The Sandman — Olhando Para Dentro
2 Capítulo II — A Conversa
A MÚSICA DEMORA A preencher o ambiente novamente, e quando o faz, faz um tanto cautelosa e não a mando do real proprietário daquele lugar místico do qual a anomalia persiste em ocupar.
Dary é quem toma a iniciativa de puxar Morpheus pela mão para perto de uma mesa que, por algum milagre, ficara vazia, pedindo em seguida para o anão paralisado atrás do balcão por mais duas canecas da melhor cerveja.
━━ Ora, que coisa, eu nem deixei você falar... — Dary comenta ao se voltar para Morpheus, pouco impressionada com a reação das pessoas ali presentes com o recém-chegado. Ela se senta à mesa, apoiando a cabeça com as duas mãos, como se fosse uma criatura cheia de graça e inocência. ━━ Vamos, sente-se comigo.
Morpheus demora um instante antes de decidir se aceita ou não o convite, porque o ideal seria apenas interromper a continuidade daquele distúrbio e voltar com sua missão de "ouvir seus súditos"... porém, boa parte deles está reunida sob o mesmo teto cujo qual pretende eliminar, o que faz Morpheus pensar por um segundo o que os habitantes do Sonhar achariam daquela ação um tanto precipitada – ainda que ele mesmo a considere correta. É nessa hora que o conselho de Lucienne vem a mente do Lorde Moldador.
"... Mostre-se disponível, dê a eles uma razão para voltarem a acreditar..."
E se para isso, ele deve minuciar toda a situação antes de tomar qualquer atitude, incluindo ouvir os envolvidos involuntariamente por aquela anomalia, que seja.
No entanto, a atmosfera continua pesada, densa. Todos estão esperando o próximo movimento do Soberano daquele mundo, e é como se ninguém pudesse sequer respirar. Mas assim que Morpheus puxa a cadeira e se senta à mesa, o lugar parece explodir em alívio e alegria.
Dary está rindo às gargalhadas com toda aquela empolgação.
━━ Sério, me diz quem é você? — indaga ao se inclinar sobre a mesa para ser ouvida. A música, àquela altura, está mais frenética, espelhando a energia do local.
━━ Tenho muitos nomes, mas sou o Rei dos Sonhos e Pesadelos, do reino chamado Sonhar, do qual essa Taberna se encontra instalada e que não deveria existir, por não ser obra minha.
Dary volta a arregalar os olhos, formando um "o" com a boca.
━━ A Taberna é obra minha — ela revela.
━━ Imaginei que fosse. — Morpheus apoia o cotovelo sobre a mesa. ━━ Quero entender o que você é e como foi capaz de criar... isso... em meus domínios sem que eu soubesse.
━━ Certo... é bem simples, mas Vossa Majestade tem um nome mais curto ou terei de usar dessa formalidade taaão chata enquanto estamos aqui, num bar, esperando por canecas de cerveja do tamanho da minha cara?
Assim que Dary retruca com certa ironia, o anão se aproxima com uma bandeja de madeira com duas enormes canecas de vidro, espumando cerveja puro malte. Ele os serve e se retira, sem tirar os olhos afiados de Morpheus, que apenas sustenta o mesmo olhar do anão.
Dary segura uma caneca e espera pelo brinde.
━━ O nome dele é Alberto, o anão — aponta ela. ━━ Gente boa, ele vive me ajudando. Somos bons amigos... Enfim, brindaremos a que, ó, Vossa Magnificên...
━━ Morpheus, apenas — interrompe a garota com certa impaciência, desconfiado que ela continuaria a zombar de sua posição hierárquica mesmo se a ordenasse a parar.
━━ Pensei que nunca fosse dizer! Um brinde a nós, Morpheus! — Sem esperar, após o brinde, Dary praticamente mergulha a cabeça para dentro da caneca erguida. Demora uns bons minutos para esvaziar e repousar a caneca de volta à mesa para, então, limpar o bigode de espuma com a manga da jaqueta. Ela deixa escapar um arroto barulhento que provoca gritos e aplausos pela Taberna.
Morpheus apenas observa a jovem sem modos, sem beber de sua cerveja.
