The Seven Laws of Demons
6 Na cabeça do alfinete
Notas iniciais
—Ele consegue ser lindo até dormindo- Disse uma voz fina de uma garota.
—Não seja tão devassa!- Chiou uma segunda voz- Se você for ficar aqui só suspirando, Alicent, a porta é logo ali.
A segunda voz não respondeu.
Will nunca havia se sentido tão cansado na vida, abrir os olhos foi uma tarefa dolorosa, como se de alguma forma eles estivessem fundidos como ferro. Quando abriu a visão foi muito pior, havia luz no lugar, muita e desnecessária. Isso só podia significar uma coisa, já havia amanhecido.
—Não se mexa-Alertou a segunda voz, com um tom de preocupação de uma mãe.
—Onde...-Will tentou argumentar.
—Você está a salvo agora, é oque importa.
A chance de desmaiar novamente foi muito tentadora, mas não tanto quanto as memorias da noite anterior que vieram a tona em um flash bem escuro. De duas coisas Will sabia; estava vivo mas por pouco e estava se sentindo mais cansado do que nunca estivera na vida. Todos os seus músculos estavam dolorosos e enferrujados, mal percebeu que tinha feito qualquer movimento. Já conseguindo focar a visão, viu ao todo três garotas em volta de sí. Todas eram ruivas e de rostos finos.
—Ele acordou- Disse uma das garotas ruivas.
Uma outra garota se aproximou dele e falou de uma forma calma e lenta, quase como se estivesse falando com alguém que possuia retardo mental.
—Olá, eu sou Rosellyn. Aquelas são minhas irmãs, Lydia e Alicent.
Mesmo não tendo gravado exatamente qual das duas era qual, uma das garotas, que parecia a menor delas, deu uma aceno rapído e estérico; imaginou que fosse Alicent
—Nosso pai disse que você estava na floresta- Disse Lydia- Você é um caçador, não é? Um dos irmãos que mora na casa perto do povoado?
—Sim-Respondeu Will-As moças podem me dizer onde eu estou?
—Casa da familia Gardner- Disse Rosellyn-Como Lydia disse, nosso pai encontrou você na floresta. Ah, claro, a garota também.
—Ela está bem?-Perguntou Will seriamente.
—Sim, ela não desmaiou- Confirmou Rosellyn.
O lugar em sí era estranhamente familiar para Will, embora tenha estado ali poucas vezes. Uma ampla sala onde a luz emanava naturalmente pelas janelas que iam do chão ao teto, tudo reluzido em cores como dourado e verde, como se a casa fosse alguma obra da própria natureza.
A família Gardner era a cima de tudo, uma familia rica e dona da maioria das terras além do vale e de boa parte da floresta, naturalmente eram caçadores. Will achava que havia algo mais de misterioso com relação aos Gardner, havia formulado uma teoria de que seriam híbridos com alguma especie de ser da floresta já que todos tinha cabelos ruivos, rostos finos e orelhas pontudas; não parecia certo confiar em alguém com uma cor de cabelo que nenhum humano normal deveria ter.
A grande porta que separava a sala se abriu, Caroline correu na direção de Will, com o vestido com a aparência muito mais velha, já que estava rasgado e sujo de lama.
—Vim ver como você estava- Disse ela, embora parecesse um pouco desconfortável, talvez fosse a presença de outras garotas por perto- Seu irmão está a caminho mas...Disseram que queriam falar com você na biblioteca...Com nós dois, na verdade.
—Por mim tudo bem- Disse Will- Já me sinto melhor.
—Eu acompanho vocês até lá- Disse Rosellyn, em seguida se voltou para as irmãs- Vocês agora, podem voltar para as aulas, os tutores não ganham apenas para vigiar a biblioteca.
Com um gesto, as outras duas irmãs se retiraram. Rosellyn soltou o ar em um suspiro pesado, como se estivesse tensa, em seguida ajeitou os cachos ruivos sobre os ombros.
—Não se importem-Disse ela- Minhas irmãs costumam ser bem irritantes na maioria das vezes, mais atrapalham do que ajudam. Vamos indo?
Os corredores da casa eram uma especie de externo patio estreito, as paredes tinham arcos de passagem abertos ligados diretamente aos jardins. Rosellyn seguiu a diante dos dois, mas logo se aproximou de Will enquanto Caroline encarava os jardins como se planejasse uma fuga.
—Sua amiga está bem?- Rosellyn murmurou, suficientemente baixo para que Caroline não a ouvisse.
—Acho que sim- Respondeu Will- Ela deve está nervosa por ter sido chamada a atenção também.
—Claro que sim- Comentou Rosellyn, como se fosse algo obvio- Quando os encontraram, você tinha desmaiado, seu coração quase não batia e a garota parece que tentou ser enforcada.
