The Reckoning

1 Capítulo único


Notas iniciais
Como já foi citado, essa oneshot faz parte do Desafio de Junho e Julho. Aviso logo que não encontrará a garotinha principal, frágil e delicada, sempre esperando o seu superman salvador. Não! Embora ela saiba fingir isso perfeitamente, esse não o tipo de personagem que encontrarão por aqui. Boa leitura.

Melissa Summers passou pelo portão com a maior velocidade que pôde, deslizando-o silenciosamente para fechar em seguida e trancando o cadeado com um click. Correu para dentro de casa sem acender nenhuma luz, ainda dando a entender que não tinha saído dali durante todo o dia. Trancou a porta e passou a trava antifurto, correndo andar à cima ainda sem acender qualquer luz que indicasse ação no andar de baixo de sua casa. Só acendeu algo quando já estava em seu quarto, ligando a luz dali e indo para o banheiro. Deixou a televisão funcionando como já vinha acontecendo desde que saíra de casa às onze da manhã.

—Hey amiguinho. — Ela acariciou o gato totalmente preto de olhos verdes brilhantes que se encontrava estendido em sua cama de casal. — Sim, foi tudo ótimo, obrigada por perguntar. Ocorreu tudo dentro do planejado... Sim, eu sei que sou ótima com isso. Obrigada, eu também adoro você. — Ela pegou na primeira gaveta de sua mesinha de cabeceira um pacote de biscoitos Stropwafell, os melhores biscoitos holandeses já inventados, em sua opinião, e o abriu pegando os cinco primeiros biscoitos, faminta colocou o primeiro direto na boca, mastigando satisfeita enquanto deixava que alguns farelos caíssem propositalmente sobre a sua cama, nada nojento, apenas para completar a cena. Foi para o banheiro mastigando o quarto biscoito, permitindo-se acender a luz e se olhar no espelho. Estava toda de preto, como requeria a ocasião e mantinha um sorriso enviesado nos lábios. Poderia ser considerado um sorriso matreiro, de quem flertava, mas ela sabia o que aquele sorriso significava: Ela estava feliz. E para isso era quase obrigatório que alguém estivesse chorando.

Sorriu ainda mais pelo pensamento e ligou o chuveiro, aquecendo a água enquanto se despia. Procurou pela calça e pela blusa de manga cumprida qualquer coisa que pudesse incriminá-la, sangue, fios loiros ou grisalhos, talvez pedaços de carne de sua vítima... Nada. Ótimo, mas ainda assim aquela roupa iria para o fogo em pouco tempo. Era melhor pecar pelo excesso.

Entrou decidida debaixo do chuveiro, assim como fazia tudo na vida, suspirando enquanto a água quente relaxava e acalmava seus músculos tensos. Ela estivera na espera e arquitetando aquele plano por muito tempo. Já era hora de relaxar. Não demorou muito para que as cenas de mais cedo invadissem seus pensamentos em flashes. Ela já estava mais do que acostumada com tudo aquilo, mas agora a sensação era de dever comprido. Roland Bjorck. Grisalho, barriga de chope, sorriso de tarado. Sueco. Advogado porta de cadeia na Suécia que se mudara para Holanda por uma proposta de um dos seus clientes mafioso, que o trouxera para cuidar da parte burocrática que romper as leis sempre causava. Foi preso na Suécia por tráfico de drogas e porte ilegal de armas, tentativa de homicídio.Melissa lembrava-se de soltar um assobio surpreso ao ler a ficha do cara. Solto com redução de pena por bom comportamento.Ela também se lembrava de revirar os olhos para aquilo. Nenhum cara que ia pra prisão com aquele tanto de delito merecia ter sua pena reduzida por bom comportamento. Se ele tivesse um bom comportamento ele nem estaria ali afinal. E a parte que mais lhe deu desejo de fazer o que tinha que fazer: Arquivos no seu disco rígido com mais de quatro mil imagens de pornografia infantil, sempre com um tom sádico e violento.Ele era um frequentador de putas, mas isso era só quando não conseguia o que tanto queria. Ele era um pedófilo, porco sujo, nojento e canalha. E merecia o que tinha lhe acontecido. Deixaria as lembranças do que exatamentetinha acontecido para os seus sonhos, pois sabia que elas viriam de uma forma ou de outra.

