The Score
26 Capitulo 26- True I
Notas iniciais
Eu acordei com a estranha sensação de que tinha dormido apenas 2 horas, mas se o relógio do criado mudo estava certo, já eram 7 horas da manhã.
Levantei e caminhei diretamente para o banheiro, já com uma calça jeans e uma camisa social branca com botões.
Tratei de tomar um banho rápido e fiz minha higiene matinal.
Mas não demorou muito, até eu escutar sinais de vida vindos da cozinha. Como a curiosidade falou mais alto, eu fui até lá, o encontrando já arrumado, vestindo uma calça jeans e uma caminha social também branca.
– Bom dia. – cumprimentei o vendo sentado na mesa tomando café.
– Bom dia!
Ele respondeu, curto e logo se levantou, deixando a cozinha. Eu não quis forçar muito e o deixei ir. Tomei um pouco de café e logo voltei para o quarto, arrumando as mudas de roupa que eu levaria para passar dois dias em Boston.
Mas a parte difícil seria ficar 6 horas no mesmo vôo com o José, sem dar uma palavra sequer, então eu tratei de modificar aquele climão que tinha se instalado entre nós.
– Vamos? – ele perguntou, quando eu apareci na sala, com a mala.
– Vamos.
Nós fomos no carro dele, e durante o trajeto até o aeroporto, eu quis puxar assunto, mas ele sempre finalizava o assunto, grosseiramente, então eu não quis mais falar nada. Sabendo que não ia demorar muito até ele falar comigo!
Havia se passado muito tempo, talvez umas 3 horas de vôo e ele não tinha falado absolutamente nada. Era como se eu tivesse viajando sozinha, ou sentado ao lado de um estranho.
Ele apenas ficava lá, paradão olhando para a janela do avião.
– Como sabe que ela é da família Grey? – quebrei o gelo.
– Rastreei uma conta de cartão de credito.
– Mas você não disse que o nome dela era Caroline Malvin?
– Sim. Quando solteira.
Eu fiquei em silêncio um tempo, mas logo conclui.
– Você procurou pelos antecedentes da família...Hum, inteligente!
– É.
Se ela era realmente a única sobrevivente da família, e modificou o nome para o antigo nome de solteira, era porque tinha alguma coisa para esconder. Essa mulher deveria ter muita coisa pra contar, e eu quis saber mais sobre o assunto:
– Ela sabe que vamos até ela?
– Não.
– Como assim ‘não’?
Ele bufou e olhou irritado pra mim.
– Pra ela fugir? Dispenso.
Ele voltou a olhar para a janela, e eu me irritei.
– Qual é a tua, José? Se for me tratar com grosseria, eu deixo você sozinho nesse caso.
– Mas eu já estou sozinho nesse caso, não é? Eu não sei porque trouxe você... Você faz parte do inimigo agora. Mas eu insisto em me perguntar: ‘ Será que o seu pai está feliz com a sua escolha?’
– Deixa meu pai fora disso. Você não o conheceu, não fale dele.
– E o seu maridinho? Ele o conheceu?
– Cala essa boca, José!
–Cala a boca você! Olha em volta, Anastácia. Você fez um juramento na faculdade, porque ta protegendo um criminoso? E não venha me falar de amor, porque isso não é amor, isso é doença, é loucura.
– Então me fala, o que é amor, senhor Eu sei de tudo!
– Amor é cumplicidade, é companheirismo, fidelidade, respeito, confiança, amizade. É tentar salvar a vida da pessoa que você ama, quando tudo parece perdido. E é exatamente isso que eu to fazendo agora. Amor é você acordar todas as manhãs e saber que tem uma pessoa que você deseja passar o resto da vida junto. É sorrir ao lembrar dela, é saber seus gostos e pensamentos, é compartilhar de momentos bons e enfrentar momentos ruins. Amor é viver dia após dias desejando sempre a mesma pessoa, amor é voltar pra casa sonhando com o dia que eu você vai poder abraçar forte essa pessoa, olhar nos olhos dela e dizer: Eu te amo!
Eu apenas o olhava, sem saber o que falar. Ele estava certo, mas o amor é cego e burro, ele não vê o que é certo, ele apenas acontece. Não existe uma regra básica que determine o que é o certo ou errado no amor. Mas eu ainda não sabia explicar porque era tão inaceitável me escutar dizer que estava apaixonada por Christian...Bom, na verdade, eu sabia sim. Eu não devia me apaixonar por ele, isso era fato. Era errado, era um amor bandido, proibido.
– O amor perdoa, transforma e salva, José. E eu amo o meu marido! – eu sussurrei.