Will ficou mortalmente espantado.
—Pelo oque?- Ele perguntou, já sabia que não poderia haver um "Quem" Já que a coisa não era humana.
—Eu não sei. Deixaram escapar algumas coisas enquanto discutiam com a...-Ela se interrompeu, como se procurasse uma palavra mais adequada, coisa essa que não havia- Bruxa do povoado, na biblioteca.
—Então você estava espionando?
O rosto de Rosellyn ficou tão vermelho quando seus cabelos.
—Foi...Acidental-Respondeu rapidamente- Apenas uma conhecidencia.
—Coincidentemente perguntando- Disse Will- Oque mais você ouviu?
—Sobre oque teria atacado vocês. Não acham que tenha sido algo comum, digo...Comum para as coisas que normalmente vocês fazem.
Enquanto formava uma teoria mentalmente, imaginou que poderia ter sido um dos cavaleiros. A profecia dizia em 7, mas contando tudo que já tinha estudado sobre demonologia em geral, havia apenas quatro; Morte, fome, guerra e peste. Talvez fosse a morte, oque mais poderia ter feito seu coração quase parar de bater?
—Chegamos- Disse Rosellyn, parada em frente a porta- Vão ter que assumir sozinhos, não tenho permissão para entrar.
—Obrigada- Agradeceu Caroline.
"Não era pra eu estar dizendo isso?" Refletiu Will. Não tinha tempo pra pensar nisso agora, mas quando foram deixados sozinhos, os dois ainda estavam diante das portas fechadas.
—Tudo bem?- Ele questionou.
—Sim mas...Não sei se era pra eu estar aqui, entende?
A primeira coisa que passou pela cabeça de Will foi rir, mas achou que isso seria muito indelicado, mas se tratava de Caroline, normalmente ela não se importaria, mas agora era um momento um tanto quanto sensível, tanto pela experiencia de quase morte, como por agora ela ser considerada parte da profecia; talvez fosse o pensamento de que uma pessoa com uma vida pacata e normal tenha que entrar agora nesse mundo parcialmente desconhecido sem nenhum treinamento ou aviso. Ele pensou um pouco, estendeu uma das mãos e segurou a de Caroline.
—Pra ajudar o medo a passar- Disse ele- Funciona?
—Sim-Ela respondeu com a voz ainda um pouco arrastada, mas depois uma linha de um sorriso passou seus lábios- Quem diria, você saber ter sentimentos quando quer.
—Sim, mas prefiro evitar isso- Disse ele. Algo em sua voz dizia que de alguma forma ele não estava brincando.
Os dois acabaram por entrar na biblioteca simultaneamente, Will percebeu que ainda segurava a mão de Caroline, mas por algum motivo ela não o soltou e ele não queria puxar o braço de volta, para da a impressão de que não tinha nenhuma ligação com aquela garota.
A biblioteca da casa dos Gardner, não era nem de longe tão grande quanto a da sua casa, ou a do escritório de seu pai. Era uma sala por onde a luz do sol entrava aos montes, a deixando pintada toda em dourado em branco, como a lembrança de um sonho. As estantes eram grandes em alturas e seguidas por altas escadas.
A sombra de Lady Lís estava ali, o vestido negro de veludo e a capa com capuz preto, a fazia parecer uma pedra de carvão esquecida sobre um leito de neve. Ainda sim ela sorriu para ambos e fez um gesto com a cabeça para que adentrassem mais o comodo.
O piso de mármore branco, fazia barulho a cada passo das botas de Will e dos sapatos gastos de Caroline. Um homem alto e corpulento parado de costas para eles e de frente para uma janela se virou. Como o esperado, ruivo e de aparência descarnada, já velho e começando a perder cabelo.
Ele se virou de frente para os dois e deu um amplo sorriso.
—Pelo jeito é verdade o que dizem- Ele começou- Até mesmo a morte se cansa antes que possa alcançar um Cormac.
—Ter a cabeça dura como pedra pode ajudar na maioria dos casos- Comentou Lady Lís, a principio sorrindo da piada, mas logo seu rosto de fechou para uma expressão seria- Agora que estamos aqui, acho que podemos discutir sobre quem vocês viram.
—A senhora não sabe?- Questionou Caroline, em um misto de medo e surpresa.
—Ah minha querida, podemos ver as coisas mas nem sempre podemos compreende-las- As palavras de Lady Lís eram mel- Mas estou aqui para ajuda-los como puder.
Will limpou a garganta para interromper.
—Ela ainda não sabe- Murmurou ele, constrangido de certa forma- Não achei o momento certo para contar...
