The Sakura Kiss
1 Único
Notas iniciais
Prompt 3 – Sunflower (girassol)
The Sakura Kiss
by Velvetsins / Nymph_L
Hinata gostava muito de jardinagem.
E essa provavelmente a única razão pela qual Neji aceitara deixar a quantidade gigante de coisas que tinha para fazer naquele dia para trás apenas porque a herdeira queria ir ao Festival das Flores numa tarde de sábado.
Fim da tarde, na verdade, quase pôr-do-sol, considerando que tinham que treinar mesmo em dias festivos.
Foi um ato quase, quase, imperceptível, mas ele suspirou.
Embora fosse dizer a todos que odiava estar ali — e parte dele realmente queria acreditar nisso —, estava bastante contente — diria em paz — pela felicidade que ela aparentava sentir por estar ali. Afinal, fazia isso pela herdeira; garantir a felicidade dela também era um de seus deveres.
Claro, ele contaria uma versão completamente diferente para os outros. Provavelmente diria que saíra com ela porque era seu dever permanecer perto; uma sombra — sempre pronto para protegê-la.
Não importava muito que ela fosse uma lutadora capaz; era uma tola. Confiava facilmente em pessoas que se aproveitariam de seu comportamento amigável. Enquanto ela acreditava que todas as pessoas eram boas, Neji sabia que as más não pensariam duas vezes antes de atacá-la.
Então sim, ele a acompanharia, mesmo que quase não entendesse sua fascinação por plantas e flores.
O Festival das Flores, amplamente conhecido como Sakura Festival, acontecia uma vez por ano, durante a primavera, é claro, e reunia praticamente a vila inteira — outros aldeões eram mais do que bem-vindos — durante um final de semana inteiro.
Havia barracas nas quais os jardineiros vendiam suas criações e conhecimentos sobre plantas e flores. Havia música, comida e danças populares.
Apesar da guerra que se aproximava — e provavelmente por causa dela —, as pessoas estavam frenéticas e tudo que importava era o transe; sentir-se feliz e quase perder a consciência.
Neji não gostava da ideia de perder a consciência por alguns poucos momentos de felicidade — ilusão da felicidade, porque ninguém poderia ser feliz inconsciente ou assim ele acreditava — e essa a principal razão pela qual estava acompanhando a herdeira.
Só Kami poderia saber o que aconteceria caso a herdeira se perdesse no meio dos eventos degradantes e baixos planejados para a noite.
O Festival das Flores não era apenas uma festa para celebrar a primavera, mas a fertilidade que a estação trazia consigo também. Após um inverno rigoroso, que não fora tão rigoroso assim em Konohagakure, os aldeões, principalmente os responsáveis pelo plantio e pela colheita, celebrariam um novo ciclo da vida. Era tempo de se afogar na bebida e só então pensar com seriedade e sobriedade.
E ele iria para o inferno caso deixasse homens loucos e excitados tocarem Hinata. O mero pensamento de outro homem — qualquer homem — tocando a herdeira o deixava irado. Não entendia bem o porquê e parecia uma ideia bem louca, uma vez que ele sabia que era tão seu dever protegê-la, quanto era o dela de dar à luz ao próximo herdeiro e futuro chefe do clã Hyuuga.
Afastou tais pensamentos antes que ficasse mais irado e perdesse tudo que Hinata estava gentilmente dizendo. A voz suave e recatada alcançou seus ouvidos ao ouvi-la perguntar novamente:
“Neji-nii-san?” As sobrancelhas estavam franzidas e o lábio inferior preso entre os pequeníssimos dentes brancos — e ele certamente passava muito tempo olhando para os lábios dela, o que certamente não deveria acontecer. “Está tudo bem?”
“Claro”, respondeu, passando por ela em direção à próxima barraca. Não deixaria seus pensamentos lhe distraírem novamente.
Distração.
Era algo que Neji não gostava nem um pouco. Um verdadeiro gênio não poderia ser pego distraído. Um inimigo esperto se aproveitaria de qualquer lacuna em sua defesa. Como seu protetor — guardião da herdeira, uma posição valiosa que ele mais do que honrava —, deveria estar sempre alerta. Inimigos não esperam que alguém esteja pronto para atacar.
E ainda assim...
Ainda assim ele se encontrava bastante distraído sempre que estava na companhia dela. Sua presença tímida e seus sorrisos inteligentes e brilhantes o deixavam em estado contemplativo.
