The Sages

10 10 - Partida


Notas iniciais
Oi povo! Desculpe a demora, queria ter terminado nesse tempo em que o Nyah ficou em manutenção, mas estava tentando recuperar o tempo perdido no desafio. Mas cá estou, e já aviso que agora sim nós estamos entrando na parte boa ~~ Boa leitura!

Logo depois de me abalar com poucas palavras, Liz pisca duas vezes e olha para mim e para enfermeira, confusa.

– Por que vocês estão com essas caras? – Ela me olha de novo e sorri. – Hailey! Cadê a Sophie?

Eu não sei com o que eu fico mais atordoada.

– Ah... A Sophie está no quarto dela. Ela também está internada – respondo.

Liz assente.

– E por que você não está?

– Porque eu não sofri ferimentos muito feios.

Eu olho para a enfermeira e faço um gesto para ela nos deixar a sós. Ela entende o recado, se despede de Liz e sai.

Me sento ao lado de Liz na cama. Ela imediatamente descansa a cabeça em meu colo, e eu imediatamente começo acariciar seus cabelos. É como se alguém tivesse dado um replay na última noite que passamos em casa. Até a sensação, o medo da reação dela quando eu contar tudo, o receio de vê-la chorar por minha causa, é a mesma. A diferença é que agora eu estou a minutos de contar a verdade e de ver o que realmente vai acontecer.

Antes disso, decido arriscar:

– Você se lembra do que me chamou agora a pouco?

– Hummm... Não. Do que eu te chamei?

Bem, eu vou contar de qualquer jeito.

– Você acabou de me chamar de Luz. Não se lembra disso?

Liz começa a rir.

– Não! Por que eu te chamei de Luz?

– Porque... Liz, por favor, olhe pra mim.

Ainda no meu colo, ela vira a cabeça para mim. Esses olhos grandes e brilhantes me fazem ter vontade de chorar, mas eu me seguro.

– Eu tenho que te contar uma coisa complicada. Promete que vai ouvir tudo com toda a atenção do mundo?

– Prometo. – Liz se senta de pernas cruzadas, ainda olhando para mim, e apoia o queixo nas mãos. – O que foi?

Não consigo olhá-la nos olhos enquanto vomito toda a verdade. O nó na minha garganta vai se desfazendo ao mesmo tempo em que a angústia cresce no meu peito. Liz não diz nada nem faz nenhum som de surpresa, o que só me deixa mais e mais ansiosa.

Continuo olhando para baixo quando termino a explicação. Sei que Liz continua sentada na minha frente, mas não faço ideia da expressão em seu rosto. Até que ela diz:

– Então esse é o segredo do Aqua Boy? Ele é mágico de verdade? Que legal!

Olho para ela.

– Oi? Liz, você ouviu o que eu disse?

– Ouvi. Quem são seus pais biológicos? Como é ter seis irmãos? Espera aí! Isso quer dizer que eu sou a caçula de nós sete? Ah, não! Eu sou mais velha que o Paco! Hailey, eu tenho um irmão caçula! Que legal. E como eles são? Quer dizer, eu sei que o Paco e o Dustin são legais, mas e os outros dois? Onde fica a Índia mesmo? É verdade que o Brasil tem uma árvore com o mesmo nome do país? Onde é a Austrália? Como se fala em latim?

Não sei o que dizer. Por que fiquei tão preocupada? É só a Liz.

– O que... Olha, você tem que entender que isso é muito sério.

– Eu já entendi isso. Eu só quero saber algumas coisas.

Suspiro. Talvez seja mais fácil assim.

– Nós não temos pais – começo. – Pode-se dizer que somos feitos da bondade e da esperança dos humanos. Pensando nisso agora, até que é legal ter tantos irmãos. Não dá pra se sentir sozinha assim. Michele é ótima, você ia se dar muito bem com ela. Sohan é mais fechado, mas também é do bem. A Índia fica no Oriente Médio. Não sei muito sobre o Brasil, mas aposto que a Michele iria adorar te dar uma aula completa sobre ele. A Austrália fica na Oceania. Bem longe, né? Eu não sei dizer exatamente como se fala latim ou se é difícil aprender ou não; nasci sabendo, então pra mim as palavras saem naturalmente.

Ela assente, entendendo tudo.

– E quando vocês vão para sua missão?

