The Reason Is You
26 Capítulo 26 - Sozinhos Na Floresta
Notas iniciais

Oh love let me see inside your heart
All the cracks and broken parts
The shadows and the light
There's no need to hide
Ross Copperman — Hunger
Murphy abriu os olhos lentamente, sentindo uma mãozinha passando por seus cabelos. Aquela mãozinha cuja dona era uma certa garota que ele iria prender e não soltar mais se continuasse daquele jeito.
—Se continuar fazendo isso, eu juro que não vou responder por mim. – Murphy disse, com a voz sonolenta.
—Assim não vale, você deveria estar dormindo! – Kara Leigh respondeu, cruzando os braços, fingindo estar brava.
—Não, nem pensar. Se eu estivesse dormindo, eu iria perder essa carinha de zangada que você está fazendo agora. – Murphy respondeu. – Dá vontade de te morder inteirinha.
—Bem... não tem nada te impedindo. – Kara Leigh respondeu, mudando a expressão zangada para um olhar sugestivo. – Devia aproveitar enquanto ninguém tenta nos interromper...
Murphy se conteve ao querer soltar uma gargalhada sarcástica. Realmente, ela tinha razão. Era muito difícil os dois conseguirem ficar juntos sem interrupções, e isso desde o início do relacionamento. A única vez em que deu certo sem serem interrompidos foi o dia do bunker. Mas ele estava mais impressionado pelo fato de ela estar toda desinibida daquele jeito, falando aquele tipo de coisa que provavelmente teria vergonha de dizer algumas semanas atrás. Não que fosse ruim, pelo contrário, era bom ela amadurecer se tratando desse assunto. Porém, ainda era diferente.
—Tem toda a razão. – Murphy disse, trazendo a garota para perto, percebendo outra coisa diferente nela. Dessa vez, ele não conseguiu segurar a risada sarcástica. – Você está usando a minha camisa?
—Estou... é confortável. – Kara Leigh respondeu, com um sorriso tímido. – Tem algum problema?
Aí estavam os vestígios daquela garota doce e gentil que ele conhecia. Aquela que fazia perguntas como se teria problema se ela estivesse usando a camisa dele. O mesmo rubor no rosto de quando perguntou se ele não havia se decepcionado com o corpo dela, na primeira vez que o viu.
—Chega, eu desisto. Não dá para lidar com esse seu jeitinho de forma delicada. – Murphy respondeu, se sentando na cama e a ajudando a se sentar na frente dele.
—John... o que você está fazendo? – Kara Leigh perguntou, soltando uma risada nervosa. Na verdade, ela estava mais ansiosa que nervosa. Estava de costas para ele, não conseguia vê-lo.
Mesmo já tendo passado por um número considerável de experiências com ele, era impressionante como ele sempre dava um jeito de surpreendê-la com algo novo. Ou talvez não tão novo assim, já que ela começou a sentir seus cabelos sendo puxados para cima.
—Uma coisa que você ama. – Murphy respondeu, tocando o pescoço dela com os lábios.
Ele estava certo sobre não conseguir ser delicado. Desta vez, estava muito mais selvagem do que das outras vezes. Isso tinha a ver com o amadurecimento tanto emocional quanto sexual dela. Mas ela nem se importou. Como já presenciado antes, ele tinha habilidades que conseguiam fazê-la ver estrelinhas em poucos minutos. E aquela não era diferente.
—Um dia eu vou descobrir como você faz isso... – Kara Leigh disse, extasiada com os beijos em seu pescoço.
—É um segredo de profissional. – Murphy respondeu, enquanto beijava o pescoço dela. – Só eu sei fazer isso. E eu só sei fazer em você.
A situação teria esquentado mais se algo inusitado não tivesse atrapalhado. Não, desta vez, não foi Octavia. Foi o peculiar som de um estômago roncando.
—Ah, que vergonha... geralmente eu não entrego que estou com fome assim em voz alta. – Kara Leigh disse. – Estamos aqui há quanto tempo?
—Provavelmente a noite toda. – Murphy respondeu, se levantando. – Já deve ser de manhã agora. Vem, vamos calar a boca do seu estômago traidor.
—Noite toda? Caramba... a Octavia vai me matar... a Juliet vai me matar... alguém vai me matar. – Kara Leigh respondeu, praticamente entrando em um estado catatônico. Murphy a encarou e percebeu que ela estava ainda mais pálida que o normal.