Saiu de debaixo do chuveiro, pois sabia que o sistema regulador da Holanda era algo severo e não queria pagar excessivamente na conta de água. Ela sempre se impressionava com o poder quase afrodisíaco que a água quente tinha sobre seus músculos, menos de vinte minutos no banho e seus músculos, antes tensos e doloridos, já estavam perfeitamente relaxados, seu corpo mais leve. Era exatamente como um orgasmo. Ela inclusive estava precisando providenciar um para comemorar o sucesso.

Nightmare, seu gato, ainda estava espalhado preguiçosamente na cama quando a morena de cabelos pretos como petróleo saiu de lá apenas enrolada no seu roupão do Procurando Nemo, um filme infantil. Ele ronronou, talvez pelos peixes da vestimenta da mulher, mas não se moveu. Ela ligou o aquecedor do quarto – um mimo extremamente necessário, pelo menos no inverno holandês – e colocou uma calcinha confortável, um blusão inúmeras vezes maior do que ela e desceu para sua cozinha. Ela ainda tinha planos de colocar um aquecedor em toda a casa, mas por enquanto estava economizando, já que tinha estourado o orçamento comprando sua moto – sua belezinha.

Colocou pão na torradeira e desceu para o porão – sua lavanderia, na verdade – e enquanto o pão torrava lá em cima, ela queimava a roupa do dia numa pira lá embaixo. Os flashes novamente tomaram conta de sua mente.

— Olá, eu gostaria de tratar com o Sr. Bjorck. — Ela sorriu para a secretária com cara de nojenta do escritório J&B, localizado na Zuidplein, 208, perto de uma das principais linhas metroviárias de Amsterdã, o que facilitava bastante as coisas para a garota.

— Tem hora marcada? — Vendo que a morena assentiu – ela realmente não pegaria um metrô e andaria quase um quilômetro para ser despejada – a mulher perguntou com má vontade. — Seu nome, por favor. — Ela disse com uma voz nasalada. Melissa controlou o impulso de revirar os olhos e respondeu educadamente. Não queria chamar atenção. Ela era apenas mais uma dentre as cinco ou seis clientes que o Sr. Bjorck costumava receber no seu escritório do centro.

— Melissa Summers, eu marquei semana passada... — Ela mordeu o lábio propositalmente, forçando um sotaque americano, passando a ideia de uma garota indefesa. Sabia que seu rosto delicado contribuiria para isso. A secretária nojenta trocou algumas palavras em holandês e desligou o telefone.

— O Sr. Bjorck está esperando a senhorita. — Ela leu com seus olhos aguçados e decorou o nome da loira falsificada, pensando sobre pesquisar sobre ela depois. Uma pessoa com aquela voz e cara de puta mal comida não poderia ser uma boa pessoa. Pesquisaria sobre ela depois. Agora de volta à atuação.

Ela bateu a porta levemente, perfeitamente encarnada no papel de menininha insegura. Deus, ela deveria ganhar Oscar.

— Entre... — A voz que soou era incrivelmente parecida com a que ela imaginava. Entrou sorrindo de leve, corada e mordendo o lábio. Talvez ela merecesse mais de um Oscar. Ela sentiu o olhar dele por todo o seu corpo. Ela usava um short jeans curto que deixava à mostra suas pernas delineadas pela luta que praticava – embora não tivesse como o homem saber disso — e também a sua tatuagem na coxa, um all star branco e uma camiseta do Tom & Jerry que era igual à de uma das meninas do computador do advogado. Ela a comprara de propósito.

— Olá Srta. Summers, em que posso ajudá-la? Já percebo que será um prazer. — Ele praticamente salivava por fora, mas ele não fazia ideia de como ela salivava por dentro. Ah, ele não fazia ideia.

