The Roommate
26 I'll Carry Your World and All Your Hurt - Pt. 2
Notas iniciais
Algum tempo depois de assistirmos o filme, Logan decidiu que devíamos nos arrumar para o jantar de noivado de Jo e Camille. Mesmo comigo dizendo que as garotas só moravam cinco andares acima de nós, não é como se elas morassem longe, ainda assim tive que obedecê-lo. Acho que não havia ninguém que parecia tão animado com esse jantar do que Logan. Quem sabe talvez as próprias meninas. Eu me adiantei e disse que iria pro chuveiro e me arrumar primeiro enquanto Logan assentiu e ficou no andar de baixo, arrumando tudo na cozinha e na sala.
Já no meu quarto, de banho tomado, procurava uma roupa que parecesse formal, mas que não fosse tão séria pra vestir. Achei uma calça social cinza escura que minha mãe praticamente me obrigara a levar (“Nunca se sabe quando você vai precisar estar mais bem arrumado pra algo, querido”, ela tinha dito) e me lembrava de ter uma camisa verde escura que podia combinar com ela. Fui vasculhar o closet em busca da bendita camisa quando uma voz me assustou.
—Eu achava que você já estava quase pronto a essa altura. –Logan falou, encostado no batente da porta, tentando não me encarar. Eu sabia bem o por que de ele estar assim. Eu estava de toalha, afinal de contas.
—Procurando uma camisa... –Simplesmente falei, apontando o closet e arrumando a toalha na minha cintura para que ela não caísse. Logan finalmente entrou no quarto, encarando o chão e ficando cada vez mais corado enquanto se aproximava de mim.
—O que você tem contra organização, Kendall? –Ele finalmente ergueu a cabeça. Seu rosto ainda estava vermelho, mas um leve sorriso estampava seu rosto. Não pude evitar em sorrir de volta.
—A vida é curta demais para ser organizado. —Falei, dando de ombros.
—Isso é desculpa de gente preguiçosa. —Logan balançou a cabeça, dando um risinho- Eu te ajudo a procurar, se quiser. Como ela é?
—Verde escura, manga longa e de botões. –Expliquei enquanto Logan procurava a camisa no mar de roupas- E tem mais, eu não sou preguiçoso, eu só procrastino. Eu quero ter coragem pra arrumar esse closet, mas eu fico inventando outras coisas pra me ocupar e aí acabo não arrumando.
—Mas ainda assim, procrastinação não e desculpa. –Logan falou, a voz abafada, até ele sair de lá com a camisa que eu queria- É essa a camisa? Estava dentro de uma das malas, dobrada. Por sorte não amassou.
—Essa mesma. Valeu, Logie... –Sorri, dando um beijo na bochecha dele como agradecimento. Senti a bochecha dele ficar mais quente sob meus lábios, e meu sorriso aumentara. Corri até a cômoda e peguei uma cueca, mas notei que Logan ainda estava lá, ainda me analisando. Engoli seco, de repente sem saber o que fazer. Meu lado atrevido queria que eu tirasse aquela toalha, corresse até Logan e fizesse ele chegar ao paraíso, mas decidi ficar na minha. Se Logan ainda estava no meu quarto, era por que queria alguma coisa- O que foi, Logan?
—É que... –Ele se aproximou de mim, hesitante. Seu lábio inferior preso de canto entre seus dentes. Seus lábios se abriram por um segundo e se fecharam, como se ele quisesse falar de algo, mas tivesse perdido a coragem. Logan fechou os olhos e suspirou, antes de erguer sua mão e desenhar um padrão desconhecido em meu ombro direito, bem em cima da minha tatuagem- Você... Nunca me contou das suas tatuagens...
—Quer saber o que elas significam? —Logan assentiu timidamente. Eu sorri, peguei a mão dele que ainda estava em meu ombro e o puxei comigo até a janela do quarto. Com a claridade de fim da tarde que ainda restava eu podia mostrar as tatuagens com mais clareza a ele. Me virei um pouco para que Logan visse melhor a tatuagem no meu ombro direito e voltei a colocar a mão dele em cima da tatuagem- Essa aqui é uma sugar skull. Ela reúne todas as coisas que eu gosto e algumas coisas sobre mim também. –Logan se aproximou para vê-la melhor enquanto eu guiava sua mão até o ponto onde meu ombro e meu pescoço se encontravam, um pouco mais atrás- Aqui onde eu coloquei sua mão? É o símbolo do meu signo, escorpião.
—Eu quero ver... –Logan murmurou enquanto andava até ficar atrás de mim, sua mão nunca deixando o ponto onde a tatuagem estava. Senti seus dedos desenharem de leve sobre o símbolo em minha pele. Mais uma vez peguei a mão dele e tentei guiá-la até a base do meu pescoço, um pouco para baixo.
—Esse é um círculo elemental. Ele reúne os quatro elementos básicos. É um símbolo que estamos todos conectados nessa energia que eles representam. Foi a última tatuagem que fiz antes de vir pra cá.
—E você planeja fazer mais? –Ouvi a voz de Logan baixinha. Sua respiração batendo em minhas costas me fez tremer. Respirei fundo, lutando para que minha voz também não estivesse trêmula.
—Talvez. –Pensei um pouco- Eu só tatuaria algo que tivesse algum significado pra mim. E desde que cheguei aqui achei muita coisa que valeria a pena imortalizar em mim.
—Mesmo? –Logan me virou devagar para que eu pudesse olhar pra ele. Seu sorriso parecia flertar, mas suas bochechas estavam um tanto vermelhas.
—Com certeza. –Dei de ombros- Vamos ver...
O sorriso de Logan se ampliara enquanto ele se aproximava ainda mais de mim. Minhas mãos voaram para sua cintura, puxando-o pra mais perto de mim...
Mas um som em meu notebook quebrara completamente o clima. Eu suspirei, um tanto frustrado. Maldita tecnologia...
—Acho que é uma chamada no Skype... –Logan sussurrou, deixando suas mãos, que estavam nos meus ombros, caírem- Aliás, por que você tá com o notebook ligado?
—Estava verificando meu e-mail. –Falei, indo para a mesa perto da parede onde o notebook estava- Minha mãe e a Katie me prometeram que mandariam um e-mail pra mim ainda hoje, mas até agora nada. –Suspirei, passando o dedo no trackpad e tocando duas vezes no botão de atender chamada do Skype. Logo a imagem do meu pai apareceu na tela do computador. Cabelo bagunçado, olheiras leves aparecendo em seu rosto, mas logo que me viu abriu um sorriso meio cansado. Eu me lembrei que a parte latino-americana da turnê dele havia começado recentemente, mas ainda assim estava surpreso. Não esperava que ele fosse querer falar comigo tão cedo.
—Kendall, oi. –Meu pai acenou para a câmera- Eu... Tô interrompendo algo?
Olhei pra trás e vi Logan esconder o rosto em suas mãos e balançar a cabeça. Provavelmente ele tinha ouvido meu pai. Não pude evitar de rir. Logan tinha seus momentos de ousadia, mas nada se comparava com os momentos que ele ficava tão sem graça que não conseguia nem falar nada. Era até fofo.