Nunca pensara nisso antes, mas quanto mais pensava agora, mais irritante achava aquele comportamento dela.
E mais aborrecido ficava por se distrair com a mera visão de seu sorriso. Hinata quase nunca demostrava estar feliz, estava sempre muito preocupada em agradar a família, sempre a família, mas quando estava feliz, era sempre algo genuíno. Seu sorriso brilhante conseguiria iluminar toda a vila.
Ele atraía pessoas para ela.
Ele o atraía para ela.
Sendo um dos que lhe causara uma dor enorme — dor física e emocional —, ele daria tudo ao seu alcance para vê-la sorrindo sempre que possível. A distração não era apenas perigosa, mas fazia com que ela pensasse menos de si mesma, fazia com que aquele lindo sorriso desaparecesse de sua face.
E ele se odiaria caso algum dia fosse a razão pela qual o sorriso dela desparecera de sua face.
“Eu estou te aborrecendo, Neji-nii-san?”
“Claro que não.” Sua resposta rápida e dura a fez olhar para ele com os olhos arregalados. Ele fechou os próprios olhos por um momento, pensando no quão descuidado fora. “Por favor, continue com as suas explicações, Hinata-sama.”
Ela pareceu cética por um momento, mas então ele a tranquilizou, para sua própria consternação, porque flores era a última coisa na qual estava interessado no momento.
“É sério.”
O sorriso então retornara a sua face, mas ainda que menor do que ele poderia ter desejado.
“E-Eu…” Ela respirou profundamente e olhou diretamente em seus olhos, “Eu estava dizendo… Eu… Eu estava explicando…”
“Sobre girassóis… Eles basicamente seguem a rota do sol do nascer ao pôr-do-sol.”
“Você ouviu?” Ela parecia espantada; sua boca aberta e seus olhos arregalados novamente.
“Claro,” respondeu, dessa vez um pequeno sorriso curvou o canto de seus lábios.
Hinata não o viu, claro. Seu primo arrogante e orgulhoso estava de costas para ela, seus dedos tocavam levemente as pétalas grandes e amarelas da dita flor. Eram coisinhas feias, completamente diferentes das flores de cerejeira —sua flor favorita.
A cerejeira, árvore que nomeava o Festival, era a homenageada daquele ano. A maioria dos jardineiros vendiam pequenas versões dela, se não estava enganado, recebia o nome de... Hinata disse que chamavam... Qual era o nome mesmo?
“Bonsai,” ela disse atrás dele, tocando o mesmo girassol no qual os dedos dele ainda se demoravam. Quando seus dedos roçaram levemente, ela recuou como se tivesse sido queimada pelo toque.
Por um momento, Neji olhou para ela um tanto quanto desapontado. A sensação da pele dela na dele fora bastante prazerosa — mais prazerosa do que deveria ser, honestamente —, mas sua prima parecia incomodada por isso. Voltou a atenção para ela e quando seus olhos se encontraram, seus olhos tão parecidos, ele a viu olhar para baixo; as bochechas queimando num tom róseo.
Estreitou os olhos por um momento, incerto sobre como encarar o gesto de nervosismo dela.
Hinata geralmente se comportava daquela forma apenas com... Naruto.
Não. Estava certamente vendo o que não existia.
Certamente.
Dessa vez, ela foi a única a passar por ele e continuar caminhando à frente, conversando com os jardineiros e vendedores. Não olhou para ele por um tempo bem longo e sempre que seus olhos se encontravam por uma razão ou outra, ela corava furiosamente e desviava a atenção para qualquer outra coisa que achasse interessante, como, por exemplo, seus próprios pés.
Diante do comportamento tímido, Neji não pode deixar de olhar ainda mais para ela. Praticamente implorava dentro de sua mente para ter seus olhares se cruzando.
Quase nunca acontecia, mas, quando acontecia, ele se certificava de estudar cada reação que ela esboçava minuciosamente. Podia pensar em um milhão de razões para Hinata-sama agir daquela forma com Naruto ou qualquer outro garoto, o que geralmente o deixava bravo, mas não com ele — a sensação era mais agradável do que deveria ser.
Quando alcançaram uma área vasta, onde dúzias de cerejeiras estavam alinhadas e inundavam o chão com suas pétalas, criando um carpete que era uma mistura de verde e um tom de rosa suave no qual as pessoas podiam pisar em cima, Hinata sorriu com gosto.