Na pira em cima do seu tanque de lavar roupa jazia qualquer tipo de prova que pudesse ligar o porco nojento à Melissa, pelo menos no que dizia ao que tinha acontecido nas últimas horas. Ela subiu com a bacia de ferro, desligando a luz do porão e jogou as cinzas na pia, deixando a água correr enquanto passava geleia de abacaxi no seu pão torrado. Pegou um copo e encheu com leite puro, com fome demais para pensar em passar um café. Quando já não tinha nada na sua pia e nem na vasilha, ela subiu novamente para o quarto, comendo enquanto assistia as notícias nos telejornais, esperando pelo que sabia que viria em breve. Sorriu ao ouvir a chamada na TV. Podia dormir em paz. Finalmente.

Era quase dez da manhã quando acordou com a campainha tocando insistentemente. Ela se espreguiçou sem pressa, tendo quase certeza de quem seria. Olhou pela janela de seu quarto por detrás da cortina cor de vinho e sorriu, confirmando suas suspeitas.

Foi para o banheiro sem a menor pressa, escutando a campainha ecoando no andar debaixo. Não podia se importar menos. Bagunçou ainda mais os cabelos negros, que formavam cachos rebeldes por terem dormido molhado e solto. Tirou a blusão que usava e a calcinha, trocando por um conjunto de lingerie de seda preto. Pensou se seria muita ousadia descer assim... Se comporte! Uma vozinha disse em sua mente e ela riu enquanto descia, vestindo um robe rosa bebê, só pra não dizer que não estava só de calcinha e sutiã. A campainha soou novamente. Revirou os olhos e fez a melhor cara de sono que pôde antes de abrir a porta.

—Pois não? — Ela ouviu e viu a reação dos policiais antes de qualquer coisa, ela manteve a cara de sono enquanto ria por dentro. Sempre tão previsíveis.

— Hã, nós... Nós somos da... É, Somos da polícia. Delegado Bevers Van Hells e o policial Aleid der Krush. — O que parecia mais velho gaguejou e Melissa percebeu o brilho da aliança no dedo anelar esquerdo do homem. O mais novo, de cabelos curtíssimos estava praticamente babando. Sim, tinha sido uma ótima ideia descer assim para atendê-los.

— Polícia? Eu posso ajudá-los de alguma forma?

— Nó, hm... Gostaríamos de conversar com a senhorita, se não estivermos incomodando... — Ele pigarreou para desentalar algo de sua garganta.

— Não estão incomodando nada, que isso. Agora, por favor, entrem, está congelando ai fora. — Ela disse e estremeceu levemente, dando espaço para os policiais. — Eu acabei de acordar e ainda não tomei café e eu tenho uma cafeteira que é bem rápida, vocês aceitam?

— Eu, nós...

— Aceitamos. —O mais novo tomou a palavra sorrindo galanteador. Ele até que era bonitinho. Que pena.

— Bem, então se não se importarem em seguir para a cozinha, eu posso fazer torradas ou sanduíches de queijo, o que acham? — Ela já enchia o compartimento da cafeteira com água, recolhendo o café enquanto sentia os olhares em sua bunda.

— Na verdade, Srta. Summers, temos um assunto bem sério para tratar com a senhorita. — Era o detetive de novo, ele parecia meio incomodado na cozinha da loira, estava suando frio. Parecia como um homem que foi pego com as calças arriadas traindo a esposa. Ela estava curiosa sobre os pensamentos dele.

— Mesmo? Aconteceu alguma coisa? É algo relacionado à investigação da morte dos meus pais? — Ela fez a cara mais inocente que disponha, arregalando seus olhos violeta e percebeu o homem engolindo em seco.

— Na verdade não...

— Mas nós sentimos muito sobre a morte de seus pais... — Era o policial mais novo. Ela sorriu brilhantemente para ele. Ele estava flertando e aquele era um jogo para dois. Ou mais.

— Obrigada... Mas agora, por favor, me digam por que vieram aqui falar comigo porque se não é algo sobre meus pais... Bem, devo confessar que estou um pouco perdida. — Ela mordeu o lábio inferior.

— Bem Srta. Summers... Tenho que lhe perguntar onde estava ontem à noite...

