The Reason Is You
34 Capítulo 34 - Melancholy Kings And Queens
John preenchia Emori com volúpia. Aquela era uma das primeiras vezes em muito tempo em que ele realmente se sentia bem. Ele a segurava firme, enquanto os dois trocavam um momento quente e selvagem.
Emori era diferente. Muito diferente do que ele estava acostumado. Claro, a última garota com quem ele manteve uma relação havia sido Leigh... e ela era muito delicada. Já Emori era o oposto. Ela era muito forte. Tão forte que Murphy sentia que ela poderia quebrá-lo ao meio. Não que fosse uma coisa ruim.
John a beijava, como se estivesse sedento por endorfina. Ele passava as mãos pelo corpo voluptuoso da terrestre, enquanto sentia ela arranhar suas costas com suas mãos. Sim, as duas mãos. Por incrível que pareça, a mão deformada não fazia tanto estrago quanto a mão normal.
Emori era linda, não havia como negar. O rosto dela era exótico e seu corpo era delicioso. Mesmo que as outras pessoas só soubessem olhar para sua mão. Murphy notara que ela havia algumas cicatrizes pelo corpo. Talvez fossem resultado de tanto lutar para sobreviver em um mundo onde todos odeiam tanto quem é diferente.
Assim que aquilo terminou, ele pegou em sua mão especial e olhou fundo em seus olhos. Ela parecia maravilhada e surpresa. Como se fosse a primeira vez que alguém se importasse tanto com ela sem julgá-la.
— Nós fazemos uma ótima dupla, não fazemos? — Murphy perguntou, ainda olhando para ela.
— É... fazemos sim. — Emori respondeu, completamente extasiada.
John sorriu e voltou a beijá-la, entre outras carícias, dentro da caverna onde se encontravam.
A verdade era que Murphy havia abandonado Jaha e sua expedição maluca de encontrar a Cidade da Luz. Ao perceber que seu companheiro de viagem havia endoidado de vez, falando sobre uma espécie de “chip mágico” que fazia todas as dores desaparecerem, ele tratou de pegar Emori e o barco, e fugir.
Já fazia algumas semanas que Murphy e Emori estavam vagando pela floresta, sobrevivendo de assaltos combinados, onde ele se fingia de morto enquanto ela roubava os transeuntes. Os dois eram como Bonnie e Clyde versão pós-apocalíptica. Durante esse período, desde que fugiram, eles se aproximaram. E não demorou muito para que virassem mais que apenas amigos.
A iniciativa veio de Emori, que o beijou primeiro. No primeiro momento, ele congelou. Não sabia se estava pronto para outra relação. Por mais que ele não visse nem a sombra de Leigh nos últimos três meses. Não, as alucinações que ele tivera com ela não contavam. Eram apenas projeções do que ele queria que estivesse acontecendo. Ele tinha plena noção de que não era ela de verdade.
Ele conversou muito com Emori sobre isso. Sobre Leigh ter sido uma relação intensa, que ele iria demorar para superar os sentimentos que havia por ela. A morena entendia toda a situação. Ela sabia o quanto o primeiro amor era intenso. Sendo mais velha que ele, ela também já tivera seus amores adolescentes.
Entretanto, ela não deixava de ficar enciumada todas as vezes que John ficava aéreo. Ele evitava citar o nome da ex-namorada, mas Emori sabia que ele estava pensando nela. Uma destas vezes foi justamente após os dois terem feito sexo.
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John havia chegado ao ápice, logo após levar Emori ao êxtase. Ele caiu para o lado, ofegante, sem falar nada. Contudo, alguns segundos depois, ele se levantou, vestiu sua calça e foi para o lado de fora da caverna.
Ele sentou em uma rocha, sentindo o frio da noite invadir seus pulmões, através da respiração pesada. Deveria ser um período pós-inverno. Não nevava mais, mas ainda estava frio.
Não era a primeira vez que ele se sentia assim após ir para a cama com Emori. Os pensamentos envolvendo sua ex-namorada não paravam de assombrá-lo. Ele imaginava o que ela deveria estar fazendo nesse momento. Se havia se mudado para Polis. Se ainda estava viva...
— Ei, o que está fazendo aqui fora? — Uma preocupada Emori perguntou, percebendo que ele estava do lado de fora da caverna. — Vai congelar nesse frio sem camisa!
— Nada de mais... só pensando em como as coisas podem estar lá “em casa”. — John respondeu, com um ar distante.
Com “casa”, ele estava se referindo ao Acampamento Jaha, atual Arkadia. Mesmo assim, Emori sabia exatamente a que, ou melhor, “a quem” ele estava se referindo.
— Você quer dizer, como a Kara está... — Emori indagou, com um ar incomodado. John suspirou, sabendo que não adiantaria mentir.
— Não me culpe, uma parte de mim sempre vai se preocupar com ela. — Murphy se defendeu. — Mas ela e eu não temos mais nada. Eu estou aqui. Com você.
Murphy a beijou delicadamente, colocando seus braços ao redor dela. Ela tinha razão. Não era justo que ele ficasse com os pensamentos em Leigh dessa maneira.
— Você vai superar essa garota. — Emori disse, confiante, puxando-o de volta para dentro da caverna. — E eu vou te ajudar.
