The Sages

7 07 - Culpa


Notas iniciais
HEY VOCÊS Atendendo a pedidos desesperados e aproveitando que eu penso nesse capítulo desde que comecei a história, escrevi o sétimo capítulo o mais rápido que pude. Sabem há quanto tempo eu queria chegar aqui? Muito tempo. E graças ao empurrão de vocês, enfim chegamos. Obrigada pessoas. Espero que gostem tanto quanto eu gostei (e que não me matem, claro)!

Eu já estou no auge do desespero quando Chase para o carro.

O que antes era meu bairro agora é apenas um monte de destroços do que um dia foram casas. São poucos os prédios sobreviventes ao caos. Não consigo avistar Sophie e Liz daqui; só sei para onde ir por causa da criatura negra gigante que está causando tudo isso. Não conseguir vê-las só aumenta minha preocupação e minha culpa. Como pude deixar isso acontecer? Não podia simplesmente agir como em todos os séculos anteriores?

Desafivelo o cinto de segurança para sair. Porém ele me segura mais uma vez pelo e faz encará-lo.

– Eu vou. Você fica aqui, é mais seguro.

– Tá brincando, né? Isso é uma total inversão de papéis. – Aponto com a cabeça o monstro adiante. – Aquela coisa está fazendo isso por minha causa. É meu dever ir lá e te manter em segurança.

– Já disse que não preciso que você me proteja. Posso cuidar dessas coisas.

– Não, não pode! Para de pensar que pode enfrentar essas coisas porque você não pode!

Chase continua me segurando e me encarando por um longo tempo. Consigo sentir os olhos dele percorrendo cada pedaço do meu rosto. E então ele me solta, desafivela o próprio cinto e sai do carro. Ainda o acompanho com o olhar por alguns segundos – sua perna ainda manca, provavelmente um dano irreparável causado por um daqueles monstrinhos, na escola – antes de sair atrás dele.

– Chase!

– Não tente me impedir, Hailey!

– Isso é loucura! Você está manco e indefeso. Não fica nem um pouco preocupado com a chance de morrer?

– Não.

– Por quê?! – Explodo.

Ele para. E se vira para mim.

– As pessoas que estão correndo maior perigo ali são da família Miller. Acho que não preciso dizer mais nada.

É claro que não precisa.

O fato é: Chase não tem um bom relacionamento com os pais. Ele nunca disse o motivo e eu nunca cobrei maiores explicações. Mas a questão é que, por causa disso, Chase passa a maior parte do tempo na casa de amigos. Para ele, a residência dos Watterson é apenas um lugar onde pode dormir de graça.

Quando estávamos namorando, Chase muitas vezes optava por passar horas e horas na minha casa, brincando com Liz e conversando com Sophie. Isso fez com que as duas passassem a gostar dele quase tanto quanto eu. E fez com que Chase visse os Millers como sua segunda família – ele até mesmo já foi levar flores para nossos falecidos pais uma vez. E tem mais uma coisa: Chase ainda me ama. Não estou afirmando isso porque ele disse, e sim porque posso ver isso em seus olhos.

Pela primeira vez me ocorre que ele é como eu: não hesita em tentar proteger quem ama, mesmo sabendo que isso provavelmente será passageiro.

– Estamos perdendo tempo – eu digo. E nós vamos.

. . .

Perco o ar quando chego ao local.

Minha casa não existe mais, assim como as demais construções que ficavam ao seu redor. Posso ver membros de pessoas inconscientes – ou, o que é mais provável, mortas – escapando por baixo dos destroços. E bem em cima do que restou de minha casa está aquilo que se originou daquela pequena mancha escura: um monstrengo gigante, maior do que deveria nesse momento, de quatro enormes braços e nada no rosto além de um buraco roxo que se assemelha a um buraco negro.

E bem aos seus pés, lutando contra uma de suas mãos com um florete agora inofensivo, está Sophie. Estou prestes a chamá-la quando a mão enorme a joga para o meio de várias pedras. Indiferente, o gigante dá meia volta e começa a vasculhar os destroços a procura de algo.

– Deixe Sophie comigo! – Diz Chase. – Suas pernas estão melhores. Encontre e proteja Liz antes que essa coisa faça algo a ela também!

