue suporta-lo.
E acredite, se eu tenho vontade de mata-lo, é por que ele fica mais do que completamente insuportável.
Parei no topo da escada, olhando para o salão de entrada, a fonte de gelo no centro, as portas e paredes translúcidas, o gigantesco lustre, igual ao que havia no castelo, a nostalgia me atingiu.
Me peguei pensando no castelo de Arendell, não havia voltado lá desde que fugi naquele dia, havia tanto tempo, décadas já haviam se passado, meus sobrinhos já governaram e agora seus filhos governavam o reino.
E eu nunca os vi.
Soltei a respiração que nem percebi estar segurando, como eu pude esquecer que dia era hoje? Que tipo de pessoa eu sou?
Comecei a descer a escada, praticamente corri até a porta e passei por ela sem olhar para trás, a minha frente se estendiam quilômetros de neve, mais distante no horizonte se estendia um grande reino, inúmeras vezes maior do que o que eu vivi.
O vento logo me cercou, era incrível como ele sempre sabia quando queríamos sua ajuda, uma entidade tão sabia quanto ele devia ter muito mais respeito, pena que as pessoas não reconhecem o quão fantástico ele é, muitas vezes eles nem ao menos percebem sua constante presença.
–Me leve até ela.
E não precisou de mais nenhuma palavra, tudo o que precisei fazer foi fechar os olhos e esperar, logo já estava voando, levada no vento em meio as nuvens, sentindo o frio acariciar meu rosto e bagunçar meu cabelo que se encontrava solto, mas eu não me importava quanto a esse pequeno fato, tudo o que eu conseguia pensar era nela.
Logo já podia ver a montanha que procurava, uma campina plana e normalmente verde no alto de uma montanha, ao mesmo tempo próxima e distante do reino, dali podia-se ver tudo, mas de baixo só se via a montanha rochosa, apenas subindo até aqui para se ver o quão belo verdadeiramente é.
Hoje havia neve em meio a grama, nada muito forte, mas dava um ar melancólico ao lugar, as árvores haviam perdido suas folhas e as flores desaparecido, meus olhos se encheram de lagrimas quando se encontraram com as cinco grandes pedras postas lado a lado na campina.
Ali estavam as lápides de homenagem aos meus pais, o rei e a rainha, logo ao lado estava a minha, descobri depois de algum tempo que, mesmo indo contra todos, Anna havia mandado fazê-la, uma homenagem a irmã que ela perdeu cedo demais, a irmã que ela mal pode chegar a conhecer muito bem.
As lagrimas que antes segurava agora já rolavam livres por meu rosto, meus olhos se viraram para as outras duas rochas, me aproximei delas e passei os dedos pela pedra áspera e gelada, meus dedos percorreram o nome gravado nela.
Rainha Annabell de Arendell.
Uma luz para toda a eternidade.
Sorri entre as lagrimas, não tenho ideia de quem escolheu aquela frase, mas não havia nada mais correto a se escrever ali, Anna verdadeiramente era uma Luz, e uma verdadeira luz jamais se apaga.
As lágrimas rolaram mais e mais enquanto eu sentia a dor, minha irmãzinha foi uma grande rainha, ela governou não apenas com a mente, mas com o coração, assim como eu sabia que faria, ela viveu uma vida longa, feliz ao lado de seu marido e com seus filhos.
Mas ela nunca soube a verdade sobre mim.
Eu queria contar a ela, sempre quis, queria correr até ela e a abraçar o mais forte que pudesse, queria poder ter visto sua vida, estado com ela em seu casamento, quando teve seu primeiro filho, sentado com ela e conversado sobre coisas banais.
Mas eu não o fiz.
Eu não podia chegar até ela após anos acreditando que eu estava morta e simplesmente dizer que eu estava viva, que agora era imortal e que era a guardiã do amor. Não faria o menor sentido a ela, e mesmo que fizesse eu não tinha essa permissão.
Quer dizer, os guardiões são avisados sobre relacionamentos familiares, por mais que possamos ser vistos não quer dizer que devemos ser reconhecidos ou mesmo termos laços com humanos, cujas vidas não são eternas como as nossas, por mais difícil que possa ser, é o melhor para eles, e para nós também.
