The Seven Laws of Demons

5 Onde os Anjos Temem Pisar


A manhã seguinte passou tão despercebida quanto a anterior. Todos na casa tiraram a noite a base de cochilos a cada vinte minutos, depois voltavam a caminhas inquietos pelos corredores. A manhã precisava chegar logo, Elliot ainda parecia dormir tranquilamente, mas toda vez que Emily pousava a mão em sua testa ele estava queimando de febre; ela e a mãe revesavam para cuidar dele, seja quando tinha alguma convulsão repentina ou tentar espantar a febre com um pano molhado sobre a cabeça. O lugar onde a faca lhe havia acertado ainda tinha deixado os curativos manchados de sangue por fora e o outro lado das costas havia sido costurado.

Quando os primeiros raios de sol começaram a aparecer, Emily havia acabado de acordar e havia descido até a cozinha para pegar algo para comer, não aguentaria esperar até os empregados acordarem e começarem a preparar o café. Ela andava pelos corredores bocejando com uma bandeja de chá com biscoitos até o quarto de Elliot. A bandeja simplesmente foi ao chão quando Emily abriu a porta e Elliot estava em pé, ainda que mais ou menos.

Ele estava tentando se apoiar sobre a cama para se manter de pé, mas antes que ele conseguisse dar o primeiro passo sozinho, Emily passou por cima da sujeira que a queda da bandeja tinha provocado e o abraço, tentando não encostar no ferimento em um dos ombros.

—Porque você está se levantando?!- Ela perguntou tentando abafar as lagrimas.

—Como eu ia chegar até você se não fizesse?- Elliot respondeu fingindo uma voz pensativa.

Foi como se a casa tivesse se enchido de alegria pela primeira vez em dias. Ainda que Elliot tivesse passado o resto do dia na cama, pelo menos os riscos de morte estavam tão longes quanto era possível, agora bastava apenas esperar. Se fosse por Will, teriam ido para a capital no dia seguinte, mas Victor ainda tinha que garantir que nada mais assim voltasse a acontecer, para isso ele precisou viajar a colina e a cidade inteira, para conseguir o apoio das familias de outros caçadores e avisar sobre os Whitehill, embora a casa deles estivesse deserta desde que se mudaram para a capital. A uníca certeza era de que agora, eles haviam feito pactos com demônios, além de nunca terem sido uma familia de fama muito simpática para com outros se não os Van Dorst então ninguém mais tinha motivos para piedade ou nada do tipo.

A bruxa voltou a visitar a casa novamente naquele dia, mas nada foi dito a Elliot sobre ele estar na profecia, embora soubesse do que havia acontecido dez anos atrás. Dessa vez não estavam na sala, mas davam voltas no corredor do primeiro andar para evitar que o cansaço e a fadiga de uma péssima noite de sono não lhe tirassem o foco.

—Oque há de errado?- Perguntou Lady Lís enquanto andavam nos corredores- Os planos tiveram um otimo começo, para ambos os lados. Eu nem acredito que finalmente vou poder cumprir essa maldita profecia, 9 anos mas...Já tiveram outras pessoas.

—E oque aconteceu com elas?- Perguntou Victor

—Longas e trágicas histórias- Disse Lady Lís com um dispensado gesto de mãos- Coisas do passado. Não são todas as pessoas que procuram seu destino, quando as consequências acontecem elas estão obviamente condenadas de alguma forma. Fico feliz por vocês estarem ido pelo caminho certo, e sem duvida muito mais por ter conseguido colocar vocês sobre ele.

—Não todos nós- Disse Will- Ainda não vamos alarmar os outros, pelo menos até conseguimos sair da Capital com uma garantia.

—Tem alguma forma de pelo menos sabermos quem estamos procurando? Saber sobre alguém de Londres que faz parte de uma gangue não é muito esclarecedor.

—Nem deveria- Disse Lady Lís dando de ombros- Não são apenas gangues de bandidos; Vampiros, metamorfos, transformistas e até demônios menores se juntam em gangues. Obviamente a polícia deixa isso passar despercebido considerando os crimes e assassinatos maiores. Vampiros pegam o sangue, licantropos a carne e os demônios podem fazer oque quiserem com os cadáveres. Pelo menos, é oque dizem as minhas fontes.

Victor e Will não tinham nenhuma maneira de saber quem ou oque estaria tramando em Londres. Poucas haviam sido as viagens até lá, mas sabiam que as antigas casas dos pais ainda estavam lá, não como antes talvez mas pelo menos era uma alternativa. Nunca tinham tido qualquer especie de contato com a família da mãe, apenas lembravam que ela era a filha do meio de um total de cinco filhas; e antes do casamento tinha o sobrenome Evans.