Concordo com um gesto de cabeça, dou mais uma olhada para Sophie e parto em busca da minha irmãzinha.

Correr aqui é horrível. Cada movimento do monstro provoca um mini-terremoto. Caio várias vezes e machuco meus braços e pernas, mas continuando procurando por Liz. Cada gemido que escuto de outras pessoas atingidas é como uma flecha em meu peito, mais combustível para meu desespero. Até que a vejo.

É apenas um amontoado de fios loiros entre os destroços, mas sei que é ela. Corro até lá. Liz, a pequena e doce Liz, está caída inconsciente. Com muito, muito sangue escorrendo pela testa.

– Liz? Liz! – A levanto e sacudo seu corpinho. – Não faz isso comigo, por favor!

Continuo a sacudindo, temendo estar fazendo força demais, e finalmente ela abre os olhos. A primeira coisa que vê é meu rosto. Liz me encara com seus olhinhos brilhantes por causa das lágrimas que não caem e diz, num sussurro quase inaudível:

– Luz.

Ela apaga novamente. A única coisa que me tranquiliza é seu peito subindo e descendo com a respiração.

“Luz”. Sei que ela só disse isso por acaso, que deve ter sido apenas a primeira e única palavra que lhe passou pela mente ou ainda que ela deve ter se lembrado daquele quatro de julho em que a luz dos fogos a fez dizer sua primeira palavra, como um último pensamento antes de uma provável – ainda bem que não – morte. Mas essa única palavra sem nexo me serve como um lembrete.

Deixo Liz no lugar mais afastado da devastação que consigo encontrar. Depois, volto para onde estava, respiro fundo, fecho os olhos e me concentro. Tento encontrar a única coisa aqui que tem uma energia espiritual compatível à minha: minha espada.

Uma habilidade extra dos Sábios é de encontrar sua espada através de sua energia espiritual. Só usamos isso no caso de a termos perdido de alguma forma, o que na verdade não acontece com muita frequência. Para isso, o Sábio precisa respirar fundo e deixar com que sua própria aura se expanda. Com isso, deve se concentrar no espaço em que está no momento e buscar pelo sinal de energia mais parecido com o seu. Um Sábio pode localizar a espada de outro, mas é impossível confundir com a sua.

Encontro rapidamente a minha arma. Fixo o local onde está a aura de luz em quando abro os olhos, descubro que ela está bem perto de uma das mãos do monstro.

Resmungo um palavrão – não consigo evitar – e estendo as duas mãos. Esfrego uma palma na outra até sentir a esfera luminosa crescer entre elas. Então, fecho as mãos em concha.

– Clare: Parvi Tormenti!

Miro no braço do monstro. Quando abro as mãos, o pequeno canhão de luz dispara até seu alvo e explode ali, fazendo-o recuar. Aproveito a deixa para correr até lá. Me jogo no chão, enfio minhas mãos no meio das pedras e busco freneticamente minha espada.

Só me dou conta do que estou fazendo quando a encontro.

O que deu em mim? Não está na hora ainda. O Vento ainda não chegou, ou pelo menos eu ainda não o vi. Erguer essa espada me renderá uma maldição que pode muito bem se estender mais do que imagino. Liz e Sophie podem ser ainda mais afetadas nessa história, ou pior.

O monstro não demora muito para se recompor de meu golpe. Ele vem mais uma vez na minha direção, com dois dos quatro braços levantados e prestes a me esmagar. Fico sem reação. Estou abaixada e com as mãos ainda abaixo das pedras espalhadas no chão. E a única coisa em que consigo pensar é se Sábios podem morrer ou não.

Então, ele interrompe o próprio movimento e se vira para trás. Olho na mesma direção. Sophie está do outro lado, com as mãos vazias e numa posição de quem acabou de jogar algo com força – seu florete, com certeza. Chase está logo ao seu lado e encara o monstro com a cabeça erguida, corajoso. Meu coração para por um instante apenas para voltar a bater com mais velocidade e força do que nunca. O monstro fecha os quatro punhos enormes e, num piscar de olhos, os enterra em seus dois alvos.