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Agora, após o último assalto na floresta, Emori sugeriu que os dois voltassem para procurar por seu irmão, Otan, que havia permanecido com Jaha. Murphy respondeu que não estava pronto para voltar a Arkadia. E não sabia quando iria estar pronto.
*~*
A rotina de Leigh estava bastante intensa nos últimos tempos. Através de um mensageiro, ela soube que havia sido convocada por Lexa para retornar a Polis o mais rápido possível. Aparentemente, a Wanheda havia sido encontrada.
Ao mesmo tempo, ela se sentia em conflito por estar tão distante de seus amigos e sua família. Ela não lembrava mais qual tinha sido a última vez que conversara com Lincoln. Não poderia ir embora de novo sem falar com ele.
— Finalmente te encontrei, irmão. — Leigh disse, no idioma terrestre, apoiada na porta do novo quarto dele.
Lincoln havia sido promovido a uma posição de guarda de Arkadia, para muito desgosto de Octavia. Leigh não havia feito muita objeção, pois ela estava com muitas outras coisas na cabeça.
— Eu que deveria dizer isso, você está tão sumida que nem sei mais se está viva. — Lincoln respondeu, no idioma terrestre, com um tom de preocupação.
Ele se aproximou de sua irmã menor e a abraçou. É verdade que os dois não andavam tão unidos ultimamente. Cada um estava ocupado, cuidando de sua própria vida. E, sinceramente, Lincoln notou o amadurecimento de Leigh, nos últimos meses. Ela havia se transformado em uma garota forte, que não precisava de proteção. Claro que ele sentia falta da menina que manipulava ervas na caverna com ele.
— Preciso retornar a Polis, a Heda chamou por mim. — Leigh anunciou, deixando Lincoln apreensivo.
Sim, ele sabia sobre o treinamento de Leigh por Lexa. Entretanto, não tinha certeza se isso era uma boa ideia, devido aos acontecimentos em Mount Weather. Ele tinha medo que a Comandante pudesse influenciar sua irmãzinha a um comportamento totalmente diferente do que ela era acostumada. Mal ele sabia que ela já estava se comportando como se fosse outra pessoa há muito tempo...
— Abby mencionou que você não anda muito pela enfermaria ultimamente. — Lincoln retrucou, procurando um jeito de fazer com que ela não deixasse Arkadia. — Como vai completar seu treinamento de medicina se você não frequenta as aulas?
— Ela só está me ensinando a cortar e costurar corpos! — Leigh se frustrou, cruzando os braços. — Nada que as coisas que você me ensinou não consigam dar conta.
— Não diga isso, foi essa habilidade de cortar e costurar corpos que fez com que ela conseguisse salvar a vida de Nyko ontem. — Lincoln retrucou.
— Nyko se feriu? — Leigh perguntou, preocupada.
Ela estava realmente por fora de tudo que estava acontecendo por ali. Desde que a ordem de execução tinha suas exceções para ela, ela não fazia muita questão de permanecer dentro de Arkadia o tempo todo.
Então, Lincoln contou sobre o ferimento de Nyko, e sobre Abby precisar levá-lo para ser tratado em Mount Weather. Leigh agradeceu por não estar junto. Ela odiava a montanha com todas as forças, e não sentia nenhuma vontade de pisar lá outra vez.
Assim que eles se despediram, Leigh procurou Juliet e Raven para se despedir delas também. Ela não conseguiu encontrar Octavia. Provavelmente, a Blake deveria estar lá fora, também cuidando de seus próprios assuntos.
— Você poderia vir comigo, Jules... — Leigh tentou convencer a irmã. — Tenho certeza que Lexa deixaria você ficar em Polis.
— Você endoidou? Eu sou uma guarda de Arkadia, não posso deixar meu posto assim! — Juliet rebateu. — Além do mais, eu não tenho certeza se ela quer me ver. Nem respondeu a minha última carta...
— Isso não é verdade. Ela disse que você é bem-vinda para visitar Polis se viesse comigo. — Leigh respondeu, dando uma de “cupido” para sua irmã outra vez. — Vamos, tenho certeza de que se você falar com Abby, ela irá deixar você se afastar de seu posto por alguns dias.
— Essa é novidade agora... minha irmã adolescente querendo arrumar uma namorada para mim! — Juliet brincou, posicionando seu rifle em suas costas.
Leigh não sabia se Abby negou o pedido ou se Juliet nem havia falado com ela. A questão era que ela partiu sozinha para Polis. Teve que cavalgar muito rápido para chegar lá até o fim do dia.
Ao chegar e se encontrar com a Comandante, ela soube o que já especulava. Clarke havia sido encontrada sim. E justamente Roan foi quem a entregou para a Comandante. Mas o que Leigh não esperava era que Lexa tivesse trancado Roan na prisão após isso.
— Espere um pouco, ele foi preso?! — Leigh perguntou, apreensiva, na sala do trono.
— Foi sim. Não posso me dar ao luxo de confiar nele só por ter me trazido a Wanheda. — Lexa respondeu, plena como sempre.
— E por que você está questionando esta autoridade da Heda? — Indra questionou. Já fazia algum tempo que a guerreira estava desconfiando da atitude da pupila da Comandante.