—E por que exatamente elas iriam te matar? Já conversamos muito sobre isso. Não tem motivos para ninguém ficar bravo com você. – Murphy respondeu, tentando tranquilizá-la. Realmente, o amadurecimento dela era parcial. Ela não devia se preocupar com outras pessoas a dizendo o que fazer sobre isso. Era um assunto pessoal que só dizia respeito a ela. – Você é minha namorada, não tem nada de errado sobre o que estamos fazendo.
—Eu sei que não tem. Mas até parece que você não conhece a Octavia e as histórias sobre o cinto de castidade... – Kara Leigh respondeu, ironicamente.
—Pode ficar tranquila quanto a isso. Quando o Bellamy ficar sabendo de umas coisas que ela fazia quando fugia do acampamento, o cinto vai é para ela. E eu não estou falando do seu irmão... – Murphy respondeu, terminando de vestir a calça. – O primeiro namoradinho dela era o braço direito do Bellamy. O cara teve que passar a noite pendurado em uma árvore depois que o Bellamy descobriu o que os dois faziam no meio das moitas. E isso porque ele não sabe da história toda.
—John, quando eu te disse que ameacei contar tudo para o Bellamy, eu não tinha intenção de realmente contar tudo... eu não faria uma coisa dessas com a Octavia, o que ela e o Lincoln faziam sozinhos não é da minha conta. – Kara Leigh respondeu. – Eu só disse aquilo para ela ficar com medo.
—E para largar um pouco do nosso pé. Essa é a minha garota... – Murphy respondeu, dando um rápido beijo nela. – Eu acho que vou precisar da minha camisa de volta.
—Eu tenho que tirar? É tão confortável... – Kara Leigh respondeu, com uma voz manhosa. Ela sabia provocá-lo quando queria.
—Acredite em mim, se dependesse de mim, você só usaria isso o tempo todo. Mas eu não posso aparecer lá fora sem camisa... – Murphy respondeu.
—Então está bem. – Kara Leigh disse, tirando a camisa e entregando a ele. Era a única peça que ela estava usando, então ele teve que se concentrar muito para não devorá-la com os olhos. – É melhor eu me vestir agora...
Você está proibida de se vestir. E é melhor voltar para essa cama agora mesmo. Murphy pensou, entre outras milhares de coisas relacionadas àquela visão. Ele não tirou os olhos dela nem por um segundo enquanto ela se vestia, pensando em como diabos foi ter tanta sorte em encontrar essa garota.
—Vamos, já estou começando a ficar assustada. Parece que tem um Ceifador na minha barriga! – Kara Leigh disse, segurando a mão dele enquanto saiam do quarto.
*~*
A maior surpresa que os dois tiveram quando foram comer, foi encontrar o lugar praticamente vazio. Não vazio literalmente, mas... todos os líderes haviam saído. Clarke, Bellamy, Octavia, Raven e Abby haviam partido para uma missão de reconhecimento de terreno aos arredores de Mount Weather, levando uma boa parte dos guardas, tendo grande probabilidade de Juliet estar incluída entre eles, pois ela também não estava em lugar nenhum. E até mesmo tinham deixado Finn ir com eles.
Kara Leigh se sentiu um pouco decepcionada por ninguém sequer tê-la chamado para ir junto, sendo que ela era quem melhor conhecia a floresta entre eles. Também se sentiu furiosa ao saber sobre Finn ter ido junto. Não era nem para ele colocar os pés para fora de uma cela, quem dirá do acampamento. Ele iria tentar fugir, com certeza. Mas não daria certo. Não com o novo exército Trikru vagando pela floresta. A única coisa que a impedia de sair caçando Finn por aí era que alguém maior o pegaria.
Mesmo assim, ela ainda tinha uma necessidade interna de ir lá fora. Ela não era acostumada a ficar em um só lugar por muito tempo. Nem na própria aldeia ela ficava muito tempo, estava sempre perambulando pela floresta atrás de novas ervas, ou com Lincoln em uma de suas viagens. Não seriam os skaikru que a manteriam presa.
—Preciso ir lá fora... quais são as chances de eles me deixarem sair pelo portão? – Kara Leigh perguntou.
—Nenhuma, pode esquecer. Eles vão usar o argumento de que a Chanceler não está aqui e eles não podem deixar ninguém sair sem a permissão dela. – Murphy respondeu. – Mas por que você quer sair? Não foi você que disse que lá fora está a maior loucura desde o massacre na aldeia?
