Notas iniciais
Desculpa pela demora porque eu tenho a escola, o trabalho, a academia...
Desculpas pela demora, compensei com um capitulo maior.
Espero que gostem beijos.

Os raios de sol matutinos atingiam minha pele como uma flor acariciando meu rosto. Eu apenas pedia silenciosamente por mais daquele toque. Eu mexia os dedos dos pés, os roçando na cama, sentindo o quentinho das cobertas, e sorri. Porque pensei por um instante que eu estava em casa, mas antes que eu pudesse curtir mais da falsa felicidade, eu me lembrei do que aconteceu na noite passada. E sem a menor força de vontade, eu abri lentamente os olhos.

-Bom dia, criança.

Eu tentei assimilar a voz de imediato, mas não consegui, era tudo muito novo pra mim. Então eu me sentei na cama e logo vi o Taylor abrindo as cortinas, permitindo o tal gracioso sol, adentrar o recinto:

-Perdoe-me acorda-la, mas foi necessário. Eu trouxe o seu café da manhã.

-Que cheiro é esse? — Perguntei, ainda grogue.

-Jasmim, uma delicia, não acha? Eu não respondi, ainda não estava acordada direito.

-Você falou café da manhã?

-Sim, senhorita. Lembra-se da ultima vez que comeu?

Enquanto ele perguntava, trazia para o meu colo, uma bandeja repleta de alimentos, dos mais coloridos e saudáveis possíveis.

-Faz bastante tempo. – Eu cocei os olhos, tentando imaginar se ainda estava dormindo.

-Sei que deve ser horrível acordar aqui, e sinto muito por isso. Mas peço que passe o dia bem, sem maiores complicações.

Ele sorria, sem graça, sentado na ponta da cama, vestindo seu macacão preto, e eu me perguntei se ele tinha o tirado para dormir. Ele parecia ser um homem honesto, pra lá de uns 50 anos, branco, de olhos negros, barrigudo, e com sobrancelhas enormes.

Eu não respondi nada sobre o que ele falou, e comecei a passar manteiga em um pedaço de pão:

-O que você faz aqui, Taylor?

-Jardineiro. E lhe garanto que vou fazer meu melhor para que sempre acorde com esse cheiro no seu quarto. E por falar nisso, porque veio dormir nesse quarto?

-Porque, não é permitido? – eu o encarei.

- Não, criança. – ele riu. – Mas eu imaginei que você escolher um dos quartos principais e não um quarto de hospedes.

Eu o encarei, atentamente.

-Isso aqui, é um quarto pra visita? Na minha casa, o quarto da visita inclui um colchão e uma almofada do canto da sala.

-Bom, bem vinda à Califórnia então. – ele riu.

Eu comia, e ele ainda estava lá, esperando a bomba de perguntas que eu estava prestes a soltar.

-Ér, a Gail perguntou sobre as roupas...
Eu quase deixei o pão cair da boca...

-Que indelicado da minha parte. Desculpe, diga que ficaram ótimas, onde ela arrumou?

-Eram da filha dela. Tinha o seu tamanho, quando costumava usa-las. Ela era muito parecida com você. bonitinha, assim como você.

-Obrigada pelo elogio,Taylor . Suponho que ela era muito parecida com a mãe.
Eu comentei me lembrando dos olhos azuis penetrantes e o cabelo loiro esbranquiçado da Gail.

-Um pouco. E por enquanto, o Sr. Grey disse que poderá contar comigo para o que precisar. Isso normalmente é tarefa da Gail, mas como você não fala inglês, eu te ajudo, até seu professor chegar.

-Hã? — eu parei de comer.

-Bom você não vai poder morar na Califórnia e não falar inglês, isso é obvio, criança. Agora, termine seu café da manhã. Tome um banho e se vista. Faz um ótimo dia lá fora.