Por um momento, esqueceu-se de qualquer reação dela em relação a ele e a assistiu, em transe, sorrir e esticar a mão para tocar as pétalas suaves. Elas a cobriram de atenção e tocaram sua pele. Bem, não apenas a pele dela; diversas pessoas estavam ali assistindo as flores de cerejeira caindo de suas árvores.
Além da comida e das danças tradicionais envolvendo gueixas, hanami era uma das atividades favoritas das pessoas. Agora, ao ver Hinata sorrindo, ele podia ver o porquê. Era algo lindo, realmente lindo.
Por um breve momento, Neji desejou poder desenhar, pois faria um retrato perfeito de sua expressão feliz — algo que ele absolutamente não via quando estavam dentro das paredes opressoras da mansão Hyuuga — que guardaria consigo e apreciaria para o resto de sua vida. Seria um belo desenho. A paisagem ao redor dela era perfeita, com o céu meio azulado, meio violeta, adornado por estrelas brilhantes e as flores de cerejeira caindo por toda parte com o vento suave e Hinata-sama no meio de tudo.
Quando uma pétala pousou no topo da cabeça dela, ele se aproximou e a removeu, segurando a pequena coisa rósea entre seus dedos. Ele não se afastou, no entanto. Permaneceu perto, olhando para ela com interesse.
Mas Neji logo percebeu seu erro e ao ver o sorriso dela desaparecer dos lábios cheios e um estremecimento perpassar seu corpo.
Excitação? Duvidava.
Medo? Talvez.
Além de seus treinos, nunca estiveram tão próximos. E Hinata-sama sendo Hinata-sama odiava proximidade.
Esmagou a pétala entre os dedos e se afastou, deixando-a com seus pensamentos.
“Está ficando tarde. Vamos.”
Ela até abriu a boca para protestar, dizer que ainda não queria partir — tinha certeza de que ela gostaria de ficar e observar as pessoas dançando e bebendo e saboreando diferentes iguarias —, mas não poderia permitir. Hinata-sama era muito inocente perto do que as pessoas costumavam fazer tarde da noite naqueles festivais.
Sendo mais velho e experiente, Neji sabia que seria tomado como responsável caso qualquer coisa ruim acontecesse à herdeira. E a herdeira parecia atrair problemas e coisas ruins quase sempre.
Não.
Não permitiria.
Em silêncio, caminharam de volta à mansão Hyuuga, com Hinata a dois passos atrás, assim ele poderia assegurar que o caminho estava limpo. Ela era uma kunoichi capaz, treinava todos os dias com ele sempre que não estava em missões com o Time 8. Ainda assim, assegurar sua segurança nunca era demais. Era seu dever, afinal de contas.
Quando cruzaram os portões da mansão, ele se preparou para desejar boa noite, mas antes que qualquer palavra deixasse seus lábios, ela foi a única a se aproximar dele e remover uma pétala de cerejeira de seu cabelo castanho.
“Havia uma hm...” Ela olhou para baixo e depois para ele. “Uma pétala de sakura no seu cabelo… E e-eu... eu...”
Diferente de suas expectativas, ela não se afastou. Ao contrário, permaneceu perto, olhando para ele no olho, um leve rubor rastejando de volta para suas bochechas.
Hinata estava adorável assim. Completamente adorável toda tímida na frente dele.
Antes que Neji pudesse se controlar, usou seu polegar para afastar uma mecha cor-de-corvo de sua face. No entanto, bem como ela, ao invés de se afastar imediatamente, ele deixou seu dedo se demorar em sua pele suave.
Os olhos de lavanda voltaram para os dele e ela quase mordeu o lábio inferior.
Quase.
O polegar que lhe tocava o queixo e que a trouxe para mais perto, fez com que ela prendesse a respiração; os olhos se arregalaram. Então, por mais surpreendente que parecesse, o gênio Hyuuga abaixou o rosto e roçou seus lábios contra os dela num beijo suave e sensual.
Os olhos de Hinata se arregalaram ainda mais antes de se fecharem completamente; um leve gemido se formou em sua garganta.
Ela poderia ter lutado contra isso; contra ele. Deveria, mas não o fez.
Por um segundo, permaneceu no mesmo lugar, completamente parada. Não ousou beijá-lo de volta, mas o congelamento de seu corpo desapareceu tão logo um dos braços dele a envolveu pela cintura, puxando-a para perto e mais perto, até não haver mais espaço entre seus corpos.
