Notas iniciais
Rick estava tentando digerir o que estava aconteceu. Sua avó não agira daquele modo, e coisa piores estavam por vir.

Eu fiquei surpreso, mas parando para pensar, era apenas um... Livro. O objeto brilhava fortemente em luz verde, em sua capa havia algumas escrituras em que eu não conseguia ler. Eu segurei o livro, fascinado, senti como se o que eu mais quisesse na vida fosse abrir e ler aquele livro brilhante. Parece que minha avó não gostou muito da ideia:

–Não! Pelo menos não agora, temos que conversar sobre isso mais tarde.

–Que livro é esse, vó? –Perguntei.

–É uma relíquia familiar, a última dona foi... –Minha avó abaixou a cabeça, não sorrindo mais.

–Tudo bem, vó. Obrigado, conversaremos mais. Já esta quase na hora da janta.

A noite chegou. Lembro-me de encarar o livro no meu quarto por muito tempo, inclusive tentei imaginar o por quê da minha avó ler aquela história da guerreira de Melg. Tenho certeza que a história não era daquele jeito. Na hora do almoço, meus avós não mencionaram nada sobre o livro brilhante, nem sobre a história da guerreira.

Quando eu fui dormir, eu tive um sonho. Eu estava em algum lugar, eu não conseguia saber muito bem onde eu estava, pois estava muito escuro, mesmo assim eu sabia que estava em um grande salão, pois eu sentia passos ao longe. Eu acho que eu estava mudo, ou talvez não quisesse falar.

As luzes acenderam e eu percebi que o salão estava vazio, apenas com um grande altar onde se via o livro do porão. Ele parecia brilhar ainda mais e o som dos passos ao longe ficou mais alto. Fui em direção ao livro e segurei a capa com força, me senti estranho como se o livro liberasse uma energia pelo meu corpo inteiro. Senti-me mais forte.

As luzes voltaram a se apagar um segundo, e de repente, vi uma figura obscura ao meu lado. A criatura era humanoide, mas não humana. Seus olhos estavam todos vermelhos e sua pele era cinza, usava um grande manto preto e seu cabelo era grande, tampando o rosto. Dava para ver que a criatura não era humana pelas suas presas grandes e aparentemente afiadas, tremi só de olhar o que poderia acontecer se aquela coisa mordesse alguém.

–Você vai mesmo se meter? –Disse uma voz grave que parecia sair da criatura.

Eu ainda não conseguia dizer nada.

–Se eu fosse você, nunca abriria aquilo. –Disse a criatura.

E tudo se apagou novamente, mas dessa vez eu estava em meu quarto. Senti algum volume em meu travesseiro e quando vi o que era dei um pulo da cama. Era o livro do porão. Dessa vez ele não brilhava, era apenas um livro com escrituras estranhas. Levantei da cama e coloquei o livro dentro da mochila, afinal, era sexta feira e eu queria avaliar as leituras do livro na escola.

Depois de me arrumar, desci e dei de cara com minha avó. Ela estava radiante, talvez feliz por eu ter um livro que brilha na minha mochila. Ela segurou meus ombros e sussurrou em meus ouvidos:

–Hoje você poderá abri-lo. –Ela disse. –Mas não ainda, aguarde.

Encarei minha avó assustado, talvez pelo pesadelo que eu acabara de ter ou pela pressão psicológica que acabei sofrendo pelo dia anterior. Dei um meio sorriso para minha avó (para não causar um vácuo na conversa) e fui de encontro ao meu avô.

Meu avô se chama Antônio, sempre foi um homem bem simpático e cordial. Uma ótima pessoa para tirar dúvidas e conversar sobre os jogos que passavam na televisão todo domingo. Nem imagine quando ele apareceu no meu quarto no ano anterior para falar de puberdade. Assim que apareci ele sorriu e estendeu o jornal para a minha direção.

–Bom dia! Parece que o garoto está ansioso para o final de semana. –Disse meu avô, deixando o jornal sobre a mesa.

–Bom dia, vô. Alguma notícia? –Perguntei, tentando disfarçar meu nervosismo.

–Sempre têm. Parece que hoje todo mundo só fala do alinhamento dos planetas, chega a ser irritante, isso não é nem um pouco importante. –Disse meu avô, meio irritado.

O alinhamento dos planetas. Será que isso tem alguma relação com... Não, claro que não, pensei. Tomei meu suco de laranja, algumas torradas e fui para a escola.

E eu achando que eu poderia simplesmente ir para a escola sem problemas e avaliar as escrituras em paz. Frank me chamou para o basquete, Rita me chamou para estudar, Gabriel para flertar com as garotas da turma e assim não consegui avaliar muito o livro. Inclusive os idiotas me empurrando e derrubando meus livros tomou boa parte do meu tempo.

–Cara, larga esse livro, deixa de ser nerd. –Disse Frank.

A volta para a casa foi tranquila, a chegada em casa que me deixou completamente assustado. Cheguei a casa, joguei os sapatos na lateral da sala, tirei a jaqueta da escola jogando na cadeira perto da cozinha e sentei no sofá. De início eu não percebi a falta da presença de meus avós, mas quando percebi, tentei chamá-los.

–Rick, você tem uma visita. –Disse minha avó, sua voz vinha do meu quarto.

–Rick? É mesmo você? –Uma voz vinha, aparentemente, do mesmo lugar.

Subi cada degrau sentindo meu coração bater cada vez mais rápido. Eu conhecia aquela voz, era uma voz masculina e emanava autoridade a cada palavra. Lembranças antigas começaram a me perturbar. Lembranças de um homem louco, sendo segurado pelos meus avós que gritavam para ele. Lágrimas e mais lágrimas ameaçavam cair de meus olhos quando eu olhei quem estava no meu quarto.

–Oi Rick, quanto tempo! –Disse meu pai.

Notas finais
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