— Não estou questionando. Eu compreendo perfeitamente o porquê disto. — Leigh respondeu, tentando ser o mais pacífica possível para não levantar suspeitas. — Então... a Wanheda também está presa?
— Não nas masmorras, mas sim. Estou dando um tempo para ela se acalmar. A recepção não foi muito boa quando ela chegou aqui... — Lexa respondeu, lembrando da singela cuspida no rosto que Clarke tinha lhe dado assim que o saco foi removido de sua cabeça.
— Se importa se eu for vê-la? — Leigh perguntou. — Talvez eu consiga deixá-la mais disposta a conversar se eu falar com ela primeiro.
O argumento dela fazia sentido. Afinal, Leigh conhecia Clarke há mais tempo que Lexa, e era uma figura familiar que com certeza, traria algum conforto.
— Tudo bem, pode ir. Ela está no último quarto do corredor, dois andares abaixo. — Lexa respondeu, liberando sua aprendiz da sala do trono. — Convença-a de que eu não tenho intenção de fazer mal.
Leigh assentiu e deixou a sala do trono. Assim que ela saiu, deu de cara com o fleimkepa da Comandante, Titus. Ele era responsável por guiar os comandantes e passar seu espírito quando chega a hora. Ele já havia guiado alguns comandantes antes de Lexa. Mesmo assim, Leigh nunca tinha conseguido ficar à vontade na presença dele. Havia algo de obtuso nele. Entretanto, nunca dissera uma palavra contra ele para ninguém, mantendo seus pensamentos para si mesma.
Ela seguiu seu caminho para o quarto onde Clarke estava sendo mantida. Haviam guardas na porta, naturalmente. Assim que eles a liberaram, ela entrou no quarto, encontrando Clarke olhando pela janela.
— Então é mesmo você. — Leigh disse, quebrando o silêncio, fazendo Clarke se virar quase que automaticamente.
— Leigh? O que está fazendo aqui? Era para você estar com Bellamy e os outros, em casa... — Clarke respondeu, parecendo surpresa.
— Aquele lugar não é mais minha casa, Clarke... — Leigh respondeu, com um tom de desapontamento, pondo os braços ao redor de seu corpo, como sinal de defesa. — Mas estou aqui para falar de você. É sério, você precisa se entender com a Heda, antes que uma coisa ruim aconteça.
Ela não tinha ideia do que estava falando. Afinal, não dava a mínima importância para qualquer desavença que Lexa pudesse ter com Clarke agora. Estava mais preocupada com seus próprios problemas. Entretanto, precisava manter a pose de quem sabia o que estava fazendo.
— Você já se esqueceu do que ela fez conosco naquela montanha? — Clarke perguntou, não acreditando no que estava ouvindo. — Caso tenha se esquecido, ela nos abandonou, prendeu seu irmão à força e foi responsável por todas as mortes que ocorreram lá dentro!
Não que eu me importe com aquele povo da montanha... Leigh pensou, sozinha. Ela realmente não estava com muita disposição para lidar com Clarke nesse momento. Estava mais interessada em sair desse quarto e ir direto até Roan, nas masmorras.
— Ela teve os motivos dela, Clarke. Sinceramente, se ela e o exército dos clãs estivessem lá, haveria muito mais mortes. E já morreu gente demais naquele dia... — Leigh respondeu, em um tom amargo.
A loira mais nova detestava se lembrar de Mount Weather e de tudo o que passou lá dentro. Era uma das coisas que mais assombravam seus sonhos. Uma parte dela sempre estaria quebrada, após tudo o que aconteceu dentro daquela maldita montanha.
— A Heda está à disposição, quando você se sentir pronta para falar. E vá por mim, conseguir colocar skaikru na coalizão é a melhor coisa que poderia acontecer para vocês agora. — Leigh respondeu, se preparando para sair. Entretanto, antes de ela colocar os pés para fora do quarto, Clarke a impediu.
— Leigh... você está diferente... parece mais madura, mais racional... você não era assim. — Clarke apontou, aérea, estranhando o comportamento da terrestre.
— Pois é, Clarke... não dá para esperar que uma menina fraca e inocente continue sendo assim depois que ela passa por um turbilhão de merda... — O palavrão saído da boca de uma garota que, até meses atrás, era tão inofensiva quando uma borboleta, deixou Clarke boquiaberta e totalmente pasma.
E não era nenhuma mentira. A vida de Leigh nunca foi fácil, porém, desde a chegada dos skaikru, tudo só foi de mal a pior. A mente dela sempre voltava a Murphy, e no dia em que o conheceu. Ela pensava constantemente que teria sofrido muito menos se o tivesse deixado agonizando sozinho naquela jaula.
Só que não era isso o que ela realmente teria feito, de qualquer maneira...
Após deixar Clarke sozinha no quarto, Leigh pegou o elevador para descer até o andar das masmorras. Era estranho estar dentro de uma caixinha que andava para baixo e para cima. Mesmo que fosse com a ajuda dos operadores da roda. Ela ainda precisou descer mais alguns lances de escada até dar na prisão.
Sendo a segunda de Lexa, ela tinha alguns privilégios em Polis. Como, por exemplo, o de pedir privacidade aos guardas da masmorra, fazendo-os deixar o recinto por alguns minutos. Roan, que estava sentado no chão, acabou levantando e indo até a grade.