Isso devia ter me deixado triste. Abalada. Desesperada. Inconsolável. E eu realmente sinto tudo isso. Mas o que se sobrepõe é a raiva.

Com a raiva vem a adrenalina.

E com a adrenalina vem a inconsequência.

Num só movimento, levanto a mão direita e a enterro ainda mais no chão para segurar o cabo dourado de minha espada. A levanto, aquele objeto aparentemente pesado ficando leve como uma pena em minha mão. Giro o braço para poder empunhá-la com as duas mãos.

É aí que acontece: uma energia ruim, pesada, quase maléfica passa por toda a espada até preencher meu corpo. Sinto um tremor, uma dor aguda bem no centro da nuca como se tivesse levado uma flechada, minha visão embaça por um momento. Mas assim que eu me sinto melhor consigo erguer a espada. Inicio o movimento de ataque.

E então quatro grandes manchas de luz de diferentes cores – azul, vermelho, verde, marrom – explodem nas costas do gigante, ele se emite um som tão sofredor que quase me dá pena e começa a desabar, se desfazendo no ar até se tornar apenas uma névoa escura. Mas não é isso o que importa agora.

Olho para frente para ver as figuras recém-chegadas. Cada uma está com o braço estendido, mesmo após já terem executado o “campo minado”, como chamamos essa golpe. Um arrependimento profundo percorre todo meu ser.

Aproveitando a dor do monstro, eles se voltam para mim e se espantar ao entender o que acabei de fazer. Dustin desvia o olhar. Paco faz uma careta. Michele solta um suspiro e abaixa a cabeça. Porém a reação mais impactante é a do único garoto que não conheço ali, um garoto de pele bem morena, mais do que a de Michele, de olhos verdes e sobrancelhas grossas, com cabelos negros lisos bagunçados talvez pela correria em chegar a tempo, tendo uma pintinha vermelha no meio da testa e uma aura um tanto arrogante: meu irmão Vento olha bem fundo em meus olhos e balança a cabeça lentamente de um lado para o outro.

A mensagem é clara.

Contudo, ainda tenho mais preocupações. Sopro um “sinto muito” e corro até onde Sophie e Chase estavam.

Não demoro muito a encontrar minha irmã. Suas roupas estão rasgadas e sujas, há arranhões na testa e nas bochechas, os braços estão com ferimentos mais graves, mas o pior está em suas pernas. Eu nem consigo olhar para elas por mais de um segundo. Mas ela está acordada, e isso já me deixa bem mais tranquila. Pelo menos até Sophie franzir a testa para mim, desviando o olhar para a espada e para meu rosto novamente.

– Hailey...?

Sinto uma súbita vontade de vomitar. Engulo.

– Eu prometi que contaria quando chegasse – digo –, e vou contar assim que você melhorar. Então, por favor, continue viva.

Ela continua a me encarar por mais alguns instantes. Então, viro o rosto para o lado. Penso que está me ignorando, mas, quando olho para a mesma direção, entendo que é bem pior do que isso.

A figura quase totalmente vermelha pelo sangue caído alguns metros adiante é Chase.

Caminho lentamente até ele. Não tenho coragem de olhar seu corpo do pescoço para baixo. Então me concentro em seu rosto, em como seus olhos se abrem e um último flash de vida passa por eles quando Chase me vê. Ele parece se esforçar brutalmente para sorrir.

Soluço. Levo a mão à boca. Choro.

– Sophie sobreviveu?

Faço que sim.

– Bom. – Ele fecha os olhos. – Você ainda tem sua irmã. Bom...

– Chase. – O choro também está presente na minha voz. Ajoelho-me ao lado dele. – Por favor, acorde.

Ele me obedece. Abre os olhos já sem vida e consegue prolongar seu sorriso.

– Me perdoe. Se eu não tivesse me envolvido com você...

– Ei, você me avisou. – Sua voz está rouca e a fala, devagar. – Só que eu não queria aceitar que estava errado. O amor faz isso às vezes, sabe?

Soluço com ainda mais força.

– Eu também te amo – admito. – Desde o primeiro beijo até hoje. E por causa disso...