—Não pai, não interrompeu nada. –Balancei a cabeça, ainda rindo- Eu não esperava você me ligar tão cedo, tô até surpreso.
—Eu cheguei hoje do México, estou na Guatemala. Era pra ter show hoje, mas minha produção foi informada que houve um problema no lugar da apresentação e que o show foi adiado pra daqui a dois dias. O que é bom, eu e minha equipe precisávamos de um tempinho de folga. –Meu pai suspirou, jogando o cabelo pra trás antes de abrir um sorriso e posicionar a cabeça de um pouco mais para a direita, como se ele estivesse tentando ver algo pela câmera- Ah, olá Logan. Como vai?
—Eu... Eu vou bem Sr. Knight. Quer dizer, Sr. Williams. É... –Logan começou a gaguejar, tentando não olhar para a tela do notebook. Com um suspiro derrotado, o moreno falou, apontando a porta do meu quarto- Eu vou indo me arrumar, Kendall. Foi legal falar com o senhor, Sr. Knight. Opa, Williams... –Logan tentou se corrigir enquanto saía do meu quarto, todo sem graça. Eu via ele saindo enquanto ouvia meu pai rindo no computador.
—Seu garoto é bem mais tímido quando está fora do ambiente de trabalho, com certeza.
—Ele ainda deve estar encaixando o fato de que meu pai e Kenneth Williams são a mesma pessoa. –Dei de ombros, como se aquilo fosse um fato banal. Eu estava me coçando para soltar algum lembrete afiado sobre ele ter deixado a mim e minha família sem ao menos uma despedida decente, mas se ele realmente estivesse disposto a tentar de novo eu também estaria. Finalmente meu pai resolveu ser parte da minha vida, não vai ser eu quem vai estragar isso trazendo o passado à tona novamente- E a gente tava meio que no meio de uma conversa... Eu mostrei coisas sobre mim, Logan aprendeu mais sobre mim...
—Seguiu meu conselho, suponho? –Meu pai ergueu a sobrancelha. Era assustador o quanto a gente se parecia quando fazíamos essa mesma cara.
—É sim. No começo ele surtou, acho que tomei atitude demais, sei lá. –Dei um sorriso ao me lembrar daquele primeiro beijo. Mesmo que depois eu tenha ficado com um breve sentimento de culpa por achar que estraguei tudo, tudo tinha se resolvido (bom, mais ou menos. Logan e eu ainda não estávamos namorando, mas eu estava disposto a esperar pelo Logan, se ele quisesse oficializar as coisas)- Mas acabou que deu tudo certo, mais ou menos...
—O que houve? –Meu pai franziu a testa, preocupado.
—Nada de mais. Só algumas coisas sobre o Logan. –Suspirei. Eu ainda não sabia ao certo se queria contar isso ao meu pai- Ele... Tem uma certa reserva quanto a relacionamentos...
—Ele não quer ficar com você? –Meu pai perguntou- Sabe, oficialmente?
—Eu acho que ele quer, pai. Mas... –Eu vasculhei a cabeça para achar as palavras certas, tanto para mim quanto para o meu pai- Parece que algo o impede de querer ficar comigo de vez.
—Vocês dois já conversaram sobre isso?
—Logan diz que não quer falar ainda, mas eu deixei bem claro pra ele que se ele quisesse falar algum dia, eu estaria pronto pra ouvir. –Assenti devagar pra mim mesmo- Seja o que for que ele estiver passando, eu quero ajudá-lo.
—Bom, pelo menos você deixou claro pra ele que quer ouvir o que ele tem a dizer. –Kenneth assentiu para si mesmo também. Eu dei um sorrisinho ao ver aquilo. Todos tinham razão quando diziam que eu era parecido com o meu pai- Quem sabe o Logan sabendo disso não dá mais coragem a ele pra te contar o que tá acontecendo com ele sobre esse assunto de relacionamentos?
—É o que eu espero... –Suspirei, sentindo meu corpo ficar cansado daquela posição: de pé, apoiando meu corpo com as mãos apoiadas na mesa. Puxei a cadeira de rodinhas pra perto de mim e me sentei- E então, a que devo a honra dessa vídeo chamada do Skype?
—Quero saber como está meu filho. –Meu pai deu de ombros- Além disso, soube das notícias sobre a filha do Griffin nos jornais principais do México durante meus shows por lá. Por mais que o Griffin tenha tentado abafar a notícia, parece que não deu muito resultado.
—É, foi um baque pra todo mundo. Mercedes era amiga de todo mundo por aqui. –Falei, ainda abatido. Ia fazer uma semana que ela tinha sido assassinada e todo mundo sentia essa aura de luto toda vez que tocavam no nome da Mercedes- Por causa do que aconteceu com ela, Griffin declarou estado de emergência a todas as garotas agenciadas pela Rocque. O clima por lá está bem tenso. O clima na cidade inteira está bem tenso. Nenhuma menina está se sentindo mais segura por aqui.
—E você tocou exatamente no assunto que eu queria falar. –Kenneth apontou um dedo em direção à câmera- Eu conversei com a Katie... Alguns dias atrás...
—Katie? Você falou com ela?—Eu me empurrei pra longe da mesa, as rodinhas da cadeira me levando para trás, um tanto indignado. Se Katie estava online há alguns dias e tinha conversado com nosso pai, por que ela não tinha me mandado um e-mail sequer? Ou me chamado no Skype?- Eu fiquei esperando ela dar sinal de vida praticamente desde que cheguei aqui.
—Ela tem estado ocupada se preparando para o programa de honra em Dartmouth, não tem tido muito tempo para estar online. E sim, ela me contou que foi aceita em Dartmouth. –Meu pai falou. Eu podia sentir o orgulho que saia de cada palavra dele naquele momento- Eu fiquei surpreso e feliz quando eu soube que ela tinha sido aceita em Dartmouth. Katie sempre foi esperta.
—Com certeza. –Concordei antes de balançar a cabeça e voltar ao foco principal da conversa- Mas vamos voltar até aquele outro assunto. Você conversou com a Katie?
—Sim, Kendall. Ela me contou que tem planos de te visitar durante as férias de primavera, ir te ver uma última vez antes da formatura e antes de ela ir para New Hampshire, mas estamos tentando convencê-la a não ir ainda.
—“Estamos”?
—Katie me contou que Jennifer também tem falado com ela sobre os ataques que estão acontecendo aí em Los Angeles. Parece que concordamos com o fato de que, nesse momento, California não é segura para ela. –Kenneth balançou a cabeça, um tanto preocupado- Por isso preciso da sua ajuda, filho.
—Com o que precisa de ajuda?
—Jennifer e eu conversamos muito sobre isso, e sabemos que Katie pode ser bem teimosa quando quer. Herança de família. –Meu pai deu um sorrisinho sem graça. Todo mundo dizia que os Knights tinham fama de serem teimosos, e isso não deixava de ser verdade- Ela respeita as decisões da sua mãe, claro, mas Katie pode convencê-la a deixar essa viagem para California acontecer, e eu sou meio culpado em dizer que não tenho muita moral para proibi-la de fazer algo, mesmo sendo o pai dela. Sua mãe e eu achamos que Katie pode te ouvir, talvez.
