The Scream and The Silence

4 As asas cortadas de um grou


Notas iniciais
Desanimada pra escrever. Essa é a única fic que eu ainda gosto, então ainda vou postá-la. Aproveitem.

The Scream and The Silence

Apagada a luz

as estrelas frescas

entram pela janela.

Natsume Soseki

Aquele céu limpo, curiosamente, antes parecia nublado. A vasta escuridão de um começo de noite denunciava um céu sem estrelas. Mas logo após aquele ato, a primeira estrela da noite aparecera. Sempre ao lado da lua, lá estava D'alva, ou o planeta Vênus.

Vênus e seu solitário nascer no céu.

Inesperado e implacável, foi com essas palavras que Varus classificou o sutil ato. Aqueles míseros segundos foram resultado de uma guarda frágil. Uma guarda na qual poderia ter sido facilmente atingido com um golpe fatal.

Mas apenas um beijo foi roubado.

Soraka ainda pressionava seus lábios contra os de Varus. Com aquele singelo toque, ela tentava alcançá-lo com sua vontade. Ele apenas riu de canto, não se importando o quão aquilo soaria ofensivo. No entanto, Soraka apenas descobriu os lábios dele, continuando com aquela mesma distância incerta.

A distância que ela não conseguia alcançar. Estavam tão perto que outro beijo poderia ser roubado. Tão longe que Varus apenas riria em sua cara de novo.

Ele a olhou com desdém. Aquela risada se tornara um sorriso cínico. Minutos atrás, ele perdera a cabeça. Mas para Varus, beijos eram só toques comuns, sendo meramente igualados com a pressão das mãos de Soraka em seu ombro.

Ou seja, nada.

– Se você pretende me seduzir, saiba que falta — Ele a olhou lentamente da cabeça aos pés. — muita coisa para isso.

Ela fechou os olhos e pressionou suas duas mãos com mais força contra os ombros nus. Equilibrando-se mais do que ela esperava, tentando inutilmente confrontá-lo face a face.

"Ele quer me provocar?" Ela suspirou fundo, tentando manter-se nas pontas dos pés por mais alguns segundos.

– Até parece que eu iria seduzir alguém como você. — Ela retrucou ainda de olhos fechados, mantendo a mesma calmaria de uma lótus ao se abrir.

– Realmente não conseguiria. — Ele também fechou os olhos enquanto sorria. Entretanto, Soraka abriu seus olhos e viu aquela face calma. A mesma face calma de minutos atrás quando ele observava as pétalas cinzas da amendoeira.

Varus pegou os dois pulsos brancos e com força os retirou de seu ombro. Tendo a sua face tão fechada que fez Soraka duvidar que o vira sorrindo tão pacificamente. Mas ela estava enganada. Aquele era apenas um falso sorriso, criando uma falsa esperança, fazendo nascer uma falsa calmaria... Dentro de ambos.

Por um segundo, Varus lembrou-se do tom rosado daquelas pétalas. Aquele sorriso cínico havia se transformado em algo que ele não queria e nem conseguia definir. Mas no momento que aquela sensação de leveza entrara em seu corpo, Varus se tocara que elas paravam de falar diante daquela estranha mulher.

Aquela estranha mulher que ele nem sabia o nome.

"Soraka." Ele falou em seus pensamentos. Falou com a mesma voz que pertencia somente a si, e não com aquelas que estavam dentro de sua cabeça. Mas não deveria ser. Ele não perguntara seu nome, e nem ela lhe falara. Mas de qualquer jeito, ela vira seu passado. Revivera seu passado.

E sabia seu nome.

.

.

.

As brasas dançavam pelo ar, soando como uma doce melodia perdida ao vento. Aqueles pequenos pontos alaranjados escondiam a destruição de outrora. Tudo queimava. Desde o capim fresco de início de primavera até aos telhados das casas firmemente construídas.

O fogo se espalhara tão rapidamente que o vilarejo fora dizimado em longos e torturantes minutos. O ar cheirava carne queimava. Um cheiro que revirava o estômago de quem estivesse vivo ali. Se houvesse alguém vivo.

Mas havia, sempre havia.