Essa é a parte difícil.

– Hoje. Nós vamos hoje para Jerusalém.

Pela primeira vez, ela fica triste. Liz baixa a cabeça e geme. Está prestes a chorar e eu não sei como evitar isso.

– Por favor, não fique assim. Eu já prometi à Sophie que darei um jeito de voltar aqui para me despedir de vocês antes de voltar ao meu mundo.

– Mas... De um jeito ou de outro, você vai embora. Eu não quero isso. As famílias têm que ficar unidas.

– Eu não vou sair do lado de vocês – digo, minha voz já ameaçando fraquejar. – Não haverá um momento em que eu não estarei vigiando e protegendo vocês. Estarei lá em cima, observando vocês duas enquanto vivem suas vidas, e sempre que conquistarem algo, vou comemorar com vocês. Sempre que perderem algo, vou chorar com vocês. Sempre que ficarem em dúvida, vou sussurrar soluções em seus ouvidos. Se precisar, eu farei isso por todos esses cem anos com muito prazer.

Agora Liz está chorando de verdade. Ela me abraça com força.

– Você não pode só descansar lá em casa por esses cem anos?

– Se eu pudesse, não pensaria duas vezes. Mas não dá. Meu corpo não aguentaria.

– Como você sabe? Não tem gente que consegue viver por mais de cem anos?

– Sim, mas comigo é diferente – começo a explicar. – O meu corpo é temporário. Ele foi criada por minha... por Lady Crystal para viver apenas pelo tempo que for necessário para terminar minha missão nesse século. Quando terminamos nossa missão, o meu corpo e o dos outros começam a entrar em contagem regressiva para se desfazerem e nossas formas de verdade voltarem ao nosso mundo. Não sei quanto tempo temos porque nunca quisemos usar esse tempo extra, mas com certeza ele não dura mais de uma semana.

– Mas eu não quero ficar sem você – Liz choraminga.

– Eu já disse que não deixarei vocês. E você ainda tem a Sophie. Você não vai ficar sozinha.

– Eu amo a Sophie. Mas também te amo. Já não basta o papai e a mamãe terem morrido? Você tem que ir também?

Essa foi de partir o coração.

Aperto ela mais para perto de mim, com vontade de mantê-la comigo para todo o sempre. A aperto com tanta força que só alivio um pouco para não sufocá-la. Quero mantê-la perto de mim para o resto das minhas vidas, e receber um abraço assim por dia. Não quero que tirem minha baixinha de perto de mim.

Mackenzie estava certa: eu fiquei muito humana.

. . .

Volto a pé para a casa dos Collins. Assim que entro, vejo os outros quatro Sábios sentados nos degraus das escadas. Todos estão calados, cabisbaixos e acompanhados de suas mochilas de viagem. Cada um também está com uma malinha de metal para suas espadas. As minhas coisas estão arrumadas também.

Já vou pegá-las quando, do nada, Sohan se levanta e me abraça. O susto é tão grande que fico tonta por um instante, mas logo o correspondo.

– Eu nunca te agradeci de verdade pelo século passado, então agradeço agora. Obrigado, minha irmã. Conte comigo para essa missão.

Confesso que me emociono com o “minha irmã” dele. Mas também não demoro a entender o sentido por trás desse abraço. Sohan não quer só me agradecer, muito menos me passar conforto e confiança. Ele quer receber conforto e confiança. É a primeira vez em todos esses anos que vejo a profundidade do nosso relacionamento. Eu sou a mais velha e eles os mais novos, independente das idades dos nossos corpos. E como mais velha, meu dever é confortá-los e assegurar-lhes de que tudo vai ficar bem.

Um a um, os outros também vão se juntando ao abraço. Não ligo de ficar sem ar. Não ligo de ficar suando com tanto calor corporal. A única coisa que importa aqui é nossa união.

– É melhor irmos – digo depois de alguns minutos. Nós nos afastamos. – Quanto mais cedo acabarmos com isso, mais cedo poderemos aproveitar nosso tempo extra aqui.

– Tem razão – Paco concorda. – Eu ainda quero um tempo para aproveitar meu corpo de criança e brincar com meus bonecos de ação, comer os bolinhos da minha mãe e sentar na perna do meu pai para ler um livro com ele.

