The Sages
1 01 - Despertar
Notas iniciais
Aproveitem o primeiro capítulo!
Acordo em um chão frio. Não consigo me levantar, então permaneço sentada. A minha frente, o mesmo monstro que acabou de me derrubar luta furiosamente com outra pessoa. Não a conheço. Porém, algo me diz que eu devia estar a protegendo ao invés de ficar aqui, sem fazer nada. Um sentimento de culpa atravessa meu peito quando a fera abocanha seu braço, fazendo-a largar o pedaço de madeira que segurava e gritar de dor.
O que está acontecendo? Não sei onde estou, nem o porquê de estar imóvel observando pessoas que não conheço se ferirem. Não sei de onde veio aquele monstro. Ele é totalmente preto, como se tivesse nascido das trevas. É pequeno e quadrúpede, e sua boca aberta revela presas tão pontudas quanto suas garras. Não é possível ver seus olhos, pelo menos de onde eu estou.
Sinto algo quente e líquido escorrer pela minha perna. Dói quando viro a cabeça para ver o que é. Sangue sai de um ferimento logo acima de meu joelho esquerdo. Tenho a sensação de que meu rosto também está molhado, mas não consigo erguer a mão para tocar o líquido e me certificar que também é sangue. Flashes invadem minha mente: o monstro investindo contra mim, o barulho de algo caindo no chão, meu próprio grito de dor, alguém gritando um nome. Meu nome.
Meu nome é...
Tento me lembrar, e minha cabeça volta a doer. A cena a minha frente se desenrola: a garota que levou a mordida no braço está caída, e um garoto a pega no colo para afastá-la da fera. Outro rapaz assume a batalha, tomando mais cautela. Uma súbita vontade de gritar que não vai adiantar em nada brota em peito, mas continuo calada. Por que não adiantaria? Não sei dizer.
Sinto uma mão pousando em meu joelho direito e me viro lentamente. Um garoto está ajoelhado ao meu lado. Seus cabelos são castanhos com uma mecha clara, são repicados e estão bagunçados. Sua pele é bronzeada, e seus olhos, profundamente azuis. Ele sorri para mim, como se me conhecesse, mas não consigo lembrar seu nome.
– Hailey. Ainda bem que está acordada.
Fico grata por ele dizer meu nome, e um pouco culpada por não saber quem ele é.
– Quem... Onde... O que está acontecendo?
Ele franze as sobrancelhas.
– Não se lembra de nada?
– Pouca coisa.
– É... Você levou uma pancada feia na cabeça – diz ele. – Basicamente: os monstros começaram um ataque surpresa, a maioria dos alunos fugiu, mas alguns ficaram para lutar e você tentou proteger um deles, aí uma das feras te atacou e você desmaiou.
– E por que continuamos sentados aqui? Por que não estamos fazendo nada?
– Podemos atacá-los o quanto quisermos, mas só duas coisas podem matá-los de verdade: nossas espadas e nossas magias. Não podemos empunhar nossas espadas ainda, ou seremos amaldiçoados. E eu já usei magia demais; meu poder mágico está esgotado. E você, obviamente, não está em condições.
– Maldição? Magia? Do que você está falando?
Ele ergue as sobrancelhas.
– Ah. É mais grave do que eu pensei. É melhor tirar você daqui.
O rapaz passa um braço por baixo de meus joelhos e outro por baixo de minhas costas, erguendo-me do chão. Seguro em seu ombro enquanto ele caminha pelos corredores do prédio. No caminho, vejo vários outros monstros das trevas em diferentes formatos, atacando adolescentes e adultos, tanto os que tentam fugir quanto os que tentam lutar. Há cacos de vidro por todo o corredor. As portas estão quebradas. O chão está manchado de sangue. Algumas pessoas conseguem afastar as feras, mas sei que não resistirão por muito tempo.
– Tem certeza de que ainda não pode fazer essa sua magia? – Pergunto ao garoto.