—Mas primeiro eu teria que conversar com ela, e ao que parece ela anda me evitando... –Suspirei, encarando a tela do computador.
—Tente ligar para ela, já que ela não tem tido tanto tempo online. –Kenneth deu de ombros- Mas sério, converse com a Katie, convença-a de que ela precisa ficar em Minnesota, pelo menos até a situação aí na California estar melhor.
Eu podia ver o olhar angustiado do meu pai enquanto ele me pedia isso. Eu engoli seco ao ver aquilo. Mesmo tendo feito o que fez ele ainda se preocupava com a Katie, com a minha mãe, comigo... Mesmo com ele tendo escolhido seu caminho...
—Eu vou tentar, pai. –Suspirei mais uma vez- Eu prometo.
—Obrigado, Kendall. –Meu pai sorriu, um pouco mais aliviado- Eu queria poder conversar mais com você, mas os meus agentes me marcaram uma entrevista em um talk-show aqui na capital. –Ele deu de ombros- Mesmo quando estou de folga, eles sempre querem me arranjar algo pra fazer. Se quiser seguir o meu caminho, tem que saber disso logo.
—Tudo bem pai. Eu também vou ter que sair daqui a pouco com o Logan. –Assenti, compreensivo- Nossas amigas vão fazer um jantar de noivado e nós fomos convidados.
—Por acaso são aquelas garotas que vi saírem do lounge de James Diamond no dia que fui te visitar? –Kenneth perguntou e eu confirmei, balançando a cabeça- Ah, sim. Elas conversaram comigo um minuto antes de eu entrar na sala. São garotas interessantes, em especial a morena.
—E, Camille causa essa impressão nas pessoas na primeira vez. –Eu sorri, me lembrando do tapa que ela me deu quando nos conhecemos- Bom, boa sorte no talk-show, pai.
—Boa sorte no jantar, Kendall. –Kenneth me desejou- E não se esqueça de conversar com a Katie, por favor.
—Não vou esquecer. A gente se fala em breve. –Meu pai acenou para a câmera antes de desligar a vídeo chamada.
Algum tempo depois eu e Logan estávamos no elevador, indo para o andar onde o apartamento de Jo ficava. Eu, devidamente arrumado com minha camisa verde, a calça social e Vans cinza escuro (o que ganhou um rolar de olhos do Logan quando me viu usando eles). Logan estava de camisa branca com um colete preto por cima, uma calça social preta e sapatos pretos (eu meio que mencionei que ele parecia um garçom. Ele deu um tapa no meu ombro e me mandou calar a boca). Eu fiquei olhando o reflexo dele nos espelhos do elevador, um tanto encantado com ele. Ele conseguia ficar lindo de roupa social.
—Eu sei que você tá me olhando pelo reflexo do espelho, viu? –Logan falou, sorrindo- Você também é outro que não sabe ser sutil, sabia?
—Ah, sei sim. Você é quem não entende minhas sutilezas. –Falei, ganhando uma careta de língua pra fora do Logan em troca.
—Tente se focar nas meninas hoje. –Logan falou, arrumando os botões do colete- Sei que você sempre tenta me lançar olhares vez ou outra, mas essa noite é da Jo e da Camille. Vamos dar atenção a elas como os amigos que somos.
—Eu te digo o mesmo, Logie. –Sorri de lado antes de virar meu rosto para o lado dele- Ou você acha que sou o único a ficar de olhares nessa história?
—Ao contrário de você, eu sei ser sutil. —Logan tentou virar o rosto, se fazendo de ofendido.
—Sim, claro. Não vou estragar sua fantasia, continue acreditando nisso... –Meu sorriso se ampliou quando o vi ficar vermelho. Me aproximei e beijei sua bochecha quente, que ficou ainda mais vermelha quando eu me afastei- Não se preocupa. Por enquanto é o que posso fazer. Não queremos uma sessão de amassos no elevador antes do jantar das meninas... Ou queremos? –Terminei, arqueando uma das sobrancelhas, com ar divertido.
—Não, não queremos. –Logan balançou a cabeça, tentando parecer firme- Depois chegaremos desarrumados e todo mundo vai perguntar o porquê e não sei se conseguirei responder sem gaguejar.
—Mais tarde, então? –Fiz uma carinha de cachorro pidão ao mesmo tempo em que as portas se abriam no oitavo andar, onde ficava o apartamento da Jo.
—Mais tarde. –Logan se virou e me deu um selinho rápido. Ele se afastou e me encarou fundo antes de sair do elevador- É uma promessa.
Eu sorri, fazendo uma dança da vitória mental antes de seguir para fora do elevador com Logan. Ele tinha prometido que ficaríamos juntos mesmo mais tarde, logo depois de comemoramos o noivado das nossas amigas. Eu não poderia estar mais feliz naquele momento.
Mal sabia eu que não teríamos o mais tarde daquela noite.
—Meninos, vocês estão lindos! –Jo nos elogiou assim que abriu a porta. Seu cabelo loiro estava todo ondulado e preso em um penteado meio preso, meio solto. A maquiagem estava bem leve, mas talvez fosse proposital para dar destaque ao vestido de seda azul royal que vestia- Vão entrando, sintam-se a vontade.
—Obrigado Jo. Você também tá incrível hoje. –Logan pegou a mão de Jo e a fez dar uma voltinha- Camille deve ter ficado sem palavras quando te viu nesse vestido.
—Que nada. Foi ela quem escolheu pra mim. – Jo deu de ombros- Nem ficou surpresa quando eu experimentei. Ela tem um olhar bom pra roupas e tudo mais, provavelmente ela já tinha me visualizado nesse vestido bem antes de eu mesma fazer isso.
—Falando em Camille, cadê ela? –Perguntei, olhando melhor o apartamento delas. Era quase igual ao apartamento que eu e Logan dividíamos, só que as paredes foram pintadas em tons mais terrosos, a cozinha era mais fechada e não era separada da sala com uma bancada como nosso apartamento era, e não tinha um tobogã amarelo gigante perto da escadaria. Tudo parecia ter sido comprado recentemente, mas também trazia um clima de que as coisas sempre tinham pertencido àquele lugar.
—Está no quarto, arrumando os sapatos. –Jo apontou a escadaria- Chegaram cedo, a gente nem teve tempo de ligar a música pra criar o clima de festa, dar uns últimos toques na decoração...
—Eu disse que a gente podia ficar mais um tempo de boa no apartamento. –Empurrei meu ombro de leve no ombro do Logan, chamando a atenção dele- A gente podia ter feito maratona de Kill Bill lá na sala, eu ficaria assoviando a música do assassino no seu ouvido toda vez que a Elle Driver aparecia...
—Eu só não queria me atrasar, só isso. –Logan me olhou por um tempo, um sorriso em seus lábios- Não que essa ideia sua possa ser ruim, o que com certeza não é...