– Eu quero poder rever minha família – diz Michele – e ver como está a árvore que plantei antes de sair de casa.

– Eu quero conversar mais com a tia Kora, agora que nos aproximamos mais – Dustin fala.

– Eu só quero ver meus pais – confessa Sohan.

– E eu quero ver minhas irmãs de novo – digo. – Ver o túmulo de Chase e de meus pais e passar um tempo no meu esconderijo do parque pela última vez.

E aí tudo vai ficar bem.

. . .

– Hailey?

Acabamos de sair da casa de Dustin quando escuto alguém me chamando. Olho para o lado; a voz vem de um garoto de cabelos loiros com cachos batendo nos ombros, usando óculos sobre os olhos castanhos e umas espinhas marcantes no rosto branco.

– Ah... Oi, Miles.

Miles West é – bem, era – um colega de classe que trabalhou comigo por um tempo no meu antigo emprego de meio período. E nós nunca fomos mais do que isso, pra ser sincera. Eu disse antes: evitamos fazer amizades aqui. Já basta o que sentimos por nossas famílias adotivas.

– Onde você esteve? Ninguém te vê desde o que aconteceu no colégio. Está tudo bem? – Ele enfim vê minhas mochila e a mala. – Você vai viajar? Não vai voltar às aulas?

Sério, Miles não é quieto como aparenta. Ele é o tipo de pessoa que cospe milhares de perguntas de uma só vez e só para quando quer que o outro responda. E se surgir outra dúvida, ele te corta e pergunta. Pronto: você já está totalmente confuso e não sabe mais o que tinha que responder.

Ainda assim, reconheço que ele é um bom garoto. Lembro que quando trabalhava com ele, sempre via Miles atendendo os clientes com a maior gentileza do mundo. Ele sempre foi um dos mais estudiosos da classe e sempre teve paciência para explicar as matérias aos outros alunos. Acho que essa mania de perguntas milhares de coisas ao mesmo tempo é só uma consequência de sua vontade de saber.

– Sim, eu... Eu tenho que sair da cidade por um tempo.

– Ah. Ok. Mas volte logo, viu? O pessoal não para de se perguntar o que houve com você. Nunca te vimos nos bate-papos da classe e nem nas reuniões que temos feito, então...

– Espera. Vocês ficaram preocupadas comigo? Todo mundo?

Miles dá de ombros.

– Foi o que acabei de dizer.

Isso não é possível. A pessoa mais próxima de mim naquele colégio era o Chase, e eu estudava lá desde pequena. Já falei com os outros, sim, mas nunca vi nenhum deles como amigos. Sempre pensei que para eles fosse a mesma coisa.

Olho para os outros. Todos parecem confusos. Dustin só dá de ombros.

– Por que você está estranhando tanto? Estudamos juntos desde pequenos.

– Sim, mas eu nunca interagi com vocês de verdade. Fui em muitas poucas festas e encontros, e...

– Como se fosse a única – diz Miles. – Eu também não compareço muito. Meus amigos também não. Mas a turma toda está junta tempo o suficiente para todos acabarem se juntando, de alguma forma.

Não acredito nisso. Todos esses anos tentando ao máximo evitar me relacionar com o pessoal da minha turma, e de repente descubro que nós sempre tivemos uma ligação. Minha cabeça começa a doer.

– Miles, pode me responder uma coisa?

– Acho que sim. O que é?

– Alguém da nossa classe morreu no ataque à escola ou depois dele?

Miles finge pensar, mas posso ver que ele está apenas enrolando. Já sabe muito bem a resposta.

– Se lembra do Ron?

Faço que sim. Não tem como eu me esquecer.

– Ele tinha tirado carteira de motorista um dia antes do acidente no colégio. Quando ele se recuperou, dirigiu seu carro pela primeira vez. Mas sofreu um acidente. Um carro entrou na contramão e bateu no do Ron, e aí o vidro... E o impacto... Eu não quero falar disso.

Faço que sim de novo. Eu também não quero.

Ron era meu parceiro de estudos – os professores nos dividiam em duplas para podermos estudar mais para as avaliações. Ele era um cara bem legal e me tratava muito bem. Eu nunca o vi como um amigo de verdade, mas para ele sempre pareceu o contrário. Até que um dia ele me chamou para sair e eu disse que não queria nada desse tipo. Ron continuou insistindo pelo resto do dia, mas finalmente ele entendeu e combinamos de continuar nossa “amizade” como se nada tivesse acontecido. Uma semana depois, porém, Chase me chamou para sair e eu topei. Ron pediu para o professor colocá-lo com outro parceiro de estudos e nunca mais olhou na minha cara. Eu me senti péssima quando o vi me evitando pela primeira vez.