— Eu vim assim que eu soube. O que houve? Lexa te prendeu só porque você é Azgeda? — Leigh perguntou, preocupada ao ver seu amante naquelas condições.
— Não exatamente... — O tom da voz de Roan era de quem tinha culpa. — Eu menti para você, Trikru.
Ele se mantinha olhando para baixo, sem encará-la diretamente nos olhos. Esse era o momento em que ele achava que estava prestes a perdê-la. Que a única pessoa que o fez feliz desde que foi exilado iria começar a odiá-lo por ter omitido um enorme detalhe sobre si mesmo.
— Mentiu para mim... sobre o quê, exatamente? — Leigh perguntou, assumindo um tom mais sério.
— Eu não sou só um caçador de recompensas exilado. Eu sou o príncipe de Azgeda. — Roan respondeu, sem enrolar demais o assunto. – Não disse nada antes porque não tinha importância. Mas esse é o motivo pelo qual Lexa me prendeu. Ela quer me usar para fazer diplomacia com minha mãe.
Leigh estava em choque. Era como se seu único porto seguro, após todo aquele período ruim, tivesse sido arrancado de si drasticamente. Todos aqueles dias no esconderijo de Roan, aquela relação conturbada que acabou evoluindo para uma paixão... tudo pareceu ser apagado com uma simples frase.
O que mudaria entre eles com Roan sendo o príncipe da Nação do Gelo? Significava que ela era só um brinquedo? Que não era digna o suficiente para que ele sequer pensasse em um futuro com ela, governando ao seu lado? Ela estava sentindo seu estômago embrulhar.
— Foi tudo mentira? Nós dois... era só um passatempo? — Leigh perguntou, também evitando olhá-lo nos olhos. Ela não sabia se aguentaria outra decepção, assim tão rápido.
— Essa é a única parte que nunca foi mentira. O que eu sinto por você é real. — Roan respondeu, tomando coragem para olhar para ela. Ele estava se sentindo péssimo por fazê-la passar por esse tipo de situação.
— Mas não tem futuro, não é? Nunca teve... você sempre dizia que precisava encontrar a Wanheda para ser aceito de volta entre seu povo. Seria difícil, mas eu daria um jeito. Mas príncipe... não dá... eles nunca admitiriam que você se relacionasse com uma Trikru. — Leigh respondeu, sabendo da dolorida realidade.
Roan permaneceu em silêncio por alguns momentos. Porque ele também sabia que isso era a verdade. O Clã das Árvores e a Nação do Gelo sempre foram inimigos. Mas ele não deixaria que a antiga rixa entre os clãs atrapalhasse seu relacionamento, seu primeiro momento de felicidade em anos.
— Não importa o que eles achem certo ou não. Eu sou o herdeiro do trono por direito. Quando eu for o rei... eu nunca vou admitir que alguém diga um único xingamento que seja contra nós. — Roan respondeu, determinado.
Leigh, entretanto, não parecia aliviada com aquela resposta. Pelo contrário, só parecia mais angustiada. Era um futuro onde ela teria amor e um parceiro, sim. Mesmo assim, um cenário onde um clã inteiro a olhava com desprezo por seu lugar de origem não lhe parecia tão agradável assim. E se ela fosse morar no território Azgeda com Roan? Ela não sabia se conseguiria ficar tão longe das pessoas que eram importantes para si.
Ela não imaginava um futuro onde nunca mais veria Lincoln, Octavia, Juliet ou Raven. Ela sentiria falta até de Lexa, que se mostrou uma sábia mentora. E também tinha... não. Ela não se torturaria pensando nessa possibilidade. Não com ele.
— Eu não sei, Roan. — Leigh respondeu, cabisbaixa, ainda sem olhar para ele. — Preciso de um tempo para pensar.
Leigh fez menção de sair por onde entrou. Porém, antes de subir as escadas, ela teve forças para dar um último recado.
— Vou falar com Lexa. Vou pedir para ela tirá-lo da prisão. Não é um lugar para um príncipe, afinal... — Foram as últimas palavras dela, carregadas com um pingo de sarcasmo, antes de subir as escadas.
Ela teria que pensar muito sobre o que faria. Não que fosse ter muito tempo livre para isso, já que, se Clarke aceitasse a proposta de Lexa, a cerimônia de iniciação de skaikru como o 13° clã seria realizada logo.
*~*
O que acabou acontecendo, após Clarke finalmente ser convencida a se ajoelhar perante a Comandante, na cerimônia que tornaria o povo do céu parte da coalizão. Lexa mantinha Leigh ao seu lado durante quase todos os momentos. O mesmo era com Indra e Titus. Os embaixadores dos clãs achavam a situação um absurdo. Podiam entender a presença do fleimkepa e da líder do exército, mas a segunda da Comandante não tinha nada o que fazer naquelas reuniões importantes.
Aquilo irritava tanto a loira quanto a Comandante. Lexa, cansada de ter sua autoridade questionada, chegou até a atirar um dos embaixadores direto do topo da torre, até o chão. Leigh nem se surpreendia mais com os métodos utilizados em Polis. Seu treinamento todo já era baseado em não ter piedade do inimigo, de qualquer maneira.
No dia da cerimônia, Roan finalmente foi solto de sua prisão, para comparecer representando Azgeda, já que o embaixador havia sido morto anteriormente. Aquilo era a prova de que ele seria usado como um peão de xadrez até o último momento.