Ele levantou-se e saiu sempre se esquivando das perguntas. Professor? Eu ia estudar aqui também? Então o pacote era completo não é? Eu ia me casar estudar e morar aqui. Mas que palhaçada toda é essa? Pensei comigo. Só podia ser pegadinha, sem chances. Eu não podia estar passando por isso.

Coloquei a bandeja de lado e me estiquei para pegar minha mochila que estava no chão, ao lado da cama. A abri, e peguei minha agenda, que dentro dela, tinha uma foto, a única foto que me restou, e que eu teria pelo resto da vida.
Meu pai e minha mãe, juntos numa viajem para a Inglaterra quando eu tinha oito anos. Antes de tudo começar a virar de cabeça pra baixo. Antes do câncer da minha mãe, antes do meu pai ter que trabalhar com o que não gostava pra me sustentar, antes de...- Eu respirei fundo. – antes da minha mãe e meu pai morrerem. Era doloroso. Acho que a palavra que mais se encaixava a minha situação era Dor. A dor do abandono, a dor da revolta, a dor do medo, a dor da infelicidade e por ultimo e talvez a pior, a dor da solidão.

Eu passei as paginas da agenda, relembrando coisas que eu mesma tinha escrito coisas que eu tinha até esquecido que um dia tinha escrito. Coisas como: Hoje, meu pai me tirou do sério. Como ele não me deixou sair com a Leila? ‘’

E nesse momento, uma onde de arrependimento me invadiu. Nos momentos em que eu deveria abraçar forte o meu pai, beija-lo e dizer que o amo, eu estava com raivinha porque não podia sair com a Leila. A ironia disse é que a Leila nem gostava de mim. E eu nem gostava dela também, só andávamos juntas por que... Eu sei lá. Coisas banais, que não deveria acontecer, sabe.

Eu tive tempo pra ficar com o meu pai e desperdicei. Deixei pra ‘amanhã’, eu ri comigo. O amanhã não existe, o amanhã é uma ilusão que criamos para fazer idiotices hoje. É uma desculpa barata para sermos negligentes. É estúpido. Eu sou estúpida.
Eu agarrei a foto do meu pai contra o meu, e a apertei forte, sussurrando por desculpas, na esperança que ele pudesse ouvir e me perdoar.

Aí eu pensei comigo: Porque nós, humanos imbecil, deixamos para falar coisas que queremos somente quando nossos entes se vão? Eu te pergunto, pra você mesmo, você que está sentado, relaxado, lendo isso aqui: Você disse para seu pai que o ama? Disse para sua mãe o quanto é grato por ela lavar suas roupas, ou por limpar o seu traseiro quando você era pequeno? Deu um abraço no seu irmão hoje? Eu suponho que não. Mas se você fez uma dessas coisas, qualquer uma, eu invejo você. Invejo sim. Porque eu não tenho pai, nem mãe, nem irmãos. Tudo o que eu tenho, é... – risos — nada. Um monte de nada.

E você ainda reclama da sua vida. Eu te pergunto: gostaria de trocar de lugar? , eu daria minha vida, pra dizer pro meu pai: Eu te amo. E estarei de volta para jantarmos juntos!’’

Eu deixei meus pensamentos retardatários de lado e antes que eu começasse a chorar miséria eu guardei minha agente na mochila e a deixei no chão novamente.

Me levantei, arrumei a cama impecavelmente, do jeito que a encontrei e caminhei até a janela, que também era de correr, então eu a abri e ali tinha uma varanda que dava para as gloriosas flores do Pedro. Como ele disse, o cheiro de Jasmim era impregnante, no bom sentido, é claro.

O jardim estava vazio, e eu me perguntei se essa casa era sempre assim, vazia. Bom, então para buscar tal resposta, eu me apressei e fui tomar um banho, rápido, sem lavar novamente os cabelos.
Voltei ao quarto, enrolada na toalha e na pilha de roupa que Gail me emprestou, escolhi um vestido branco com flores azuis, lindo.