– Eu não te culpo – esclareceu Chase. – Você tentou me afastar. A culpa foi minha por insistir. Se eu tivesse ficado quieto, você não estaria chorando tanto. E, bem... Acho que eu ainda teria um corpo, né? – Ele diz isso soando como uma brincadeira, mas a breve risada que dá faz seu rosto se contrair de dor.

– Não. Você não pode morrer. Eu vou te tirar daqui, te levar para o hospital. Os médicos saberão o que fazer...

– Eles não fazem mágicas, Hailey. Nós dois sabemos que acabou pra mim. Mas quer saber de uma coisa? Está tudo bem. Tudo bem se eu morrer sabendo que a única pessoa que amo ainda está viva e ainda tem uma família, que ainda pode salvar muitas outras vidas e que também me ama. – Chase torna a fechar lentamente os olhos. – Está tudo bem...

É meu limite. Enterro o rosto nas mãos, mas não consigo impedir um grito de sofrimento. A punição da Segunda Regra enfim chegou a Chase. E não importa o que ele tenha dito, a maior parte da culpa ainda é minha. Isso invade meu peito e me consome por dentro. Me dá a sensação de solidão e de que tudo já está perdido.

Sinto alguém se ajoelhando ao meu lado e pondo a mão em meu ombro. Tenho certeza de que é Dustin. Uma mão menor é colocada no outro ombro. Paco. Outra pessoa afaga minhas costas. Michele.

– Ab alio spectes alterie quod feceris.

Tiro as mãos do rosto e ergo os olhos para o Vento. Não consigo acreditar que ele está dizendo isso num momento desses, e ainda por cima em latim.

– “Quem faz o mal, espere outro tal”? É sério?

– Sim. Ou você acha que o que foi bom quebrar as duas Regras mais perigosas? Está aí sua recompensa, Luz. E é só o começo.

– Qual é seu problema? Fala como se fosse inocente!

– É exatamente porque eu não sou inocente que posso dizer isso. E é também por isso que você devia ter se esforçado mais para não cometer o mesmo erro que eu. Abundans cautela non nocet, Luz – ele responde. Outro provérbio: “Cautela em excesso não faz mal a ninguém”.

– Será que você pode deixar a bronca para outra hora? – Pede Dustin. – Respeite-a.

Vento resmunga alguma coisa antes de voltar ao latim:

– Illa clusis maledictionem. Quid ego timeat? – “Ela causou a maldição. Por que tenho que respeitá-la?”.

– Quia nostra est dux – revida Dustin. “Porque ela ainda é nossa líder”.

– Etiam quia respected voz in illo tempore – Michele também me defende. “E porque ela te respeitou naquela vez”.

– Afflicto non est addenda afflictio – Paco lança. “Não se aumenta a aflição do aflito”.

– Gratias, populo – os agradeço. Volto a olhar para o Vento. – Venha conversar comigo depois e eu aceitarei todo e qualquer julgamento. Mas agora precisamos levar algumas pessoas para o hospital.

Automaticamente me viro para Sophie. Me surpreendo ao constatar que ela ainda nos observa, mais espantada ainda. Suspiro. Eu vou contar de qualquer jeito, então não faz muita diferença.

– Pode ajudar Sophie? – Peço a Dustin. – Eu tenho que buscar Liz.

Ele assente e se levanta. Paco e Michele vão com ele.

Eu me levanto também e encaro o Vento. Ele não desvia o olhar em momento algum e eu também não. Então, passo por ele vou até onde deixei minha inconsciente irmã.

. . .

Estamos no hospital agora.

Não sei quantas horas se passaram desde aquele caos. As pessoas que não foram atingidas enfim tiveram coragem de se aproximar e ficaram assustadas ao ver minha espada e constatar que nós cinco éramos os únicos que tinham saído ilesos. Algumas, acredito eu, até viram o que aconteceu. A polícia chegou junto com eles; acho que estavam com medo também. Alguém chamou a ambulância e as outras pessoas da vizinhança foram ajudadas. Algumas estavam apagadas e com muitos ferimentos, mas vivas. Outras não tinham tido a menor chance.

No caminho do hospital, Sophie também apagou e não acordou até agora, embora o médico tenha dito que ela não corre riscos tão graves. O ferimento de Liz foi tratado e uns médicos fizeram exames nela há algum tempo, mas ainda não nos disseram qual foi o resultado. O hospital está muito movimentado. São tantas pessoas passando de um lado para o outro que preciso baixar a cabeça para não ficar tonta.