Encostei minha testa na pedra fria e continuei a chorar, um choro silencioso, deixando a dor fluir, aprendi com o tempo que, quanto mais se guarda uma dor, maior ela se torna, e mais difícil de se lidar também.
Me afastei da rocha depois de alguns minutos, limpando as lagrimas, olhei para a última pedra, não pude me impedir de soltar um sorriso sincero, o amor da vida de minha irmã, ela acabou por morrer antes dele, mas antes que isso viesse a acontecer pediu para ser enterrada junto de seus amados a muito perdidos.
Ela queria ser enterrada ao lado das nossas homenagens, por mais que não estivéssemos realmente ali, era o mais perto que ela podia chegar de nós e eu me lembro de que foi uma verdadeira loucura, Kristoff nem ao menos piscou em fazer a vontade dela, dando um gigante trabalho a todos.
Ele permaneceu o tempo todo forte, firme como um rei deve ser, mas quanto havia apenas ele ali, sozinho, ele chorou, chorou mais do que qualquer outro que havia passado por ali, chorou como se uma parte de si mesmo tivesse morrido com ela.
E eu não duvido que essa fosse a verdade.
Me juntei a ele, chorei silenciosamente, invisível, mantendo uma distância segura, chorei como nunca em minha vida, chorei por Anna, por ele, por seus filhos e por mim mesma.
Comecei a visitar seu tumulo diariamente, e qual não foi minha surpresa ao vê-lo lá. Todos os dias ele levava uma margarida a ela, sua flor preferida, tão cedo que nem o sol havia nascido, fitava a pedra por um tempo e com os olhos escuros pela dor voltava ao castelo.
E foi então que eu soube, Anna encontrou seu amor verdadeiro.
Não havia se passado muito tempo, talvez um ou dois anos, ele ficou muito doente, a última coisa que ele disse foi que queria estar junto com o amor de sua vida, e assim o fizeram.
Rei Kristoff de Arendell.
Coragem e compaixão são tão distintos quando aço e ferro, mas quem os possui está armado contra tudo.
Sorri brevemente, eles haviam sido bons reis, e criaram bons sucessores, foram felizes e tiverem vidas longas, saudáveis, humanas.
Respirei fundo tentando me recompor, olhei para os lados procurando algo que a neve não tivesse matado ainda, mas não havia uma única flor por ali, apenas neve cobrindo tudo.
Encarei a pedra a minha frente, eu não podia simplesmente não deixar nada ali, eu devia ter parado no meio do caminho e pego algumas flores, talvez encontrasse algo na cidade.
E foi então que eu me lembrei, eu tenho poderes de gelo, eu construí um castelo de gelo, o que seria uma simples flor?
Me concentrei, fechei os olhos visualizando perfeitamente a imagem em minha mente, e quando os abri segurava uma perfeita e translúcida margarida de gelo.
Soltei um sorriso triste, ela sempre amou margaridas.
Me abaixei em frente a rocha e coloquei a flor em cima da neve fofa, ela demoraria dias para derreter, talvez durasse até o final do inverno, quem pode saber?
–Feliz aniversário irmãzinha — sussurrei para a flor que agora parecia branca, graças a toda a neve a sua volta — sinto sua falta.
Uma lagrima solitária escorreu por meu rosto e eu a limpei com as costas da mão, me pus novamente em pé, o sol brilhava levemente alto entre as densas nuvens, encarei o céu nublado por alguns minutos, imersa tão profundamente em meus pensamentos que nem o percebi chegar.
Só notei que não estava mais sozinha quando seus gélidos dedos tocaram os meus, os entrelaçando, olhei para o lado, Jack encarava as rochas a nossa frente, seus olhos estavam apagados, sem o brilho de sempre, parecia imerso em seus próprios pensamentos, quase como se estivesse a se lembrar de algo.
Finalmente, após alguns minutos, longos minutos, seus olhos se voltaram para mim, seus orbes azuis encararam os meus e eu não conseguia pensar em nada que pudesse tirar o brilho divertido de seus olhos daquela maneira.