—Estão dizendo que vocês deixariam de comparecer ao jantar de noivado das suas melhores amigas no mundo para fazer a maratona de uma duologia em 75% dos dois filmes é só sangue e desmembramentos? –Nossa atenção se voltou para Camille, que descia a escadaria, toda de vermelho. Seus lábios, perfeitamente cobertos pelo batom vermelho forte, se projetavam em um beicinho- Vocês não têm sensibilidade? Não têm coração?
—Bom... Quando você coloca desse jeito até parece que somos homens insensíveis e sem coração... –Falei, entrando na onda da Camille. Se nossa amiga queria ter drama, ela teria drama, mesmo que fosse de brincadeira.
—Mas a gente tá aqui, até chegamos cedo. –Logan abriu os braços, como que se mostrando. Aparentemente ele também estava tomado pela vibe dramática da Camille- Isso ainda nos torna insensíveis sem coração para você?
—Talvez não... –Camille pôs o indicador no queixo, como que ponderando algo- Até por que vocês estão aqui e estão muito elegantes e... –A morena nos analisava da cabeça aos pés e tinha parado de falar quando viu os meus pés. Eu quase comecei a rir, já sabendo do motivo- Ah céus, falei cedo demais. Vans com roupa social, sério mesmo Kendall?
—Exatamente o que eu pensei quando vi ele usando isso. –Logan falou, apontando meus tênis.
—Meu sapato social tá dentro do closet, e eu não queria ter que fazer mais uma odisseia dentro dele só pra achar meu sapato. –Dei de ombros, tentando justificar- Além disso, Vans é bem mais confortável, não fica apertando meu dedão o tempo todo.
—Quanta justificativa. Poupe saliva, Kendall. Não vai querer dar uns amassos no Logan com a boca seca depois, vai? –Camille falou, revirando os olhos, antes de olhar pra cara do Logan e rir. O moreno ao meu lado encarava seus sapatos, com as bochechas vermelhas- A julgar pela reação do Logan, acho que revelei os planos de vocês dois pra mais tarde, não é?
—Não é nada disso, Camille... –Logan falou baixinho, batendo a ponta do sapato no carpete do apartamento- Podia me dar um pouco de água pra beber, Jo?
—Nada de água hoje. –Jo cruzou os braços- A gente tem refrigerante, champanhe, vinho...
—Foi minha ideia. –Camille admitiu, meio sem jeito- Estamos em um jantar de noivado. Eu até aceito comemorarmos isso com refri, mas água? Simplesmente não.
—Qual é Mille, por favor... –Logan levantou o rosto e lançou seu sorriso mais charmoso para a morena à nossa frente- Não podia abrir uma exceção pra mim?
—Quando você pede assim... –Camille abaixou os ombros, fazendo um biquinho, como se estivesse admitindo derrota- Argh, você venceu. Agradeça por nós não fazermos o tipo um do outro, ou então eu total dava em cima de você, Logan Mitchell... –Camille pegou o pulso de Logan e o puxou até a cozinha. A cara dele de surpresa me fez rir um pouco.
—Você deixa ela falar assim perto de você? —Perguntei brincando para Jo, que sorriu de volta pra mim.
—Ela fala assim, mas sei que ela não fala tão sério. –Jo balançou a cabeça- Além disso, ela gosta de gente um pouco mais... Dominante, não sei... –Ela deu um sorrisinho cheio de mensagens subliminares- Não que eu diga que Logan não é tão dominante, ele poderia ser, se quisesse. Mas quem sou eu pra dizer isso? Eu não convivo com ele como um certo rapaz que parece ser meu gêmeo, não é não?
—Bom... A gente ainda não... –Fiquei meio tímido de repente. Admitir pra mim mesmo que eu e Logan não estávamos naquele patamar do nosso quase relacionamento era uma coisa. Dizer isso pra outra pessoa? Algo totalmente diferente- Nos não estamos... Tão longe assim, sabe? Eu estou disposto a ir no ritmo dele. Se ele quiser que a gente se oficialize, eu vou embarcar nessa junto com ele. Se Logan sentir que ele está pronto pra ir mais além... Quem serei eu pra negar isso a ele?
—Aaaai, cara, isso é muito fofo. E eu fiquei parecendo muito a Camille agora... –Jo riu baixinho antes de continuar- Mas você ainda não me respondeu, Kendall. Okay, eu sei agora que vocês nem chegaram nessa fase de contato mais íntimo, mas você já deve uma ideia de como ele é. Já estão há um mês morando juntos...
—Bom, às vezes ele toma a iniciativa nos nossos beijos, mas na maior parte do tempo sou eu quem começa o beijo.
—Hmmm... –Jo levantou a mão e seu indicador batia de leve no queixo- Você se incomodaria se ele fosse o ativo no relacionamento de vocês vez ou outra? –Meus olhos se arregalaram e comecei a tossir violentamente, por quase ter se engasgado com a minha própria saliva. Eu não vou mentir e dizer que nunca pensei na possibilidade, eu só precisava de preparo mental pra quando isso acontecesse algum dia.
—Se ele quisesse, acho que não teria problema. Embora quando eu me visualizo... Com ele... Desse jeito... –Eu quis me dar um tapa na cara. Eu parecia um garotinho de colégio falando da paixonite dele- Eu sempre me visualizei como ativo... Argh, como foi que a gente chegou nessa conversa mesmo?
—Acho que foi seguindo esse curso naturalmente. –Jo deu de ombros- Mas se eu te deixei meio sem graça com esse papo, eu peço desculpa. Mas nós somos amigos, e eu sempre tento ser direta e sincera quando falo com os meus amigos.
—Não precisa se desculpar, tá tudo bem. –Eu pus a mão no ombro de Jo, que sorriu- Além disso, fico honrado em saber que eu conto em sua lista de amizades. Você já sabe que está na minha, de qualquer maneira. –O sorriso da loira se ampliava enquanto ela assentia uma vez, como que me agradecendo. Tirei minha mão do seu ombro para que eu pudesse cruzar meus braços- Então... Depois de tudo que você me disse devo concluir que você é a dominante, não é?
—Argh, eu não quero falar disso! –Jo grunhiu antes de dar um empurrão de lado de brincadeira.
—Como não quer falar? Eu falei contigo sobre isso, agora eu quero saber...
—Então, onde está o resto do pessoal? –Logan entrou na sala com Camille do lado, ela segurando uma taça de vinho branco e ele segurando um copo de água pela metade- James, Carlos, Lucy, Steph, Dak, as Jennifers...
—Graças aos céus... –Ouvi Jo falar baixinho antes de falar com Logan- James e Carlos só virão mais tarde, acho que é algo de família ou algo do tipo, não entrei em detalhes quando eles me ligaram...
—Ah sim, eu lembrei. –Logan falou depois de ter terminado de beber a água- O pai do James está aqui em Los Angeles a negócios e queria um jantar em família com o James. Ele e Carlos provavelmente virão depois desse jantar.
