The Score
24 Capítulo 24- Verdades vem a tona
Notas iniciais
Eu engoli seco. E aquilo com certeza me pegou desprevenida. Pensei que ele fosse falar algo sobre o nosso ‘caso’ e o porquê de eu não ter retornado as ligações, mas jamais imaginei que fosse aquilo:
– Ah? Do que você ta falando? – eu ri, nervosa.
– Não se faça de santa, Annie. Não cola mais. Me conta.
– Que isso, José? Isso é jeito de falar comigo?
– Christian Grey matou seu pai a 6 anos atrás, na cidade do Rio de Janeiro em plena luz do dia na porta da sua casa. Ou você vai me dizer que eu to errado?
Impossível. Definitivamente impossível. Como ele poderia saber de tudo aquilo? Eu fiquei incrédula: Como é que você...
– Não interessa como eu sei, Annie. – Ele começou a se exaltar. – O que eu to perguntando, é o porque você não me contou isso?
– Mas...Eu não entendo...
– Você não entende? – ele riu. – Você não entende? Eu passei 6 anos da minha vida com você, acreditando que você era uma pessoa e você é outra, completamente diferente. Você me enganou, Anastácia.
– Eu te enganei? Me diz uma única vez em que eu te enganei José. Muito pelo o contrário, eu sempre fui aquela amiga babaca que curou tuas ressacas, que fez sua comida e que lavou suas cuecas.
– Nossa! Isso, joga tudo na cara mesmo. Essa era a Anastácia que eu queria ver, a verdadeira Anastácia.
– É isso mesmo, José. Essa é a verdadeira Anastácia. Uma mulher brasileira que veio deportada para os Estados Unidos juntos com o assassino do pai, após vê-lo ser morto pelo mesmo. Essa é a Anastácia que passou meses trancada dentro de uma mansão aos 17 anos e depois foi obrigada a se casar sem a mínima vontade. Essa é a Anastácia, que planejou se vingar de Christian Grey todos os dias e todas as noites durante 6 anos. E quer saber quem era a tal Anastácia que você conheceu? Essa era a Anastácia Steel. Uma adolescente cheia devida, bonita, engraçada, simples e gente boa. O que eu to querendo dizer, é que eu sou eu quando to contigo.
– Porque você nunca me contou isso ?
– Porque sua vida estaria em perigo, assim como a minha!
Ele parecia tão conturbado com aquilo tudo tanto quanto eu. Eu nunca pensei em como contaria toda a verdade pra ele, mas definitivamente não seria naquelas circunstâncias:
– Sabe o que mais me deixa puto? É que você passou anos me escondendo isso. Eu sei tudo da sua vida, Annie. Eu sei a sua cor preferida, a sua comida preferida, o seu livro, a sua novela, o seu dia da semana favorito, até a sua calcinha favorita eu sei. Como você pode me esconder isso?
– Mas eu quis te contar, José. Mas depois que você virou policial ficou muito mais difícil, eu jamais colocaria você em risco.
– Me colocar em risco? Como assim, Anastácia...Eu sou policial, eu sim, poderia e posso te salvar desse cara. Ele é um criminoso, você não faz idéia de como esse cara ta encrencado com o FBI. Me deixa cuidar de você Annie, por favor. Vem morar comigo, vai ser mais seguro pra você.
– Não. Eu não vou me separar do meu marido, José.
– Hã? – ele riu. – Ta falando sério? Você ta apaixonada por um dos maiores assassinos americanos, é isso? Esse cara é um mafioso Anastácia. Ele é suspeito de uma lista infinita de assassinatos, roubos, tráficos...Você tem alguma dúvida de que eu sou melhor do que ele?
– Tráfico? Não...Ele não é...
– Presta a atenção, Annie. – ele me olhou nos olhos. – Se você vier comigo, eu vou te manter viva, ele não!
Ele falava com total postura e veracidade, era como se Christian fosse o bicho papão e ele o super homem:
– Do que você ta falando, José?
– Esse cara ta na mira do FBI a anos, e adivinha quem foi convocado para investigar esse caso? Eu! Quando eu recebi a planilha do meu chefe e vi que ele era o tal cara, eu não acreditei.
