Notas iniciais
Capítulo para todo mundo, mas em especial para Veloi Arender, que recomendou a fic. Agradeço, de coração, pela recomendação e pelos reviews! Não só dele, como também de todos vocês *--* [E aos leitores fantasmas também, mas isso é outra história ;D]
Beijos e boa leitura!

Michael estava meio sentado e deitado no sofá, os olhos cravados no livro em seu colo, lutando contra o sono. A cabeça latejava insuportavelmente, e, apesar de todos os esforços do rapaz, um longo bocejo escapou. Pendeu a cabeça para trás, apoiando-a nas costas do móvel, fechando os olhos lentamente, suspirando. Pensava demais em tudo que vinha acontecendo nos últimos dias, e isso só lhe dava dor de cabeça.

E então a campainha tocou, sobressaltando o loiro.

Trincando os dentes, Witting se levantou, deixando seus materiais no meio das almofadas, indo até a porta e a abrindo. Ligeiramente surpreso, observou a ruiva à sua frente, tentando entender os motivos que a haviam levado até sua casa.

Porque Alanis Tranks, sua ex-namorada, não ia visitá-lo desde o dia em que mataram o canário de Gwen.

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Dean abriu o porta-malas em silêncio, e, assim como Sam, pegou uma pá. Por precaução, também o pote de sal e o álcool. Não era nenhuma surpresa ter que abrir mais um túmulo, e, mesmo não tendo a certeza de que era um espírito, queimar alguns ossos. Apenas por garantia de riscos potenciais, eles checariam o corpo.

Corpo. Era uma palavra quase estranha demais numa situação como aquela. Não encontrariam uma pilha irreconhecível, formada por restos humanos, porque não fazia nem três meses que a menina estava morta. Encontrariam um corpo que começava a se decompor, mesmo que de maneira lenta. Carne, sangue, cabelos.

Winchester respirou fundo, e virou-se para o irmão caçula.

— Vamos?

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— O que você quer, Tranks?

O loiro a encarava severamente, os braços cruzados na altura do peito, o cenho franzido em preocupação. Alanis havia simplesmente entrado na casa, como se morasse ali, e era justamente aquela atitude arrogante que o incomodava profundamente. A garota se virou para encará-lo com um sorriso, mexendo no cabelo curto, enrolando os fios lisos com a ponta dos dedos. Parecia uma criança, mas o brilho em seus olhos amendoados contradizia essa afirmação. Quando Tranks se aproximou, Michael ficou tenso, mas não a empurrou para longe.

— Eu gostava mais da época em que você me chamava de Al. — a ruiva sussurrou, o hálito fresco fazendo cócegas em seu rosto.

— Isso... — Witting gaguejou quando ela deslizou as mãos por seu peito. — Isso é passado, Alanis...

Não sabia com exatidão a quem tentava enganar: ela ou si mesmo. Ele precisava de carinho, precisava de atenção. Queria esquecer todo o sofrimento pelo qual vinha passado, e, acima de tudo, camuflar aquela dor. Mesmo que apenas com sensações momentâneas, mesmo que fosse se sentir pior depois. Só queria esquecer os problemas por algum tempo.

— Eu vou te mostrar que não acabou.

Quando os lábios da moça encontraram os seus, Michael cedeu. Mesmo que internamente decepcionado consigo mesmo, ele permitiu que Tranks enroscasse os dedos em seu cabeço, ele permitiu que ela o tocasse daquela forma. Queria proximidade, queria contato. Queria que Alanis o envolvesse daquela forma em seus braços, e o beijasse exatamente daquela maneira.

Arrepender-se-ia na manhã seguinte, quando acordasse, mas, naquele momento, a única coisa que realmente desejava era esquecer todo o restante.

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Dean finalmente bateu a pá na madeira, e suspirou aliviado. Mesmo fazendo aquilo a vida inteira, seus músculos queimaram em protesto logo que começou a escavar, e aquela sensação não era das melhores. No geral, Sam o ajudava, mas, naquele instante, o mais novo estava concentrado tentando estancar o sangue da recente ferida na perna. Porque, sabe-se lá Deus como, enquanto procuravam pelo túmulo de Gwen, o moreno escorregou num montinho de terra recentemente remexida e molhada, e caiu. Nesse meio-tempo, cortou a região da coxa, por causa de uma garrafa quebrada, provavelmente abandonada ali por um grupo de adolescentes irresponsáveis e baderneiros.

Com toda a certeza, aquele não era seu dia de sorte.

— Sam.

O tom alerta do mais velho deixou-o imediatamente apreensivo, e o moreno se curvou um pouco para encará-lo, ainda pressionando a gaze sobre o corte na perna. Por pura ironia do destino, ou azar, o jeans estava rasgado o suficiente para não precisar dizer adeus àquela calça ali mesmo, no cemitério.

Seus olhos encontraram os do irmão, e ver o choque ali refletido foi uma surpresa e tanto. Ao olhar mais para baixo, para o caixão, porém, logo compreendeu o motivo.

E Dean declarou, num tom tão frio que pareceu tornar tudo infinitamente mais complexo:

— Está vazio.