The Six Kingdoms: OS ORBES DO PODER!
4 Capítulo 4 - O Orbe Espiritual
Notas iniciais
De todas as coisas que Bruce Kings já tinha visto no mundo de Krinsen, aquilo que estava sentado no trono de prata bem a sua frente era, sem sombra de dúvidas, a mais curiosa de todas.
– Você já almoçou? Eu estou morrendo de fome! – Disse uma voz áspera, que, apesar de sua tonalidade, demonstrava sutileza.
– Eu ainda... Não. — Não tinha sequer idéia do que estava pronunciando. A visão que estava tendo impedia completamente qualquer tentativa de Bruce de pronunciar as palavras corretas.
– Ora, que falta de educação a minha, nem me apresentei! – Começou de novo a mesma voz – Eu sou Syren Wild. Protetor de Oakstride, Arqui-Mago, Um-dos-Seis, e mais um monte de nomes chatos que não possuem valor sequer. Por favor, me chame somente de Syren.
Levantou normalmente do trono, desceu os dois degraus que nivelavam a sala da corte, e estendeu a mão para o jovem apertar. Bruce só não tinha absoluta certeza se poderia mesmo chamar aquilo de ‘’mão’’. Na ponta de cada dedo existia uma garra afiada e comprida, com cerca de 4cm. Seu braço, assim como todo o resto do corpo, era coberto por uma pelagem negra e lisa, com algumas poucas manchas avermelhadas. Bruce despertou de seu transe e conseguiu identificar melhor com o que estava conversando. Syren possuía a cabeça de um verdadeiro felino. Focinho, alguns dentes pontiagudos para fora, bigodes, orelhas, e aqueles enormes olhos amarelos com as íris verticais. Os pelos de seu rosto eram igualmente negros, com algumas pintinhas vermelhas. Da parte de trás do seu quadril nascia uma grande cauda preta e branca, que ficava se mexendo incessantemente.
Bruce apertou a mão do Protetor e pronunciou timidamente:
– Muito prazer. Er, senhor.
– Por favor, sem formalidades. Ah, e não ligue para a cauda. Ela odeia quando eu a deixo presa – Dizia agora andando de um lado para o outro, olhando as armaduras e tocando a mobília quase como se estivesse mais curioso do que Bruce. – Bela lâmina que você tem aí atrás, em?
– Ah, sim... Bem, é da minha família, e ela simplesmente apareceu na minha mão esta manhã.
– Oh, ela apareceu? – Fingiu surpresa, agora de costas para Bruce, olhando para os lustres pendurados no teto. Vestia uma túnica bege comprida, com alguns pelos, estampas e desenhos diversificados. A túnica possuía um capuz com dois espaços emendados nas laterais, os quais Bruce julgou servir para as orelhas. Em sua testa, segurado pelas suas orelhas, estava um diadema de bronze com uma pedra verde encravada no meio.
– Bruce, acho que sabe o porquê de eu ter te chamado, não sabe? Reconheço que você precisa de algumas respostas. Imagino que o meu Comandante já tenha te dito algumas coisas, mas estou aqui para esclarecê-las. – Deixou de lado a decoração de sua própria casa e passou a encarar Bruce com um olhar severo e atento.
– Eu só estou confuso. Quero dizer, as pessoas desaparecem, e do nada uma garota de armadura me leva para um mundo onde existem goblins, trolls, hipogrifos e...- Quase cometeu o erro de pronunciar ‘’Homem-gato’’, mas imaginou que isso poderia soar como um insulto e tanto. – E todas essas coisas de magia. Como foi que eu vim parar aqui?
– Hum – Pensou – Sinto em te dizer, Bruce, mas ainda não tenho cem por cento de certeza sobre o que está acontecendo. Tenho uma reunião com os outros protetores amanhã de manhã, e pretendo obter algumas respostas, por enquanto eu só tenho algumas estimativas. Mas, para que você entenda melhor, antes eu preciso te contar uma história – E sentou novamente em seu trono.
