The Scream and The Silence

5 O desconhecido do ontem é notório do hoje


Notas iniciais
Aí eu disse que ia continuar só com essa fic porque eu gostava muito dela. Postei umas SEIS fics esse ano e não atualizei essa. Eu sou uma bastarda mentirosa ou não? Enfim, eu confesso que esse capítulo saiu com atraso (muito, na verdade) porque eu simplesmente não conseguia escrever a parte do bosque. Várias ideias me brotaram a cabeça, mas eu não conseguia ver qual se encaixava melhor. No fim, ficou essa. E a propósito, esse provavelmente vai ser o último haikai que eu vou colocar. Eu não quero me sentir ma obrigação de colocá-los, não quero ser tão óbvia. Aqueles dois eu só coloquei porque o Basho é talvez o mais popular traduzido, e o outro é do Soseki né cara, EU NÃO PODERIA DEIXAR UM HAIKAI DO NATSUME SOSEKI DE FORA! Enfim, boa leitura e não se sentia perdido.

The Scream and The Silence

Campo de primavera

Para onde vão, de onde vêm

Estas pessoas?

Masaoka Shiki

Os galhos retorcidos das árvores cobertas de neve se mexiam. O que inicialmente parecia ser um animal, era nada mais que longos fios platinados.

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Quando Varus era um pequeno garoto ainda, cacos de vidro entraram em seus dois olhos. Aquilo era extremamente incomum para todos os ionianos, pois coisas assim não aconteciam. O vidro não se quebrava do nada.

Obviamente, os adultos não acreditavam nas doces palavras de uma criança travessa. E em poucos minutos pós acontecimento, a mãe de Varus deitara a cabeça de seu filho em seu colo, e com suas pesadas mãos, pôs-se a retirar caco por caco dos olhos castanhos de seu filho.

Todos presenciaram aquilo abismados, indignados como aquela mãe poderia estar tão calma quando seu filho perdia a visão dos dois olhos. Varus, sem entender, apenas chorava sangue e tinha os seus soluços abafados em sua garganta, estando submerso à aquela escuridão semi desesperadora.

Ele era uma criança, não conseguia temer a escuridão.

Não entendia o que acontecia, e suas pequenas mãos apenas seguravam com força o pulso de sua mãe enquanto ela retirava grandes cacos de vidros. Não chorava porque estava no escuro, chorava pois simplesmente doía.

As lágrimas salgadas e o sangue se misturavam e deslizavam sobre a sua face, marcando a suas bochechas. As pessoas do vilarejo encaravam aquilo como um mal presságio, chorar sangue também não era algo que acontecia.

Eles temem o desconhecido.” A mãe de Varus repetia aquela frase em seus pensamentos como um mantra, acreditando piamente que a beleza está justamente no desconhecido. Por isso, ela não temia que seu filho ficasse cego, não temia que aquilo poderia ser um mal presságio, não temia que pudesse o cegá-lo ainda mais retirando os cacos sem cuidado.

Pois o desconhecido para si... Já não era tão assim.

Vagava Varus, sua mãe e mais dois homens na mata fechada de uma floresta ao norte de Ionia. Eles haviam deixado Galrin¹ com uma mistura de ociosidade e necessidade. Demoraram uma semana para conseguirem achar aquela floresta, mas a mãe via aquilo como algo bom.

Deixaria com que as pessoas esquecessem do que aconteceu no vilarejo. E quando voltassem, apenas perguntariam como os olhos de seu filho estariam.

Era assim que fervorosamente pensava, tentando ignorar a vontade de dizer para aquelas pessoas que seu filho não era um bisbilhoteiro ou um menino querendo chamar a atenção. Ele apenas havia tido a infelicidade de não conseguir tampar os olhos quando atravessou a parede do vidro, e isso resultara no que havia dado.

Acreditava que seu filho não havia feito nada demais. Se eles pelo menos pudessem ver a bondade que havia naquele pequeno coração...

Janelas de vidro eram incomuns nas casas de Galrin, mas havia apenas uma que tinha naquele vilarejo. A casa era de um modelo tradicional demaciano, do qual os moradores sentiam orgulho de se inspirarem. Também havia várias árvores ao redor da casa, como em todos os lugares da ilha.

No entanto, talvez fosse realmente a bondade no coração daquela pequena criança ou simplesmente o destino tentando interferir na salvação do futuro.

Varus passava pela casa quando olhou para uma árvore não muito grande, no galho de seu tronco escuro, havia um pequeno gatinho amarelo miando.