—Eles não vão me machucar, eles me conhecem. Só fui ferida duas vezes quando estive lá fora, e nenhuma das duas foi pelo meu clã. – Kara Leigh respondeu. – Preciso ir lá fora porque... bem, o estoque medicinal daqui está baixo. Pensei em coletar algumas ervas e ensinar Abby e Jackson a como usá-las.
—Tem certeza que é uma boa ideia fazer isso agora? É bem capaz de nós colocarmos o pé para fora desse acampamento e uma flecha atingir nossa cabeça. – Murphy respondeu, sarcasticamente.
—Engraçado... não me lembro de ter pedido para você vir comigo. – Kara Leigh retrucou. Dessa vez a pitada extra de grosseria veio por parte dela. E ela falou isso com uma naturalidade tão grande que deixou Murphy espantado. Talvez ele devesse parar de deixar seu lado ácido escapar com ela...
—Acha mesmo que depois de tudo o que aconteceu eu vou te deixar sair sozinha por aí? Com tudo o que você me contou sobre a montanha? Só pode estar maluca! – Murphy rebateu. – Não tem discussão. Se você está pensando em colocar os pés lá fora, ou nós dois vamos, ou ninguém vai!
—Certo... o que você sugere? – Kara Leigh perguntou, curiosa sobre um plano de fuga.
O portão não era uma opção, estava repleto de guardas. E a cerca de Raven também estava fora de cogitação, pois Raven tinha ido na missão. Mas se tinha alguém naquele acampamento com as habilidades furtivas de um gatuno, esse alguém era Murphy. Ele sempre tinha uma solução para tudo. Ele só precisava descobrir o ponto mais desprotegido do acampamento.
Quando os dois terminaram de empacotar as mochilas e pegar tudo o que precisavam, Murphy guiou Kara Leigh até uma parte de difícil acesso, nos fundos do acampamento. Aquele lugar estava tão cheio de destroços que era difícil até de andar, quem dirá proteger. Ninguém suspeitava que uma invasão pudesse vir daquele lado. Com o maior cuidado do mundo para não machucá-la, Murphy ajudou Kara Leigh a subir pelos destroços, até os dois ficarem em uma altura maior que a cerca elétrica.
—Estou com um mau pressentimento sobre isso... – Kara Leigh disse, apreensiva, olhando para baixo. – Por que eu fico pulando de lugares que podem me matar?
—E só não soltar a minha mão que vai dar tudo certo. – Murphy respondeu, pegando a mão dela.
Aquele plano era maluco, inusitado e poderia matá-los, caso algo desse errado. Mas era o único plano plausível que tinham no momento. Ele começou a contar até três. No final da contagem, os dois pularam a cerca, caindo fora do acampamento. Murphy caiu de pé, enquanto Kara Leigh escorregou de leve e caiu de joelhos.
—Não foi tão ruim, já pulei de lugares piores. Uma cachoeira, por exemplo... – Kara Leigh disse, se levantando.
—Eu já sabia que ia dar certo desde o começo. Afinal, gatos sempre caem de pé. – Murphy brincou, fazendo com que ela o encarasse de forma sarcástica.
—Só não digo nada porque é verdade... – Kara Leigh respondeu, beijando a bochecha dele. – Vamos, temos um longo caminho pela frente até encontrarmos tudo.
Os dois entraram na floresta. Kara Leigh passou a correr os olhos pelo chão, procurando ervas. Na verdade, “procurar ervas” era uma desculpa um tanto esfarrapada. O verdadeiro motivo de ela estar ali fora, o motivo pelo qual ela queria ir sozinha, era porque estava caçando Finn. Se ele realmente iria aproveitar a chance de estar fora do acampamento para tentar fugir, era bom ele nem passar perto dela, pois se passasse, a chapa iria esquentar.
Ela levou a adaga, por precaução. Mesmo Octavia tendo lhe dito que era melhor ela apostar em uma arma de longa distância, todo cuidado era válido. E ela ainda não tinha feito seu próprio arco. Por isso, aproveitou que já estava fora dos muros e, além das ervas, procurou galhos secos pelo chão.
Enquanto ia coletando ervas, ela as mostrava a Murphy e explicava as propriedades de cada uma, de forma resumida. Alguns meses atrás ele nem teria prestado atenção. Na verdade, ele nunca ligou muito para aulas de sobrevivência na Terra quando morava na Arca. Até o fatídico dia em que foi espancado pelo professor no meio da aula. Mas isso não vinha ao caso agora. E ela era uma professora muito melhor que aquele desgraçado...