– Olha, eu juro que adoraria ajudá-los – ele responde. – Mas não posso fazer nada realmente útil.
Em meio ao caos, minha atenção é chamada especialmente para um menino caído, tentando ao máximo tirar o monstro de cima dele, que ameaça morder seu rosto. Meu braço involuntariamente se estica em sua direção. O garoto percebe e para de andar. Ainda sem pensar, esfrego o dedo indicador no polegar, até uma pequenina bola de luz sair do meio deles. Minha boca se abre e as palavras escapam antes que eu possa me dar conta do que estou fazendo.
– Clare: Millesies Spinas!
Milhares de espinhos luminosos começam a sair daquela pequena esfera, partindo em direção ao monstro. Este é lançado para longe do garoto e se colide com a parede, desaparecendo em uma névoa negra em seguida.
O garoto que me carrega assovia.
– Hailey Miller, senhoras e senhores.
– Não me leve a mal – digo –, mas não me lembro de seu nome também.
– É claro que não lembra. Não me apresentei ainda.
– Como é?
– Nos conhecemos hoje, mas as aulas começaram, e nós caímos em turmas diferentes. O ataque começou durante a aula. Quando te achei, você já estava quase desmaiando.
– E com você sabe o meu nome?
– Tenho minhas fontes. – Ele sorri. – Prazer, Dustin Collins. E se você não se lembra, sou o Sábio da Água.
Mais imagens passam pela minha cabeça: eu chegando à escola, Dustin vindo me cumprimentar, e uma espécie de aura azul o contornando por uma fração de segundos.
Penso em perguntar o que é um Sábio, mas a pergunta de repente me parece tola.
– Posso te colocar no chão por um momento? Acho que consigo fazer minha magia agora.
– Sim.
Dustin me coloca com cuidado no chão, e eu me apoio na parede. Ele se vira novamente para o caos.
– É melhor prender a respiração – avisa.
Obedeço. Dustin estende os braços, um para cada lado, com os punhos fechados, e respira fundo pela boca. Sinto como se estivesse ficando desidratada de repente. Então, um contorno azulado e brilhante aparece em torno de Dustin, e ele abre as mãos ao mesmo tempo em que abre a boca.
Um estalo, e uma explosão de água logo em seguida. Litros de água surgiram do nada e inundaram todo o andar por um momento, saindo pelas janelas quebradas. Fico encharcada com a súbita onda. O líquido não parece água comum; tem algo de diferente, só não sei ao certo o que é.
Dustin é o único que permanece seco; por outro lado, parece exausto. Ainda assim, ele olha para mim e sorri.
– Acabamos com eles.
A nossa volta, as demais crianças e adolescentes tentam recuperar o fôlego enquanto tossem e cospem água, já que não tiveram tempo para prender a respiração como eu.
– Por que não fez isso de uma só vez?
– Essa magia tem um limite de alcance. Tive que fazer em cada andar.
Ele se senta ao meu lado, ofegando. Agora vejo seus machucados: alguns arranhões em seu rosto, um ferimento no pescoço, mas nada grave.
– Vai me explicar agora o que nós somos e o que aconteceu aqui?
– Não, não acho que seja necessário – diz Dustin. – Essa perda de memória provavelmente é temporária.
– E se não for?
– Então a chefona vai resolver isso. Simples assim.
Não sei quem é essa chefona, mas algo no jeito que ele diz “resolver” me dá calafrios.
– Bem, eu sairia agora, porque ouvi falar que seu namorado é ciumento...
– Eu tenho um namorado?
–... Mas alguém tem que explicar o que você não pode explicar e o porquê de você não poder explicar. Deixa que eu me entendo com ele. Ah, aí vem seu homem.
De fato, um rapaz caminha em minha direção com uma expressão preocupada. É bonito: tem cabelos negros charmosamente bagunçados, olhos verdes escuros, pele clara. Tem um corte no queixo e manca devido a um ferimento na perna, além de vários arranhões pelo corpo. Suas roupas estão rasgadas.