—É. A Jennifer cacheada pegou uma virose e não tá se sentindo muito bem. A Jennifer loira disse que ia ficar no apartamento cuidando dela, então é só a Jennifer morena que vai vir hoje. –Jo tentou ser didática, explicando com os dedos- Lucy está no estúdio, trabalhando em uma música nova. Ela virá logo e trará biscoitos da sorte pra gente. Stephanie e Dak podem vir a qualquer minuto, então...
Um toque da campainha interrompeu o raciocínio de Jo. Camille saiu do lado do Logan e foi abrir a porta. Stephanie apareceu sorridente. Seu longo cabelo castanho estava preso em uma trança lateral. Seu vestido verde escuro se destacava, mesmo com o cardigã preto que vestia.
—Olha só, a gente mal fala no demônio e olha quem surge. –Camille falou ao mesmo tempo em que abraçava Stephanie.
—Devem estar falando mal de mim, não é?
—Ah sim, como sempre. –Camille assentiu séria, como se fosse verdade.
—Também amo vocês, meninas. –Stephanie sorriu, indo abraçar Jo.
—Como andam as coisas, Steph? –Perguntei, sinceramente preocupado. Nós tínhamos perdido duas amigas em menos de um mês. Era algo que, mesmo com uma celebração, não podia ser ignorado. E aquilo tinha afetado Stephanie quase mais do que a todos nós.
—Não posso dizer que são as mesmas, mas tudo está entrando nos eixos. –Stephanie falou, dando de ombros- Por incrível que pareça, toda essa dor e luto que estou enfrentando está me deixando mais inspirada pra escrever, e estou conseguindo ótimos capítulos para a história. Não que eu vá voltar a ser a mesma de antes, mas sei que falta pouco pra eu chegar a estar próxima de ser o que já fui.
—Bom, só não esquece de que a gente tá aqui, quando você precisar... –Logan falou, deixando a frase no ar. Stephanie suspirou e sorriu para ele.
—Valeu, Logan. –Steph falou antes de bater as mãos- Bom, eu tô com sede. Tem Coca Cola aí?
—Eu te mostro o caminho, viciada em cafeína. –Camille riu antes de guiar Stephanie até a cozinha.
—Hey, espera Mille! –Jo gritou e as duas pararam de andar- Steph, e o Dak?
—Tá em casa, estudando script. –Stephanie falou- Ele recebeu o script de um piloto de uma série no Freeform e tá dando uma olhada nele lá. Ele me pediu pra dar desculpas por não poder vir, mas ele deseja tudo de bom pra vocês.
—Tudo bem, eu entendo. –Jo assentiu- Além do mais, estou feliz por ele. Sei que ele tava fazendo testes de elenco sem parar depois que terminamos New Town High, ele merece isso.
—É, também tô feliz por ele. Mas claro, tem gente que quer atrapalhar ele a se concentrar nisso... –Steph revirou os olhos antes de voltar a seguir seu caminho para a cozinha, quando Logan falou.
—Como assim, Stephanie?
—Eu não sei se você sabe, mas a Lucy teve um ex-namorado que é um porre, e ele é amigo do Dak...
—Beau? –Logan perguntou, alerta de repente.
—É, de repente ele sabe... –Stephanie murmurou para si mesma- Enfim, Beau tava procurando meu irmão quando eu tava saindo. Eu mandei ele ir lamber sabão e incomodar outra pessoa, por que aparentemente ao contrário dele, meu irmão tem coisas a fazer. –E com aquilo, Stephanie se virou e voltou a seguir seu caminho em direção à cozinha.
—O que houve? –Perguntei a Logan, que ainda estava meio alerta.
—Lucy me falou desse cara, eles namoraram por um tempo. –Logan me olhou, um pouco mais calmo- Me disse que ele foi um completo idiota, e que ele continua sendo. Por que Dak seria amigo de alguém assim?
—É, acho que eu quero saber disso também... –Falei, meio que intrigado. Se Beau era realmente tão ruim assim para Stephanie e Logan falarem dele desse jeito, por que Dak ia querer ser amigo dele? Era muita idiotice.
—A gente pode saber disso tudo mais tarde? –Jo falou, colocando uma mão em mim e em Logan- Lembram-se, meninos? Estamos aqui pra um jantar de noivado, não pra sabermos por que Dak tem contato com gente chata que não merece nem que mencionemos o nome dele.
—Não gosta do Beau, é? –Perguntei a Jo.
—Odeio ele tanto quanto odeio o Jett. –Jo falou, a voz doce de garota se endurecendo como pedra- Jett pode feito muito mal a mim e a Camille, mas nunca espalhou boatos sobre mim por aí. Já Beau... Ele não só usou e magoou a Lucy como ainda tentou manchar a reputação dela por aqui. Lucy é uma das minhas melhores amigas, e eu sempre defendo meus amigos.
—Ela também te considera muito, sabia? –Logan falou enquanto nós nos sentávamos no sofá- Lucy me contou sobre todo esse drama sobre ela e Beau, e disse que você e James a defenderam durante esse tempo.
—Verdade. –Jo sorriu- Depois de mim, James foi um dos primeiros amigos que a Lucy fez aqui no Palm Woods. Se tem alguém em que ela confia mais até do que eu, com certeza é o James. E acho que você acabou de entrar nessa lista, Logan.
—Entrei?
—Se Lucy te contou sobre o lance dela com o Beau de livre e espontânea vontade, ela com certeza acha que pode confiar em você. –Jo deu de ombros- Esse tipo de coisa é algo que ela não divide com muita gente, você pode entender bem os motivos do por que ela conta...
Logan assentiu, um tanto pego de surpresa. Eu não estava errado quando eu disse a ele que o pessoal ia gostar dele. Claro que essa aproximação com Lucy foi algo repentino, mas se era algo real, se ela realmente queria ser amiga do Logan, quem seria eu pra impedir isso?
—Jo, podia me dizer onde fica o banheiro? –Logan perguntou depois de alguns segundos de silêncio. Jo deu um risinho.
—Claro. Subindo a escadaria, no corredor, a primeira porta a esquerda. –A loira falou, apontando a escadaria- E não se esqueça de abaixar a tampa quando terminar. Você está em uma residência de garotas.
—Não se preocupe quanto a isso. –Logan assentiu rapidamente antes de subir pela escadaria. Ouvi Jo rir mais uma vez, e me virei em direção a ela.
—O que foi?
—Nada. –Jo falou, tentando esconder o riso- Em uma coisa tenho que concordar com a Camille, se eu e Logan fôssemos héteros, eu poderia ver se tinha uma chance com ele. Cara, você arranjou um cara tão fofo...
—Hey, e quanto a mim? –Falei, fingindo de ofendido.
—Não me leve a mal, mas lembra do que eu te chamei há alguns minutos atrás? –Jo falou- Se eu não fosse um ano mais velha que você e tivéssemos os mesmo pais, seríamos gêmeos. E só o pensamento de namorar contigo... Além de fato de não funcionar, vai parecer que estou namorando meu irmão. E essa ideia não é tão boa pra mim. Você é bonitinho, não leve isso a mal, mas nós dois? Não daríamos certo juntos mesmo.