Leigh estava voltando de seu treinamento diário de arco e flecha, quando o encontrou nas escadarias de base da torre, conversando com Clarke. Ele estava totalmente diferente do que ela estava acostumada a ver. Vivendo como um caçador de recompensas exilado na floresta, Roan não era do tipo que se preocupava muito com aparência. Agora, ele estava limpo e com roupas novas, como um príncipe devia se parecer.
Ela fez menção de passar pelos dois sem nem os cumprimentar. Porém, ela não contava com a sinceridade de Roan.
— E onde você pensa que vai com tanta pressa, Trikru? — Roan a chamou, fazendo-a parar de andar.
— Vou subir, a Heda deve estar precisando de mim. — Leigh respondeu, tentando fazer parecer como se os dois não se conhecessem.
— O que quer que você tenha dito para ela funcionou. Me tiraram das masmorras e ainda estou com a missão de representar Azgeda na cerimônia de inicialização do 13° Clã. — Roan respondeu, apontando para Clarke.
— Eu não tive nada a ver com essa parte, eu só pedi para te soltarem. Não tenho culpa se o embaixador da Nação do Gelo estava sendo o maior pé no saco e Lexa deu a ele o que ele merecia. — Leigh respondeu, com a voz carregada de sarcasmo.
Clarke arqueou as sobrancelhas, estranhando a situação. Era como se Leigh tivesse morrido e sido substituída. Quem é essa nova garota que fala palavrões e sempre solta um sarcasmo venenoso? Era quase como se ela tivesse se transformado em uma versão feminina de Murphy.
Tirando isso, havia algo de ainda mais estranho no recinto. Roan e Leigh claramente estavam escondendo algo. Clarke o conhecia há apenas alguns dias, porém, ela poderia dizer que a relação do homem com a mais nova era um pouco mais complexa que apenas de conhecidos.
— Eu não sabia que se conheciam. — Clarke interrompeu a pequena troca de farpas entre os dois.
— É... eu costumava conhecer... — Leigh respondeu, com um tom de decepção, entrando na torre logo em seguida.
— “Conhecer” não é bem a palavra que eu usaria para ela. — Roan continuou, se voltando para Clarke. — Nós temos uma história, eu e essa garota. Ela estava lá quando eu era um exilado, perambulando pela floresta. Também estava lá enquanto eu planejava capturar você para levá-la até a Heda. Ela estava lá quando...
— Quando você acabou se apaixonando por ela. — Clarke completou a frase no lugar do príncipe. — Eu não preciso saber da história toda. Mas a última vez que eu vi a Leigh, antes daqui, ela havia acabado de sair de uma relação complicada. Pelo que eu estou vendo, ela ainda não se recuperou totalmente.
— Ela ainda é jovem... vai se livrar desse peso. — Roan respondeu, voltando seu olhar para a paisagem de Polis. — Ela não sabia que eu era o príncipe de Azgeda.
— Isso explica muita coisa. — Clarke chamou a atenção de Roan, olhando diretamente para ele. — Não machuque a Leigh. Como você disse, ela é jovem. Não precisa passar por duas decepções amorosas seguidas, assim tão próximas uma da outra.
Clarke se pegou pensando em Bellamy, e em como foi doloroso deixá-lo. Tudo o que ela queria era poder vê-lo outra vez. Mas não sabia se as coisas poderiam voltar ao normal algum dia. Não depois de tudo o que eles fizeram juntos. Puxar a alavanca de Mount Weather foi o estopim.
— Me parece algo de experiência própria. É isso, Wanheda? — Roan a chamou pelo apelido que ela não sabia se abraçava ou abominava com todas as forças.
— Acho que todos já passaram por isso em algum momento. — Clarke respondeu, ríspida, também adentrando a torre, deixando o príncipe sozinho.
*~*
À medida em que o dia passava, mais representantes dos clãs foram chegando para a cerimônia. Polis estava começando a ficar mais cheia que o normal. Era trabalho de Leigh, como segunda, preparar o traje da Comandante e o seu próprio. Como era um dia de celebração, nenhuma das duas usaria suas roupas normais do dia-a-dia. Mas sim, belos vestidos cerimoniais escolhidos especialmente para aquele dia. Leigh também tomou a liberdade de preparar o vestido de Clarke.
O fim da tarde se aproximava. Leigh estava em seu quarto, pegando suas coisas, prestes a ir até o quarto de Lexa para arrumá-la, quando batidas na porta a interromperam. Ela não demorou a abrir. Ela não disse uma palavra quando o encontrou, com um braço apoiado em sua porta. O olhar decepcionado dela já dizia tudo.
— Isso não pode durar para sempre. — A voz grave e rouca de Roan a pegou desprevenida.
— Eu ainda não decidi o que fazer. — Leigh respondeu, caminhando para dentro do quarto, dando espaço para que ele entrasse. — E a rainha? Ela não vai mandar cortar minha cabeça quando descobrir? Assim como ela mandou cortarem a cabeça da namorada da Heda?
Roan entrou no quarto e fechou a porta. As luzes do pôr do sol invadiam o quarto, dando um aspecto intimista e acolhedor. Leigh gostava muito mais do seu quarto em Polis do que de seu quarto em Arkadia. As coisas não eram tão modernas ali, mas o ambiente a fazia se sentir mais em casa do que ela já se sentiu no território skaikru.