— Aqui... Quero dizer, não exatamente aqui... No andar de cima, estava com cólicas- você sabe coisa de mulher — e só queria passar o dia todo debaixo das cobertas assistindo filme na TV.

— E tem alguém que possa confirmar a sua versão...

— Não exatamente, eu estava sozinha então a não ser que possa considerar o meu gato como testemunha, eu acho que não... — Ela soltou uma risadinha e num timingperfeito Nightmare desfilou pela cozinha, indo para debaixo da pia, onde suas vasilhas com ração e água estavam. — Mas me expliquem gente, porque todo esse interrogatório, estou ficando nervosa.

— Não viu o telejornal ontem à noite, Srta. Summers?

— Na verdade não, eu estava assistindo seriado na TV a cabo... Pelo jeito perdi alguma coisa...

— Sim, o seu advogado. Sinto muito, mas ele morreu ontem. Vítima do Justiceiro.

— Oh não! O Sr. Bjorck? É sério isso? — Ela teve a decência de parecer chocada, chegando a derramar um pouco de pó de café na pia. Ela virou de frente para os policiais e se apoiou na pia, parecendo tonta. Tonta e frágil. E o Oscar vai para...

— A senhorita está se sentindo bem? Srta. Summers? — Foi o detetive. Ele estava surpreso pela reação. Vinha estipulando milhares de possibilidades para o caso desde que vira os acontecimentos, mas essa não era a reação que ele esperava realmente.

— Eu só, droga. Desculpem-me. — Ela virou de costas novamente e fingiu limpar os olhos, fungando em seguida. — Eu só estou um pouco chocada, desde que meus pais morreram, eu não venho lidando muito bem com a morte das pessoas... Ainda mais as que eu conheço... Deus, ele era o meu advogado! — A voz estava devidamente embargada, o sotaque estrangeiro destacado pelo nervosismo. Ela era incrível nisso.

— Sim, viemos falar sobre isso... Vocês mantinham alguma relação?

Ela se virou com as sobrancelhas erguidas em desafio.

— Relação? Ele era apenas o meu advogado, nada mais do que isso. Ele tinha idade para ser meu pai e eu acho que ele era casado. — A cafeteira apitou. Ela era realmente rápida. Serviu uma caneca para cada um, deixando que adoçassem a gosto.

— Sim, desculpe a pergunta. Só que ontem foi um dia cheio e dentre as diversas coisas esquisitas que aconteceram, teve uma em especial que nos trouxe aqui hoje, Srta. Summers... O corpo do Sr. Bjorck foi encontrado ainda com vida, exposto em praça pública, sem língua e pênis, com diversos cortes e escoriações graves por todo o corpo, sangrando como um porco... Pobre coitado, ele não conseguiu aguentar muito, embora já estivesse dentro da ambulância... Os enfermeiros simplesmente não sabiam por qual corte começavam a sutura... — É ela sabia que seria assim. Talvez eles devessem ter começado pelo corte da perna, embora o da língua fosse realmente preocupante.—Enfim, não foi o suficiente e ele morreu engasgado com o próprio sangue. Uma morte lenta e violenta, com certeza... O que nos trouxe aqui foi que a última ligação do Sr. Bjorck foi exatamente para a senhorita. Às 21h13min, antes que a ambulância chegasse. Quando encontramos o local ele estava com o celular na mão, já pálido e mais pra lá do que pra cá, mas dava sinais para o telefone. A ligação que ele fez para a senhorita nunca foi completada.

— Meu Jesus, isso... Isso é demais para mim... O que... Santa merda!

— Eu sinto muito sobre os detalhes sórdidos, mas acho que é importante que a senhorita saiba... Faz ideia de porque ele teria ligado para você? — Sim, aquele porco sádico, sujo e canalha estava tentando denunciá-la. Pena que ele não podia falar... uma pena realmente...