Com aquele par de olhos amarelos e vivos cravados em seu olhar, Bruce conseguiu perceber o que ele achava que todas as pessoas de Oakstride já sabiam há muito tempo. O homem que estava sentado agora em sua frente é extremamente poderoso. Bruce não sabia dizer como, nem por que sabia disso, mas ele simplesmente sabia. Era como se ele pudesse sentir o poder emanando daquele monte de pelos. Seus olhos transbordavam conhecimento e sabedoria, e mostravam muito mais do que uma simples íris vertical. Era como se todas as suas emoções e acontecimentos passados estivessem escondidos atrás daquela fina camada de melanina. Parecia possuir a habilidade de ler qualquer pessoa por dentro.
–Há aproximadamente 600 anos, em uma era antiga e remota – Começou novamente – Onde o caos reinava sobre a paz, as fronteiras dimensionais eram extremamente fracas, o que tornava a passagem de uma dimensão para outra muito mais fácil. Milhares de fendas como a que você viu agora pouco estavam abertas, e dessas fendas saía o inimaginável. Monstros terríveis migravam para Krinsen e destruíam tudo o que viam. Eram tempos de guerras intermináveis, muitos guerreiros e cidadãos estavam morrendo, Krinsen estava próxima do fim. Quando todos achavam que não havia mais esperança alguma de sobreviver ao caos que se espalhava pelo mundo, 6 honrados guerreiros juntaram suas forças para criar um objeto de extremo poder. Objeto o qual foi capaz de controlar e estabilizar o plano dimensional, cessando as guerras e trazendo a paz para Krinsen. Estes 6 guerreiros, que se tornaram os primeiros protetores, criaram o Orbe Espiritual, uma pequena esfera mágica que continha toda a energia do universo e representava o quinto elemento, o Éter. — Enquanto falava, sua cauda continuava se mexendo de um lado para o outro – Acontece Bruce, que este Orbe estava seguro em um templo criado pelos 6 Antigos na província de Mystica, até alguns dias. Mas, por alguma eventualidade – Moveu rapidamente o olhar na direção das costas de Bruce – Ele não está mais lá.
– Alguém o roubou?
– Creio que seja ainda pior que isso, Bruce. O Orbe Espiritual se auto-dividiu, e deu origem a outros 4 Orbes, não tão poderosos, mas igualmente destrutivos. Um para cada elemento da natureza. Essa divisão causou e desestabilidade do campo dimensional. É claro, em uma escala muito menor do que o ocorrido de 600 anos atrás, mas ainda sim é instável, e provavelmente irá se agravar com o tempo.
Bruce não se conteve. Fez a pergunta que estava querendo fazer desde o momento em que entrara pela porta bordada da sala da corte.
– Senhor, o que a minha foice tem de tão especial?
– Bruce, eu sinto uma energia mágica muito estranha e poderosa emanando dessa arma. Você foi, provavelmente, transportado para o mundo em que acordou hoje através da magia presente nessa foice. Pensei seriamente em pedi-la emprestada por um tempo para poder analisá-la melhor – Disse olhando para os desenhos cravados no corpo da foice, e depois para o brasão da família Kings desenhado na lâmina negra – Mas temo que ela possa responder de uma maneira não muito... Adequada. Fora o fato de que ela possui uma ligação fortíssima com o dono, ou seja, você. Portanto, creio que o único jeito de descobrir do que essa foice é capaz, é deixando-a com você.
– O senhor já tem alguma hipótese, não é?
– Sim. Mas, como você já percebeu, eu não costumo lidar com fatos não comprovados.
– E o que o senhor pretende fazer em relação a esses orbes? Como eu volto para o meu mundo?
– Essas são perguntas que eu ainda não possuo resposta. Amanhã após a reunião do Conselho dos 6 eu te darei uma resposta. Por enquanto, Bruce, você está dispensado. Retornarei a te chamar assim que for preciso. Você é bem-vindo para ficar na cidade o tempo que for necessário, escolha a estalagem de sua preferência!
– Muito obrigado, senhor!
– Syren, por favor.
Bruce já estava dando meia volta para sair da sala da foice, quando o Arqui-Mago o chamou novamente.
– Ah, Bruce! – Exclamou – Eu quase me esqueci!
Levantou do trono, foi até a um armarinho no canto da sala, abriu a portinha e tirou de lá de dentro um pano negro.
– Tome. Você vai precisar de uma dessas, caso queria mesmo descobrir os poderes de sua foice.
Bruce pegou o pano e o desdobrou. Era uma capa negra com um capuz.
– Oh! Muito obrigado, Senh... Syren!
– Por nada. Aceite como um presente. Tenha um bom almoço!
