The Revolution
1 Capítulo 1
Eu pego a bola, e jogo outra vez para a criança de sete anos assustada na minha frente.
–Vamos, Billy, você vai conseguir. -Ela joga outra vez a bola para mim, e eu jogo outra vez para ela e dessa vez ela consegue rebater e jogar para mim em menos de dez segundos, sem deixar a bola cair no chão. Eu pego a bola e sorrio para ela. -Viu? Você viu o que fez agora que você não fez antes? -Ela balança a cabeça. -Você deixou as mãos na altura certa, e não mexeu elas quando eu joguei pra você. Você está calma, é isso que tem que fazer nos próximos exercícios com a bola, tudo bem? -Ela assente, depois bota os cabelos para trás. Eu olho o relógio do ginásio e está marcando que nosso encontro vai acabar daqui a cinco minutos. Depois de botar para trás, ela puxa um elástico e prende os cabelos lisos, já que nosso exercício começou a nos esquentar, e eu vejo partículas de suor na testa dela. -Ei, vem cá, senta aqui. -Eu digo, e nós vamos até o banco amarelo, encostado na parede do ginásio.
–Eu vou passar no exercício? -Eu consigo ouvir o medo por trás da voz inocente da garotinha sentada do meu lado. Passo meu braço pelos ombros dela, e a puxo para mais perto.
–Vai sim. Vai ficar tudo bem.
–Minha avó morreu ontem. -Perdi a conta de quantas pessoas, crianças, adolescentes, e adultos, já me disseram isso nos últimos meses. Ainda me aperta o coração, mas não há nada que eu possa fazer para impedir essas coisas de acontecerem.
–Fizeram um memorial para ela na Área Azul?
–Ainda não.
–Não se preocupe. Vou providenciar. -Ela assente. A Área Azul é o lago da nossa base, onde eles jogam os mortos. Um cemitério custaria mais mão de obra, que nas últimas semanas, vem acabando, já que nossas tropas ainda não conseguiram novos recrutas dos Condados vizinhos. É o único lago da base, mas nós não temos permissão para mergulhar nele, como podíamos quando ele ainda não era a Área Azul e muito menos um lago da base. Ninguém reclama disso, até porque, seria estranho, nadar e de repente achar o corpo do seu pai ou mãe ou vizinho ali, de olhos fechados e apodrecendo. Não seria uma boa experiência para ninguém.
O bipe do relógio soa, e Billy me abraça antes de caminhar de volta para a barraca da família dela. O relógio mostra que são oito horas da noite, mas parece muito mais, já que estou cansada. Duzentas crianças passaram pelos meus exercícios hoje. Apenas cento e trinta passaram. Não gosto de pensar no que acontecesse com as outras. Porque se penso, vou chegar a conclusão que as matam, e se as matam, foi porque eu não as deixei passar, e assim, as matei. Realmente não gosto de pensar nisso. Billy passou. Nas últimas semanas ela acabou pegando mais bolas e subindo mais pedras que o normal, ou seja, um progresso. Levanto e vou seguindo meu caminho para a minha barraca. O caminho é pela grama, porque como eu tiro meus tênis, estou descalça, e as pedras machucam meus pés mais do que os calos.
Antes da Revolução começar, eu era jogadora da liga de vôlei de Chicago. Liga júnior, mas mesmo assim, era a a liga mais conhecida de Chicago. Eu não sei onde estão todas as minhas colegas, mas algumas delas eu ainda vejo raramente, trabalhando seus próprios trabalhos. Meu pai era rico, e minha mãe uma fiel esposa. Nós éramos felizes, e eu achava que, como meu pai tinha dinheiro, nada disso aconteceria comigo. Eu não precisaria trabalhar o dia inteiro para ensinar crianças a pegar bolas, para futuramente, se desviarem de bombas explosivas com a mesma facilidade. Eu não precisaria emagrecer cinco quilos nas primeiras semanas porque ninguém arranjava comida para mim. Eu não precisaria passar pelo Quebra-Ossos toda vez que reprovasse a filha de algum dos líderes. Mas agora é assim. Alguém quebra minha perna toda vez que eu deixo reprovar uma garota rude e mal educada que se recusa a segurar uma bola. Eu me pergunto se eu era assim antes. Só porque meus pais tinham dinheiro. Me pergunto se eu era detestável do jeito que aquelas garotas são. Eu espero que não.
Como eu era da liga júnior, eu conhecia quase todo mundo de Chicago. Porque eu saia bastante, e jogava em muitos lugares, e era boa naquilo. Por isso me escolheram para esse trabalho. Porque todos me conhecem, e assim, todos confiam em mim. E porque eu sei mexer com bolas. Eu sou a treinadora oficial para os Ataques. Minha melhor amiga cuida da Defesa, mas raramente precisa botar seus ensinamentos em prática, porque as pessoas do Outro Lado não atacam. Nós dizemos outro lado como se fosse um nome próprio porque depois de um tempo, ele realmente se tornou. Não conheço o território inimigo, mas pelo que dizem, é mau. Mas, depois que você vive por aqui por algumas semanas, o que é mau e certo não parecem mais tão diferentes.
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