–Nunca soube desse lugar — Jack de pronunciou do nada, quebrando o silêncio do local, me fazendo encarar as rochas — não sabia que havia um lugar especial para enterrar os reis.
–Não há — minha voz saiu baixa, similar a um sussurro, podia sentir seus olhos em mim, queimando minha pele, mas não conseguia deixar de encarar meu próprio nome entalhado na pedra.
Rainha Elsa de Arendell
Eterna Rainha da Neve
–Então?
Jack me tirou do transe em que me encontrava, pisquei algumas vezes percebendo que não havia feito isso durante algum tempo, olhei para ele e nossos olhos voltaram a se encontrar.
–São homenagens — soltei após alguns segundos tentando decidir quais palavras usar — as duas primeiras são meus pais, seus corpos jamais foram encontrados então essas pedras foram usadas como uma homenagem a eles, algo duradouro, para que as pessoas se lembrassem.
–E os outros três? — Jack olhou rapidamente para as três outras rochas e depois seus olhos voltaram para mim, esperando que eu explicasse.
–A terceira é minha, uma homenagem que Anna fez, por algum motivo ela mandou fazer isso, eu estraguei tudo e ela ao invés de esquecer sobre mim, sobre tudo o que a fiz passar ela simplesmente me fez isso.
Meus olhos novamente estavam cheios de lagrimas, Anna sempre foi tão boa, tão pura, jamais chegarei perto de entender como ela conseguia simplesmente perdoar tudo e seguir em frente, sem querer me odiar por todos os anos que passou trancada no castelo, ou por ter me afastado, pela morte de nossos pais, ou mesmo pelas responsabilidades que teve de assumir quando eu desapareci.
–Elsa — Jack sussurrou levemente, meus olhos brilhantes pelas lágrimas se desviaram dele e foram até a pedra dela e de seu marido, eu não conseguia encara-lo — sua irmã sabia o quão difícil foi para você, ela entendeu seus motivos, ela amava você, por isso fez essa homenagem, para que todos te amassem também.
Eu o abracei o mais forte que pude, não acho que mais alguém pudesse saber exatamente o que dizer naquele momento, seus braços se fecharam a minha volta e ele beijou o topo de minha cabeça enquanto as lagrimas voltavam a rolar por meu rosto.
–Obrigada — minha voz saiu abafada por sua roupa, mas eu sabia que eu me ouviria, respirei fundo, o cheiro de vento e neve me invadiu e as lagrimas desapareceram.
Jack simplesmente acariciou os fios loiros do meu cabelo e permaneceu em silêncio por um tempo, me dando o tempo que eu precisava.
Depois de alguns minutos já me encontrava mais calma, não consigo entender esse efeito calmante que Jack tem sobre mim, é como se, apenas o fato de estar perto dele, já me deixasse mais confiante, mais segura.
–Se são apenas homenagens, por que sua irmã e o marido foram enterrados aqui?
–Ela queria estar o mais próximo que fosse possível de nós, e Kristoff a amava tanto que queria estar com ela, não importando onde fosse.
Jack passou seu braço ao redor de meu pescoço e eu encostei a cabeça em seu ombro, olhei uma última vez para as rochas antes de me virar com ele e seguir para o castelo de gelo.
O caminho se passou em total silêncio, o que era algo estranho para o Jack, ele normalmente sempre fala algo, faz algum tipo de brincadeira ou mesmo me provoca com alguma coisa idiota, simplesmente para me fazer rir.
Mas não desta vez.
Chegamos ao castelo em silencio e para minha surpresa Jack simplesmente seguiu em direção a cozinha, sem dizer nada, o que me surpreendeu, fiquei parada por um tempo, surpresa, mas logo já o segui, decidida a entender o porquê de ele agir assim, tão frio.
Assim que adentrei a cozinha percebi que ele estava fazendo chocolate quente, de novo, sentei-me no balcão ao lado dele e fiquei encarando seu rosto, mas ele não me olhou em momento algum, simplesmente ficou encarando o fogão.
–Hey, olha pra mim – estiquei o braço, tocando seu rosto e o virando para mim, seus olhos me encararam e eu percebi que ele não estava bem, nada bem – o que houve?