— Deixe que eu me entendo com minha mãe. Ela não ousaria fazer nada com a segunda da Comandante aqui em Polis. — Roan respondeu, com um pouco de receio.
Sua mãe, a rainha Nia, era conhecida por ser uma das governantes mais cruéis que a Nação do Gelo já teve. Ela não tinha piedade nenhuma daqueles considerados inimigos. O que era, praticamente, todos os outros clãs. Ela também constantemente desrespeitava a coalizão de Lexa, se recusando a lutar as guerras em que todos os clãs precisavam lutar unidos.
Roan temia pela segurança de Leigh sim. Sabendo da mãe que tinha, a relação dos dois com ela por perto não seria nada fácil. Mesmo assim, depois que ele se tornasse rei, não haveria nada que os impediria de ficarem juntos.
— Você sabe... todas aquelas coisas que eu te contei... eu não quero me machucar daquele jeito outra vez, Roan. — Leigh respondeu, após alguns instantes em silêncio. — Eu sei que fui eu que me joguei em você, praticamente. Mas a situação era diferente...
Doía demais pensar que ela podia passar por outra situação, como a que passou com John. Era tudo o que Roan não queria. Ele se aproximou dela, colocando uma mão em seu ombro, de maneira suave.
— Para mim, nada mudou. Eu ainda a quero, tanto agora como príncipe, quanto antes, como um exilado. — Roan respondeu, fazendo-a se arrepiar com a proximidade entre os dois.
Ela o queria também. Mais que qualquer coisa, ela queria ser puxada para fora daquele abismo profundo de solidão. Entretanto, não queria ser puxada para outra rede de mentiras, que iriam acabar machucando-a no final. Outra vez, ela viu o rosto de John em sua mente. As últimas palavras que ele disse para ela ainda eram tão nítidas. E as últimas dela para ele...
“Eu vou embora e você nunca mais vai precisar me ver.”
E acabou por nunca mais vê-lo outra vez. Ela nem sabia se ele ainda estava vivo, se estivesse, se pensava nela com a mesma frequência que ela pensava nele. Leigh se sentia errada pensando em John desse jeito, no meio de uma conversa com Roan. Ela precisava esquecer tudo aquilo. Precisava enterrar seu primeiro amor de vez.
— Você me quer? — Leigh perguntou, se virando para olhá-lo nos olhos. Roan assentiu. — Então venha e me pegue.
Roan não a esperou dizer mais nada. Aquela súplica já foi mais que o suficiente para fazer com que ele avançasse e a beijasse de maneira voraz. O beijo era erótico, sensual, nada delicado. O contato foi quebrado apenas para que ambos começassem a arrancar as roupas um do outro.
Leigh sentia falta do contato do Azgeda. Ele a jogou na cama, subindo por cima de seu corpo logo em seguida. O corpo dela estava mudando, muito por conta do treinamento. Ela costumava ter membros finos quando era apenas uma curandeira. Agora, após meses treinando, suas pernas e braços estavam desenvolvendo músculos. E não eram as únicas partes do corpo dela que estavam maiores...
Ela ainda era uma adolescente, então, seu corpo ainda estava em desenvolvimento. Com o incentivo dos exercícios de batalha, ela ganhou um leve aumento na região dos seios e da bunda. Se antes, ela era considerada uma garota linda e delicada, agora estava mais para uma grande gostosa.
O cabelo mais curto também dava um grande ar de amadurecimento. Ela já nada lembrava a garota que um dia foi. O que era ótimo. Ela já estava cansada de sempre parecer alguém inocente e indefesa.
Leigh enterrou os dedos nos cabelos de Roan quando o sentiu trilhar beijos por sua tatuagem do quadril. Outra vez, ela o estava deixando tirar todas as suas dores internas. Ela se deixou levar pelas sensações que ele proporcionava.
Roan era um homem extremamente lindo. Ele tinha o dobro do tamanho dela, mas estava longe de tratá-la com qualquer tipo de brutalidade. Pelo contrário, ele conhecia mil maneiras diferentes de fazê-la sentir prazer. Ela se sentia completa com ele, durante esses momentos.
O dia terminava, à medida em que eles se perdiam, um no outro. Leigh podia olhar para o lado e ver a luz do sol diminuir cada vez mais, dando lugar às primeiras estrelas da noite. Porém, ela preferiu se manter com os olhos fechados, concentrada no que estava sentindo.
Ela chamava pelo nome dele, perto dos momentos finais, enquanto o mantinha perto, com as mãos envolvendo as costas do mais velho. Ele capturou os lábios dela uma última vez, antes de soltá-la para chegar ao ápice. Ela puxou o ar, respirando fundo, tentando recuperar seus sentidos.
*~*
Ainda deitados na cama da garota, despidos, Roan acariciava as costas de Leigh, que estava deitada em seu tórax. Ela ainda estava processando toda a endorfina liberada pelo sexo, enquanto sorria como uma adolescente apaixonada.
— Estamos atrasados... eu preciso sair daqui urgente. Lexa vai me matar se eu não for arrumá-la. — A voz aérea de Leigh murmurou, deixando bem claro que se pudesse, ela não sairia daquela cama nem morta.