—Você precisa tomar cuidado com algumas. Podem parecer medicinais, mas são veneno. São bem parecidas, mas dá para diferenciar pelo formato da folha. – Kara Leigh disse, coletando mais uma erva. – Os guerreiros usam as venenosas principalmente para banhar as lâminas das espadas e as pontas das flechas. É bem útil em batalha.
—Seu irmão te ensinou tudo isso? – Murphy perguntou, impressionado com o conhecimento da terrestre.
—A maioria. Algumas coisas eu aprendi por conta própria. – Kara Leigh respondeu. – Um dia, eu usei uma planta para aliviar um inchaço na minha perna. Mas era a versão venenosa e... só posso dizer que eu fiquei coçando a minha perna sem parar durante dois dias.
—Pelo menos você pode aprender com prática. Eu tive que aprender todas essas besteiras de sobrevivência na Terra enquanto estava trancado em uma caixa de metal. – Murphy respondeu. – Eles queriam nos ensinar a fazer fogueiras, nós e todas as outras coisas só na teoria. Porque nunca iríamos descer para cá mesmo. E olhe aonde viemos parar.
—Bem, pode até ter sido só na teoria, mas você sobreviveu, não foi? – Kara Leigh perguntou, sem esperar uma resposta. – Não foi de todo mal. Vamos continuar.
Os dois continuaram andando até Kara Leigh encontrar todas as ervas de que precisava para carregar o estoque do acampamento. A bolsa dela já estava tão abarrotada que chegava a estar pesada. Murphy se ofereceu para carregar, mas ela se recusou. Podia dar conta de uma bolsa sozinha. Mas em algo os dois podiam concordar. Estavam ficando cansados. Pois bem quando estavam pensando em parar para descansar, deram de cara com um riacho e uma pequena cachoeira.
—Ah, isso só pode ser um sinal. – Murphy disse, soltando sua mochila. – Você vai entrar ou eu vou ter que te arrastar?
—É, vai ser engraçado ver você tentar! – Kara Leigh respondeu em um tom brincalhão, largando a bolsa enquanto saia correndo, com Murphy indo atrás dela.
Eles continuaram com o “pega-pega”, brincando e rindo como um casal de adolescentes apaixonados, se esquecendo completamente de todo aquele clima pesado de guerra. Quando ele finalmente a alcançou, a pegou no colo e entrou na água. O que ele não contava era com a água gelada.
—John, o que você está fazendo, seu doido?! Essa água está um gelo! – Kara Leigh reclamou.
—Você acha que isso é gelado porque nunca morou no espaço. – Murphy respondeu.
—Continua gelada... – Kara Leigh respondeu, nadando de costas ao redor dele. – Você não sabe nadar? Não aprendeu isso na teoria?
—Não tinha água para nadar lá em cima. Não, eu não sei nadar. – Murphy respondeu. – Você podia me ensinar, já que é tão espertinha.
Ela parou de nadar e caminhou até ele, segurando sua cintura por trás. Ele estranhou o ato no começo.
—A primeira coisa que você deve saber é que não se nada em pé. – Kara Leigh disse. – Tire esses pés do chão!
Ele riu sarcasticamente outra vez e fez o que ela pediu. Ela o segurou no colo, impedindo que ele afundasse ou se afogasse.
—Mexa seus braços e suas pernas, você não vai nadar ficando parado. Só vai afundar igual a uma pedra. – Kara Leigh respondeu.
Relutante, ele a obedeceu outra vez e ela começou a caminhar dentro do riacho, com ele no colo, enquanto lhe proporcionava a sensação de estar nadando. Foi uma das melhores sensações que ele teve na vida. Nadar era como... estar livre. Sem jaulas e celas para prendê-lo. Ele havia passado grande parte da vida atrás das grades. Então esses pequenos momentos de felicidade contavam muito. E até agora, todos os momentos foram com ela. Aquela garota era sua maior felicidade, sem dúvidas.
Quando ele percebeu, ela já não o segurava mais. Ele estava nadando sozinho. Ele a procurou e a encontrou submersa até o pescoço, o encarando com um sorriso no rosto.
—Você conseguiu! Eu sabia que conseguiria! – Kara Leigh disse, nadando até ele. – Se todos enxergassem o potencial incrível que você tem, não perderiam tempo te mantendo preso.