—Não levo isso a mal. –Falei- Acho que também não daríamos certo como um casal, se fosse possível. Como uma namorada em potencial, você dá uma amiga fantástica.
—Então, o que perdemos? –Camille voltou para a sala, com Stephanie ao seu lado, as duas com copos de refrigerante em mãos- Onde esta o Logan?
—Foi para o banheiro. Já ele volta. –Jo se arrastou um pouco para o lado, para dar espaço pra Camille se sentar do lado dela- Estávamos falando sobre o lance de Lucy e Beau.
—Ainda falando dele? –Stephanie revirou os olhos- Não tem assunto melhor não? Se vamos falar de falsianes, por que não falamos sobre Zayn Malik? Ele é mais famoso, mais bonito e mais talentoso do que aquele Napoleão...
—Napoleão? –Perguntei, confuso.
—Longa história. –Camille balançou a mão, como que tentando deixar aquele assunto de lado- Mas se quer realmente saber disso, pode perguntar pra Jennifer morena quando ela chegar aqui. Ela vai adorar te explicar sobre isso.
—Gente...? –Logan apareceu, no topo da escadaria, descendo com o celular na mão- Lucy me ligou. Ela quer que eu a busque no estúdio. A prima dela ligou pra ela e disse que não poderia levar ela pro restaurante, hoje tá cheio por lá... Enfim, Lucy me ligou e perguntou se eu podia ir lá e eu disse que sim. Tem algum problema?
—Claro que não. –Levantei, indo em direção à escadaria- Quer que eu vá junto?
—Não é preciso, Kendall. Sabe como Lucy é quando o assunto é ser protegida por um homem. –Logan me olhou, me fazendo lembrar do que tinha acontecido na business room do hotel. Lucy surtando por causa do plano frustrado dos agentes e da ideia de ser a donzela em perigo que depende da segurança de um homem- Ela me chamou por que sabe que eu não a impediria de ser o próprio príncipe que a salvaria. Eu só vou ser o motorista, só isso.
—Citando Utena, Logan? –Jo falou, lá do sofá- Meu respeito pro você só aumenta, sabia?
—Mas o quê...? –Perguntei confusa, mas chacoalhei a cabeça. Eu procuraria saber disso mais tarde- Enfim, pode ir, mas volte logo sim? –Falei, dando um beijo na testa dele. Eu pude jurar que ouvi alguns “awns” abafados das garotas, me fazendo sorrir contra a testa de Logan- Sabe onde ficam as chaves do carro, não sabe?
—Claro que sim. –Logan assentiu, um tanto tímido- Eu volto logo.
Logan engoliu seco por um segundo, olhando em meus olhos antes de sair em direção à porta, dando um tchau apressado para as meninas. Fiquei um tempo olhando para a porta, mesmo depois que Logan a fechou. Ouvi as meninas dando risadinhas atrás de mim. Me virei e vi Jo e Camille, se entreolhando e rindo, enquanto Stephanie colocava a mão na boca, tentando abafar o riso.
—Não entendi nada. Que piada eu perdi?
—Piada nenhuma... –Jo falou, tentando se recompor- É que você e o Logan sendo um quase casal, todo fofo, e você sendo protetor com ele...
—Atingiu nosso ponto fraco. –Camille falou, dando um gole em seu refrigerante antes de voltar a falar- Casal em começo de namoro é uma graça, e a gente não resiste a isso.
—Ainda não somos um casal. –Lembrei as meninas. Ainda, minha mente ecoou. Temos que melhorar um pouco mais nisso, Kendall...
—Mas estão quase. –Stephanie falou, finalmente recuperada- Além disso, eu não estava rindo da fofura que vocês dois estavam. Estava rindo do Logan. Fala sério que não percebeu que ele ficou todo envergonhadinho quando você beijou a testa dele na nossa frente?
—Eu percebi. –Camille levantou a mão- Eu te falo, quando a gente acha que o cara não pode ser mais fofo, ele me vem com mais essa. –Ela sorriu, antes de apontar o dedo pra mim- Escute aqui, Kendall Knight. Se você não arranjar um jeito de oficializar as coisas com o Logan, eu darei um jeito de me tornar hétero pra ficar com ele, entendeu?
—Receio que o Logan não goste do que nós temos, Mille. –Jo falou- Não importa o quanto você seja linda, meu amor, se você tem estrógeno ao invés de testosterona correndo pelo seu corpo ele provavelmente não se interessará muito por você.
—É, nisso você tem razão. –Camille murmurou- Além disso, não sei se o Logan conseguiria ligar comigo como você lida. Entendam como quiser. –Ela falou a última parte em alto e bom som para nós. Stephanie voltou a rir junto com as meninas e eu ri um segundo antes de voltar minha atenção à porta. Eu não conseguia deixar de pensar que tinha algo de errado no ar, mas não sabia bem o que era. Mas de qualquer modo, achava que era nada de mais. Logan só tinha ido buscar Lucy, e eu sabia que, de algum modo, os dois sabiam se virar sozinhos se algo acontecesse. Eles iam voltar logo. Não havia com o que se preocupar.
POV Geral
—Lucy, vamos? –Kiang Mishida, prima de Lucy, arrumava a franja azul atrás da orelha enquanto apontava a saída do estúdio- Ainda dá tempo de passarmos no Silver Dragon pra pegarmos os biscoitos para os seus amigos. Posso pedir ao Lao pra fazermos alguns onigiris pra comermos no caminho do Palm Woods, que tal?
Lucy olhava a porta de vidro do estúdio enquanto fechava. Ela estava dividida entre ir no jantar de noivado de Jo e Camille e não ir. Ela sempre foi amiga das garotas, desde seus primeiros dias na California. Caramba, Jo e Camille foram as primeiras amigas que ela tinha feito no Palm Woods (embora o começo da história delas não tenha sido a coisa mais amistosa de todas). Foi Jo, junto com James, que a defendeu e restaurou sua honra com todo o incidente do Beau. Lucy devia isso a Jo, por tudo que ela tinha feito para a oriental durante esse tempo. Mas ela ainda não aguentaria ficar lá por muito tempo. Ver tanta felicidade em um lugar e saber que ela não teria aquilo... Doía demais no peito de Lucy, embora ela não admitisse.
—Ki, acho que não consigo...
—Bobagem. Consegue sim, Lucy. –Kiang colocou a mão no ombro da prima- Você passou esses anos todos suportando isso muito bem. O que é mais uma noite?
—Fácil você falar. Você não tá na minha pele, não é? –Lucy falou, um tanto amarga, dando a última volta da chave na fechadura antes de guardá-la no bolso da calça e se virar, indo em direção ao elevador.
—Está certa. Não tô na sua pele. –Kiang falou- Mas eu sei de uma coisa. Antes de mais nada, ela é sua amiga. Dói ver ela com outra garota que não seja você? Claro que dói. Ver ela feliz com alguém que não seja você vai te transformar em caquinhos espalhados no chão. Mas você tem que seguir em frente, esquecer essa dor. Ainda vai doer quando você ver elas juntas e felizes, mas isso é um processo lento. Quanto mais você deixar o que sente por ela pra lá, mais fácil vai ser pra você se libertar dessa dor.