Ele escutava os berros das pessoas que ainda queimavam vivas. Sentia aquele cheiro que embrulhava e revirava todos os átomos de seu ser. Via com clareza todo aquele genocídio. Sua família estava no meio. As pessoas que vivera sua vida inteira estavam queimando. As pessoas que aprendera a amar e aprendera a suportar estavam, simplesmente, virando cinzas.

Se ele conseguisse fazer algo além de ver e sentir tudo aquilo, esse algo seria gritar. Gritar até ficar sem voz. Gritar até suas cordas vocais se romperem. E até mesmo depois. Mesmo rompidas, ele gritaria sem voz, apenas para tentar apagar a sua dor e frustração.

Ele, aquele que protegia, não protegia mais nada além de si mesmo. Ele, aquele que guardava o terror, fechara seus olhos para o terror do mundo humano e guardava apenas um outro tipo de terror. Ele, aquele que vivia a sua vida com honra e glória, via ambas aos seus pés, estraçalhadas. Ele, aquele que se sentia o escolhido por ser o melhor, sendo o único vivo.

"Qual é o gosto de ser o melhor de apenas um?" Seu subconsciente falara. "Sua honra salvou quantos?" Ele ouvia as vozes. "O melhor dos melhores arqueiros, Varus, acertara a flecha da desgraça ioniana." Não era simplesmente só o seu subconsciente. "Pallas¹ foi protegido com sucesso. E quanto a nós?" Não. Não...

Ele berrou. Berrou tão alto que fez com que os pássaros que dormiam acordassem e voassem para longe. Ele berrou com toda a vontade que tinha e caiu de joelhos ao lado de uma poça de sangue. Berrou enquanto imaginava o seu próprio sangue sendo derramado enquanto era abatido. Berrou pelo seu medo, pela sua honra, pela sua dor, e berrou principalmente pelo seu arrependimento. Sentia sua garganta seca, mas ele não conseguia parar de gritar. As lágrimas escorreram pelo rosto de uma maneira incontrolável. Ele também não queria que elas parassem. Ele merecia.

Ele também era culpado.

Tão semelhante e tão diferente à aqueles mesmo cachorros imundos que destruíram tudo o que era seu. Que destruíram todo o seu povo. Que fariam Pallas cair. De um jeito ou de outro, tudo aquilo seria consumido pelas chamas e pelo ódio... Todos consumidos.

Naquele momento em que as vozes pararam, ele olhou para o céu. E reconheceu a constelação que estava em cima de si. Mas olhando aqueles pequenos pontos brancos brilhando incessavelmente, Varus decidiu o que faria com tanta precisão e tanta certeza que qualquer um que o visse duvidaria de sua humanidade. A humanidade que começaria a se desmanchar no momento que decidira proteger o templo.

E ele a deu liberdade. Deu liberdade a toda corrupção que protegera. De baixo daquele céu que tinha um brilho estranhamente ofuscante.

.

.

.

– Soraka. — Ele falou quase em um sussurro. Mas aquilo bastou para que ela pudesse ouvir.

Ele ficara em silêncio por alguns minutos. Ela nada fez para quebrar aquela estranha sensação de inquietação. Seu corpo fervia por minutos. Queria e não queria sacudi-lo, queria e não queria quebrar o silêncio — gritar. Aquele silêncio tão dolorido em tão pouco tempo e tão sufocante. Mas ela aguentou. Aguentou porque aquelas pupilas brancas não tinham brilho. "E como eu adoraria ver o seu brilho..."

Varus se virou para olhar a amendoeira. Cinza. Seu mundo era cinza. Da mesma cor do final das brasas daquela noite. Porém aquela mulher deixava a colorido. Ela deixava tudo colorido. Soraka era seu nome.

– Esse é seu nome. — Ele continuou falando após sussurrar aquelas palavras. — Mas como eu o sei?

– Eu não sei... — Soraka não soube o que falar. Ela sabia o nome dele porque quis saber. Mas ele não sabia o seu, ele nunca quis saber.

– O que é você? — Ele perguntou por fim.