Era simples, mas de muito bom gosto, parecia até com o tipo de roupa que eu usava em casa. Era de alças finas, e de decote reto e tinha uma faixa logo abaixo do busto que marcava bem as curvas, ele era curto, mas nem tanto, e colado ao corpo, mas nem tanto, era perfeito.

Eu me vestia, mas estava com dificuldades para terminar de fechar o zíper nas costas, até a porta do quarto se abriu, me fazendo tomar um susto:

-HEIM ! Eu estou trocando de r...

-Hey, it’s me. (Ei,sou eu).

Ela entrou devagar e sorridente, com uma caixa vermelha na mão, e mesmo sem entender o que eu falo, era tinha um ótimo astral e uma boa vontade inacreditável.
Mas dessa vez ela não falou muito, entrou e logo percebeu minha dificuldade com a roupa. Ela a fechou e quando eu me virei, ela juntou as mãos perto da boca, parecia muito feliz por me ver com a roupa da filha.

Ela puxou a cadeira giratória e pediu que eu me sentasse rapidamente se esquivou até a cama e pegou a caixa vermelha, me entregou e pediu que eu a abrisse.

-Open it! (Abra!).

Eu a olhava atentamente, sentindo de perto a afobação da mulher. Sem esperar mais, eu abri a caixa e dentro, havia um lindo e singelo par de sapatilhas vermelhas com detalhes brilhosos na lateral. Sem salto, coberta por um lindo veludo, semi-nova, perfeita, como o vestido.
Eu segurei os sapatas nas mãos, radiante. E Gail me acompanhava com seus olhos cheios d’água, provavelmente lembrando-se da filha.

-Eu não posso aceitar, Senhora Gail. Desculpe. – e eu os empurrava para ela, os recusando.

Mas ela fazia o mesmo, os empurrando de volta para mim, e me olhou nos olhos, acenando a cabeça positivamente. Talvez ela quisesse que eu ficasse com eles:

-Take it. They’re yours now. (Pegue, eles são seus agora).

Ela falou alguma coisa que eu não entendi e sorriu. Então eu os calcei que serviram perfeitamente e eu me levantei. Andei em direção ao grande espelho e me vi dos pés a cabeça. E sim, eu estava bonita. Acho que nunca estive tão bonita antes. Atrás de mim, Gail batia palmas de felicidade, era como se ela estivesse vestindo uma boneca. E eu sorria para ela, tentando me juntar a sua felicidade, como se isso fosse possível.

Eu levantei novamente o rosto e olhei ao espelho, que refletia minha mão enfaixada. Que refletia... uma órfã.

Eu engoli o choro por uns instantes, não queria causar mais frustrações à Gail eTaylor, que estavam sendo gentis comigo. Tratei de desenhar um falso sorriso nos lábios e agir como se eu estivesse amando aquilo tudo. Logo, Taylor apareceu na porta do quarto, e parou, me olhando espantosamente:

-OH,my God!Mia? (OH, meu Deus!Mia?).

E eu o olhei, sem saber o que responder. Logo, Gail começou a chorar, um choro baixo quase imperceptível, mas que a fez perder a base e sentar-se a cama em que eu havia dormido. Eu senti que tinha acontecido alguma coisa e prontamente me sentei ao lado dela, passando meu braço por suas costas, dando-lhe um abraço, na tentativa de acalma-la.
Com um ar confuso eu olhei para Taylor, que não havia movido um músculo sequer, me olhava espantosamente e calmamente ele tirava da cabeça, um chapéu e o juntava ao peito o apertando com força. E eu não entendi bulhufas.

— O que aconteceu, Taylor?
Ele saiu do transe, sacudindo a cabeça algumas vezes e Gail chegava a soluçar de tão nervosa. Taylor se aproximou, lançando um olhar desconfiado para mim:

-Desculpe criança. É que você está espantosamente parecida com Mia.

Eu franzi a testa.
-Mas, quem é Mia?

-É a filha da Gail. Devia ter sua idade quando foi embora.