—Então um dos heróis pode não ser humano?

—É um risco, mas as chances são baixas. Os anjos são que me preocupam...

—Eles não existem-Disse Will com convicção- Já vi coisas o suficientes pra saber de que eles não descem até aqui e ajudam as pessoas, porque isso deveria ser trabalho deles afinal.

—Certo, a maioria chega a ser arrogante- Concordou Lady Lís- Mas não só por isso. Não se pode ver um sem que seus olhos explodam dentro das orbitas. Como os demônios, eles precisam de corpos se quiserem andar sobre a terra.

—Então isso pra eles deve ser um dilema- Observou Victor- Já que eles estariam fazendo o mesmo mal que os demônios fazem a uma pessoa. Demônios matam as pessoas depois que as possuem, imagino que os anjos façam um estrago muito pior que isso.

—Oque pode ser pior do que a morte?-Questionou Will

—A tortura eterna- Respondeu Lady Lís sombriamente- Um lugar que nem mesmo bruxas, demônios ou o próprio Deus se atrevem a ficar por muito tempo.

Foi como se a cada passo, o corredor estivesse ficando mais frio.

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Grande parte do dia havia sido completamente entediante em relação ao anterior. Não que Will quisesse mais um problema para adicionar a lista, mas era comum se sentir facilmente entediado quando não tinha nada para fazer, ou caçar.

Nesse momento, estava sentado sozinho ao relento da lareira de seu quarto. Em uma das mãos, brincava com a lamina de uma adaga ameaçando a arremessar a qualquer momento; não era algo incomum, adormecer com uma arma sempre em uma das mãos ou ao lado da cama.

Quando estava quase dormindo, ouviu algo da janela. Alguém batia.

Will se levantou e olhou para fora. Oque esperava ver? Não sabia ao certo, mas as memorias sobre o ambiente ficando frio ou até mesmo o cheiro de enxofre que as vezes eram sinais de demônios muito perto ainda eram frescas em sua mente.

Em vez disso, o que viu, montada em um cavalo ao luar sem ver da noite escura era Caroline Scott. Estava vestida com um vestido que um dia parecia ter sido cor de rosa. Com uma das mãos, segurava as rédeas, e a outra estava erguida, prestes a jogar um segundo punhado de cascalho na janela.

—Você vai acabar acordando a casa inteira- Sussurrou Will, olhando para baixo.

—Ora...-Retrucou Caroline. Mesmo quando parecia com raiva, seus olhos dançavam ao luar- Vai me deixar sentada aqui fora a noite toda por acaso?

Não, sem sombra de duvidas. Em instantes, Will havia saido pela janela e escalando para baixo até onde suas botas poderiam se aguentar sobre a estrutura de tijolos da casa, ficou feliz por ser apenas um andar. Já bem próximo ao chão ele saltou e caiu de pé.

—Eu mal consigo ensinar o meu gato a fazer isso- Admirou Caroline-Embora eu ainda acho que isso seja sorte.

—Sorte não tem nada haver com isso- Retrucou Will- Se me permite dizer, está quase parecendo uma garota.

—Pode guardar os elogios gentis para outra pessoa.-Disse ela reprimindo um sorriso.- Ande, se chegar inteiro até a campina podemos apostar uma corrida.

—Oque? Eu conta um cavalo. Não sou tão rapido quando pareço.

—É por isso que vocês Senhores são tão mimados- Disse Caroline revirando os olhos.

Ela se moveu para trás da sela do cavalo, em poucos momentos Will pegou as rédeas do cavalo e a levou para longe da propriedade enquanto conversavam.

—Sobre sua saida no outro dia- Disse ela- É verdade oque aconteceu?

—Infelizmente- Respondeu Will- Sorte dele por eu não está lá, eu mesmo teria acertado a faca em um lugar que ele não pudesse mais alcançar.

—Como pensei. Mesmo quando tenta ter atitude de um heroi acaba por ser um idiota.

—Só é uma pena vocês não ter estado lá para testemunhar idiotices maiores. Garanto que iria ficar impressionada.

—Que pessoa não se impressiona com atitudes heroicas? Claro, por mais idiotas que pareçam. Herois sempre tem seu charme.

Os dois ficaram em silêncio e cavalgaram por um tempo. E embora nenhuma palavra fosse dita, havia significado no silêncio. Como se reconhecessem o sentimento um pelo outro, nunca na vida estiveram tão cocientes de uma pessoa ou da proximidade de alguém.