Ele apertou os olhos em cima de mim, duvidando descaradamente do que acabara de ouvir.
– O amor perdoa, Annie? – Ele me olhou nos olhos. – Você vai perdoa-lo por assassinar o seu pai?
Eu não respondi porque de fato, eu não sabia a resposta. E ele deu continuidade.
– Talvez eu tenha esperado muito, mas agora eu estou aqui. Talvez a idéia de perder você tenha feito eu acordar e correr atrás. Espero que não seja tarde demais.
– Você não sente falta de mim, . Você sente falta da sua amiga. Você sente falta da minha total disponibilidade pra você.
– Não é isso.
– É sim, não minta pra você mesmo. Eu era a sua mãe, sua irmã, sua amiga, eu era tudo pra você. Mas foi só você me ver exercer meu papel de esposa, tendo que me dividir com meu marido, fez você ver que eu não era tão...imprestável!
– Imprestável? Do que você ta falando?
– Ah, não se faça de desentendido. Você nunca passou mais de duas semanas com alguma mulher. Todas chegaram, ficaram um tempo e saíram da sua vida, menos eu...porque eu era a sua empregada, não é?
– Claro que não. E sabe o porque eu não fiquei com você? Porque eu nunca mereci você. Você é linda, inteligente, divertida, companheira... E eu sempre fui...eu. Um cara bêbado.
– Não acredito em você, José.
– E porque você não acredita?
–Porque eu sei que você falaria qualquer coisa pra não me ver ir embora e ter que ficar sozinho no mundo.
– Errado. Eu falaria qualquer coisa que fizesse você ficar no meu mundo!
Eu não respondi e também não quis conversar mais. Porque eu sabia muito bem que não importava o que eu dissesse, o José não ia me deixar em paz.
Quando o avião pousou, nós fomos de táxi até o endereço de Caroline Malvin. Por sorte ainda era cedo, não passava das cinco da tarde, mas minha ansiedade, e curiosidade para saber o que essa mulher tinha pra falar era tanta que eu mal disfarçava a minha apreensão.
Uma agradável coincidência foi saber que o taxista sabia perfeitamente onde era o local, porque morava a poucas quadras da rua de Caroline, assim, chegamos à casa em menos de meia hora. E era uma bela propriedade, nem grande e nem pequena demais. Toda branca, com um jardim, tal como aquelas famosas casas de filmes americanos.
Nós pedimos para o taxista esperar por nós, porque ainda teríamos que procurar por um hotel, e não demoraríamos muito com as perguntas...Isso, se ela colaborasse.
Ele bateu na porta algumas vezes, e nada. Talvez não tivesse ninguém lá. Eu já me preparava para dar meia volta, quando a porta se abre lentamente:
– Posso ajuda-los?
Eu arregalei meus olhos. Ela era uma mulher muito velha, de cabelos totalmente brancos e andar cansado. As marcas de expressão no rosto denunciavam uma idade bem avançada, e eu me perguntei se era ela a vô de Christian:
– Caroline Malvin?
– Sim. E vocês, quem são?
José tomou a frente:
– José Rodriguez e Anastácia Grey.
Ela neutralizou-se, apertando os lábios, receosa ao escutar meu sobrenome, mas logo abriu a porta, nos dando espaço para entrar:
– Eu sabia que um dia vocês iam aparecer.
Nós entramos devagar, observando tudo o que nos cercava. A casa era linda, clara e arejada, como uma casa de bonecas e eu quis saber se ela morava lá sozinha:
– A senhora vive aqui sozinha?
– Sim. Mas as vezes uma mocinha vem aqui para me ajudar com a limpeza. Sou uma mulher velha, jovens, não tenho uma saúde muito boa. – Ela riu e acenou para o sofá da sala, onde nos sentamos. Ela se sentou na nossa frente, na poltrona.
– Bom, vamos direto ao assunto...O que vocês desejam aqui, de fato?
Ela possuía um ar sereno, relaxado, singelo, como se a nossa presença em sua casa foi programa previamente. E eu não conseguia tirar os olhos de cima dela por um segundo sequer, tentando encontrar as semelhanças entre ela e Christian. Ela era baixinha, bem branca, de olhos azuis e cabelos cuidadosamente penteados, uma senhora fina e simples ao mesmo tempo:
– Viemos falar a respeito da Família Grey.
Ela fechou os olhos e sorriu novamente, se deleitando com o sobrenome que talvez não escutava a tempos.
– Grey...- ela sussurrou.- Esse sim é um nome que eu não escuto a muito tempo. É uma história velha e antiga, acredito que vocês não vão querer ouvi-la.