—Teremos tempo para discutir sobre isso depois, Mestre Cormac- Interrompeu o Senhor Gardner.
Will não o conhecia de fato, mas seu pai sim, ou ao menos já o mencionou. Nessas horas, desejou ter prestado um minimo de atenção durante as explicações que não fossem relacionadas as caçadas, Victor saberia responder, mas ele não estava ali. Isso tudo o fez sentir um leve aperto no peito, imaginou que fosse a velha empatia, mas já não a sentia a tanto tempo que havia se esquecido de como era dar pela falta do irmão.
—Sim- Concordou Lady Lís- Temos assuntos a tratar sobre o ataque. Com ou sem profecia, imagino que sejam dos interesse de vocês dois.
Caroline assentiu com a cabeça. Mesmo que não soubesse nada referente a profecia, deveria querer saber o que tinha os atacado na floresta; algo que quase tinha lhe causado a morte dela e de Will. De certa forma, sentia um leve rancor e isso a fazia ultrapassar a escala do medo de enfrentar algo até então desconhecido.
Os quatro se sentaram em poltronas espalhadas pela sala. Para Will, era difícil mantes a seriedade em uma ambiente que lhe parecia descontraído, ao contrario das horas que passava em torno da mesa de madeira do escritório. Procurou mantes a calma a partir dai; apenas um território novo, um inimigo em comum e potencial.
—Eu imaginei que podia ser um dos cavaleiros- Argumentou Will- Apesar de ter me lembrado que nos registros, contavam apenas quatro. Esse pode ser um dos desconhecidos?
—Sim, as coisas são mais preocupantes a partir dai- Disse Lady Lís com uma voz instável- Não tenho conhecimentos sobre os outros, mas posso garantir que você acabaram de encontrar o Medo.
A biblioteca ficou silenciosa. A dor no peito de Will voltou, como uma lembrança. Achou que a própria morte havia lhe visto de perto, mas nada ultrapassava além do medo. Nesse momento se questionou se era possível alguém morrer de pavor.
—Eu..-Começou Will, ainda perdido em seus pensamentos vagos- Eu o matei?
—Não, mas o expulsou para outro lugar- Respondeu Lady Lís- Purgatório talvez. Não deve voltar a terra tão cedo. Ele estava debilitado e sem um corpo, precisa disso pra se manter, mas creio que podemos devolve-lo para o inferno. Antes que ele arrume um corpo, é claro.
—E se isso acontecer?- Perguntou o Senhor Gardner.
Lady Lís fechou os punhos e comprimiu os lábios, de modo que parecia querer evitar aquele pensamento lhe pairando a cabeça; ou mesmo as cabeças de Will e Caroline.
—Bem...Apenas se ele fizer um pacto- Disse, de forma lenta- Mas, as chances são impossíveis. Existem vários demônios andando por Londres e...
—Mesmo?- Questionou o Senhor Gardner, erguendo a voz — E quanto a Reginald Whitehill? Ele está a caminho de Londres nesse exato momento.
—Pare!- Exclamou Lady Lís. Suas mãos tremiam e seu rosto estava contorcido como se estivesse a beira das lagrimas- Eu...Não previ isso, juro que não. Pensei que o ciclo tinha se acabado no momento que Ethan o deixou mas...
—Oque isso tem haver com o meu pai?- Questionou Will.
—Devemos contar- Disse o Senhor Gardner- Os cavaleiros não estão aqui por um acaso, Mestre Cormac. Estão em busca de um pacto feito a muitos anos atrás, todos pensávamos que ele tinha sido cancelado...Mas agora, tudo mudou.
—Seu pai estava entre o ciclo- Disse Lady Lís enxugando o rosto com as costas das mãos-O ciclo queria trazer os cavaleiros para uma armadilha, então cada um fez um pacto com os sete cavaleiros; disseram que poderiam usar seus corpos para voltar a andar sobre a terra. Eu participei, achava que os anjos nos ouviriam, mas foi tudo em vão. Ethan foi o primeiro a ver que não iam nos ajudar com o plano. Agora vamos pagar por esse erro, novamente.
—Reginald Whitehill estava no ciclo, tal como vários de nós estávamos- Disse o Senhor Gardner- Um dos últimos a sair, nós achávamos. Mas ao que parece nem se deu ao trabalho. O Medo veio até aqui na esperança de encontra-lo para selar o pacto, mas acho que ter os heróis da profecia em mãos foi uma chance tentadora demais para se desperdiçar.
—E agora ele ira até Londres quando sair do exilo- Prosseguiu Will- Essa viagem parece nós colocar mais em risco do que a vingança.
—Precisamente- Disse Lady Lís. Ela se voltou para Caroline, que se sentia quase tão perdida quanto se estivesse em um país desconhecido -Temos muito oque conversar, me encontre no mercado da cidade, você segue para lá todos os dias, não é?