Algumas horas atrás, eu acho, Dustin me explicou o que aconteceu até eles chegarem e derrotarem o monstro. Contou que acharam um lugar tranquilo e conseguiram dizer a Mackenzie o que estava acontecendo. Ela imediatamente trouxe Vento – descobri que seu nome é Sohan Kumar e que ele vem da Índia – juntos das espadas de todos devidamente embainhadas e lacradas, e ainda levou todos para o que era meu bairro num piscar de olhos. Eu tinha acabado de pegar a espada quando chegaram.

Agora, estou sentada numa das cadeiras da sala de visitas, com Dustin num lado, Paco e Michele do outro e Sohan de pé, apoiado a uma parede e de braços cruzados. Não sei quando ele pretende iniciar seu julgamento, mas sei que eu não poderei dizer nada. E ainda tem Lady Crystal. Ela, sim, vai me matar.

Em algum momento, um médico para a minha frente. Ergo a cabeça.

– Hailey Miller, certo? Sua irmã, Sophie, acordou e quer falar com você.

Meneio a cabeça e me levanto. Enquanto acompanho o médico até o quarto de Sophie, ele sussurra em meu ouvido:

– Ouvi dizer que você e seus amigos foram os únicos a saírem de lá sem ferimentos. Como conseguiram?

Não respondo. Nem ao menos olho para ele.

O homem enfim para numa das portas e a abre para mim. Murmuro um agradecimento e me direciono ao banquinho ao lado da cama de Sophie.

Ela está pálida, mas parece bem. Está sentada na cama e olhando para a parede. As pernas estão cobertas pelo lençol. Quando Sophie olha para mim, esboça um sorrisinho fraco que não vejo desde a morte de nossos pais.

– Como você está? – Pergunto.

– Já estive melhor. E você?

– Não tenho muita certeza.

Ficamos em silêncio.

– Você prometeu que contaria – ela enfim diz.

– É. Eu prometi.

Olho para minhas mãos. Durante todo esse tempo eu imaginei várias vezes como, quando e onde seria esse momento. Em nenhuma vez eu pensei que seria assim; eu desejava que não fosse assim. Mas aqui estamos nós, Sophie mais paciente do que nunca e eu com os nervos à flor da pele.

– Há uma lenda que conta que seres de luz vêm à Terra uma vez a cada século para combater as trevas que residem em nosso planeta. Essas trevas na verdade são materializações das energias, pensamentos e desejos ruins dos humanos, e por isso elas crescem mais a cada século. Enfim, esses espíritos chegam aqui em corpos humanos, com idades e nacionalidades diferentes, e no momento certo se unem para iniciar o confronto contra as trevas. Cada espírito tem seu próprio elemento, sendo que a Luz é a líder, e sua própria espada. Também precisam seguir três Regras rigorosas. Esses cinco espíritos que há séculos impedem a Terra de cair na escuridão são chamados de Os Cinco Sábios. Ou Cinco Espadas, como preferir. – Olho para Sophie. Ela continua me observando, ouvindo a tudo paciente e atentamente. Miro minhas mãos de novo. – Eu sou um desses espíritos. A Luz, a líder. Hailey Miller... É apenas mais um de tantos corpos que já tive.

Sophie não diz absolutamente nada. Continuo com o olhar fixo em minhas mãos e conto tudo. Explico as Três Regras. Conto quem são Dustin, Paco, Michele, Sohan e Mackenzie de verdade. Dou detalhes de nossa missão e de como aquele monstro gigante apareceu em nossa casa. Por fim, digo a ela que fiz a maldição cair sobre mim.

Ao final de tudo, Sophie finalmente se pronuncia:

– Vocês estavam falando em língua estranha naquela hora. Tenho certeza de que não foi impressão minha.

– Ah, isso. – Finalmente tive coragem de encará-la. – Aquela língua é latim. Pode ser uma língua morta aqui, mas é a que usamos em nosso mundo. Não costumamos usá-la aqui na Terra com muita frequência ultimamente.

– E qual o nome de seu mundo?