–Se a senhora não se importar, nos temos todo o tempo necessário.
– Que indelicadeza a minha...Não lhes ofereci nem um café!
– Não queremos, senhora Malvin, obrigada!
– Bom, se é assim. Eu conto tudo!
–Mas antes de tudo, quem são vocês?
– Eu sou detetive e ele é policial.
– Entendo. Esperei muito tempo por vocês, jovens. – Ela riu.- E você mocinha, é uma Grey?
– Sim, senhora.
– Sinto muito por isso. É casada com quem?
– Christian Grey.
Ela pressionou os olhos em cima de mim, tentando assimilar o que acabara de ouvir, suponho.
–Christian? O pequeno Chris?
– Sim, o próprio. A senhora o conhece?
– E porque não conheceria meu próprio bisneto?
– Bisneto???
– Sim. Quantos anos acha que eu tenho rapaz? – Ela riu, alegre.
– O suficiente para jamais ser chamada de bisvovó! – brincou.
Ela gargalhou:
– Gentileza a sua. Tenho 92 anos de estrada, querido.
– Uau. Devo dizer que o tempo foi muito generoso com a senhora.
– O tempo não. A vida sim! Mas conte-me, como está meu bisneto? Espero que ele tenha se salvado da maldita tradição...
– Tradição?
– Sim. Como ele está? – ela estava empolgada.- Eu o vi algumas vezes a uns anos atrás por fotos, mas nunca pessoalmente. Talvez ele nem saiba da minha existência.
– Ele não sabe? Ele não sabe que tem uma bisavó viva?
– Provavelmente não. Quando eu soube quem eram os Grey, eu dei o fora daquela casa e daquele mundo. Dou graças a deus por estar viva e não me arrependo de absolutamente nada do que fiz até hoje, a não ser por uma coisa...O meu filho.
– A senhora deixou a casa e seu filho pra trás?
– Eu quis fugir com o meu filho, mas a única maneira de manter Greg vivo era deixa-lo com o pai.
E o José nos entreolhamos, nem entender nada do que ela falava. Mas ela imediatamente começou a explicar:
– Eu vim de uma família de trabalhadores, que deram duro para me mandar para a faculdade...lugar onde eu conheci o homem da minha vida. Victor Grey, um jovem elegante, rico e carinhoso. Nós nos apaixonamos perdidamente e não demorou muito até o nosso casamento. Ele não tinha família, morava sozinho em uma mansão na Califórnia e me convidou para morar com ele assim que terminamos os estudos. Vivíamos bem, até o dia em que eu descobri através de uma conversa telefônica, a ocupação alternativa dele.
– A máfia, eu suponho.
– Sim, a máfia. Mas quando eu soube, eu já estava grávida de 8 meses do Gregory e Victor passava por um momento turbulento na vida profissional. Sempre estressado e confuso, quase não ficava em casa.
– Essa conversa por telefone, a senhora se lembra?
– Como se fosse ontem...- Ela sorriu de lado. – Era a respeito de um empréstimo milionário a um investidor brasileiro. Naquela época, aquelas ligações deixavam Victor conturbado, revoltado e sempre se descontrolava ao falar com esse homem.
– A senhora sabe quem era esse homem?
– Eu não faço ideia. Mas com o tempo, eu descobri outras coisas....coisas que me fizeram largar tudo pra trás e ir embora.
– O que a senhora descobriu?
– Descobri que o homem da minha vida era um criminoso internacional, que explorava pessoas... E isso era uma coisa tradicional na família Grey. Ele costumava ter a cidade inteira nas mãos. Onde íamos éramos muito bem recebidos, sempre frequentávamos os melhores lugares e festas... Éramos quase a realeza da cidade. Mas Victor fazia coisas perigosas, coisas que colocariam a nossa vida em risco mais tarde. E num belo dia eu resolvi fugir.
– Largando o pequeno Gregory pra trás?
– Ele estava com um mês de vida. Foi a decisão mais difícil que eu fiz na vida, e me arrependo todos os dias em que eu acordo. Eu tentei leva-lo comigo, mas antes de sair de casa, Victor me viu e ordenou que eu deixasse o filho e que partisse sozinha....
– Como assim ‘ordenou’? Ele era o SEU filho...
– Sim, mas antes de ser meu filho....Ele era herdeiro da linhagem Grey...É muito mais grandioso do que você pode imaginar, jovem!