Aquilo poderia realmente ser a bondade? A mãe de Varus acreditava que sim.

E com aquela necessidade de salvar o filhote de gato preso na árvore, ele a escalou. A escalou e quando pegou o pequeno gato em suas também pequenas mãos, algo mudou. Algo rachou. Algo simplesmente o fez cair, e ele foi em direção a janela de vidro.

Se as circunstâncias eram absurdas, então porque a resolução também não haveria de ser?

O ambiente mudara. As árvores, agora bem espaçadas, tinham um estranho brilho verde claro, quase neon. De suas folhas bem vivas, saía um aroma suave que pairava pelo ar. Um cheiro tranquilizador. As várias e várias borboletas voavam de um lado para o outro, deixando seu pedaço de nada para trás. Os animais, cervos, coelhos, raposas, lobos, tartarugas, estranhamente viviam em harmonia ali.

Um sorriso fraco nasceu no rosto cansado daquela mãe. Aquele era o Bosque Astral² e agora, seu filho estaria curado.

Ela agachou na altura de seu filho e pegou o pequeno rosto com suas duas cansadas mãos, fazendo Varus a fitar, mesmo sem ele poder ver. A beleza estava concentrada naquele sutil ato materno. A faixa que estava enrolada em seus olhos era pintada com sangue seco, mas aquilo não incomodara aquela mãe ou a criança. Ela apenas lhe afagou os cabeços castanhos³ e disse: “.”

Ele não sabia o caminho pois não poderia ver nada naquela escuridão.

Mas sentia o calor.

E ele andou com seus passos lentos e desconfiados, com aquela faixa pintada de sangue, até a origem de tanto calor.

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O abrir dos olhos foi como o bater de asas em câmera lenta de uma borboleta. Varus sentiu a leveza em seus cílios como era comum. Aquele primeiro piscar. Um piscar igualmente dificultado como o primeiro vôo de uma borboleta se libertando do casulo.

Ah, quem dera...

No entanto, Varus apenas havia sentido e ouvido o mundo girando ao seu redor. Ainda ouvia a água do riacho deslizando entre as pedras, ouvia o cantar dos pássaros migrantes e o bater de suas asas não muito distantes e sentia o chei—

O quê?” As pupilas brancas foram abertas apesar de já estarem. A íris branca, pouca coisa mais acinzentada que o resto de seus olhos, se contraiu ao encarar a paisagem a fora.

Ainda estava estirado no tatami como na noite anterior. Virou-se para o lado, buscando encontrar o sake mas algo chamava a sua atenção primeiro.

Aquele fraco sorriso vindo da presença de Soraka.

– Procurando por isso? – Ela apontou para o tokkuri⁴ e o ochoko⁵.

– Sim. – Ele sussurrou baixo enquanto se sentava.

– Foi um longo inverno, né? – Soraka conseguiu ver as pupilas brancas se contraírem mais. O fraco sorriso voltou a nascer no canto de seus lábios após ver a indignação de Varus.

Mas para ele, no entanto, aquele sorriso lhe causou o mesmo impacto ao ver uma tela em branco.

Confusão.

Ainda intrigado com aquele sorriso semivazio e se acostumando com a claridade eminente, Varus não notou os pingos de água escorrendo pelas verdes folhas.

Ele a olhou incerto, necessitando a repetição da frase anterior. Mas antes de sequer abrir a boca para falar, Soraka tocou-lhe a sua mão gentilmente.

Uma brisa ainda gélida beijou a face de ambos. Os olhos brancos puderam rever o âmbar estampado em sua frente. E tão rápido quanto aquela força inicial necessária para que o vôo inicial da borboleta fosse levantado, Varus viu seu mundo ser pintado novamente.

Olhou através de Soraka, vendo aquela paisagem antes mórbida ganhar falhos tons esverdeados. Os pingos de água escorrendo pelas folhas não era o orvalho da manhã assim como ele imaginava. Os raios solares de um fim de tarde começavam a refletir uma tonalidade alaranjada. Os pássaros que em seu caminho havia visto em direção ao sul, agora retornavam e cruzavam novamente com ele, indo ao norte.

Foi um longo inverno, né?” As palavras ecoaram em sua cabeça como um gongo.

Ele imediatamente olhou para ela. Mas antes de qualquer tipo de ira ou desconfiança, o peso em seus olhos se tornou leve e sua cabeça foi preenchida pelo branco ao olhá-la.