— Heda tem um exército inteiro para ajudá-la, ela não precisa que seja você a ir até lá. — Roan respondeu, com a mesma voz sonolenta.
— Precisa sim. Ela vai estranhar que a própria segunda não esteja na cola dela o tempo todo durante a cerimônia. — Leigh respondeu, se levantando e começando a vestir as roupas. — Ainda preciso entregar a roupa da Clarke.
— É... a situação de Azgeda por aqui também não está nos melhores dias. Não vai ser nada bom se eu não estiver lá. — Roan concordou, frustrado, também se levantando.
Leigh, que estava em uma fase mais sapeca do que nunca, não resistiu em virar para trás e observar o príncipe vestindo suas roupas. Por mais que o novo penteado fosse estiloso, ela o achava particularmente irresistível com o cabelo solto. Lhe dava um ar totalmente diferente.
— Eu não me incomodaria de ter alguém para me fazer companhia. Indra e Titus ainda me olham meio torto... e a Heda vai estar ocupada demais com a Clarke se ajoelhando para ela. — Leigh respondeu, em um tom convidativo.
Ela olhou para os três vestidos pendurados na parede, um ao lado do outro, escolhidos justamente para a ocasião. O de Lexa era longo e preto, com uma faixa comprida na cintura. O de Clarke era um pouco mais curto, em tons de dourado e bege. O seu próprio era de um rosa envelhecido, com alguns detalhes de pelúcias escuras, do mesmo comprimento do vestido de Clarke.
— Se eu a ver usando qualquer um desses aí... minha vontade vai ser de tirar o mais rápido possível. — Roan comentou, quando a viu olhar para os vestidos.
— Esse é o meu. — Leigh respondeu, apontando para o rosa. — E preciso entregar o das duas logo. Mas depois disso tudo acabar, eu vou pensar se deixo você tirar o meu vestido ou não.
Ela o encarou com um olhar malicioso, apenas para sentir seus lábios se chocarem com os dele outra vez. Ele acabou a deixando sozinha, para que ela fizesse suas tarefas. Logo, ela tratou de entregar o vestido de Clarke e ir direto para o quarto de Lexa em seguida.
*~*
Leigh não só ajudou Lexa a se vestir, como também a maquiou, com sua pintura facial típica, e trançou seu cabelo, no estilo em que sempre usava. A Comandante estava quase pronta. Leigh estava terminando de fazer as últimas tranças, quando Lexa chamou sua atenção.
— Achei que você já estaria aqui quando eu terminasse de orientar a classe de natblidas. — Lexa comentou, estranhando ter que esperar até que sua segunda aparecesse.
— Me desculpe, Heda. Eu acabei dormindo mais que o necessário. — Leigh respondeu, arrumando uma desculpa rápida. — De qualquer jeito, skaikru é que estão atrasados. Além da Clarke, eu não vi ninguém por aqui.
— Eles chegaram há pouco tempo. Um deles irá receber o selo do clã no lugar da Clarke. Provavelmente Kane, ou Abby. — Lexa respondeu. — Eu a vi também...
Pelo tom de voz de Lexa, ela com certeza estava falando de Juliet. As duas não estavam nos melhores termos no momento. Leigh já sabia dessa novela há muito tempo, afinal, era ela quem estava tentando juntar sua irmã com a Comandante.
— Vocês duas precisam conversar sozinhas. Ela sente sua falta também... — Leigh respondeu, usando um pequeno elástico para prender as tranças de Lexa. — Se eu pudesse escolher, ela seria uma das quatro pessoas que eu tiraria de Arkadia e traria para morar comigo.
Sua família estava vivendo no território skaikru. Lexa sabia que era doloroso para sua pupila ficar afastada de seus entes queridos, mas nada podia impedir o treinamento da mais nova. Além dos nightbloods, a loira era uma das pessoas pelas quais Lexa mais se afeiçoava. Ela se sentia responsável por Leigh, e faria de tudo para garantir que sua segunda se tornasse uma mulher forte e independente.
Para sua surpresa, assim que terminou de arrumá-la, Lexa fez questão de que ela mesma ajudasse Leigh a se arrumar. Também a ajudou a se vestir, a maquiou com a pintura facial e decorou o cabelo curto da garota com pequenas tranças, que seguiam em um formato de coroa.
— Agora nós duas estamos apresentáveis para isso. — Lexa disse, assim que viu sua segunda totalmente pronta.
*~*
A cerimônia acabou sendo mais rápida que o esperado. Isso porque, acabou sendo interrompida pela metade. Tudo estava ocorrendo normalmente. Lexa estava em pé, na frente de seu trono. Ao seu lado estavam Leigh e Indra, enquanto Titus permanecia atrás da Comandante, mais afastado. Roan estava entre os embaixadores, sem conseguir tirar os olhos da garota Trikru.
Clarke entrou na sala do trono, totalmente deslumbrante, com o vestido da cerimônia, maquiada e com um penteado típico terrestre. O olhar de Lexa, que perambulava em Juliet, agora se mantinha focado na Wanheda. O hino terrestre, performado por uma cantora de voz magnífica, ecoava pela sala. Leigh pensou que poderia ser ela a cantar a música... se mais alguém além de Raven, e poucos do povo do céu, soubesse que ela sabia cantar.
