The Simple Plan
31 Meu erro
Notas iniciais
Eduardo Mendes
“Você fez merda. E do tipo que vai se arrepender eternamente. É, Eduardo, se já estava muito difícil de ficar com a Paolla, agora piorou três vezes mais.” – Eu ouvia a voz sacana do meu inconsciente falar.
Não abri os olhos. Eu sentia perna de Carolina roçando na minha como se tivéssemos entrelaçados em um só. Cerrei os olhos com raiva desejando que tudo isso não passasse de um pesadelo. Não era justo eu ser tão idiota! Eu não podia ter transado com ela, não mesmo.
Eu estava prestes a me levantar quando ouvi um chute na porta do quarto. Era o início de uma confusão daquelas. Talvez seja melhor eu não levantar. Será que fingir de morto adianta?
– EDUARDO! O QUE ESSA MENINA FEZ? – Eric gritou, enquanto eu me sentava e fazia a maior cara de pateta o possível. – FALA CARALHO!
– Quem são vocês? – Perguntei, tentando soar o mais retardado o possível.
Eric abriu a boca em espanto. Carolina me olhou desesperada. Só que o único olhar que prendera fora o de Paolla. Eu não soube bem decifrar o que era. Parecia vergonha ou nojo.
– MAS QUE PORRA! – Eric berrou colocando a mão na cabeça e bagunçando todo o cabelo. – O QUE VOCÊ FEZ SUA VADIA? – E olhou pra Carolina que ainda estava aterrorizada.
– Eu não fiz nada. – Ela disse, forçando a voz soar normalmente. – E como você entrou aqui?
– Seus pais não estavam e você débil mental como é, deixou a porta aberta. – Paolla disse, olhando-a enojada. – Queria que alguém visse você é claro.
– CALA A SUA BOCA! – Carolina gritou se levantando e nem se importando com o fato de estar apenas de calcinha e sutiã. Não que eu me importasse, ela nem é gostosa. – E SAIAM DAQUI!
– Olha, eu acho bom você baixar sua bolinha. – Eric disse tão irritado que eu não o reconheci. – Velho! O que você fez com ele?
– Nada, eu já disse!
– NADA? – Agora Paolla que gritava. – ELE ACORDA DESMEMORIADO E VOCÊ NÃO FEZ NADA?
– Meu irmão é idiota Carolina. – Obrigado Eric. – Mas não tanto a ponto de bater a cabeça e ficar desmemoriado!
Era a hora de eu me intrometer.
– Porque vocês estão gritando, e, aliás, quem são vocês?
Os três me olharam.
– Olha pra mim, olha beeeeeeeeem pra mim. – Eric disse, apontando o dedo indicador e o médio pra mim. – Você não me reconhece?
– Nunca vi mais loiro.
Paolla riu amargurada. Eu a olhei e fiz cara de tapado, ela bufou.
– Que ótimo, quando eu acho que nada mais pode me surpreender, Eduardo vai lá e perde a memória. Ó-TI-MO.
Eu entendi bem a frase dela, mas continuei na encenação.
– Não entendi.
– COLOCA UMA ROUPA DECENTE MOLEQUE! – Paolla esbravejou. Eu teria rido se não tivesse que interpretar um desmemoriado.
– Porque ela grita tanto? – Perguntei olhando para Eric.
– Não sei, mas isso é coisa de mulher. Elas gostam de gritar.
– O que eu fiz pra ela?
– Você não fez nada amor. – Carolina disse, mas eu nem a olhei. Terminei de me vestir e observei Paolla se encostar na porta com aquela cara de “se eu pudesse matava mil”.
– Ele não, mas VOCÊ sim. – Eric a olhou de cima a baixo. – E vá colocar uma roupa, indecente.
Eric às vezes me dá um pouco de orgulho.
Nós três fomos pra sala dando chance pra Carolina se vestir.
Eric bufou e me olhou outra vez, com receio.
– O que eu vou falar pra mãe? Puta merda.
– A verdade. – Paolla respondeu sem me olhar. – Diga que seu irmão retardado caiu enquanto levava a vadiazinha e ela burra como si só tentou ajuda-lo e...
Paolla nunca perde a chance de me xingar. Nunca.
– Olha Paolla. – Eric disse a Paolla como se conversasse com uma criança. – Minha mãe é loira, mas nem de longe é burra. Ela sabe quando eu minto.
– Então eu lamento. O que eu estou fazendo aqui, afinal?
– Era o que eu estava me perguntando. E a propósito, o que eu estou fazendo aqui? – Eric respirou fundo. – E ei, não me olhe assim, você é estranho.
– Juro que vou descer a mão nele. – Paolla disse, irritada. Eu a fitei com desdém. – E também não me olhe assim.
– Eu nem te conheço garota, vá pro inferno. – Uma dica importante quando se finge estar desmemoriado: Assuma uma nova personalidade, se você era um idiota quando tinha memória, torne-se o cara mais grosso do mundo. Apesar de que com Paolla terei que ser o bipolar. É mais fácil pra lidar com ela.
– Eu já vivo um inferno desde que te conheci. – Ela rebateu, raivosa. Gosto quando ela fica nervosa. Eric fez uma cara extremo tédio para nós dois.