A observava como nunca havia feito antes. A via contra a luz alaranjada, sua face sendo escurecida com os raios perpendiculares. A pele roxa claro brilhava em certos pontos e seus cabelos, os longos fios platinados estavam jogados ao chão, soltos como uma cascata branca. O âmbar de seus olhos estava escurecido de uma forma melancólica, seu tom quase beirando ao vermelho.

Um ser celestial com olhos vermelhos...”

Seu pensamento foi espontâneo. Ele percebeu aquilo e no instante seguinte, retirou rapidamente as suas mãos das dela.

– Se você queria me acalmar, saiba que não conseguiu. – Ele sussurrou uma mentira, mas aos ouvidos de Soraka soara como uma verdade.

Varus se virou para o sake e colocou um pouco em seu ochoko. Engoliu tudo e fitou as pupilas semi avermelhadas com um desprezo forçado.

– O que exata—

O gosto passou em sua garganta de forma doce. As íris brancas se contraíram. Bruscamente, ele se levantou e a puxou pelo colarinho do vestido que ela usava.

– O que diabos você fez? – Ele falou em bom tom para que ela pudesse ouvir. As pupilas âmbares se arregalaram enquanto encontravam-se com as dele. – O que você fez? – Varus a sacudiu, esperando uma resposta. Soraka apenas o encarava, desacreditada, tendo seu corpo levemente arqueado para cima. – Me responda!

Soraka tocou os fios platinados que insistiam em roçar contra a sua pele. As cores foram lentamente voltando, como se fossem transmitidas por aqueles pequenos fios⁶, como se dependessem da autorização de Soraka.

– Ainda não é você? – A voz dela soara frágil ao ponto de ser quebrada. Varus a soltou, não querendo mais olhá-la.

Ele encarou ao seu redor. Ainda se encontrava no tatami, ao lado do sake e com o mesmo kimono da noite em que se lembrava. Mas a floresta estava semi florescendo, os pingos de água não eram nada mais que o derretimento do gelo. Os pássaros migrantes voltavam, o rio era mais volumoso, a densidade do ar mudara e...

A brisa já não era tão mais gélida.

– Por que você colocou chá no lugar do sake, Soraka?

– Porque o sake acabou. – Ela lhe respondeu com a cara fechada. Seus olhos, afogados em amargura, fitavam o tatami.

– Por que infernos ele acabou?! – Varus novamente aumentou o seu tom de voz, mas Soraka nada o respondeu.

Mas Varus, antes quase cego pela fraca ira de algo desconhecido, conseguiu ver após as suas próprias palavras se encontrarem com o ar. A brisa que batia em suas costas naquele momento poderia ter sido a sua luz.

Com aquela brisa quase quente, um pouco de seu kimono e seus cabelos, soltos, eram levados em direção ao sul. No entanto, Varus não havia sentido o cheiro daquela roupa.

O cheiro que ele tanto gostava.

Seus olhos brancos iguais de um cego, encararam a paisagem que refletia pura dicotomia para si. Ao ver os fracos e simultâneos pingos da água, ele teve uma certeza.

Havia perdido um inverno.

Não sabia como e o porquê, mas ao ter a fragrância suave pairando ao seu lado, outra certeza atingiu o seu corpo, como uma reação em cadeia.

Soraka sabia. Tanto sabia como ele chutava que ela seria até mesmo a causa. No entanto, contrário aos seus últimos atos, Varus apenas fechou os olhos, aceitando aquela efêmera realidade.

O silêncio que ele lhe proporcionava inflamava Soraka, tornando-o sufocante dentro de si.

Notas finais
1. Uma das duas ilhas que foram invadidas por Noxus, a outra é Shon-Xan. Sim, eu sei que foram três partes invadidas, mas Navori fica na ilha principal galera. Eu escolhi essa por ser a parte mais ao sul (e também acho que tenha sido a primeira invasão), e como a única coisa que Riot disponibilizou foi que o templo de Pallas era ao sul, bem ficou essa né. 2. Astral Grove, no inglês. (dã) É o bosque lá da Soraka e tudo mais. 3. Olhos e cabelos castanhos, pois como mostra na skin Varus Arco da Luz, ele era desse jeito antes da corrupção. (Sim, essa skin é ele pre corruption) 4. tokkuri, ou aquela aquela "xícara" de onde o sake é servido. Procura aí depois qualquer coisa. 5. ochoko, ou o pequeno copo onde se toma o sake. Procura também. 6. Mençãozinha básica ao Akai Ito. E também houve uma frase em itálico aí de OURO ein, pode me falar qual foi. :~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.