– Mas me explica isso direito,José, não to entendendo.
– Bom, você tinha vizinhos no Brasil, e eles escutaram tiros vindo da sua casa e chamaram a policia depois que seu pai morreu, e logo depois você veio para cá e se casou com ele...É só associar Anastácia, é tudo muito simples.
– Então a policia já estava sabendo do meu caso, e nunca interferiu?
– A policia não, porque são um bando de filhos da puta, que pagam um pau danado pro governo, mas o FBI ficou sabendo a pouco tempo, assim como eu.
– Então você assumiu o caso? – eu o olhei fixamente. – E o que pretende fazer?
– Como assim ‘o que eu pretendo fazer’? Eu pretendo fazer o meu trabalho. Vou investigar a vida desse cara de cabo a rabo, juntar as provas e estourar os miolos dele. – Ele traçou um sorriso malicioso.- Então, vai me ajudar a pegar o cara?
Eu me inclinei um pouco pra frente, o encarando fixamente:
– Se você encostar um dedo nele, esquece que eu existo!
Ele arregalou os olhos. Seja lá o que eles estivesse pensando de mim, não importava, eu jamais ia deixar o meu marido apodrecer na cadeia, jamais!
– Eu não to acreditando nisso. Você vai mesmo proteger o cara que matou seu pai?
Eu tremi na base, confesso. Eu nunca tinha escutado José falar aquilo, e eu me senti culpada por um momento. Eu tinha planejado tudo pra mandar o Christian pra cadeia e agora que eu tinha essa grande oportunidade, eu estava a favor dele, isso era imperdoável:
– Eu vou protege-lo, porque...porque, eu o amo!
Ele me encarou petrificado. Como se eu tivesse xingado o papa. Pior que isso, era como se eu tivesse dito: ‘estou amando o assassino’, e de fato, eu falei aquilo:
– Não! Você não pode amar esse cara, Anastácia. Ele é maluco. Ele é muito mais perigoso do que você imagina, você não sabe nada dele. Nem de onde veio e nem pra onde vai...ele é um estranho, assassino. E sabe o que os detentos fazem com caras como ele na cadeia? – ele riu.- Eles vão fazer o seu maridinho de Maria, Annie. Ele vai ser a puta de um monte de trombadinha no xilindró.
– CALA A BOCA! – eu gritei.
– NÃO CALO! – ele ficou sério. – Acorda, Anastácia! Presta a atenção no que você ta fazendo da sua vida, por isso não vai ter volta.
– Do que você ta falando?
– Se você se juntar a ele, eu vou ser obrigado a entregar você também!
Eu não falei mais nada por um momento. Escutar aquelas verdades da boca do José, era chocante. Realmente, era como se eu tivesse esquecido do meu passado, era como se eu tivesse esquecido do meu pai. Por mais que Christian tentasse mudar, ele sempre seria um criminoso, e sabe lá, se um dia ele ia parar de matar gente inocente. E esse amor todo que eu sentia por ele...era confuso, talvez eu amasse quem ele era quando estava comigo, mas se eu bem sei, quando você ama uma pessoa, você a ama por completo, até o desfeitos...Porém os defeitos do Christian era cruéis demais pra mim.
Talvez tivesse chegado mesmo a hora do acerto de contas:
– O que você tem por enquanto?- eu perguntei com os olhos cheios d’agua.
– Um endereço.
– De quem?
– Caroline Malvin.
– Quem é essa?
– A única parente próxima da familia! A avó de Christian Grey.
Eu não quis mais perguntar nada. Tudo o que eu fiz foi apoiar os braço na mesa e afundar o rosto nas mãos. Era como se a minha tivesse dado um giro de 180 graus em uma noite. Estava tudo tão perfeito na praia, o clima, a lua, o Christian e por mistério do cosmos, na manhã seguinte, meu mundo desabada. Talvez eu realmente não fosse a pessoa mais sortuda do mundo, mas isso tudo era sacanagem demais.
Parte de mim, talvez até a maior parte, dizia que eu tinha que fazer o certo, ou seja, entregar Christian Grey para as autoridades. Mas tinha uma pequena parte, mas não menos importante que via nele, um homem...diferente.