Realmente aquela historia toda era confusa demais. Então o filho de Caroline era o avó de Christian e o marido de Caroline foi o responsável pela dívida do meu bisavô...Porque se bem me lembro, no dia em que fomos à praia, Christian me contou que eu estava pagando uma dívida que meu bisavô fez com o bisavô dele...AFF, era tudo confuso demais! E eu acho que até a própria Caroline sentiu minha frustração:
– Eu já estive no seu lugar, criança. –Ela me olhou fixamente. – É tudo perfeito, não é? As coisas que ele te diz, as coisas que ele faz...Te faz sentir como se você fosse a mulher mais incrível do mundo né? – Ela sorriu. – Eu sei como é. Os Grey têm o poder de enfeitiçar as mulheres, não sei como fazem isso, mas são bons. E são sinceros, isso eu garanto, eles sempre escolhem as melhores mulheres para serem esposas, as mais belas e inteligentes. E lhes dão o mundo...- ela suspirou.
– Mas a senhora recusou...
– Eu era jovem, tinha princípios...E ainda tenho. Mas mudaria tudo para carregar meu bebê no colo mais uma vez. – Ela me olhou nos olhos.- Eu nunca mais vi meu Greg novamente, criança, nunca mais. Ser casada com Victor Grey foi o sonho mais lindo que eu já vivi...Mas enxergar a realidade que me cercava era o pesadelo mais perigoso que existia.
José me lançou um olhar satisfeito, sabendo que também acreditava naquilo que Caroline falava. Eu o ignorei.
– Mas se sua vida era tão perfeita assim, porque fugiu?
– Você não entende nada? – ela se irritou. – Ele era um criminoso, quanto tempo você acha que duraria até uma máfia adversária aniquilar a minha família? Esse mundo é perigoso demais, menina. Não é brincadeira. Eu sofri muito, mas eu tinha que manter meu filho vivo...infelizmente, eu fui obrigada a sair sozinha da mansão...Mas eu sabia que meu filho sobreviveria por conta da tradição!
– O que é essa tradição?
Ela bufou.
– Quer mesmo saber?
– Estamos aqui pra isso!
– Então eu lhe faço uma pergunta: Seu marido já lhe pediu um filho?
Eu parei e pensei.
– Sim...tecnicamente.
– Isso é a tradição! Os Grey são homens. É um antiga linhagem de filhos únicos. São sempre meninos, nunca meninas.
– Hã? Então todos os Greys são homens?
– E filhos únicos. Essa é a tradição: Quando atinge a maior idade consideração pelo o pai, o filho tem que escolher uma esposa, tomar controle do império da família, ter um filho e anos mais tarde.., ‘livrar-se’ da esposa.
Nós arregalamos os olhos:
– A senhora da dizendo que todas as esposas dos Grey morreram???
– Sim, assassinadas...todas! Essa é a tradição.
Eu engoli seco, e antes que eu pudesse processar aquela historia na mente, eu tive a comprovação de que ela realmente era uma senhora de idade ao repetir a mesma pergunta:
– Mas que indelicadeza a minha...Não lhes ofereci nem um café!
José continuou fazendo algumas perguntas pra ela, mas eu já não ouvia nada. Minha cabeça estava a mil por hora depois de escutar tudo aquilo. E mais uma vez eu tinha me decepcionado com o Christian, mas dessa vez foi profundo. Saber que ele quer um filho meu e depois a minha morte era monstruoso, era perverso.
Eu tentava me manter calma, ,mas tudo o que eu queria era dar logo o fora daquele lugar, então eu catuquei o José e ele logo entendeu tudo:
– Bom, obrigada pelas informações senhora Malvin.
– Ajudar nunca é demais!
Ela sorriu e nos acompanhou até a porta, onde do lado de fora, o taxista já esperava impaciente. Antes de bater a porta ela me chamou:
– Menina?
Eu me virei.
– Siga o seu coração!
Ela sorriu e acenou, e eu fiz o mesmo.
Eu fiquei o tempo todo em silencio total. E o que deveria dizer? Nada! Não havia nada para ser dito. E eu não estava nem um pouco a fim de escutar José dizer: ‘Eu te avisei’.
Ele escolheu um hotel simples, nada muito caro e nada muito chique, mas bem limpo. E como já era de se esperar, por motivo de lotação, nós tivemos que dividir o mesmo quarto. Eu quis protestar, brigar pelos meus direitos de dormir sozinha, mas no estado em que eu estava, eu não tinha forças pra falar nada!
Eu larguei minha mala em qualquer lugar e imediatamente procurei pelo quarto, me joguei na cama e fiquei lá um bom tempo. Talvez no fundo, eu pensava que o encontro com Caroline seria positivo. Eu achava que era me diria coisas boas sobre a família Grey, mas não foi nada como eu pensei.
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