– Hailey! Graças a Deus, você está viva.
Ele se ajoelha a minha frente com a perna boa e se aproxima para um selinho. Não me esquivo. Há algo familiar e caloroso em sua presença, e seu nome está na ponta da minha língua.
Meu namorado franze o cenho.
– Que foi? Está estranha.
– É. Pois é – começa Dustin. – É o seguinte. A Hailey levou um belo golpe na cabeça e não se lembra de quase nada. Mas acredito que seja temporário; logo ela se lembrará e...
– Chase – solto. E então sorrio. – Oi.
–... Viu só? Se lembrou. Apesar de que eu gostaria de terminar a frase primeiro.
Tanto eu como Chase o ignoramos.
– Oi – ele diz, antes de me beijar novamente.
E com o beijo, as memórias relacionadas à Chase voltam: passeios de mãos dadas, nós dois deitados observando as estrelas, flores na porta de casa e muitos beijos. Mas, por algum motivo, sinto uma pontada de culpa.
– Então... Chase – diz Dustin. – Essas feras te atacaram muito? Te perseguiram? Você está um caco.
– É... Foi estranho. Parecia que elas se concentravam mais em mim do que nas outras pessoas.
Dustin me olha de relance, e de repente eu entendo o motivo de me sentir culpada. Eu não posso namorar Chase, pois sou uma Sábia. Namorar um humano vai contra a Segunda Regra. Não consigo me lembrar das outras regras, mas sei que minha rebeldia está colocando Chase em risco; seus machucados são a prova disso.
Desfaço o sorriso, o que não passa despercebido por Chase.
– O que foi agora?
Olho para Dustin. Ele ergue as sobrancelhas, como se dissesse “Faça isso de uma vez”. Mas não posso fazer isso. Volto o olhar para Chase.
– É só a dor.
– A emergência já está vindo. Aguente firme.
Então ele segura minha mão e dá um sorriso encorajador. Sorrio de volta enquanto meu coração se despedaça.
. . .
A ambulância chegou minutos depois. Fomos colocados em macas e levados até o hospital. Repórteres também chegaram para filmar os feridos e o estado do colégio após o ataque misterioso.
Agora, estou deitada na minha cama em um dos quartos do hospital, com a pena e a testa enfaixadas. Deve fazer uma hora que estou aqui. Ouço passos no corredor, mas ninguém veio me visitar além das enfermeiras. O silêncio do hospital e o descanso me ajudaram a recuperar minhas memórias: meu nome é Hailey Miller, tenho dezesseis anos e nacionalidade americana. Sou a Sábia da Luz e a líder – o que significa que todos os outros quatro Sábios devem se reunir onde estou. Minha missão é, ao lado dos outros Sábios, banir as trevas desse mundo. Nós temos de seguir três regras: 1) Não empunhar a espada até ter se reunido com os outros Sábios; 2) Não ter relacionamentos amorosos com humanos; 3) Não exibir os poderes na mídia. Fui adotada por uma família ao chegar na Terra, e agora moro com minhas irmãs adotivas como se fosse uma humana normal. E por enquanto os únicos que sabem que realmente sou são Dustin e a chefe dos Sábios.
Respiro fundo. Devia estar nervosa, mas apenas tento me preparar. Vai ficar mais difícil encarar Chase agora que sei quem eu sou e que tenho que terminar com ele o quanto antes. Os monstros irão atrás dele para matá-lo e me ferir. E eu sabia disso quando ele me pediu em namoro, quando me beijou pela primeira vez. Por que aceitei? Por que não relutei? Seria doloroso, porém, Chase não correria risco de vida.
Cubro o rosto com as mãos. A Sábia da Luz é sempre a líder do grupo. Esse cargo exige ainda mais responsabilidade da minha parte. Tenho a obrigação de cumprir todas as regras, e a imprudência de meu novo corpo me fez falhar.