Abro a boca. Fecho. Franzo o cenho.

– Nunca parei pra pensar nisso. Não sei se ele tem um nome.

Ao contrário de mim, Sophie não parece dar muita importância ao fato.

– E você disse que cada Sábio vem de um país diferente. Mas Dustin e Paco falam inglês com fluência.

– Nós já nascemos conhecendo cada uma das línguas, para não termos muitos problemas e podermos nos infiltrar ainda mais. – Respiro fundo. – É só isso que quer saber?

Ela pensa um pouco.

– É, acho que sim.

Começo a ficar mais nervosa.

– E...?

Sophie suspira e olha direto em meus olhos.

– Que diferença isso faz, exatamente?

– Bem, toda. Eu não sou humana. Quando bati na porta da sua casa pela primeira vez, minha intenção era apenas usar sua família para parecer mais com uma garota normal. Não vê nenhum problema nisso?

– A única que terá problemas aqui será você se continuar dizendo “sua” família ao invés de “nossa”.

Fico confusa. Sophie esboça mais um sorriso fraco.

– Hailey, eu realmente não me importo se você é humana ou não. O mais importante de tudo é que você é a minha irmã mais nova e que eu te amo. E tenho certeza de que Liz pensará da mesma forma.

– Não entendo – digo. – Eu venho mentindo para vocês há nove anos.

– Está me dizendo que você nunca nos viu como uma família de verdade, que sempre fingiu gostar de nós?

– É claro que não – respondo na hora. – Os Millers sempre foram minha família. Mas...

– Então está resolvido, Hailey. Essa é a única coisa que importa.

Confesso que fico um pouco decepcionada por ela não se importar muito com tudo isso. Mas também fico aliviada. Não queria ter de enfrentar a rejeição de uma das pessoas que mais amei em todas as minhas vidas.

– Então você não se incomoda mesmo com o fato de Hailey Miller ser apenas mais um de meus nomes temporários?

Sophie dá uma leve risada.

– Uma noite, quando eu tinha treze anos, alguém bateu à porta de minha casa e meus pais atenderam. No outro lado da porta estava uma menininha de sete anos que disse que era órfã e que estava faminta. Meus pais a deixaram entrar e foram correndo para a cozinha pegar algo para ela comer. Minha irmã caçula, com um aninho na época, estava comigo naquela hora. Ela olhou para a órfã sentada em nosso sofá e imediatamente sorriu. Eu vi seus olhos brilhando. Então, olhei novamente para a nossa visitante e acabei sorrindo também. Era a pessoa mais iluminada que já tinha visto. – Sophie diz tudo isso com um sorriso nostálgico no rosto, e isso somado ao seu tom de voz doce me faz chorar. – E sabe o mais legal? Meus pais gostaram dela também. Foi amor à primeira vista. Deram-lhe comida, roupas que eu não usava mais e um lugar para dormir. A menina foi ficando em nossa casa e não demoramos a nos apegar a ela. E aí, meus pais resolveram a adotar. No papel e tudo. A menina dizia que tinha nome, mas não se lembrava de seu sobrenome. Papai e mamãe lhe deram isso também. – Ela fez uma pausa. Aproveitei isso para secar inutilmente meu rosto encharcado de lágrimas. – Miller. A mais nova integrante da nossa família. A partir de então, nossa família nunca deixou de ser unida e feliz. – Mais uma pausa. – Você sempre foi a luz, Hailey. A luz dos Miller. Nós não te rejeitaríamos por nada nesse mundo, e esse nome nunca será temporário para nós.

Solto um soluço e sorrio logo em seguida. Sophie abre os braços e eu a abraço com mais força do que nunca. Com o rosto afundado em seu ombro, lembro de dizer outra coisa.

– Minha missão...

– Eu sei – sussurra minha irmã. – Sei que você tem que cumprir sua tarefa. Já entendi isso. – Ela se cala por um momento. – Bem, o que posso fazer além de desejar que tenha uma boa jornada? Só... Prometa que vai voltar antes de ir embora de vez.

Choro até quase me afogar sozinha.

– Eu prometo.

. . .

Assim que saio do quarto de Sophie, certamente com o rosto e olhos totalmente vermelhos, encontro aquele mesmo médico que me trouxe até aqui.