—Você enxergando já está ótimo para mim. – Murphy respondeu, segurando o rosto dela e lhe dando um beijo rápido. – Mas onde você aprendeu a nadar? Quer dizer, esse lago não é muito fundo e, pelo que eu soube, o único outro lago fundo o suficiente tinha um monstro gigantesco que quase arrancou a perna da Octavia.
—É, eu soube dessa história. Eu costumo evitar aquele lago... Mas eu não aprendi a nadar aqui. – Kara Leigh respondeu. – Visitei os Floukru, o clã do mar, uma vez quando era menor. A líder deles, a Luna, foi quem me ensinou a nadar.
—Caramba... seu povo deve ser muito idiota para te odiar. Você sabe nadar, sabe caçar, sabe tudo sobre remédios e eles ainda te chamam de “inútil”? – Murphy perguntou, sarcasticamente. – Se eles acham que isso é ser inútil, agora entendo porque odeiam tanto nós que viemos do céu...
—Eu já disse, eles me chamam de inútil porque eu não sou uma guerreira. – Kara Leigh respondeu. – E porque eu costumava ter compaixão pelos inimigos. Mas não mais... não depois de tudo o que eu vivi dentro da montanha.
Ela estava com aquele olhar outra vez. Aquele olhar que não combinava nem um pouco com o rosto dela. Sede de sangue, desejo de matar... não faziam parte de quem ela era. Uma coisa era certa: Mount Weather a mudou. As palavras dela não foram o suficiente para ele imaginar a gravidade dos abusos que ela sofreu lá dentro. Mas foi extremamente grave. De que outra maneira ela abandonaria os conceitos pacifistas?
De certa forma, ele conseguia se identificar. Ele também já foi inocente um dia. Mas isso acabou no momento em que executaram seu pai simplesmente por roubar um remédio para dar ao filho doente. Outro fator foi a mãe alcoólatra, o culpando constantemente por isso. O outro fator para Kara Leigh era o massacre na aldeia, sem dúvidas. Mas ele não queria que ela passasse por esse caminho. Não queria que ela se transformasse em alguém como ele. Em como ele era antes de conhecê-la.
—Vai escurecer daqui a pouco, devíamos procurar abrigo. – Murphy disse, caminhando para fora da água. – Não vai dar para voltar para o acampamento hoje.
—Vamos para o nosso bunker? – Kara Leigh perguntou, o seguindo. – Não estamos longe.
Como ele iria explicar que tinha um corpo de um terrestre apodrecendo dentro do bunker? Ainda mais, um que foi morto por ninguém menos que Finn. Não, o bunker não era uma opção.
—Não, estive lá há pouco tempo, parece que alguém entrou e fez uma bagunça gigantesca. – Murphy respondeu, com a melhor desculpa que lhe veio na cabeça. – Vamos para a nave, também não está muito longe daqui.
Eles recolheram suas coisas e continuaram a caminhar pela floresta. No meio do caminho, Kara Leigh se abaixou e pegou um pedaço de madeira do chão. Um galho fino e comprido. Murphy questionou o porquê de ela ter pegado aquilo e ela respondeu que aquilo seria sua futura arma. Ele continuou a caminhar ao lado dela, desconfiado. Contudo, essa atitude não passou despercebida para ela.
—Pode parar, está bem? Isso é para fazer um arco, a Octavia me disse que eu sou melhor com armas de longa distância. E é para defesa. Eu não vou sair por aí matando todo mundo igual o Finn! – Kara Leigh disse, se defendendo dos olhares desconfiados dele.
—Eu sei. Eu nunca disse que você vai... – Murphy respondeu. No fundo, ele sabia que estava mentindo. Ele temia que essa raiva toda dela passasse para outro estágio. Um estágio tão sanguinário quanto o dos outros terrestres que ele conheceu. Que o torturaram.
Os dois continuaram a viagem em silêncio. Pelo menos até algo gravíssimo os interromper. Um barulho suspeito. Pássaros voando para longe. Um vento quente... Murphy olhou para trás e ficou tão apavorado que quase não conseguiu processar o que estava acontecendo.
—Névoa ácida! – Murphy gritou, segurando a mão de Kara Leigh e correndo o mais rápido possível.
Por sorte, a nave não estava muito longe, então não tiveram que correr muito. Contudo, tiveram que lidar com o problema da nave estar sem energia, e sem ter como fechar a porta. Ainda dava para os dois se esconderem no piso superior, cuja portinhola não precisava de energia, mas o imenso buraco que Murphy abriu na parede com o balde de pólvora ainda estava ali.