— Eu não, não consigo imaginar... Quero dizer, teríamos uma sessão essa semana que vem para ver como estão as economias do meu pai na América, mas não acredito que ele tenha ligado para desmarcar, devido às circunstâncias... —Ela deu a devida risadinha nervosa e passou a mão pelo rosto, sentindo o piercing na sobrancelha direita e o do lábio inferior. Eram pequenos e delicados, mas ainda diziam muito sobre a personalidade da garota. Ela era tão letal quanto o material que era feito e igualmente dura. — Eu, com certeza, teria ligado para a ambulância, porque o sistema de saúde da Holanda é um dos melhores do mundo, Jesus, e eu pensando que estava liberta disso quando saí dos Estados Unidos e vim pra cá...... Jesus, se ele tivesse ligado pra ambulância, será que ainda estaria vivo? Santo Deus!— Ela sabia a resposta, mas ela teve a graça de parecer chocada com a possibilidade.

— Eu duvido muito, eu vi a situação do homem. E seja lá quem tenha feito aquilo com ele ou tinha grandes motivos ou estava com muita raiva. Ele foi preso uma vez por tráfico de drogas Bevers, quem sabe não é essa a resposta... ­— Foi o policial der Krush quem cogitou.

— Talvez, essa sempre é uma possibilidade. Sabia que o Sr. Bjorck já tinha sido preso, Srta. Summers?

— Deus, não! Eu o contratei para que cuidasse da economia e do inventário do meu pai aqui na Holanda desde que ele morreu, eu não o conhecia. Encontrei na lista telefônica e nunca precisei mudar... Mas acredito que todos precisam de segundas chances, senhores.

— Sim, eu também acredito, mas parece que o cara que fez isso com o seu advogado não pensava o mesmo. — Ele tivera a sua segunda chance. Não a merecia, mas tivera. E desperdiçara. Molestando criancinhas. Mas eles saberiam disso em breve.

— Ele tentou te ligar muitas vezes, tem certeza que não tinham nenhuma relação? — O policial sabia ser bem indiscreto quando queria. Ela sorriu para ele.

— Estou solteira há mais de cinco meses, tenho certeza absoluta que não tínhamos nenhuma relação, além da profissional... Se bem que... Ele nunca foi discreto sobre isso, mas eu sempre levei na esportiva porque eu gostava do trabalho que ele fazia com as minhas finanças — Mentira! Aquele porco canalha estava tentando roubá-la descaradamente, ainda bem que ela era boa com computadores. Ótima, na verdade.—Mas ele nunca deixou de me galantear, sendo bem persistente às vezes. A não ser que a ligação seja como um último pedido de um moribundo... Quero dizer, tem isso não é? De últimos desejos... Pelo menos no filme que eu vi ontem tinha... — Ela soltou a mesma risadinha nervosa e os policiais acabaram gargalhando. Ela não entendeu.

—Bem, Srta. Summers, nós agradecemos pelo café e pela conversa. Aqui está o nosso telefone, caso precise ou se lembre de alguma coisa... Não nos preocupamos sobre isso, já que esse Serial Killer não costuma agir assim, mas caso se sinta ameaçada de alguma forma, não hesite em nos chamar ok? — O detetive deu-lhe o cartão e apertaram as mãos.

— Será um prazer servi-la. — Tinha obviamente uma segunda intenção, e ela sorriu como quem entende. Como quem entende e gosta.Também lhe apertou a mão, e ele lisonjeiro beijou-lhe o dorso da mão da morena – ela reprimiu a careta –. Ela sabia o quadro mental que passavam na cabeça dele, afinal eles eram tão previsíveis! Sabia que na cabeça de cabelo quase raspado do policial ela ligava pra ele de madrugada, apavorada com uma ameaça que não existia e assim ele ia vê-la, protegendo-a debaixo do seu corpo enquanto ela gemia seu nome. Ela revirou os olhos mentalmente. Ah, se ele soubesse...

Eles saíram reforçando que qualquer coisa era só chamá-los, qualquer coisa mesmo e ela sorriu docemente, sua máscara de garotinha indefesa sendo cada vez mais perfeita. Se fosse uma garota normal, Melissa seria uma ótima atriz. Talvez devesse fazer um teste... Recusou a ideia com um balançar de cabeça e um sorriso no rosto. Ah, eles não tinham ideia.