– Oi. Sabe como está Liz?

– Ela já saiu da cirurgia – ele reponde. – Mas ainda está desacordada.

– Posso pelo menos vê-la?

Ele checa algo em uma das fichas que carrega.

– Bem, não acho que tenha problema. Mas é quase certo que ela não vá acordar agora.

Algo em sua voz me deixa com medo.

– Vou te levar até lá.

– Doutor?

– Sim?

– Por favor, me diga exatamente quais sãos os quadros de minhas irmãs.

Ele suspira e acaba se rendendo. Checa mais uma vez as fichas.

– Bom... O cérebro de Sophie e seus demais órgãos vitais estão bem. Mas suas pernas... Digamos que ela ainda estaria gritando de dor se não fossem os remédios que lhe demos. Duvido que ela possa voltar a andar normalmente algum dia.

Penso em Chase e em como ficou a salvo apenas do pescoço para cima, em como estava falando devagar devido aos danos que levou. E então tenho a confirmação de que precisava: Chase salvou Sophie. Impediu que ela sofresse tanto quanto ele, ou até mais. E fez isso por mim.

– Quanto a Elizabeth, seu ferimento foi ainda mais preocupante. Um ferimento grave na testa. Sabe quantas lesões isso pode provocar? Muitas. Algumas permanentes, outras não. Elizabeth pode perder parte da memória, ou até mesmo ela toda. Não posso afirmar que ela será a mesma pessoa que você conheceu quando acordar.

Fico totalmente sem reação. Liz só tem dez anos. A quantidade de coisas que pode perder por minha causa... Eu não me perdoaria nunca.

– Mas... Acha que ela pode morrer por causa disso?

– Morrer, eu não acredito. Elizabeth está se mostrando uma garotinha bem forte. Porém nós devemos ficar sempre atentos. Quadros podem alterar a qualquer momento.

Ele fala isso de forma meio fria, mas não posso culpá-lo. Ele deve ver esse tipo de situação toda a semana.

– Certo – murmuro. – Obrigada.

– Ainda que vê-la?

Faço que sim com a cabeça.

– Muito bem. Venha comigo.

. . .

Não sei como descrever o que sinto ao ver Liz.

Ela está de olhos fechados e respirando suavemente. Assim que a vejo, penso nas tentas vezes que a vi adormecer como um anjinho em meu colo. É assim que ela está agora. Como um pequeno anjo que recusou o chamado dos céus para continuar lutando conosco.

Me sento ao seu lado e seguro sua mão. Liz também está pálida, talvez até mais que Sophie. Nunca pensei que a veria nesse estado. Ela é apenas uma criança. Dentre todas as pessoas, Liz é aquela pela qual eu mais me sinto responsável. Tanto pela sua idade quanto pela confiança que sempre teve em mim.

Em certo momento, eu sinto algo em minha mão. Olho para ela. Liz a aperta com a pouca força que consegue reunir.

Ergo a cabeça de novo. Vejo que Liz está me encarando. Os olhos não estão totalmente abertos, mas eles ainda brilham. Ainda brilham...

– Liz? – A chamo, a voz embargada de emoção.

Ela não diz nada. Apenas continua me encarando. Sua expressão me parece séria e madura demais para sua idade, e não demoro a entender o motivo.

Crianças são criaturas fascinantes. Me encantam desde a primeira vez que vim à Terra. Elas descobrem as coisas sem que ninguém lhe diga; apenas sentem. Elas sabem exatamente o que estamos sentindo só de nos olhar. Às vezes eu acredito que a infância é a fase mais superior dos humanos, com uma sensibilidade que vai muito além de sua raça.

Penso nisso tudo enquanto Liz me encara e aperta levemente minha mão. E só então eu vejo. Vejo algo que devia ter visto quando ela disse sua primeira palavra, quando conversou comigo antes de adormecer em meu colo pela última vez, quando repetiu sua primeira palavra em meio àquela catástrofe.

Vejo que ela já sabe quem eu sou.

Notas finais
E é isso. Não me matem, sério kkkk Comentem, deem críticas construtivas, vocês sabem qual é o procedimento. Até o próximo!