Eu arregalei os olhos e olhei para Gail, que ao ouvir o nome da filha, chorou mais alto. Bruscamente eu me levantei e já me preparava para arrancar a roupa do corpo:

-Me desculpe, eu não queria fazer nada de errado, eu tiro a roupa.
Desconfiando do que eu estava prestes a fazer, Gail limpou as lágrimas e com as mãos fez sinal para que eu parasse o que estava fazendo.

-No, i’m sorry sweetie, it’s yours now. You have to use something.(Não, eu sinto muito docinho, são seus agora. Você tem que usar alguma coisa).
Eu olhei rapidamente para Taylor, e ele traduziu simultaneamente:

-Ela disse que você pode usar. Aliás, você precisa usar alguma coisa, não é?

Eu me recompus e concordei com a cabeça. Taylor também se refez e estendeu a mão para a senhora, que também se acalmava.

-Desculpe por isso. Você deve descer, e aproveitar o dia, conhecer a casa. Vai gostar dela.
Eu sorri, totalmente sem graça e ele a ajudou a sair do quarto, segurando em sua mão.
Eu senti que não devia usar as roupas de Mia, mas o que eu usaria? Infelizmente, seria uma tristeza para Gail me ver como sua filha, eu sabia disso. Mas porque ela teria ido embora? E essa era mais uma das milhares de perguntas a serem respondidas. E deu a ultima olhada do espelho, e sai do quarto, bati a porta atrás de mim, e atravessei novamente o enorme corredor branco, pronta para viver o primeiro dia naquele mausoléu.

Eu desci as escadas lentamente, passo por passo, e enquanto descia, olhava para o chão, onde na noite anterior eu estava jogada, acabada olhando cara a cara para o homem que matara meu pai. E me lembrei de quando estive a menos de um passo diante dele, na minha casa, segundo antes dele mandar matar meu pai. Os olhos cinza claros dele penetravam nos meus, como se estivesse decidindo meu futuro ali, e realmente estava. Minha boca, trêmula implorava perdão, e tudo o que ele fez foi apertar meu braço, e finalizar o trabalho.
Mas eu tratei de respirar fundo e continuar descendo as escadas, como se tudo estivesse bem, perfeitamente bem.
Eu olhava em volta, e já havia me esquecido da imensidão da casa, era realmente deslumbrante. Tudo ali parecia valiosíssimo, até as paredes. No teto, o lustre estava apagado obviamente, porque ainda era manhã, mas mesmo assim, o objeto era incrível, como pérolas penduradas. O chão possuía um desenho abstrato, mas não deixava de ser bonito, e possivelmente símbolo para a família Grey.
As grossas pilastras escuras que suportavam as escadas tinham desenhos minuciosamente decorados, dando um ar de sofisticação além do necessário.
Eu caminhava pelo hall de entrada da casa, espantada com tanto luxo, e me perguntei por várias se eles realmente precisavam de paredes decoradas para sobreviver, ou um lustre luxuoso. Serão que eles não conheciam as simples, lâmpadas?

-O que gostaria de fazer, criança? Ver a casa? Eu posso te mostrar muitas coisas, mas levaria dias para conhecê-la completamente...
Eu o interrompi.
-Eu quero ver o seu Jardim.
Eu sorri e ele pareceu ficar surpreso, mas logo acenou positivamente. Abriu caminhou para eu passar, como se eu fosse uma realeza e me dirigiu até o lado externo.
Enquanto caminhávamos até o jardim, que ficava numa distancia significativa da casa, eu o perguntei:
-Está tudo bem com Gail?
-Oh, sim. Ela fica emotiva facilmente quando se trata da filha, mas não queira vê-la brava, ela é um bicho feroz. – ele riu.

-O que aconteceu com a filha dela? Mia, não é?

Ele tossiu, e eu supus que fosse um método de desconversar, mas eu não mudaria o assunto:

-A filha dela foi embora quando tinha uns 14 ou 15 anos, eu já não me lembro bem.