Sentiu um leve roçar de uma calda de pelo macio em sua perna desnuda.

— Hey Night, você quer o seu café da manhã não é garoto? Você não sabe o que a mamãe trouxe pra você. — E não era nada do Sr. Bjorck, porque simplesmente não iria contaminar o seu gato precioso com a carne podre do canalha, então lhe serviu uma porção de atum que tinha comprado na manhã passada. O gato não parecia mais satisfeito.

Ela sorriu subindo para tomar banho, os olhares dos policiais tinham feito com que ela se sentisse uma puta imunda. Uma puta desejada, mas ainda sim imunda.

Melissa estava sentada em um banco no Vondelpark, um ponto turístico de Amsterdã que ficava na paralela da Overtoom. Sua bicicleta recém-adquirida encostada ao lado. A morena lia o jornal com interesse. Era sempre interessante perceber em que exato momento eles iriam desistir. E pelo jeito não tardaria.

O corpo tinha se tornado um escândalo na mídia, afinal um corpanzil nu, sem o órgão sexual e sem a língua, coberto de marcas de facadas e diversas outras escoriações, com um talho feito à mão com a sigla S.P.S.N.C feita em letra de forma bem no meio da testa seria totalmente capaz de chamar atenção. Ainda mais se esse corpo ainda lutasse pelos últimos suspiros de vida, enquanto algum versículo da Bíblia estava grampeado na pele de sua barriga.

Todos sabiam o que a sigla significava:Sou um Porco Sujo, Nojento e Canalha.Era a marca, era o seu design. Era o Justiceiro, um serial killer que dividia opiniões no país e por onde sua reputação passava. Eram assassinatos violentos e isso, no principio, escandalizou, mas conforme a policia foi investigando as “vítimas” percebiam claramente que se tratava de um ajuste de contas. Quase que divino, sendo que nenhum dos casos tinha relação entre si. Estupradores, assassinos de aluguel, cafetões, aliciadores de menores... Sempre havia alguma dívida perante os céus, e o Justiceiro era exatamente o cara que cobrava as contas, como o Anjo Negro no dia do Ajuste de Contas.

Parte da massa não aceitava que alguém pudesse fazer isso com outra pessoa e que só Deus era capaz de julgar. Mas a outra parte sentia-se mais segura – embora nunca admitisse isso em público – enquanto soubesse que o Justiceiro estava por ai. E, impressionantemente, ou nem tanto, a taxa de crimes diminuiu consideravelmente desde que ele aparecera.

As investigações continuaram acontecendo, mas assim que descobriram os arquivos de pornografia infantil e os ainda escusos casos de tráfico de pequenas quantidades de drogas a polícia de Amsterdã perdera completamente a vontade de solucionar aquele caso, afirmando sem muitos detalhes que era apenas um ajuste de contas. Era obra do Justiceiro, disso eles sabiam, mas não queriam correr atrás desse caso. E de quase nenhum outro. Ele realmente era um porco nojento, sujo e canalha e merecera o que recebera. Eles sempre mereciam.

E era exatamente com isso que Melissa Summers estava contando. Por que não importava o quando eles pesquisassem ou tentassem descobrir quem fizera aquele tipo de justiça pelas próprias mãos, eles nunca chegavam perto. Ah, eles nem faziam ideia.

Notas finais
Heey, e ai? E essa ideia surgiu de repente e foi se desenrolando com o passar dos parágrafos. Queria escrever essa oneshot para participar do Desafio, mas não fazia a mínima ideia do que escrever. Eu sou apaixonada por séries policiais e livros sobre isso me prendem completamente. Embora existam histórias fantásticas por aqui, esse gênero não é o mais popular pelo site. O que eu acho uma pena, mas... Esse enredo veio do nada e numa tarde sentei para escrevê-lo e o resultado me surpreendeu. A capa também, considerando minhas habilidades de macaco morto nisso de edição de imagem kkkk foi a minha primeira capa e a minha primeira oneshot. Mas quero saber a opinião de vocês e reviews são bem vindas =) Espero realmente que tenham gostado.Até a próxima. Bia Felix
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!