No momento em que Clarke se ajoelhou, todos os demais também se ajoelharam. Após Lexa iniciar skaikru como o 13° Clã, Kane se ofereceu para carregar o símbolo da coalizão, sendo marcado em seu braço com ferro quente.
Entretanto, a cerimônia acabou sendo interrompida por Bellamy, Octavia, um homem estranho que Leigh nunca tinha visto, e uma terrestre da Nação do Gelo. Eles alegavam que a própria Nação do Gelo estava planejando um ataque a skaikru durante a cerimônia.
Tudo acabou dando terrivelmente errado. Havia sim um ataque planejado. Mas não era em Polis. A tal mulher Azgeda, que era quem havia compartilhado aquela informação com Bellamy e Octavia, acabou fugindo sem dar explicações. Naquela mesma noite, houve uma explosão em Mount Weather, matando dezenas de integrantes do povo do céu que estavam lá. Leigh sentiu seu coração apertar quando ouviu Bellamy chamar por Raven no rádio.
— A Raven está lá? O que aconteceu? Ela está bem? — Leigh perguntou, se aproximando dos Blake.
— Chame de novo, Bell! — Octavia pediu, igualmente preocupada.
E assim aconteceu. Porém, desta vez, Raven respondeu, mostrando estar viva. Infelizmente, ela era uma das únicas que haviam ficado vivas. O resto da noite foi um total desastre. Bellamy finalmente reencontrou Clarke, e justo naquelas circunstâncias. Ele se ressentiu por ela se recusar a voltar para Arkadia com ele, deixando bem claro que o relacionamento dos dois havia morrido junto com Mount Weather.
E não foi o único romance que não resistiu à distância. Leigh viu, de relance, sua irmã Juliet falando com Lexa. A guarda skaikru deixou o recinto, decepcionada.
— Jules, espere... — Leigh tentou chamar por sua irmã. Entretanto, aquele não era o melhor momento para conversar.
— Eu me enganei. Ela não é quem eu pensei ser... — Juliet respondeu, sem forças para manter a cabeça erguida. — Me escute. Eu sei que não faz tanto tempo que eu descobri que eu tenho uma irmã. Mas agora que eu tenho... que eu tenho uma família de novo... eu não quero perder isso. Volte comigo para Arkadia, por favor.
Aquele pedido atingiu Leigh como um estilhaço. Milhões de pedaços ao mesmo tempo. Ela se sentiu péssima. Com peso na consciência, abraçou sua irmã mais velha, como se fosse uma despedida.
— Eu não posso... não me sinto mais em casa em Arkadia, Jules... — Leigh respondeu, se segurando para não chorar. — Aquele lugar me lembra muitas coisas ruins... eu olho para a cerca, as paredes, o quarto... e vejo o dia em que eu escapei da montanha. Vejo o dia em que Finn morreu. O dia em que matamos uma população inteira com radiação, para que eles não nos matassem. E também vejo o dia em que o John me deixou...
O fantasma de Murphy ainda a assombrava muito. Ele foi embora e levou um enorme pedaço do coração dela junto com ele. Ela só não tinha forças para permanecer no local onde teve tantos momentos felizes com ele, sabendo que isso nunca mais voltaria a acontecer.
— Mas não significa que eu vou sumir da sua vida. Eu ainda posso visitar. Há pessoas em Arkadia que são muito importantes para mim, e você é uma delas. — Leigh respondeu, se aproximando para abraçá-la. — Eu amo você, minha irmã.
Juliet aceitou o gesto de afeto, abraçando a mais nova de volta. Entretanto, isso não iria aliviar sua dor de perder tudo outra vez. No mesmo dia, perdeu sua irmã e a mulher por quem estava apaixonada. Se a Stryder mais velha tivesse a opção de eliminar essa dor instantaneamente, de qualquer jeito possível, seria a primeira coisa que ela faria.
— Então, eu só quero que você seja feliz. Seja qual for o caminho que você escolha. — Juliet respondeu, a soltando. — Mas as portas de casa sempre vão estar abertas, entendeu?
Leigh assentiu, secando seus olhos, impedindo que as lágrimas caíssem. Ela observou enquanto a comitiva skaikru partia de volta para casa, já perto da madrugada. Ela também notou o desejo de Octavia em permanecer no local. Ela também não se sentia em casa em Arkadia. Mesmo assim, ela acabou voltando com os outros.
Ao olhar para dentro da torre, viu Roan saindo do elevador, vindo em sua direção. Leigh respirou fundo, tentando colocar sua cabeça no lugar. Algumas noites, antes de dormir, ela tinha o hábito de anotar mentalmente onde e como estavam as pessoas que lhe eram importantes.
Lincoln estava em Arkadia. Octavia acabou de deixar Polis. Ambos estão bem. Raven estava em Mount Weather, e acabou de sobreviver a uma explosão. Ela com certeza não está bem.
E John... estava em algum lugar desconhecido... talvez vivo, talvez morto.
Leigh olhou para cima, direto para a estrela mais brilhante. Kara, a estrela do norte. A mesma que lhe emprestou o nome durante tanto tempo. Ela fechou os olhos, desejando que algum dia, pudesse brilhar tanto quanto aquela estrela outra vez.
Continua
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