—Me ajude a cobrir a parede! – Murphy disse, pegando todo e qualquer material que desse para fechar o buraco.
Os dois colocaram basicamente todos os móveis da parte de cima na parede aberta, selando-a e impedindo que a névoa ácida entrasse. Agora só restava esperar que a névoa se dissipasse, o que levaria algumas horas. Mas não faria diferença, os dois já iriam passar a noite dentro da nave de qualquer maneira.
*~*
Algumas horas depois, Kara Leigh estava usando sua adaga para esculpir o pedaço de madeira no formato de um arco. A nave estava sendo iluminada por duas lamparinas que Murphy havia trazido em sua mochila. Murphy estava sentado em um canto, comendo alguns biscoitos que pegou no armazém do acampamento. Ele observava o jeito que ela estava concentrada naquilo, esculpindo a madeira com o maior cuidado e delicadeza. Ela tinha mãos leves. Firmes, porém, leves. Ele percebeu isso todas as vezes que ela cuidou de seus machucados. Daria uma ótima cirurgiã, caso fosse ensinada por Abby.
—Será que tem algum tipo de linha aqui? – Kara Leigh perguntou. – Corda, barbante, algo desse tipo.
Ele não respondeu imediatamente. Estava tão distraído olhando para ela que nem prestou muita atenção no que ela disse. Ela o encarou e viu a expressão um tanto quanto besta em seu rosto. Ela não pode deixar de soltar uma risada.
—John... por que está me olhando assim? – Kara Leigh perguntou, ainda rindo.
—Você não faz ideia do quanto você está linda agora. – Murphy respondeu. Em resposta, ela abaixou a cabeça, tentando esconder o rubor do rosto.
Ela se levantou e foi se sentar ao lado dele, roubando um biscoito. Podia estar amadurecendo, mas não era por isso que deixava de se encabular quando ele dizia aquelas coisas. Principalmente porque, em toda a sua vida, ele era o único que tinha dito coisas como essas para ela. Ela sempre foi vista como um estorvo por praticamente todos em seu clã, exceto por Lincoln. Mas a relação deles era tão fraternal que chegava a ser quase um tabu pensar neles de qualquer outro jeito.
Ela apenas conheceu o significado de amor entre duas pessoas quando conheceu Murphy. Mesmo as piores condições não impediram que eles se aproximassem. Não importava que ele fosse de outro povo, ou que fosse um prisioneiro. Ela sabia que seria ele. Ela o encarou por um minuto. Ele fez o mesmo. E, automaticamente, os rostos se aproximaram. Eles se beijaram da maneira mais romântica e passional possível.
No minuto seguinte, Murphy estava deitado no chão com Kara Leigh por cima, ainda sem desgrudarem as bocas. Aquele momento estava perfeito. Tão perfeito que ele estava com medo que algo estragasse tudo. E como o destino adorava pregar peças com os dois...
Eles ouviram um barulho vindo do piso inferior da nave. Barulhos que pareciam ser passos e vozes. Havia alguém ali. Não era possível. A névoa ácida se dissipou assim tão rápido? Ou eles estavam ali há tanto tempo que nem notaram?
Kara Leigh saiu de cima de Murphy e correu para pegar sua adaga. Murphy insistia que aquilo era má ideia.
—É melhor nós nem abrirmos essa porta. Não sabemos quem está aí embaixo... – Murphy a alertou.
—Eu não vou abrir. Mas preciso estar preparada caso eles abram... – Kara Leigh respondeu.
Então ouviram uma voz conhecida, dizendo que a portinhola estava emperrada. O que diabos ele estava fazendo ali? Kara Leigh foi até a portinhola e a abriu, revelando um rosto conhecido.
—Bellamy? – Ela perguntou, surpresa. – O que você está fazendo aqui?
—Eu é que pergunto, o que os dois estão fazendo aqui? – Bellamy perguntou. – De qualquer maneira, não importa. Preciso da ajuda dos dois, estamos com um caso grave aqui.
Kara Leigh e Murphy se encararam, ambos com um olhar desconfiado, antes de seguir Bellamy para o piso inferior. Quando desceram, encontraram Octavia e mais uma surpresa que poderia ter causado um infarto na terrestre.
—Lincoln?! – Kara Leigh perguntou, completamente perplexa, olhando para o corpo debilitado e adormecido do irmão adotivo no chão.
Continua
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