— E isso já faz muito tempo?

-Sim, por volta de 7 anos.
-Mas ela...está...viva?

-Sim, mas não vem visitar a mãe a anos.
Eu resolvi não perguntar mais, não queria abrir feridas de ninguém, já bastavam as minhas.
-Você é muito parecida com ela. A não ser pelos olhos, os olhos de Mia são escuros, como a noite.
Ele pareceu viajar por um instante enquanto falava na menina, como ele trabalha aqui a muito tempo, obviamente a conhecia.

-Não quis causar problemas a Gail.

-Você não causou. Ela gostou muito de você, apesar de você não falar inglês. Disse que você é uma pessoa boa.

Eu sorri, agradecida.

-É uma pena que eu não a entenda.

-Não se preocupe, seu professor deve chegar a alguns dias, em poucos dias, na verdade.

Nós finalmente chegamos ao imenso jardim do Tayor, que tinha o organizado em forma de labirintos, mas era baixo, na altura de minha cintura, mais ou menos, então eu não tinha como ficar perdida lá. Era todo colorido, mas com flores devidamente separadas. Andávamos-nos entre eles, conversando calmamente:

- Porque veio trabalhar aqui ?
-Meu pai trabalhou para essa família, e eu segui os caminhos dele.
-Então você conhece muito bem a família, não é?

-O necessário para saber que não devo me meter no que não me diz respeito.
Ele falou diretamente olhando para mim e deu um sorriso.
— Entendi. E quem mais mora aqui? Além de você, Gail e o Sr.Grey?
-Você! — ele riu.
-Só? Mas...

-A família dele é pequena, ele não tem irmãos, tios ou primos, seus pais moram muito longe daqui.
— Ele fica nessa casa enorme, sozinho a maior parte do tempo?
Perguntei, olhando parando e olhando para a casa, que de longe parecia cada vez maior. Ele me acompanhou e também a admirava de longe.
-É uma bela casa, não acha? Um dia, ela já esteve cheia, mas agora, só escutamos os ruídos de cigarras, isso quando elas veem nos visitar, porque o Sr. Grey odeia cigarras. – Ele riu novamente, e eu fiz a tal pergunta que esperei tanto tempo para fazer:

-Taylor seja sincero comigo – o olhei fixamente, apertando os olhos, me protegendo dos raios solares. – É possível que eu consiga ir embora dessa casa?

Ele relaxou sua expressão e também me olhou fixamente.

-Deixe-me perguntar uma coisa, criança: Seu pai está morto, não é?
Eu engoli seco, mas isso era uma realidade:

-Sim, está.
-E pra onde você iria? Com quem ia viver? Sua mãe está lá?
-Não, senhor. – eu baixei a cabeça e voltei a caminhar, logo ele me acompanhou.
-Não estou pedindo para que sorria e seja feliz nessa casa, criança. Mas que saiba viver aqui. Se fizer as coisas como devem ser, tudo será diferente, eu garanto isso.

-Fazer como deve ser, o quê? Me casar com ele? – eu perguntei num tom mais elevado.

-O seu destino, só pertence a Deus. Eu disse isso, mas foi uma ideia. Eu também não sei o porquê você está aqui.

Ele parou subitamente e segurou meu braço delicadamente, para que eu também parasse. Lentamente, ele pôs a ponta dos dedos no meu queijo e o erguei, me fazendo olhar diretamente nos olhos negros que ele tinha.
-Acredite em mim, criança, permita-se viver um pouco disso aqui. O que mais você teria a perder?

Boa pergunta. Ótima pergunta na verdade!
— o senhor tem filhos? – eu o perguntei.

Logo ele soltou meu rosto, e olhou para frente, fazendo uma careta de reprovação.
-Se tem, o senhor gostaria que sua filha morasse com esse monstro?
Xeque-mate.
Ele engoliu seco, olhou para o céu, pensando talvez, mas logo voltou a me olhar:
-Se eu tivesse uma filha, não ia gostar que isso acontecesse com ela.