Não dá pra se esquecer da primeira pessoa de quem partimos o coração. Eu nunca soube se Ron nunca superou isso ou se simplesmente não falava comigo por orgulho. E nunca vou saber.

– E o motorista do outro carro? – Indago. – Ele também morreu?

– Na verdade, ninguém conseguiu encontrá-lo. O carro estava vazio quando a ambulância e a polícia chegaram, e não tinha nenhum sangue dentro dele. O carro tinha sido roubado. Estranho, não acha?

Nem tanto.

Antes que eu possa falar algo, Sohan agarra meu braço e me puxa. Paco e Michele nos seguem enquanto Dustin fica para dispensar Miles.

– Sabe, nós temos mesmo que ir. Mas foi bom falar com você. Bem, pelo menos pra Hailey foi. Até mais ver, garoto. Ou não.

Ele se apressa para se juntar a nós. Miles fica lá parado e atordoado, e nos observa por alguns segundos até ir embora. Me viro para Dustin.

– “Ou não”?

Ele dá de ombros.

– Foi tão ruim assim?

– Tem que admitir que foi estranho – segue Paco. – O garoto vai ficar pensando nisso por um dia inteiro!

– Ah, não exagera. Foi só uma expressão.

– Para o Miles, qualquer expressão é digna de investigação – replico. – É o cara mais curioso que já conheci.

Dustin dá de ombros de novo.

– Ele tem coisa demais pra investigar. Se conseguir descobrir tudo, seria interessante se nos contasse. Uma pena que nós provavelmente já estaremos dormindo lá em casa.

Sem dúvidas. Está quase acabando.

Quase acabando...

. . .

Uma voz feminina soa por todo o aeroporto pedindo para os passageiros se encaminharem ao portão de embarque. É o nosso voo.

Uma a uma, nossas passagens são checadas e caminhamos juntos e em silêncio até o avião. A partir daí, tudo parece acontecer bem rápido. Guardamos nossas bagagens. Nos acomodamos em nossos assentos: eu fico ao lado de Sohan, Dustin fica com Michele e Paco se esconde entre os dois para não precisar sentar com um estranho.

Eu fico no lado da janela e fico olhando enquanto o avião vai subindo e toda a paisagem abaixo de nós vai encolhendo. Essa costuma ser a melhor parte da missão: a possibilidade de ver a Terra de outra forma, uma forma mais bela. Dessa vez a sensação continua sendo ótima, mas não posso dizer que é a melhor parte dessa missão porque tive momentos muito mais prazerosos. Sorrio enquanto me recordo disso tudo.

Demoro algum tempo para perceber que Sohan está me fitando. Me viro para ele, e o mesmo desvia o olhar. Dessa vez sou eu quem o fito. No começo é só para provocar um pouco, mas logo começo a observá-lo de verdade. Sohan é diferente de todos os outros corpos que o Vento já teve. Só não sei dizer se isso é bom ou ruim.

– Algum problema, Hailey? – Ele pergunta. Me dou conta de que é a primeira vez que ele me chama assim.

– Não. Só estou... Reparando. Você está diferente de antes. Especialmente de Kwan.

– Ah. Você também está bem diferente de Angélica. Fico muito feliz por isso.

Por um momento, acredito que ele vai começar a me julgar e a me punir aqui mesmo, do nada. Mas aí eu noto o sorriso em seu rosto e fico bem mais tranquila.

– Acho que eu não aguentaria mais um século ouvindo você falar daquele jeito – brincou. – Era muito irritante. Ou seria “demasiadamente irritante”?

Eu rio.

– Eu não falava assim!

– Era pior – Dustin entra na brincadeira, aparecendo por cima da minha poltrona. – Você tinha a linguagem mais antiga que já vi. Quero dizer, “o linguajar mais obsoleto que já tive o desprazer de ver”.

– Vocês estão exagerando. – Tento parecer séria, mas estou me acabando de rir.