Talvez já fosse hora de saber. Ou talvez já estivesse tarde demais para ele. Ele não queria ser salvo. Mas também era curioso. Os mistérios que rondavam a continuação de sua existência também eram curiosos. Ele, o humano que fora corrompido, tinha curiosidade de saber quem era aquela que conseguia o lembrar de sua humanidade.

Quebrou o seu orgulho.

– Você quer mesmo saber? — Os olhos âmbares brilharam. Soraka não se permitiu sorrir, mas por dentro ela queimava. "Eu estou alcançando!" Ela tocou em seu ombro, o fazendo olhar para si. — Você quer mesmo mesmo saber?

Ele apenas olhou para si enquanto cruzava seus braços no peitoral.

– Então... Bem, eu não sou humana. Quer dizer, eu não era. — Ela retirou a sua mão dele quando percebeu que ele prestaria atenção em si. — Era um ser celestial, vivendo em um bosque onde os humanos geralmente iam para se curar... Mas tudo mudou um dia. Eu acho que geralmente é assim né... As coisas mudam. Um dia, apareceu um homem com uma mulher em seus braços. Ela era tão bonita... Ele me pediu para curá-la, mas eu não conseguia fazer nada por ela. Ela já estava morta há tempos. — Soraka riu fraco. — Eu deveria ter percebido isso naquela hora. Mas naquele momento, eu senti a dor dele. Senti a sua fúria. Eu fiquei com dó... Eu queria salvá-la.

– Ficou com dó? — Varus repetiu alto. — Então, você ficara com dó de mim também.

Soraka sentiu a sua saliva descer raspando em sua garganta.

– As coisas são diferentes agora. Eu quero te ajudar porque eu acho que você necessita, e bem... Me deixe continuar. — Os olhos brancos ainda a desprezavam. — Eu não podia ajudar a salvar a sua esposa, mas eu poderia curar a dor da perda. Só que ele não aceitou e foi embora. Quando eu paro pra pensar sobre o que aconteceu, eu vejo o como foi tudo bem calculado. Como eu fui bem usada... — Ela voltou a sorrir fraco, tentando não se magoar. — Ele sempre voltava. Nós sempre conversávamos. Eu sempre tentava ajudá-lo... Sempre tentava diminuir a dor, e eu achava que ela realmente havia passado. — Soraka abaixou a cabeça e se lembrou do cheiro das árvores do bosque. Lembrou-se da Constelação de Grus que sempre a fazia companhia. Lembrou-se dos animais que lá viviam harmonicamente. "Eu joguei tudo aquilo fora... Que tola eu fui..." — Um dia, ele me disse que havia encontrado o homem que matara a sua esposa. Eu senti algo vindo da alma dele, mas eu não sabia o que era. Ele disse que queria vingança, e eu... Eu não aceitei isso. Eu não queria o perder, acabei por ficar muito próxima a ele. Se ele se vingasse, ele não voltaria mais... — Ela voltou a sorrir.

– Você se apaixonou por ele. — Varus disse com a naturalidade que fazia parte de seu ser.

– ... Sim. — Seus olhos perderam o brilho ao se lembrar. — Eu fui egoísta. Acho que foi por isso que eu mereci o que aconteceu... Esse egoísmo que sempre blinda os humanos. Eu só percebi quando fui atrás dele. Antes, me aconselharam a não fazê-lo, mas eu não conseguia raciocinar. Eu simplesmente larguei o bosque e a minha cabeça ficou nublada, não conseguindo mais ouvir as estrelas... Quando eu o encontrei, ele estava quase morrendo. Por mais que eu curasse ele com tudo o que eu tinha, aqueles humanos não paravam de o atacar. Eu acabei por usar o meu poder pra atacar aqueles homens... Mas quando todos estavam mortos, — Soraka coçou a cabeça. — ele me apunhalou pelas costas.

Varus apenas manteve sua face calma. Uma face calma esperando algo mais. "A sua presa é muito tola." Uma voz ecoou em sua mente. Ele não se chocara nem com a voz, e nem com a história de Soraka. Mas algo o incomodou.

– Você é a curandeira do Norte do qual me falaram. — Ele apenas concluiu com a calmaria totalmente fundida com arrogância.