Pararam perto da travessia para os bosques. Haviam muros de pedra dos dois lados, os pastos verdes além deles eram interrompidos por grupos de ovelhas brancas. O ar era cálido e seco ao redor e nem mesmo uma brisa havia para perturbar as árvores que se erguiam pelo horizonte. Se sentiam intrusos, visitas não solicitadas da natureza.

—A ideia de entrar em um lugar assim não o assusta?-Perguntou ela.

—Não, Caroline, não me assusta.

—Essa era a minha esperança. Vamos em frente.

Nesse exato momento, o cavalo seguiu correndo por entre a estreita estrada de terra que levava a floresta, embora tenha reduzido a velocidade tragicamente a medida que o terreno ficava mais irregular. As árvores deixavam o lugar mais sombrio e escuro sem sombra de duvidas. Caroline e Will pareciam ter um estranho gosto de cortejar o perigo de perto, mesmo com o ritmo reduzido seguiram para mais além da floresta até que a estrada sumiu.

O chamado de algum animal veio de uma direção, ainda que não era possível saber qual. O segundo já nem parecia ser mais de qualquer animal, era um grito que vinha de todos os lados.

—Ouviu isso?- Perguntou Caroline.

—Acha que parece longe?

—Não sei.

Os dois desceram. Rapidamente, Will se lembrou da adaga que tinha em um dos bolsos, embora tivesse se xingado mentalmente por preferir muito mais o revolver Colt e as balas, mesmo que estivesse escuro demais para atirar, era uma garantia de que nada chegaria muito perto e eles teriam tempo de fugir.

Primeiro um, depois vários gritos pareciam se juntar ali. Mais altos, mais desesperados como se fossem almas gritando. Caroline tinha as mãos sobre os ouvidos e o cavalo teve de ser segurado para que não fugisse.

Sem esperar qualquer outra chance, Will saiu em uma caminhada apressada. O risco de correr ali e torcer o tornozelo era grande, mas nada que impedisse Will de fazer quando os gritos de sejam lá quem ou oque fossem aumentaram.

Frio, podia senti-lo mesmo que o vento não soprasse. Medo, podia entende-lo mesmo que se negasse a aceitar. Entre as árvores um vulto se esgueirou tão alto e tão rápido quanto qualquer coisa que já havia visto se mover. A figura de alguém montado sobre um cavalo, mas não qualquer alguém; o barulho dos cascos do cavalo se misturavam a gritos como se a coisa os levasse pavimentado uma estrada de medo.

Seriam esse um dos cavaleiros? Não havia tempo para questionar. Agora ele seguia por onde Will havia vindo. Mesmo meio correndo e meio escalando as raízes das árvores sobre o chão, ele cortou o caminho a toda velocidade que podia.

A figura agora estava ali, era uma sombra tão negra quanto a própria noite; tal fato que podia nota-la mesmo no escuro. Usava um elmo, capa não restava duvidas de que era um cavaleiro, um dos cavaleiros.

—Will!- Chamou Caroline- Se isso é alguma brincadeira não tem graça!

"Como ela não pode ve-lo?!" Ele estava a metros dela, a figura sombria andava lentamente em direção a ela, só em tão Will percebeu que deveria logo acordar antes que fosse tarde demais.

—Ei!- Ele exclamou.

A figura parou subitamente e virou a cabeça sobre o ombro. Não havia rosto, só dois pontos dourados que queimavam muito mais do que fogo. Ele encarou Will, nunca havia sentido tanto medo na vida.

O coração bombeava mais sangue do que devia, como se tivesse corrido uma distancia muito longa e depois tivesse tentado correr mais. Sua visão havia começado a ficar turva, e não conseguia mais se encontrar força para se manter em pé. "Não, eu não posso morrer" Ele pensou. Quase se rendeu, ouviu Caroline gritar mas não se atreveu a erguer a cabeça. "Agora não...Qualquer hora menos essa"

Seus passos eram forçados e arrastados, sua mão se apertava contra a unica esperança; a daga. Enquanto seu coração ameaçava lhe escapar toda vez que se aproximava. Os gritos vinha dele, ou ele talvez os atraísse. Quando alcançou até onde se permitia ver o mais escuro possível ergueu a adaga em um movimento silencioso e apunhalou a figura sombria.

—Atirem!- Alguém gritou, seguida de uma saraiva de tiros e do cheiro de pólvora.

Foi o pior momento de que podia se lembrar, olhou para cima e viu algo se dissolver em uma fumaça densa e negra...Algo negro que se expandiu sobre seus olhos e então nada podia mais ver, nem ouvir, tampouco chegar a sentir.