– Mas dá pra ver que você evoluiu. – Michele também aparece. – Naquela época você diria “vocês estão ultrapassando os limites do absurdo”.

– Isso não é verdade!

– Você não quer dizer “isto não é verídico”? – Paco continua.

E assim nós ficamos, os quatro zombando da minha antiga maneira de falar e eu rindo e negando inutilmente tudo o que eles dizem. Fazemos tanto barulho que a aeromoça vem nos pedir que fiquemos em silêncio. Mas isso ainda não impede que eles continuem sussurrando palavras “obsoletas” que Angélica dizia.

Depois, como crianças depois de um longo dia de diversão, nós adormecemos.

. . .

Está anoitecendo quando acordo. Sohan continua apagado ao meu lado, e os três atrás de mim estão em silêncio. Então, fico só olhando pela janela.

Me admiro mais uma vez com a visão. As estrelas brilham mais daqui, mais longe das luzes da cidade. Estamos voando sobre um monte de casinhas, prediozinhos e pessoinhas do tamanho de formigas. Desse ângulo, a Terra é bela. Desse ângulo, as trevas não existem e não estamos em missão nenhuma; desse ângulo, somos apenas adolescentes indo fazer uma visita em Jerusalém, passar alguns dias por lá e voltar para nossas famílias. Mas é só um ângulo.

– Lembra quando nós odiávamos esse lugar? – Dustin sussurra atrás de mim.

Parece que isso foi cinco séculos atrás, mas nossa simpatia por esse planeta era mínima até o século XIX. Nós costumávamos dizer que todos os humanos eram ignorantes. Nos sentíamos como deuses julgando os meros mortais. Com o tempo, nos misturamos mais a eles, mas as críticas continuaram. E então o século XX chegou, e tudo ficou diferente.

– Lembro. Parece que isso foi há uma eternidade.

– Mas foi só há alguns séculos. Sempre achei engraçado o quanto o tempo pode ser relativo.

Eu sorrio. Não consigo ver Dustin, mas tenho a impressão de que ele está sorrindo também.

– E olhe para nós agora, doidos para terminar com isso e poder aproveitar nosso tempo aqui em paz.

– É mesmo. Quem diria...

Continuamos a aproveitar a paisagem e o silêncio do avião. Alguns passageiros acordam também, uns pegam algum livro ou revista para ler, outros ficam escutando música. A única coisa de especial que nós trouxemos são nossas espadas, e digamos que elas não são muito boas para entretenimento.

Olho pela fresta no canto de minha poltrona. Posso ver que Dustin voltou a dormir. Eu decido fazer o mesmo, embora demore mais tempo para pegar no sono.

. . .

Ouço batidas. Começam lentas, com um breve intervalo entre cada uma, e depois passam a ficar mais rápidas e fortes. Olho em volta. Não tem nenhuma porta aqui, apenas um piso de madeira que se estende ao infinito.

Onde estou? Uma voz passageira em minha mente diz que é um sonho, mas tudo aqui parece real demais, ainda que de um jeito estranho.

Então, ouço vozes. Primeiramente eu não entendo o que elas dizem, mas logo consigo entender. “Luz”, elas dizem. E logo depois: “Johanna”. Quem é Johanna?

– Ah, me desculpe. O seu nome agora é Hailey, não é?

Esta voz é bem mais clara e próxima do que as outras. Olho para trás, de onde ela vem, e me deparo com uma mulher de cabelos longos e negros usando roupas brancas e com uma cruz de madeira pendurada no pescoço. De início acho que é o meu primeiro corpo, ou de Terra. Mas então sua voz se aprofunda mais em minha mente e consigo reconhecê-la.

– Liz?

Ela sorri. É o mesmo sorriso de Liz também.

– Sim, é assim que você me chama agora. Embora eu prefira meu nome original, o que pertenceu a este corpo... Elena.

– Do que você está falando?

A tal Elena se aproxima mais de mim e acaricia meu rosto, com os olhos marejados. Ela é alguns centímetros mais alta do que eu e suas mãos são macias. Ignorando completamente a minha pergunta, diz:

– Senti tanto a sua falta, irmã. Nada foi o mesmo depois que você se foi. Tivemos nossas conquistas, mas sem você lá... Não consegui ficar feliz.

– Espera. Quem é você? E por que tem a mesma voz da minha irmã caçula?