– Te falaram de mim? — Ela pareceu surpresa.

– Sim. — Ele falou se virando de volta, pegando as pétalas em suas mãos.

– O que falaram? — Soraka quis saber mais.

– Que talvez você podia me ajudar. — Algo pulsou dentro de si, mas Varus apenas riu. — Mas olhando pra você, compensa mais matá-la.

As pupilas âmbares estremeceram com o que ouvira.

– Você não mata ionianos. — Engoliu novamente seco. — Não importa o quão tola eu seja, você não irá me matar.

– ... Ou talvez você vai se matar. — Varus se virou com um sorriso diferente nos lábios e Soraka viu os belos caninos brancos. — Como saiu viva?

Soraka ficou estática. Naquele exato momento, ela já estava pronta para se defender. Mas ele não a atacara. Dizer que ele não matava ionianos foi apenas ela falando para si mesma, tentando se auto convencer que ele não a machucaria. Porém, o que ele respondera a fez pensar duas vezes. Mas logo depois, ele quis saber mais.

Quis saber mais do assunto que ele mesmo desviara.

– Eu o ataquei também.

– Matou o homem que amava, Soraka? — Ela não reconheceu a voz que vinha dele. Ela parecia mais sombria, mais sádica.

– Eu nunca faria isso. Eu ape--

– Mas você matou por ele. — A cada som que entrava em seus ouvidos fazia seu coração pesar mais.

– Sim, mas uma coisa é di--

– Não é. — O sorriso em seus lábios lhe dava calafrios. — A corrupção de um ser celestial é algo bonito a se imaginar.

– Eu não sou corrompida. — Ela retrucou com raiva. "Ele vai começar a voltar a ser o que era antes? Eu achei que estávamos chegando a algum lugar."

– Se você pensa que não é. — Cada palavra que saía de sua boca, era uma palavra a menos que Soraka conhecia.

Querendo ou não, a convicção das palavras de Varus fez seu coração pesar.

Quando Soraka parou para perceber, a gravidade ao redor dele estava estranha. Aquela mesma coisa que grudara em sua perna quando foi levada até o poço onde antigamente ficava a corrupção. Uma espécie de chama preta saía de alguns lugares do corpo de Varus.

Seus olhos se contraíram. Lá estava ela, a corrupção em forma humana.

– V-Varus... Você não... — Ela falou se afastando da sacada e entrando de volta no quarto de tatami.

Ele apenas tinha um singelo sorriso no rosto. Um sorriso tão frio e impassível como a neve que começaria a cair em poucos dias.

– Vá embora desse templo. — Foi a última coisa que ela escutara.

E foi a última coisa que ela obedecera.

.

.

.

Deitado na varanda e com o shoji aberto para quem quisesse ver o templo, Varus estava estirado no tatami enquanto bebia qualquer coisa que fosse. Diferentemente de antes, ele vestia uma yukata preta, algo estranho para aquele homem que não vestia mais roupas.

Curiosamente, ele sentira falta daquelas roupas.

Quando ele não sentia mais a presença de Soraka perto, Varus voltou ao seu próprio comando. Havia achado desnecessário o que aquilo dentro de si tinha feito. Espantara uma jovem que estava apenas tentando o ajudar. Uma mulher que poderia realmente o ajudar. "De qualquer forma, ela é uma pedra no sapato. Dou dois dias para ela voltar."

Não importara se ele se lembrara de como ele sabia o nome dela. Não importava também como ela jogou sua imortalidade fora. Não importava o porquê de ela o querer tanto salvá-lo. Não importava se as cores apareciam quando ela lhe tocava. Não importava se as vozes dos mortos não ecoavam em sua mente quando ela estava perto.

Ela não iria conseguir.

E naquele momento só aquele céu cheio de estrelas importava. De um estranho jeito peculiar, as estrelas estavam alinhadas naquela noite. A Constelação de Grus que vira naquela noite estava em cima de sua cabeça novamente. E aquele grou que os humanos tanto imaginavam tinha a suas asas cortadas. Cortadas pela própria humanidade.

Maldito bosque...

Notas finais
1. Nome do templo que Varus defendia.