━━ Tá, você ainda quer saber como criei a Taberna no seu lindo mundinho dos sonhos, certo? Bem, Morpheus, só pensei que eu era capaz de fazer uma e, puf, aconteceu bem diante dos meus olhos. Sem esforço algum. Passe de mágica. Queria que fosse assim tão fácil lá no mundo real. Mas aí, me dei conta que eu certamente estava tirando uma soneca, já que não sou alguém tão importante assim... quero dizer, no mundo onde eu venho, não sou especial. Não existe essas coisas de poderes místicos por lá, comentei isso com Alberto quando nos conhecemos. Eu só estou doente. E duvido muito que, o que tenho, me torna especial... — A pausa que ela faz é breve. ━━ Aff, não quero tornar essa conversa mórbida. Estou aqui apenas pra aproveitar um pouco de alegria que eu ainda posso ter... Nossa, isso soou ainda pior do que eu imaginava... Esquece isso! Olha, pela sua cara imagino que eu fiz coisa errada, então, foi mal ter criado a Taberna, tá? Acho que acabei fazendo isso por não querer ficar sozinha. E uma Taberna me pareceu lógico, entendeu? Quer dizer, é o melhor lugar para se encher de gente e fugir da realidade de vez em quando, entende? Mas também poderia ser um pub londrino se quiser... ou um risca-faca que tem perto de casa. Não, melhor não; lembro que no filme Inception é dito que não se pode criar nada semelhante demais a realidade, senão, perde-se a noção do que é ou não real. É verdade isso? Nolan andou te consultando ou algo do tipo? Você deve saber de alguma coisa, não é, Rei dos Sonhos e Pesadelos? Posso te culpar por eu ter medo de altura até hoje por conta de um pesadelo idiota que tive quando eu ainda era criança? Imagino que sim... Desculpa, falo demais quando estou bêbada... A gente pode se embriagar enquanto está sonhando?
━━ Não. E agora eu entendo o que aconteceu aqui — responde ele, enigmático.
Como previsto, Dary não é nada além de um efeito colateral após a passagem do Vórtice, quando este ainda era Rose Walker.
De fato, a garota de boné e coturnos desamarrados não tem nada de excepcional; sequer é uma usuária de magia ou descendente de deuses antigos, ou ainda possui ligação direta com os Perpétuos.
Contudo, é através de Alberto que Dary consegue modificar uma pequena parte do Sonhar, porque Alberto não é apenas um anão atrás de um balcão. Ele é um sonho que se apegou a garota e quis ajudá-la, embora fizesse uso da mente dela para isso, ocasionando nessa anomalia.
Lorde Moldador conhece todos aqueles que estão conectados ao Sonhar, mas Dary não está inclusa nessa lista; a garota nem sonha como fora usada para criar uma perturbação nos domínios de Morpheus, e volta a se inclinar sobre a mesa, interessada no que ele teria para revelar sobre a tal peripécia.
Mas o Monarca permanece em silêncio tempo suficiente para a garota dar de ombros e desistir de perguntar.
━━ Mas se eu aprendi alguma coisa com tudo isso, Morpheus... com tudo o que passei e estou passando, foi que é sempre possível ter esperança. Do contrário, nem valeria a pena continuar por aqui... — Ela sorri e, desta vez, volta a divagar com um olhar distante. ━━ Só às vezes que as coisas parecem difíceis demais, sabe, Morpheus? Parecem ter o peso do mundo sobre os ombros. Mas, então, sou lembrada que ainda posso fazer um monte de coisa. E que só parei aqui pra repor as forças, entende? É só um checkpoint antes de continuar a jornada... Agora falei bonito, não foi?
Morpheus entende o que a garota quer dizer, embora tivesse esquecido outra vez ao se deparar com aquela bagunça. Mas ele deixa um ligeiro sorriso surgir em seus lábios.
━━ Está enganada em uma coisa... — A pausa programada traz o resultado esperado; o rosto da garota expressa um misto de surpresa e confusão. Então, Morpheus acrescenta: ━━ Você diz ser ninguém importante, mas sua força de vontade faz de você uma lutadora, Dary. E, se tem esperança, tudo é possível. Quando voltar ao mundo desperto, terá uma surpresa. E saiba que será sempre bem-vinda ao Sonhar, mas vou garantir que não crie mais nada aqui sem que eu permita... Espero que tenha entendido isso também... Alberto. — Sonho finaliza seu alerta olhando para o anão, que permanece meio escondido atrás do balcão e apenas devolve um aceno positivo de cabeça quando é mencionado.
━━ Hey, tá tudo bem! — diz a garota, que não sabe muito bem como reagir àquelas palavras do Rei do Sonhar, preferindo evitar um possível mal-estar entre os dois assim que o pressente. ━━ Não quis criar problemas. Pode desfazer a Taberna... quer dizer, é claro que você não precisa que eu diga isso... Espera aí! Você disse que eu terei uma surpresa?!
Morpheus estende a mão direita em direção à garota.
━━ Hora de acordar, Dary... — O som sussurrante e deliciosamente monótono da voz de Morpheus faz com que a garota simplesmente desapareça da Taberna, despertando no mundo "real" para receber uma boa notícia.
Ele se levanta da mesa e caminha até o balcão. O silêncio volta a reinar o ambiente.
━━ A culpa é minha, Senhor — diz Alberto, resignado, assim que interrompe a limpeza de uma caneca. ━━ E se vai me castigar por ajudar uma garota passando por um momento difícil, suplico que seja rápido.
━━ Não vim para castigá-lo... Embora isso não signifique que não aplicarei uma punição adequada pelo que fez. Mas vim para ouvi-los, primeiro. Todos vocês.
E é o que ele faz; passa a ouvir todos os seus próprios sonhos. Porque até mesmo Morpheus aprenderá algo olhando para dentro de si, para se redimir. Nem que esteja dentro de uma Taberna.
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