Tento recompor quando uma enfermeira entra dizendo que tenho visita. Sento-me na cama e minha irmã mais velha adotiva aparece. Sophie.
Dá para perceber facilmente que não compartilhamos o mesmo sangue. Sophie tem cabelos loiros – agora amarrados numa trança frouxa provavelmente por causa da pressa de chegar no hospital – e os meus são castanhos. Os olhos dela são castanhos escuros; os meus, castanhos amarelados. Sua pele é clara; a minha é um pouco mais amorenada.
Quando eu cheguei na Terra, assumi um corpo já com sete anos de idade. Sophie tinha treze anos na época, enquanto a caçula da família, Liz, tinha apenas um ano de vida. O senhor e a senhora Miller me aceitaram de braços abertos quando bati na porta da casa deles, dizendo ser órfã e que estava com fome. Eles me adotaram e passamos a viver como uma grande família feliz.
Então, quando eu tinha catorze anos, um acidente de carro tirou-lhes a vida. Sophie, com vinte anos, resolveu tomar conta de mim e da caçula sozinha. Nós apenas vivemos com o salário do emprego da mais velha e com a herança. Agora eu também ajudo com um emprego de meio período, o salário de Sophie é melhor, e Liz não nos pede tanta coisa assim. Além disso, a mais velha também assumiu a posição de mãe.
Minha irmã me encara e se aproxima. Está aflita. Ela se senta em umas cadeira ao meu lado e acaricia meus cabelos, passando os olhos pelos curativos.
– Você está bem? O que aconteceu? Disseram que monstros atacaram o colégio, mas ninguém acredita nisso. Todos os pais estão exigindo uma explicação melhor, só que todas as crianças afirmam a mesma coisa.
Abro a boca para responder e sinto um nó na garganta. Nunca tinha imaginado o dia em que precisaria falar com Sophie sobre essas coisas. Não sei direito o como contar tudo sem que pareça loucura. E duvido que ela vá acreditar que sou um espírito de luz que veio a Terra para destruir todos os monstros das trevas.
Ainda assim, engulo em seco e digo:
– Foi isso mesmo o que aconteceu. Fomos atacados por monstros.
Sophie balança a cabeça, descrente.
– Isso não é possível. Esse tipo de coisa só acontece na ficção. Tem certeza de que não foram bandidos ou algo do tipo?
– Acho que saberia distinguir um bandido de um monstro.
– Você já viu algum monstro antes, por acaso?
Já. Já vi milhares de monstros muitas vezes, bem antes de Sophie pensar em nascer. Os Sábios são enviados à Terra uma vez a cada século quando nossa chefa pressente a chegada das Trevas. Quando derrotamos o líder desses monstros, todos eles desaparecem e demoram um século inteiro para se recompor, o que significa que temos um século inteiro para descansar em nosso mundo. O líder é o que mais demora a aparecer, dando tempo para que os demais monstros causem um bom estrago ao redor da Terra.
Mas não consigo dizer tudo isso e apenas me calo.
– Exato – continua Sophie. – Monstros não existem, Hailey. Pare de pensar nessas coisas.
Ela se inclina para me dar um beijo na testa.
– Tenho que voltar para casa e ficar com Liz. Vou trazê-la aqui quando puder.
– Certo. Mande um beijo para ela. – Minha voz sai fraca por alguma razão. – E diga que vou ficar bem.
– Ah, não preciso dizer isso. Você é forte o bastante para aguentar essa barra; sabemos disso.
Então ela sorri e aperta minha bochecha de leve. Sustento um sorriso até que ela saia do quarto. Assim que a porta se fecha, suspiro.
Não quero contar tudo à Sophie e Liz. Não quero terminar com Chase. Não estou pronta para assumir a responsabilidade de salvar o mundo. Não sou tão forte assim.
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