Bom, de fato ele era diferente, não é sempre que somos casadas com um criminoso milionário.
Mas não era o dinheiro, ou o glamour do mundo dele, mas as coisas que ele me dizia e no que ele me fazia acreditar...Eu pensei que talvez, pudesse mesmo existir alguma coisa boa dentro dele!
– Eu to saindo daqui amanhã de manhã. Quer ir comigo?
Ele estava mais calmo, sereno, e procurava se pôr no meu lugar:
– Onde é?
– Ela vive sozinha em Boston.
Eu não falei nada, na verdade, eu não tinha nada pra falar.
– Eu não vou te pressionar a vir comigo, mas quero que você saiba que eu vou agir daqui pra frente, dependendo da sua decisão. É uma decisão séria, Annie. Não se trata de você e seu conto de fadas com o príncipe encantado da Califórnia, se trata de um crime federal que envolve a vida de milhares de inocentes, inclusive você e seu pai.
Eu quis levantar dali e mandar ele calar a porra da boca, mas ele continuava a falar:
– Você tem a chance de fazer diferente, de dar a volta por cima, e mais do que isso: Tem a chance de salvar a vida das próximas vítimas dele. Ou você quer que mais garotas passem pelo o que você passou?...Bom, é uma escolha sua. Me ligue se tiver uma resposta!
Eu pude perceber que ele levantou da mesa, provavelmente deve ter ido embora.
Eu dei um tempo na mesa do bar, esperando tempo suficiente pra ele ir embora de vez. Tentem se pôr no meu lugar por um minuto...O que vocês fariam? Eu simplesmente não sabia o que fazer, e isso me machucava, porque eu nunca me permiti sentir algum tipo de sentimento bom por ele, eu sempre cultivei coisas ruim sobre ele, e ser pega de surpresa com uma dúvidas dessa era cruel demais, demais!
Eu peguei minha bolsa, deixei o bar e arranquei com o meu carro. Eu estaria traindo meu pai, todas as pessoas que morreram, e antes de todos, eu estaria me traindo, mas não. Eu não ia deixar nada acontecer com ele, eu tinha tomado essa decisão. Ele seria um homem melhor, eu tinha certeza disso.
Dirigi com pressa até a mansão, e me perguntei se ele estaria lá, porque ainda era a hora do almoço, mas a resposta veio, quando eu vi o carro dele estacionado na frente da casa. Eu também estacionei e caminhei rapidamente até a mansão.
– Oi, Gail. Onde está Christian? – eu perguntei, encontrando com ela na cozinha.
– Ele está no quarto, mas já vai descer para o almoço. Você também vai comer?
– Sim, coloque meu prato, por favor!
Eu sorri, mas logo me dirigi até o quarto dele. Bati na posta duas vezes, sem resposta. A abri lentamente e não vi ninguém, estava tudo como vi da ultima vez.
Mas foi só eu olhar na sacada da janela, pra ter a certeza:
– Christian?
Ele estava com as mãos no rosto da Elena, a pouquíssimos centímetros de beija-la.
Eu lancei um olhar indignado pra ele, como se aquela imagem de homem ‘íntegro’ que ele me passara fosse tudo farsa, mentira...Ilusão!
Eu senti nojo dele e a repulsa á ele foi instantânea:
– Anastácia? – ele me olhou assustado.- O que faz aqui?
– Como você teve coragem?
– Eu não...Não é o que...
– Não é o que eu to pensando, Christian? É o quê então?
– A Elena veio aqui para...
– Para trabalhar, eu suponho. – eu ri, sarcástica. – Porque a Elena é uma santa, não é Christian? Ela só faz o trabalho dela.
– Não, por favor, me escuta...
Eu fiz o maior esforço que pude para engolir o choro e fui dando ré, me afastando daquilo tudo, me afastando dele, me afastando da cara de deboche dela...
Eu deixei o quarto, caminhando ereta até o meu quarto, e agilmente tirando minhas roupas do armário e as colocando em uma mala, mas não demorou muito para ele aparecer lá, escancarando a porta e apresentando aquela cara de bosta ao me ver fazendo as malas:
– O que é isso?
Eu não respondi e continuei fazendo as malas.
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