—Eu não acho que vou conseguir deixar o que sinto por ela pra lá, Kiang. –Lucy suspirou, apertando o botão do elevador.
—Então vai ter que aprender a amar ela de um outra forma. –Kiang mordeu o interior da bochecha- Ame ela como você ama o James, ou como aquele amigo que te ligou há pouco.
—Logan? –Lucy perguntou.
—É. Ele é seu amigo, não é?
—Acho que sim. –Lucy sorriu ao pensar no texano. O garoto podia ser bem calado às vezes, mas ela sentia que podia confiar nele, mesmo com sua intuição gritando que ele tinha algo escondido. Algo que ela não sabia se queria descobrir o que é. De qualquer forma, Lucy sentia que podia confiar em Logan. E tudo que ela queria era que Logan pudesse confiar nela também- Você tá certa. Quer dizer, eu já a amo como uma amiga, não é? É fácil converter tudo isso que sinto por ela em 100% amizade, não é? Não pode ser tão complicado...
—É assim que se fala. –A garota da franja azul sorriu, enquanto entrava no elevador com Lucy e apertava o botão do térreo- Então, pronta para ir ao jantar de noivado?
—Pronta nunca vou estar, –Lucy suspirou, vendo as portas do elevador se fecharem- mas eu vou sim.
Lucy e Kiang saíram do prédio da Rocque Management esfregando os braços. Aquele frio que estava fazendo no sul da California era muito atípico, e tem acontecido há tanto tempo que elas se perguntavam se alguma tempestade tropical ou algum tornado ia passar por lá, pra estar tão frio daquele jeito. Kiang se abraçou, esfregando suas mãos nos braços devagar, enquanto Lucy, com sua inseparável jaqueta de couro, nem parecia sentir o vento frio. As garotas olharam para os seguranças que estavam na frente da Rocque, com ar sério e imponente. Desde que Griffin dera ordens para que todos os artistas da agência tivessem proteção, não havia tido um dia sequer que a frente da agência não estivesse com pelo menos um segurança ali. E aquilo incomodava Lucy. Não só pelos motivos óbvios –ela não escondia de ninguém que achava meio um absurdo ser tratada como uma boneca de porcelana ou uma donzela em apuros esperando o príncipe encantado salvá-la. Ela tinha 24 anos, pelo amor de Deus. Ela já deixou de acreditar em contos de fadas ou no que diziam que garotas eram inferiores aos garotos há muito tempo–, ela não gostava daquilo por que dava a certeza pra todo mundo de que a Rocque era um lugar nada seguro. Dava a certeza de que quem fosse associado à agência não estava seguro.
Kiang tinha dado a ideia de irem para o The Silver Dragon a pé. Afinal, de lá da Rocque até o restaurante eram poucos quarteirões, não precisavam chamar um táxi nem nada do tipo. Ainda assim Lucy não conseguia deixar de sentir que tinha algo de errado no ar. Por um segundo ela lamentou o fato de ter deixado sua guitarra em formato de machado duplo em casa, sem saber direito o porquê.
Lucy sentiu seu telefone vibrar de novo. Ela puxou e viu a tela brilhando, com o nome “Logan” aparecendo no visor. A garota desbloqueou a tela, deslizando o dedo e atendeu o telefone.
—Oi, Logan.
—Cadê você? Ainda tá na Rocque? –Logan perguntou, um tanto ansioso. Ao que parecia pelo ruído de fundo, ou ele estava falando fora de algum lugar ou estava falando e dirigindo, o que deixou Lucy um tanto tensa.
—Tá dirigindo? –Lucy perguntou, meio séria, meio brincando- Sabe que você pode levar uma multa se te virem dirigindo e falando no telefone ao mesmo tempo, não é?
—Você ainda tá na Rocque? –Logan perguntou mais uma vez, ignorando a pergunta de Lucy.
—Eita, tá estressado hoje. –Lucy revirou os olhos- Eu não tô mais na Rocque. Tô indo pro Silver Dragon com a Kiang.
—Droga... –Logan murmurou no telefone- Eu disse pra me esperar, que eu ia te buscar pra te levar pro Palm Woods.
—E eu disse que não tem com o que se preocupar, bonitinho. Eu e a Ki estamos bem, não tem com o que surtar... –Lucy se virou, para olhar Kiang que tinha ficado atrás dela, quando sentiu seu telefone ser tirado à força da sua mão e jogado com tudo no concreto, a tela se quebrando e pedacinhos do vidro se espalhando no chão.
—Me desculpe, gatinha, mas seus créditos acabaram... –Uma voz, que pertencia ao homem que havia quebrado seu telefone, falou antes de tapar a boca de Lucy e tentar imobilizá-la. Lucy pensou por um segundo e chutou com toda sua força na canela do homem. Ele a soltou, gritando algo incompreensível enquanto envolvia a canela dolorida entre suas mãos, e Lucy tentou correr, mas não conseguiu ir muito longe. Um outro cara, mais adiante, havia capturado ela, e antes que ela pudesse chutar a canela dele também (ou outra coisa que pudesse doer ainda mais, se a sorte estivesse ao favor dela), sentiu algo a perfurando na lateral da barriga. O grito de Lucy fizera a própria garota congelar de medo. Ela caiu encolhida e de joelhos, as mãos segurando onde ela havia sido esfaqueada, sentindo as lágrimas de dor rolar pelas bochechas e o sangue quente e fresco sair pelo corte na barriga.
—Tinha mesmo que esfaquear ela, cara? –Um dos garotos, o que segurava Kiang já amordaçada, perguntou parecendo um tanto contrariado.
—A vadiazinha mereceu, por tudo o que tive que passar com ela. –O homem que esfaqueara Lucy falou, uma satisfação doentia se revelava no tom da sua voz.
—Eu disse que você se sentiria bem se fizesse isso, não disse? –Uma outra voz, mais forte e deliciada com a cena à sua frente, falou- Agora se quiser fazer o serviço completo, a escolha é sua.
—Não precisa fazer isso. Ela já teve sua lição, não teve? –O outro garoto falou, ainda tenso.
—Me desculpe caro amigo, mas não podemos nos dar ao luxo de termos uma garota viva para nos entregar. –A voz forte daquela vez falou- Já não basta termos perdido Beauford daquela vez e deixarmos a garota viva. A sorte é que essas máscaras nos protegem, então a putinha nem faz ideia de quem a atacou.
—Eu já tô ficando entediado aqui. –Uma nova voz, mais insolente, falou- A gente não pode só matar as duas, ter nossa diversão com elas e ir embora?
—Não poderia ter dado uma sugestão melhor. –O de voz forte concordou, deliciado- Só de ver a toda poderosa feminazi ali sangrando no chão já faz o meu sangue descer pro pau.