Na verdade, ela estava em pânico. Nunca havia sido beijada antes. Não fazia ideia de como agir. Nunca pensara que seu primeiro beijo seria com outro que não seu amado Naruto, mas não negaria... não poderia dizer que aquela era uma reviravolta ruim.
Se fosse definir, uma reviravolta bem-vinda.
Até agora, ele estava apenas pressionando os lábios contra os dela, movendo-os em toques leves e macios, mas, então, por vontade própria, ela abriu a boca e roçou sua língua contra a dele.
Seu gesto mais ousado fez com que o prodígio Hyuuga fechasse os olhos e se deixasse dominar o beijo. As mãos dela tocaram seus ombros, numa tentativa de se manter estável. Logo ela o imitava, tocando seu rico cabelo castanho enquanto ele, segurando-a pela nuca, inclinava sua cabeça levemente para ter mais acesso à sua boca.
Parecia que séculos haviam se passado antes que eles se afastassem.
Os olhos de Neji estavam ilegíveis por um momento, então ele desviou o olhar e abriu a boca, as palavras muito esperadas lhe escapando:
“Hinata-sama...” Sua face estava desprovida de qualquer emoção, mas pela forma como seu maxilar estava tenso, ela sabia que ele estava prestes a se desculpar. “Perdo—
“Não se atreva, Nii-san!”
Sua voz saiu aguda, clara e exigente ao encará-lo ferozmente.
Para um estranho, ela pareceria zangada com ele, mas Neji a conhecia. Suas bochechas estavam novamente coradas enquanto ela olhava para baixo e tocava os polegares em seu gesto-assinatura.
Nada mais foi preciso para que ele a beijasse novamente e novamente e novamente.
No entanto, mesmo que quisesse beijá-la pelo resto da eternidade, ele sabia que o lugar era muito perigoso e que eventualmente teriam que se separar. Aproximando sua boca do cabelo dela, ele sussurrou em sua orelha antes de plantar um beijo leve na curva de seu pescoço. Um pequeno sorriso tomou suas feições ao senti-la estremecer em seus braços.
“Nós deveríamos nos separar.”
Como resposta, um mero concordar cabeça. Ela ainda estava sem fôlego.
“Boa noite, Neji-nii-san.”
Ele a olhou como se ela fosse uma criatura estranha, percebendo, pela primeira vez, como odiava quando ela usava o nii para se dirigir a ele.
“Boa noite, Hinata-sama.” Fez uma mesura ao se afastar.
Neji se dirigiu ao seu quarto apenas após se certificar de que ela estava segura dentro da ala principal da mansão Hyuuga. Com um suspiro inaudível, ele adentrou em seus aposentos e tirou suas roupas.
Sua mente não conseguia parar de reviver aquela tarde na companhia da herdeira. O beijo. O beijo Sakura.
A suavidade de seus lábios inexperientes que ainda se demoravam nos dele; em sua mente.
Olhou através da janela e notou uma árvore de cerejeira no jardim. Sua árvore e flor favoritas, mas aprendera naquela tarde que não importava o quanto gostasse de cerejeiras, ele era, na verdade, muito parecido com os girassóis.
Girassóis, de acordo com Hinata-sama, seguiam o curso do Sol durante o dia. Sua razão para viver era o poderoso astro-rei. Neji, apesar de suas crenças anteriores, não era muito diferente. Mas ao invés do Sol, ele precisava apenas da herdeira em sua vida.
Ainda que soasse patético, o prodígio não estava triste diante de tal constatação. Estava em paz. Afinal, explicava a razão de o sorriso dela ser a coisa mais importante para si e porque odiava quando qualquer outro homem a observava. E principalmente porque a ideia de que outro pudesse tocá-la, beijá-la, o irritava sem comparação.
E ele descobrira outra coisa também.
Estava condenado.
Desejava o que não poderia ter. Desejava o que nunca poderia ser dele.
Mesmo que o amor dela um dia pudesse ser seu, os Anciões nunca permitiriam sua relação. Era apenas um membro da casa secundária afinal de contas... Um gênio, verdade, um prodígio... O mais poderoso Hyuuga mesmo tão novo, antes dos dezoito, mas ainda assim um membro da casa secundária.
Mesmo assim, ele não se importava.
Poderia viver muito bem sabendo que Hinata-sama sempre seria o Sol em sua vida enquanto ele seria apenas o girassol.
Neji estava surpreso que não descobrira isso antes.
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