Jack não disse nada, ele simplesmente me abraçou, mesmo surpresa eu passei meus braços em volta de seu corpo e o apertei contra mim, o mais forte que pude. Nunca o havia visto assim, a situação era sempre invertida.
Podia sentir sua respiração em meu pescoço enquanto eu mexia nos frios brancos de seu cabelo, fiquei em silencio, dando a ele o tempo que precisasse, assim como ele sempre faz comigo.
Alguns poucos minutos depois ele se afastou de mim, desligou o fogo e me olhou, seus olhos azuis estavam levemente vermelhos e eu senti um aperto no peito, odiei vê-lo daquela maneira e nem ao menos saber o porquê.
–Minha irmã.
Jack soltou do nada e meus olhos se arregalaram, ele teve uma irmã?
–Ela tinha nove anos quando eu morri – Jack pegou duas xícaras e as colocou ao meu lado, logo as enchendo com o chocolate – eu não me lembrava dela até poucos anos antes de encontrar você.
–Qual era o nome dela?
–Lyanna – Jack me entregou uma das xícaras e se sentou no balcão ao meu lado, olhando para a própria xícara em suas mãos ele sorriu brevemente antes de voltar a falar – ela adorava patinar no gelo, esperava o ano todo pelo inverno simplesmente por isso.
Fiquei em silencio, olhando para ele enquanto esperava que ele continuasse a falar, não ia interrompe-lo ou fazer perguntas, ia deixar que me contasse apenas aquilo que quisesse, sem ser interrompido.
–Nós estávamos patinando quando o gelo começou a rachar – seus olhos se fecharam e suas mãos se apertaram ao redor da xícara, coloquei minha mão em seu braço, tentando passar algum tipo de conforto – Lyanna estava prestes a cair e eu tinha que salvar ela, fiz ela permanecer calma mesmo que eu estivesse em pânico, e quando pude alcança-la a puxei para longe do gelo, e então eu caí.
Encarei ele, seus olhos se abriram, levemente vermelhos ainda, soltei uma de suas mãos da xícara e a segurei, cruzando nossos dedos, Jack me olhou e deu um sorriso triste, meu coração apertou ainda mais, eu definitivamente odiava ver ele assim.
–Eu salvei a vida dela e perdi a minha – suas palavras soavam tristes, mas ao mesmo tempo havia um certo orgulho nelas, e eu sabia que ele não estava triste por ter morrido a salvando, mas por não poder estar com ela – acordei sem lembrança alguma de quem eu fui, sabia apenas meu nome e descobri meus poderes e minha missão.
–Sinto muito Jack – falei em um sussurro, ele voltou a me dar um sorriso triste e bebeu um pouco de seu chocolate, encarando o nada – eu não conheci ela, mas, salvar a vida dela custando a sua? Jack, você foi o herói dela, salvou sua vida e eu tenho certeza de que ela tinha orgulho de você.
Jack me olhou, seus olhos azuis fitando os meus e me deu um leve sorriso, sua mão se soltou da minha acariciou meu rosto antes de seus lábios tocarem os meus, um beijo lento e carinhoso, e quando acabou ele encostou sua testa na minha, seus olhos azuis encaravam os meus.
–Obrigada – Jack sussurrou e me deu um beijo na testa, me fazendo sorrir levemente.
–E você sabe o que aconteceu com ela? – perguntei verdadeiramente curiosa.
–Andei procurando desde que me lembrei e descobri que meus pais se mudaram dali logo que eu desapareci, Lyanna acabou por se casar com um Lorde e pelo que parece foi muito feliz, governando um belo castelo, como sempre sonhou.
–Tudo graças a você – sussurrei em seu ouvido o fazendo sorrir e eu pude ver os pelos de seu pescoço se arrepiarem.
Jack me puxou para mais um beijo, mais urgente, desceu do balcão sem separar seus lábios dos meus, suas mãos foram para minha cintura, me puxando para mais perto e eu enterrei meus dedos em seus cabelos brancos.
–Eu amo você – falei quando o ar faltou e tivemos de nos separar, seus olhos se encontraram com os meus e ele sorriu.
–Eu amo você – Jack disse antes de voltar a me beijar.
E naquele momento nada mais importava.
The End.
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