Caroline fez que sim com a cabeça.
—Acho que eu posso explicar isso ao Elliot- Disse Will- Assim espero.
—O filho de Eric?- Questionou o Senhor Gardner, parecendo levemente espantado- Pobre garoto perturbado...
—Ele não é perturbado!- Protestou Will- Posso lhe garantir, eu o conheço a anos, é praticamente um segundo irmão. Isso é algo que Elliot pode entender muito bem.
—Ele está certo- Disse Lady Lís- É um bom rapaz, mas...Tente entender William. A vingança é uma espada sem punho. Estamos falando de alguém suspeito de ter encomendado o assassinato do pai dele, e de quase mata-lo.
—Ele não é assim- Afirmou Will, com certa raiva na voz- Se essa for a preocupação, não iremos leva-lo para a Capital.
— Seja como for, teremos tempo o bastante para discutir isso- Disse o Senhor Gardner- Acho que vocês querem ir para casa, certo?
—Sim senhor- Afirmou Caroline.- Mas, acho que devemos agradecer, por salvar nossas vidas.
—Não foi nada Senhorita — Disse ele- Vivemos para salvar os inocentes, creio que nos arriscar é um preço muito baixo a ser pago por vidas inocentes. É isso que mantem nossa pequena cidade unida.
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Já durante o meio do dia, Will e Caroline foram levados de volta, por incrível que pareça, Victor e Elliot haviam vindo, trazendo mais dois cavalos; Will ficou quase que indignado, porém Victor se defendeu:
—Não foi escolha minha, ele insistiu- Disse ele- Ele esteve confinado por dois dias. Devia agradecer, ele pós o próprio bem estar a cima do seu.
—Não acho que esse tenha sido o verdadeiro motivo- Will resmungou.
Quando a cabeça lhe alcançou os ombros, viu Elliot cavalgando ainda com certa dificuldade já que ele encolhia o ombro que havia sido ferido. Um misto de preocupação lhe invadiu, como se tivessem lhe culpado pelo que aconteceu já que não estava presente na hora. Ele e Caroline conversavam algo que ele não conseguia entender.
—Não foi bem assim- Disse Caroline dando de ombros- Eu realmente pensei que ia ser algo empolgante, sabe? Você nunca pensa que vai se assustar, nunca vi os caçadores terem medo.
—As vezes tem- Disse Elliot- Meu pai dizia que só os loucos não sentem medo.
—Não quero ofender- Disse ela- Mas eu não diria que ninguém dessa família chega a ter sanidade pelas coisas que fazem.
Ela indicou os gêmeos com a cabeça, Elliot se permitiu rir. Por alguns segundos, não percebeu que seu olhar continuava fixo para frente, como se tivesse em uma especie de transe.; foi quando Victor começou a rir. Ainda achava incrível como alguém tão serio lhe conseguia um riso tão facilmente, como se Victor fosse uma pessoa diferente de perto, mas ao longe ainda parecia ser uma criança. Não muito diferente de Will, que agia assim todo o tempo.
Não foi preciso muito tempo para que Caroline notasse o olhar de Elliot na direção de Victor; derrepente se sentiu enjoada e constrangida, como se tivesse visto algo que não devia.
—Posso...Perguntar uma coisa?- Disparou Caroline, fazendo Elliot acordar, acenando com a cabeça de forma positiva para a pergunta.
Caroline aproximou o cavalo e então, sussurrou em ma voz baixa, como se quisesse contar um segredo.
—Está apaixonado por ele, não está?
Por muito pouco, Elliot não fez com que o cavalo empinasse para cima com o movimento brusco dos braços; quando o esquerdo começou a doer devido ao ferimento ele usou o direito para firmar as rédeas novamente. Por sorte os gêmeos já estavam indo longe aquela altura. Ele encarou Caroline como se ela fosse louca, ou mesmo tivesse dito que tinha matado alguém.
—Porque diz isso?!- Ele questionou, de forma mais alta e nervosa do que pretendia.
Caroline deu de ombros.
—Bem...Eu achei que sim- Disse ela- Sabe, as pessoas só ficam assim quando estão apaixonadas. Em todo caso, era como você estava.
—Eu...
—Ei, vocês ai atrás!- Gritou a voz de Will- Os cavalos quebraram a pata?! Vamos, quero comer e dormir ainda hoje se possível!
Os dois trocaram olhares rápidos, antes que Elliot desse todo o impulso que conseguia com o braço bom para que o cavalo galopasse para longe dali, deixando Caroline ainda de certa forma constrangida e aborrecida por não ter recebido uma resposta.
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