Elena se afasta. Posso ver em seu rosto que minha pergunta a deixou chocada e magoada.

– Como assim, quem sou eu? Sou a Elena. Você não pode ter se esquecido de mim, Johanna.

– Meu nome não é Johanna. Aliás, você acabou de falar, lembra? Meu nome é Hailey.

– Sim, seu nome atual é Hailey. Não se lembra mesmo de quando você se chamava Johanna? – Ela pergunta. Eu balanço a cabeça em negativa e ela solta um bufo de frustração. – Não acredito! A mulher de branco disse que você se lembraria de suas vidas passadas. Ela prometeu!

Elena já está gritando. Eu continuo sem ter ideia do que está acontecendo.

“Mulher de branco”... Liz também disse isso no hospital. Como não pensei nisso antes? Elas só podem estar se referindo à Mackenzie. Mas como elas podem conhecê-la?

– Eu estive te observando por todos esses anos. Todos esses séculos, pra ser mais precisa. A mulher de branco sempre me ajudou a te encontrar, embora eu não conseguisse chegar perto. Mas nesse século eu consegui. Eu pude falar com você, te abraçar, sentir que tenho uma família de novo. Foi tão bom... Mas você não se lembra de mim. Não da eu de verdade. – Ela balança a cabeça. – A mulher de branco me enganou.

Admito que fico admirada com a capacidade da L.C de deixar as pessoas com raiva. Porém paro de pensar nisso quando vejo que Elena começa a chorar. Assim, do nada.

Eu não sei o que ela quer dizer com esse papo de que ficou todos esses séculos me observando e que agora conseguiu se aproximar. Penso em como tudo nela – os gestos, a voz, o sorriso – me lembram a Liz. Penso também na estranha atitude da minha irmã. E então um clique soa em minha mente: e se Liz e Elena forem a mesma pessoa, só que em épocas diferentes? Liz pode ser a reencarnação atual de Elena. Mas como sua memória sobreviveu por tanto tempo sem ela ser uma Sábia?

Balanço a cabeça. Essa ideia é um absurdo.

– Ela disse que me ajudaria – Elena continua. – Quando viu que você era minha única família, prometeu que manteria minha memória viva e que sempre me faria reencarnar cada vez mais perto de você. Eu confesso que não acreditei no que estava vendo, mas mantive a esperança. A guerra acabou. Eu esperei por minha morte. E quando reencarnei, continuava com todas as minhas memórias. Reencontrei-me com a mulher de branco e ela me mostrou onde você estava. Isso continuou por vários séculos. E finalmente, neste século XXI, você aparece em minha casa enquanto sou apenas um bebê. Fiquei tão feliz! Você nunca perdeu seu brilho, Johanna. Reconheci-a logo de cara.

Minha cabeça está doendo agora. Isso não faz sentido. Não tem como ela ser a Liz.

E então, a imagem de Elena começa a tremer. Pisco. Só pode ser minha imaginação; vejo sua aparência se modificando. Seus cabelos negros vão clareando até ficarem loiros, seus olhos vão ganhando um tom castanho, e sua altura diminui. E de repente estou diante de Liz.

Ela abre um grande sorriso e vem me abraçar. Não tem como eu recusar um abraço da minha pequena, por mais estranha que seja essa situação. A abraço com firmeza e ela corresponde da mesma forma.

– Senti tanta falta do seu abraço, irmã – ela diz com a voz de Liz, mas agora só consigo pensar em Elena.

Nós nos afastamos. Liz tem um olhar muito maduro em seu rosto, o que me assusta um pouco. Não é a primeira vez que vejo isso. Aconteceu no dia do caos em nosso bairro, e de novo no hospital. Estou confusa demais. Quero saber exatamente o que está acontecendo, agora mesmo.

Olho para cima quando vejo uma luz surgindo. O clarão branco é inconfundível: Mackenzie. Olho para ela já me preparando para confrontá-la com o olhar, mas o que vejo são dois olhos cheios de dor.

– Você precisava – ela fala. – Todos vocês precisavam.

Não tenho tempo para responder: no instante seguinte, acordo suando na poltrona do avião.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Qualquer erro ou sugestão, podem falar. E lembrem-se: a Hailey dizer que está quase acabando não significa que eu estou dizendo que está quase acabando ;) Até mais!