Ele ergueu sua voz, não gritando, mas respondendo a altura da minha pergunta, rapidamente segurou meu punho e o levantou, erguendo a mão enfaixada que eu tinha. Fazendo a atadura já manchada de sangue aparecer na minha frente.

Em pensar duas vezes eu recolhi minha mão, e voltei a caminhar, sem falar mais nada. Sem ter que enfrentar a realidade, sem querer saber mais daquela vida que eu estava levando.
Eu queria chorar mais, chorar até secar e morrer. Queria desistir de viver. Porque eu não merecia viver naquela casa, com aquele homem, sozinha com ele. Era castigo demais passar o resto da minha vida convivendo com o cara que matou meu pai, dormindo com ele, almoçando com ele, rindo das piadas dele. Isso é vida? Era isso que ia acontecer comigo?

Eu continuei caminhando, pensando na minha miserável vida e Taylor não veio atrás de mim, continuou lá, acredito que ele sabia o que deu devia estar passando e deixou a poeira da minha vida abaixar, se é que um dia minha vida ia ser calma de novo.
Eu olhava aquelas flores lindas e bem cuidadas do meu lado, sentia o perfume delas e aos poucos eu ia para cada vez mais longe, porém quanto mais eu anda eu ainda tinha a sensação que ainda estava no mesmo lugar. Talvez, por eu estar em um labirinto, pensei eu. Ou talvez, porque esse seria meu destino: Andar, andar, andar e nunca, jamais conseguir sair daquele lugar.
E quando eu me cansei, eu finalmente parei e virei meu corpo para frente, olhando para a fachada da mansão. Que tinha uma porta enorme e muitas, muitas janelas. Dei uma olhada rápida e logo achei o quarto onde eu dormi, o reconhecendo pelas cortinas brancas. Mas estava longe, parecia até um pontinho no espaço. Eu ri, ironicamente.
Eu, Anastácia Rose Steel, classe media, moradora do RJ, 19 anos, que viveu a vida inteira nunca casinha pequena, sem luxo nenhum, agora estava vivendo numa mansão.
Eu ri novamente, tendo em mim, a certeza que eu trocaria até duas mansões para viver numa casa menor ainda que a minha, contando que meu pai estivesse dentro dela.

Eu olhei em volta e o Taylor já não estava mais no Jardim, ou talvez estivesse do outro lado, onde minha visão já não alcançava.
E eu começava a me desesperar, porque por mais que eu andasse eu não conseguia sair do labirinto.

Mas quando eu abri a boca para chamá-lo, eu percebi uma coisa que não devia passar despercebida. Formigas. Sim ,formigas. Elas carregavam pequenos pedaços de plantas das costas e eu as segui.
Eram muitas, milhares de formigas no chão, trilhando um caminho único que eu tinha a certeza que me tiraria dali, e estava certa, em poucos minutos, eu sai do labirinto e as continuei acompanhando até que chegassem a sua casinha, no gramado.
Eu as agradeci silenciosamente e estava ciente que elas eram umas das poucas ‘pessoas’ que me ajudaram desde que eu cheguei.
E enquanto eu voltava para dentro da casa, eu parei subitamente e ri, na verdade eu gargalhei comigo mesma.

É claro, sua idiota, pensei. Isso é um sinal. Eu tinha concluído que por mais que eu andasse, eu nunca ia achar uma forma de sair dessa casa, como no jardim. Mas eu estava errada, eu achei uma saída. Eu ri mais alto ainda, e olhei para o céu, sorridente, agradecendo a quem quer que tenha me dado essa luz. Era tão obvio. Tão obvio. Claro, eu achei a saída onde e quando eu menos esperava, então eu ainda tinha chances de sair daquela casa.
Era só procurar. Brevemente, eu estaria livre, livre pra viver a minha vida.