Bruce saiu da sala da corte e se viu novamente na beira da escada circular. Realmente gostou de sua nova capa. Adorava a cor preta, e achou que cairia bem nele. Abotoou a capa bem a frente do seu peito, e na mesma hora uma sensação revigorante percorreu cada centímetro do seu corpo. Sentiu-se muito bem, e julgou que a capa estivesse banhada em algum tipo de magia. Assim que abotoou o fecho, uma estruturinha de metal de aproximadamente 10cm materializou-se bem na frente do seu peito, grudada a capa. O brasão de sua família: 3 círculos. Dois na frente e um atrás. Ambos atravessados por um único risco.
Desceu as escadarias e estava novamente no meio da cidade de Oakstride, com sua foice pendurada em seus ombros, e agora vestindo sua nova capa.Tinha combinado de almoçar com Ágatha na taverna nomeada ‘’ Urso Pardo’’.Percorreu a ruela e avistou de longe uma taverna grande, com uma enorme placa em cima da porta de entrada. Era inteira de madeira, e parecia estar lotada. Pessoas entravam e saíam do local freqüentemente. Entrou pela porta dupla de madeira e avistou um grande balcão com pessoas sentadas, e uma quantidade absurda de mesas espalhadas pelo local escuro e um pouco sujo. Em todas as mesas tinha, pelo menos, uma grande caneca de cerveja transbordando. O barulho do local era tremendo.
Bruce avistou no canto esquerdo uma garota de cabelos negros sentada sozinha numa mesa. Estava com as pernas cruzadas e uma expressão emburrada no rosto. Enquanto Bruce ia se arrastando e se espremendo por entre as mesas, ia reparando nas pessoas que estavam sentadas. Algumas possuíam orelhas pontudas, queixos bem angulados e olhos de cores diferentes. Outras tinham a pele esverdeada, dentes saindo da boca e tinham um porte muscular muito maior do que os padrões humanos. Chegou perto da mesa em que Ágatha estava, e no mesmo momento ela descruzou as pernas e trovejou:
– Ah, aí está você! Eu to morrendo de fome, seu verme! Quanta demora!
– Bem... O Protetor estava me contando tudo. Ele me deu essa capa! – Disse, parecendo mais feliz do que o necessário.
– Hmpf! – Bufou – Me conte o que ele te disse!
Enqunato pediam o almoço, Bruce contou à Ágatha tudo o que o Protetor o dissera sobre a história antiga, os Orbes e sobre sua foice.
– Eu sabia. Essa foice aí tem algo de errado?
– O que ele é? Algum tipo de gato?
– GATO? Você não disse isso a ele, disse? Ele é um Kougar.
– Kougar?
– Isso. Uma raça de felinos de Krinsen muito antiga e quase extinta. Syren é um de seus últimos representantes.
– E eles? O que são? – Perguntou, indicando com a cabeça as mesas do lado.
– Aqueles ali com as orelhas pontudas são elfos. Os melhores arqueiros de Krinsen. Os feiosos esverdeados são orcs. Jura que não existe nada disso no seu mundo? Sei lá, é tão... Normal.
– Pra mim isso não é nada normal. Syren disse que eu posso ficar em Oakstride o tempo que eu precisar. O que você vai fazer hoje a tarde?
– Preciso treinar com os soldados. Você pode ir se quiser.
– Hm... Pode ser. – Disse, com certo medo de ter de enfrentar Ágatha.
Saíram da taverna e Bruce pediu para Ágatha lhe indicar uma estalagem nas proximidades. Passaram pela fonte de entrada e viraram a rua principal da direita, até chegar a uma estalagem chamada ‘’Olho Sem Rosto’’. O local era um pouco relaxado, mas Bruce não estava à procura de nenhum luxo, então para ele estava de bom tamanho. Não precisou pagar, por ordem de Syren.
– Meu treinamento é as 4 horas da tarde. Te espero lá.
– Fechado.
O quartinho pequeno possuía uma cama, uma mesa com duas cadeiras, um sofazinho, um banheiro, e uma janela, onde era possível ver o resto do movimento da cidade.
Tirou a capa, apoiou a foice na parede e deitou na cama. Era por volta de uma hora da tarde, e só precisava encontrar Ágatha na arena as quatro. Havia tempo para uma soneca.
Continua...
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