Carolina saiu do quarto, ela estava agora de vestido e com o cabelo preso em um coque. Parecia mal.
– E então, vai contar o que fez? – Pressionou Paolla.
– Paolla, você nem estava mais com ele, a você eu não devo nenhum tipo de explicação. – Ela poderia ter ficado sem essa. Eu respirei fundo e os observei se matarem por minha culpa. – Eduardo bateu a cabeça enquanto... – Ela estava mentindo! Que vadia!
– Enquanto...? – Eric incentivou e depois do olhar que ele e Paolla trocaram (eu não gostei disso. Não mesmo, ainda me deixa enciumado o fato deles se falarem) ele abriu a boca, espantado. É... agora eu tomei no... Isso, lá mesmo. – Não acredito! Você por acaso estava no cio sua...
Carolina deu de ombros.
– Eu não me lembro disso. – Tentei me defender. – Aliás, eu não me lembro de quase nada. – Quase falei que me lembrava de ter trazido ela até aqui, mas daria muita bandeira.
– Porque será né? – Paolla ironizou. Eu revirei os olhos pra ela. Sei o quanto detesta quando faço isso.
– Você é tão chata.
Ela sorriu escondendo toda sua ira.
– Obrigada. Devo te parabenizar Eduardo. Tá começando a superar Eric na idiotice.
– Ow! – Eric a olhou ofendido. – Eu ajudo e ainda sim me ferro
– A culpa toda é sua! Não venha fazer a Madalena arrependida pra cima de mim. – Ela murmurou fria e acusatória. Essa é a minha garota.
– Aé? — Ele parou próximo dela que não se intimidou com a aproximação. Paolla ficou na ponta dos pés, enfrentando-o.
– É!
– Tá. Eu só queria confirmar se era mesmo. – Paolla segurou um sorriso. Eric me olhou novamente. – Vamos embora. Carolina não vai falar a verdade e você está desmemoriado. E sendo assim tudo se torna outra novela mexicana ou será novela da Globo?
– Talvez malhação. – Eu falei, dando de ombros.
Eric concordou, e disse:
– Na verdade, tá parecendo história daquelas menininhas românticas que ficam escrevendo historinhas onde no fim são elas mesmo que são dão bem. Como é mesmo o nome? É algo com Bic... Hum.
– É fanfic, idiota. E não fala assim, é legal tá? – Paolla respondeu, rindo. – Vamos logo, antes que eu pare de rir e comece a chorar diante dessa situação patética em que me encontro.
– E eu? – Perguntou à loira.
– Você pode esperar uma boa surra dos seus pais, porque é claro que eu irei contar a eles. – Eric disse. E então saímos, todos quietos, todos pensativos, eu decidi cortar o silencio.
– Pra onde vamos?
– Pra casa. – Eric disse, enquanto íamos em direção ao elevador.
– Quem é ela? – Apontei pra Paolla.
– Sua mulher. – Eles se olharam novamente. Ela fez cara de ira e ele deu de ombros. – Qual é? Você sabe que é apaixonada por ele, não adianta fazer essa cara.
– Você não sabe de merda nenhuma.
– Hum... Então você é minha. – Murmurei, sorrindo de canto. Era o momento de me tornar o que eu naturalmente não era: Um convencido de ego extremamente alto, tipo o Eric, só que um pouco mais irritante. – Bom saber.
Paolla Santana
Não tinha graça, não mesmo. Eduardo perder a memória estava sendo a coisa mais nonsense do momento. O que é? Eu dancei forró em frente a cruz de Jesus e agora estou sendo castigada??
Entrei em casa respirando estresse. Minha vó estava no telefone e ao me ver ela desligou e me olhou de baixo a cima.
– Tá com essa carranca porque?
Vó é vó né, sabe das coisas.
– Problemas.
– Tá se drogando?
– Não.
– Se prostituindo?
– Também não.
– Matando, roubando?
– É claro que não!
– Então nada é tão grave perto do que eu vou te falar agora.
– O que é agora?
Será que eu não mereço um pouco de sossego?
Entrei na cozinha e peguei um copo com água.
– Sua mãe quer te ver... – Soltei o copo que se dividiu em uns mil pedaços de vidro. Merda, merda e merda!!!
– Ah não...
Minha avó fitou um de seus copos preferidos quebrado no chão, eu achei que ela fosse falar algo, mas não, ela apenas suspirou. Estava mais preocupada com a minha reação. Eu nunca reajo bem às coisas. Não deu tempo de aprender o autocontrole.
– É.
– Por quê? – Me joguei no sofá. – Ela não tá feliz com a vida dela?
– Sim, está. – Minha avó foi atrás da vassoura e de uma pá e começou a limpar o estrago que eu fiz. — Você ta se tornando de maior em breve, ela quer te ver, eu disse a ela que não seria bom, mas nunca que sua mãe me ouviu...
– Porra vó.
– Eu sei, eu sei. Ela quer vir passar uns dias aqui. Seja educada ou finja. – Disse, tentando arrancar um sorriso meu. E conseguira.
A notícia não me agradava, mas será bom ver minha mãe e esfregar na cara dela o quanto eu cresci bem sem sua presença.
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