—Hey, ela é a minha vingança, lembram? –O homem falara, e uma pequena parte de lucidez que parecia perdida entre a dor fez Lucy reconhecer a voz do cara. E a descoberta fez a dor se multiplicar dentro dela.
—Ninguém aqui discorda disso. Lucille é toda sua. –O homem riu, sádico- Eu e meu amigo aqui podemos ter nossa própria diversão com a priminha vagaba dela.
—Obrigado. –O outro cara falou antes de andar em direção a Lucy, encolhida no chão, tentando não sentir tanta dor, mas era impossível. Ela sentiu algo puxando seu cabelo bem rente à raiz e puxá-lo pra cima. Ela gritou mais uma vez enquanto o cara dava um risinho- Sempre me disseram que feminista se cura com rola. Vamos descobrir se isso é verdade, querida?
Lucy tentou falar algo, mas sentiu a mão em seu cabelo jogá-la com força pra trás. Sua cabeça bateu com força no concreto, mas não forte o bastante para desacordá-la. A dor da batida fez Lucy gritar ainda mais, quando ela sentiu um tapa forte em seu rosto molhado de lágrimas. Ela odiava aquela situação toda. Aqueles garotos falando dela e de Kiang como se elas fossem simples pedaços de carne dispensáveis. A dor que sentia –do corte em sua barriga, do puxão que quase arrancara seu cabelo, da batida da cabeça no concreto, da humilhação e da raiva por estar naquela situação– fazia a tarefa de pensar ser quase impossível. Tudo o que Lucy ouvia era Kiang, gritando e chorando, implorando ajuda a Lucy, a qualquer um que pudesse passar por lá, e o som agoniante de lâminas contra carne, repetindo-se muitas e muitas vezes.
Lucy sentiu a lâmina fria da faca roçar contra seu corpo e achou que logo teria o mesmo destino de sua prima, quando sentiu a faça cortar sua camiseta e sutiã em um movimento só. Ela engoliu seco antes de voltar a chorar por causa da dor. Ela sentia suas pernas leves, como se tivesse perdido o controle delas. Lucy não tinha certeza de quanto sangue ela havia perdido, mas para ela estar sentindo seu corpo leve demais, com certeza estava perdendo muito sangue. Enquanto o homem em cima dela cortava suas roupas lentamente, Lucy percebeu que os gritos de Kiang pararam enquanto sons molhados de estocadas e gemidos aumentavam. A bile começava a subir pela garganta de Lucy enquanto sentia a faca cortando sua calça e uma mão agarrando seu seio esquerdo com tanta força que a garota gritou mais uma vez de dor.
Um estampido se ouviu, do nada. Além do eco do tiro, só se ouvia o lamento de Lucy, que agora podia ser ouvida. Ela estava de olhos fechados –ela não queria ver aquele momento acontecer. Não queria ver seu próprio estupro. Ela só desejava morrer–, então ela não viu tudo o que estava acontecendo ao seu redor. Ela sentiu o cara sair de cima dela e se levantar. Os barulhos de sexo perto dela haviam parado também, e agora eram substituídos por passos lentos e perigosos.
—Ora, o grande e belo herói veio salvar suas donzelas, é? –O tal homem da voz forte falou- Uma pena que chegou tarde demais. Uma já foi, e a outra não vai demorar muito, então se nos der licença, vamos terminar o que começamos, sim?
Outro tiro foi ouvido. Um som de corpo caindo no chão se seguiu depois disso, junto com muitos passos correndo. Lucy abriu um pouco os olhos, tentando respirar em meio à dor que sentia. Perto dela havia o corpo de um dos homens —em sua mente torturada pela dor, ela torcia para que fosse o cara que ela estava pensando—; um pouco mais longe, ela reconheceu o solado das botas de Kiang. O corpo dela não se mexia, não dava sinais de que estava respirando, nem ao menos devagar. Lucy sentia o cheiro metálico e quente do sangue –dela, de Kiang, do homem– no ambiente. Ela fechou seus olhos mais uma vez, tentando pensar diante da dor e da possibilidade de que poderia morrer ali mesmo.
Ela não sabia ao certo quanto tempo ela estava ali, tentando conviver com a dor, ou quando exatamente ela havia desmaiado com a dor. A última coisa de que Lucy se lembrava antes de apagar era ouvir mais alguns passos, indo em direção a ela. Os braços do dono daqueles passos a pegara devagar, tomando cuidado de não tocar onde ela havia sido esfaqueada. Uma voz, baixa e triste, falava com ela enquanto afastava um pouco de seu cabelo da testa molhada de suor.
—Não se preocupe, Lucy. Eu tô aqui, tá tudo bem... –O dono da voz havia a levantado e andado com ela por algum tempo. Ela tentou abrir os olhos e ver quem era, mas não conseguia distinguir quem era. Ela também tinha a impressão de saber quem era o dono da voz, mas sua cabeça estava embaralhada pela dor e pela estranha dormência que sentia pelo corpo. Ela começou a cair na inconsciência, mas não sem antes ouvir mais uma vez a voz que a salvara- Você não vai morrer hoje...
POV Kendall
Eu me sentia meio esquisito em estar em um lugar cheio de garotas. Pode até brincar e dizer que é coisa de garoto gay, se sentir estranho por estar rodeado de garotas, mas isso acontecia comigo antes mesmo de me descobrir como gay. Garotas e seu universo particular eram coisas desconhecidas pra mim. Se pelo menos Dak não tivesse seu script pra estudar hoje, ou se James e Carlos já estivessem aqui, eu não me sentiria tão deslocado.
A Jennifer morena tinha chegado minutos antes de Logan sair, e logo engatou em uma conversa animada com Camille. Ao que parecia, Jennifer também tinha conseguido um papel de figuração em Girl Meets World, e as duas estavam ansiosas para o dia das filmagens. Jo estava ouvindo Stephanie falar sobre a provável sequência de sua história, se ela virasse um best seller. Okay, nessa conversa eu estava interessado. A história de Steph realmente tinha potencial e eu mal podia esperar para que ela publicasse logo, eu estava curioso e doido pra ler.
Stephanie estava contando sobre a rainha pirata e o papel que ela poderia desempenhar na sequência quando ouvi o meu celular tocar. Vi a foto do Logan na tela –uma foto que tirei quando ele estava distraído, escrevendo naquele caderno dele. Ele estava tão bonito que não consegui evitar em tirar uma foto– e desbloqueei, com um meio sorriso de lado no rosto.
—Oi Logie. Você e Lucy já estão chegando? –Perguntei- Ser o único garoto em um apartamento cheio de garotas pode ser o sonho de muito marmanjo, mas no momento me parece meio um pesadelo.
—HEY! –Ouvi as meninas protestarem todas de uma vez, fazendo meu sorriso se ampliar.
—Kendall... –Ouvi a voz do Logan no outro lado da linha. Estava falhando, como se ele tivesse corrido ou chorado, e havia algumas vozes e bipes no fundo da ligação. Meu sorriso morrera na hora- Eu estou no Hospital Geral de Los Angeles. Avise a todo mundo aí. Lucy foi atacada e está correndo o risco de morrer nesse momento...
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